Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
por aquella tarde de inverno!
Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo
ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes.
No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da
familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os
ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a
erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes
ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se
um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se
podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos
campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli,
a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro,
agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.
A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a
tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em
quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas
sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido
melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente
se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente
uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul
recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado.
As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o
aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais
carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda,
apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.
Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme,
cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em
quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.
Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.
Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a
infeliz creança.
Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando
a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos;
muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova
fórma de enterro lhes suscitava.
As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do
Canada, nem por isso faltavam.
Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão
e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam
assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam
enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta,
aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de
peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus
threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do
inferno.
Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos
proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára
adoentada.
Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á
campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma
d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as
outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham
por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas
para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa
religiosa.
Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres
ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que,
saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda
devia ser sepultada.
O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
que as nuvens não toldavam.
A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
intensidade.
A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina,
recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto
venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era
o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os
preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes
energicamente os combatia e censurava.
Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de
creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a
formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica
alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça,
cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa
inclinação que lhe era habitual em vida.
As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e
Christina, entre as mais gentis da aldeia.
Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
formoso.
A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com
o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo
melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no
cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de
inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que
morrem.
Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já
occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos
em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres
abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a
borda da sepultura.
O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que
tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se
approximasse em tropel.
As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa
por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas,
tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio,
gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a
distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do
dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a
cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar.
Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já
antevista.
Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto
feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e
todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre
sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que
no caminho se incorporam as aguas dos algares.
Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o
_factotum_ Cosme.
Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando
em confusão:
--Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
--Esperem! Isso não vae assim!
--Não façam a festa sem nós!
--Fóra com os do cemiterio!
--Morram os pedreiros-livres!
--Para a igreja!
--Enterre-se na igreja!
--Olá, sr. abbade, espere por nós!
--Aqui vamos para abençoar a cova!
E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos,
abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o
esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e
chorosas.
A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade
para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o
cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que
já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo
de piedade.
O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
--Que querem d'aqui?--perguntou elle, fitando-os--com que fins vieram
perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
--Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio--respondeu o sr.
Joãozinho.
--É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!--confirmaram
differentes vozes.
--Por quê?--continuou o padre--julgam que Deus não receberá as almas,
cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da
igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
--Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
--Eu não lhes reconheço o direito de querer.
--Ora o padre mestre tem vagares!--disse o façanhudo Cosme--e tu
pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões
para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me
para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a
enxada e vem d'ahi.
E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que
jazia Ermelinda.
--A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar
n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!--exclamou o velho,
indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação
religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do
padre se cumprisse alli mesmo.
Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas;
ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos
procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares,
que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua
quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se
dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos
momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os
precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito
sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos,
mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião,
apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das
massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a
segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a
embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento
reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra.
Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem
de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não
vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto;
mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das
Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra
severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este
seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos
quaes se encontravam padres e mulheres.
A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
--Viva o missionario!
--Viva o santo!
--Abaixo os pedreiros-livres!
E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
--Abaixo os maçonicos!
--Morram os jacobinos!
--Viva a santa religião!
Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das
injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o
fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o
mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da
christandade.
A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes.
Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não
fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento
popular.
Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
--Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo
estas pedras--bradou elle, apontando para o tumulo da familia do
conselheiro.
--É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
--São invenções dos pedreiros-livres!
--É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
--Abaixo! Abaixo!
O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de
um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
Magdalena collocou-se deante d'elle.
Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da
indignação.
--Afaste-se, senhor!--bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que
parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos
degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos
affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi
varonis.
O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
ficou enleado.
Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que
elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca
humana.
Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um
sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
--Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
--Ah! ah! Faz-se fidalga!--disse o sr. Joãozinho, despeitado.--Pois não
anda bem.
O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
escutal-o, bradou:
--Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
--Abaixo!...--repetiram muitas vozes.
--Pois vá abaixo!--repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o
machado.
--Para traz!--exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
O sr. Joãozinho sorriu.
--Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe
queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!--e soltou,
ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
--Abaixo, abaixo!--repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava.
Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda
que fôsse á custa da propria vida.
Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as
lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a
palavra «piedade».
O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
--Mau! se temos chôro, nada feito.
Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e
outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de
profanação.
O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
Imitaram-n'o muitos.
Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da
violencia.
Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns
baixaram-n'os, como arrependidos.
O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a
scena.
Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
--Tirem essa mulher d'ahi.
Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo
popular.
Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do
cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos
alli reunidos.
Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a
elle, dominava toda aquella multidão.
Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação,
como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella
scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no
logar do motim.
Era tempo.
A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas
violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas
luctas em que elle toma parte.
--Que é isto aqui?--disse o homem, rompendo com os braços potentes a
onda que se lhe antolhava.
Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até
ao meio do circulo.
Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
--O Herodes... É o Herodes!...--diziam, afastando-se.
Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra,
ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o
atormentara.
O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o
encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as
ultimas noticias recebidas.
Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos,
conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no
adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a
acudir-lhe.
Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia
a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do
esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos
n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso
de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de
surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança
morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para
n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos,
calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido,
quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos
cruzadas da creança.
Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas,
tomando-as outra vez, murmurava:
--Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode
ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no
tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão
intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que
as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda,
como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá
dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca.
Aquelle homem estava perdido.
--Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr
assim!
E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
O Cancella continuava:
--Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras
antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que
me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu
que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que
te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!...
Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
--Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha
filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?...
Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha
filha não me perdoou?
Magdalena respondeu a custo:
--Que tinha ella a perdoar-lhe?
--Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por
ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus
me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
E outra vez a estreitava nos braços.
Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
voz alterada:
--Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de
minha filha morta?
--Queremos que elles a enterrem na igreja--responderam, já tibiamente,
algumas vozes.
--Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram
elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as
alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a
conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas
festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem
aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram
sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te
entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha;
aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas
vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu
Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae
ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
--Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de
sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em
socêgo... A minha pobre filha!
E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de
paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias
mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez
aquella de que mal podia separar-se.
Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra
o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a
figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco
agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não
estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a
secundal-os.
Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella
contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
--A falar verdade--dizia um--este pobre homem tem alguma razão. Isto de
metter scismas ás creanças!...
--E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
--Tambem é de mais.
--Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e
armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro
os convocára.
Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de
joelhos, suffocado em pranto.
As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita
aquella idade, choraram tambem.
Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
desafogado pranto do que nunca.
A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica.
Responderam-lhe as creancas!
Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.