O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes;
porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a
favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres,
contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em
poucos dias.
Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem
noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado
sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo
de convalescença.
Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava.
Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á
maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação
do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição
assustadora.
Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de
saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se
ainda estremecer de secretas apprehensões.
Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena
Ermelinda.
A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de
terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico,
distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras
nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia
assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
n'ella.
O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar
d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a
dar-lhe a boa nova.
E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões
da morgadinha.
Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla
e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os
indicios do mal profundo.
Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia
despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao
dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi
completa insensibilidade de funesta significação.
Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e
trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já
quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.
Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que
principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança;
ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas
para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um
reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.
Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a
expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se
despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente
para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.
Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
lagrimas.
A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.
--Que tens tu, minha filha?--disse-lhe com meiguice, afagando-a.
Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma
expressão de affecto e de tristeza.
A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.
A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena
haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou.
Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a
pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
feições... estava morta.
Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
arrebatasse nas azas para o throno de Deus.
A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario
indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz
que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas
de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á
superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa
desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo.
A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre
da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os
sentidos embriagados.
Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com
Ermelinda.
As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores
candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como
deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais
furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a
vingança.
Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os
enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não
tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em
execução.
A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de
alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do
conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão
por falta de pretexto.
Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de
magotes nas encruzilhadas e nos largos.
Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a
effervescencia dos animos. Era chegado o momento.
A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz
que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo
assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela
creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã.
Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular.
No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
extraordinario ajuntamento.
O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas,
alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho,
falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.
O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se
agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante,
não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como
elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.
O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não
se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e
atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.
Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado
para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do
conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade,
golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito
contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe
poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha
interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma
grande porção dos proprios bens.
Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e
bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos
de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.
Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito
tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que
elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de
Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este
negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o
que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do
sr. Joãozinho.
No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as
suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio
fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e
distribuia com profusão pragas e murros.
--Com os diabos!--berrava elle, acabando de despejar um copo de
quartilho.--Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á
igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena.
--Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos--disse
velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.
--Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me
dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu
nada... lá se avenham.
--A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;--tornava o
brazileiro--a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os
outros.
--Menos eu--exclamou o morgado.
--Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar.
--Diabos me levem se...
--Pelos modos--disse um padre do lado--elles enterram a rapariga no
tumulo da familia do conselheiro.
--Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!--ponderou o
Pertunhas.
--E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então
julgam que aquillo não foi combinação?--disse o padre.
--Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
bater--accrescentou um lavrador.
--A mim me disseram que trinta.
--Sempre uma pouca vergonha como aquella!
--E verão que não lhe succede mal.
--Pois não, não; elle está alli, está na rua.
--Diz-se que o soltam á fiança.
--Não pode ser; aquelle crime não tem fiança--ponderou um fazendeiro,
que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça.
--Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles...
--Aquillo parece uma seita.
--E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres.
--E o tal lisboeta?
--Esse, então, é que é d'aquelles!
O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.
--Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar
com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó
Cosme--continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao
lado d'elle--olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?
O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros.
--Pois, senhores--proseguiu o brazileiro, que não queria deixar
arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico--hoje decide-se a
coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso
faz lei.
--Isso é que é verdade--secundou o Pertunhas.
--Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a--respondeu,
cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho
--Não; isso lá mais devagar--acudiu o brazileiro--vossemecê bem sabe
que, estando ella no mausoléo do conselheiro...
--Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão
arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein?
O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
--Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de
vontade, que não deixasse fazer o enterro--disse o padre.
--Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o
povo.
--Lá isso era!--repetiram algumas vozes.
--Eu por mim... se alguem fôr...--aventurou um.
--E eu, eu--ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.
--Deixem-se de contos,--continuou o padre--elles fazem o que querem,
porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do
povo...
--Lá isso é que é verdade.
--Já não ha homens para as occasiões.
O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de
ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e
protestou dizendo:
--Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio,
eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?
--Isso não se faz com essa facilidade--disse o brazileiro
impertinentemente.
--A quanto aposta vossê?--bradou, cada vez mais afogueado, o sr.
Joãozinho.
--Ora vamos--continuava o brazileiro com os mesmos modos--não que a
auctoridade...
--A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor
commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?
O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:
--Se queres tentar...
--Com mil demonios!--disse o morgado, exgotando mais um copo--vamos a
isto! anda d'ahi, ó Cosme!
O Cosme levantou-se.
--Nada de imprudencias--aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
significação contraria ao pensamento que exprimia.
--Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se
ha ou não ha um homem para as occasiões.
E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas,
e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com
signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle
movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não
habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou
geral extranheza.
Era Henrique de Souzellas.
Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.
Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.
Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá
dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que
fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava
vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.
Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou.
Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até,
pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse
demasiado prudente o passo que dera.
Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor
manifestação de receio.
Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.
O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
do que desejava o recem-chegado.
Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar
firmemente resolvido a não lhe tocar.
O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
sêde.
Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
lançasse uma pedra de gêlo.
Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e
que ameaçava degenerar em maior tormenta.
O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser
visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e
conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no
recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores.
Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem
desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a
pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.
--É preciso ensinar estes espiões--dizia uma voz audivelmente.
--Que quererá d'aqui este figurão?--perguntava outro.
--Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida...
O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a
mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para
Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas
fauces:
--Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que
isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de
respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto!
O senhor não ouve?
Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.
--Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira?
Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.
--Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!
E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se.
O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.
Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.
--Então! então! isso o que é?
--Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri--bradava o morgado,
furioso.
--Para isso não se incommode--respondeu Henrique--eu mesmo d'aqui lhe
respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo.
--Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!...
E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo
principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique.
--O senhor vem para aqui armar desordens?
--É para espiar?
--Depois queixe-se...
--Não se metta com a gente.
O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos
que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de
si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se
collocou a pé.
O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para
elle:
--O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
mim... Quero vêr agora se ainda se ri.
--Por que não? Se cada vez está mais ridiculo!
O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
Henrique.
Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo
motejadoramente:
--Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar.
O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente
tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como
a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se
a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.
O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já
congestionado e rouco bradou:
--Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!...
A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do
Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão.
O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do
estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que
infallivelmente lhe seria fatal.
A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.
Henrique estava incólume, e o morgado sôlto.
Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os
seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre
bradarem:
--Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!
E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão
convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:
--Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao
cemiterio!
--Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.
--E queime-se a papelada da camara!
--E mate-se o escrivão de fazenda!
--E quebrem-se os vidros do Mosteiro!
--E pegue-se fogo á casa!
Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.
--Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio!
Atiremos a terra com o tal mausoléo!
E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do
Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o
e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se
anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar
por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no
ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada,
partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique,
acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.
Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
pacificamente aos lares.
O sino da igreja continuava a repicar.