IX

Mancebo, deixa o teu rival; só cuida

Em combater da bella Tyrse o peito.

Do theatro se corre o largo panno,

Aberta a scena principia o drama.

Temerario, não deves ver tranquillo

Da peça theatral o sabio jogo:

É Cupido rapaz, não tem socego,

Não perde a occasião o que amor busca;

Para os olhos de Tyrse te encaminha,

N'elles a scena figurada nota;

Se por acaso lagrimas derrama

Tu de pranto tambem as faces banha;

Finge ao menos secar com alvo lenço

O terno pranto, que verter não podes;

Se irritada parece, toma fogo,

Se com assombro pasma, tu te assombra.

X

Mas que novo segredo Amor me inspira!

Que sabias regras, que preceitos novos!

Filho de Venus, e de Marte filho,

De teus altos mysterios serei vate!

Forma novos oraculos em Cypro;

Por elles tenha esquecimento Delphos.

Namorado mancebo, Amor te fala,

Ouve com filial respeito as vozes.

Posto que tu na scena Doris ouças,

Altos prodigios, maravilhas novas,

A voz soltando bella, e sonorosa

Com que suspenda sybillantes ventos,

Não pasmes, nunca chores, ser não queiras

Réo desditoso de tão negro crime;

Cheia Tyrse de inveja, não perdoa,

Mais depressa seria o mar estavel.

A nação feminil sustenta sempre

Entre si crua sanguinosa guerra:

Inda no berço brandamente dorme,

Inda c'o leite maternal se nutre,

Já da cova sombria o negro monstro

Que come verdes enroscadas serpes,

Salta com Venenosa lingua, e lambe

Seu terno peito, seu formoso rosto;

Na bocca lhe vomita cru veneno,

Que para o brando coração lhe corre,

E nas vêas subtis introduzido,

C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa;

Não só familias com familias rompem

A paz benigna, que na terra expira;

Entre as mesmas irmãs se accende a guerra,

Por isso é hoje negro seixo Aglaura.

Até nos céos o vago monstro gira,

Minerva, e Juno fez rivaes de Venus;

Não caíram troyanos altos muros,

Só porque Paris foi roubar Helena!

Mil adulteros tinham sem castigo

Furtado esposas, maculado leitos:

No pomo da Discordia veiu envolta

A faisca fatal, que abrasou Troya.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 78 / 208 题