XX

Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da

aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.

O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é

impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal

pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia,

villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.

Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta

curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.

Isto aconteceu com o Cancella.

Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os

olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos

chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.

--Passaros de arribação...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria

isto para aqui?

E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.

Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:

--Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos

alojemos?

--Por pouco ou por muito tempo, meu amo?

--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.

--Ah! então v. sr.^{as} são engenheiros?

--Julgo que sim.

--Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?

--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.

--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os

meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de

uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem

uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á

direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira;

ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um

larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e

perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.

Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a

explicação.

Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma

rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os

engenheiros.

--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.

Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.

--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com

que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus

dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que

vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O

pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza...

Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é

outro arranjo para quem tem de ir á cidade...

Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe

ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia

que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias

toma as proporções de um grande successo.

--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vêl-o.--Edital á porta da

igreja!--e approximou-se para ler.

Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens

terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente

prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da

igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido.

Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando

contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.

--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes

coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que

não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi

rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma

pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e

ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois

de morta.

E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.

Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a

invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella

imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no

regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e

separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou

triste e sobresaltado. Porquê?

É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e

estremecia agora na incerteza de como a iria achar.

Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,

tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros

da casa parou irresoluto.

Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo

aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas,

se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos,

que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de

sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.

Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao

avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.

Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol

crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe

estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito

esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão

despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em

que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que

chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte

obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as

sombras.

Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros

degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera

coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.

Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que

encontrou aberta.

Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de

surpreza.

Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.

Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que

cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que

não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.

--Crédo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes

negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me

scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe

acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha.

Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.

Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua

benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.

--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a

minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...

Ermelinda!

E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o

quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais

retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por

dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que

na porta exerceu o Herodes.

Franqueando assim a passagem, parou no limiar.

Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um

canto escuro do quarto.

--És tu, Linda? Estás ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se

n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,

--Meu pae... respondeu com voz fraca.

--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto

mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga,

quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca

pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas

esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me

consola...

E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro.

Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e

principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não

bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas

assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o

corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e

de espanto, bradando emfim, com voz consternada:

--Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as

tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem

risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás

doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda,

fala!

A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.

--Meu Deus! Isto que é, meu Deus?--exclamava, mais assustado, o

pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens

pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar;

mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?

E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no

coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação

d'aquelle doloroso mysterio.

Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais

commovido:

--Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não

sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em

que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim?

Fala!

E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais

lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.

Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle

apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao

collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber

o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito

inquieto.

Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e

pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos

trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as,

soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.

Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma

palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no

corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o

lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco,

abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o

desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.

É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor

beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o

enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos

golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.

Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta

descoberta lançou o coração d'aquelle.

Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.

Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de

ambos.

A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do

Cancella.

Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os

olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e

gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe

amontoavam no coração:

--Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?...

Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te

deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha

desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas

riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te

tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É

com este desamor?! e com esta ingratidão?!

--Meu pae! meu pae!--implorava Ermelinda, suffocada pelo

pranto.--Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?...

Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os

cortei... A vaidade é um peccado grande.

--Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?

Fala!...

--Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!

--Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de

saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae.

Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?

--O missionario...--ia a dizer Ermelinda.

O pae não a deixou proseguir.

--Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua

madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim!

Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem

religião, sem Deus...

--Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.

--Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu

pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...

Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus,

e eu não o reconheço nem adoro!

Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o

desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca

horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas,

e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.

--Por amor de Deus--murmurava ella, com a voz chorosa e quasi

sumida--por alma de minha mãe!...

--Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua

mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me

não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão

amargas e tantas, como eu choro agora!

E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e

valente, chorava, porque tinha um coração de pae.

Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.

--Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!--dizia ella.--Se soubesse... Fui eu que

pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe

ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da

minha alma, porque...

--E foi tua madrinha que t'os cortou?

--Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um

santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.

E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do

Cancella.

--Querem matar-me a filha--bradava elle.--Ó meu Deus! pois não é isto um

grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui,

esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um

crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com

lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse

missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem

traz assim o desespero ao coração de um pae.

E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,

cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no

corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos

postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o

Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De

repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que

alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com

jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia

oração, quasi extatica, quando o pae entrou.

--Coração de Maria!--disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a

vista fixa na imagem, e como falando para si.--Coração de mãe, e de mãe

extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a

um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que

deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as

desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres--continuou

allucinado, voltando-se para a imagem--e se não podes ser adorada senão

assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como

as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!

E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o

caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços

no pavimento.

Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O

terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi

lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os

labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.

Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra

vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua

benta, bradando:

--Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.

Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter,

mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a

levou de rastos á outra sala.

Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo

despedaçava ou rasgava.

N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que,

como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços

estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento

inerte e fria como um cadaver.

Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a

madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.

Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que

descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella

cortou-lhe a fala na garganta.

Era de facto um olhar selvagem e sinistro.

A sr.^a Catharina parou.

--Que vem fazer aqui, mulher?--dizia-lhe o Cancella com voz cavada.

--Eu...

--Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares,

onde metteu a tristeza?

E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava

outro.

Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.

--Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a

esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.

A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:

--Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!

Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.

Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a

pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu

para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo

nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão

a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.

A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora

chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de

Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos,

e implorando misericordia.

--Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto.

Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o

coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr...

pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o

coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella

precisa.

E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.

Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres,

attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára

de falar.

Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e

pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.

Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.

Ermelinda tinha aberto os olhos.

Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o

aspecto d'elle lhe causasse terror.

--Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com

maior consternação na voz e no olhar.

Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer

convulsivamente e n'uma anciedade extrema.

--Deixe a pequena!--disse a beata--não vê que lhe faz mêdo? E com razão,

pobre creança! depois do que viu!

--Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?--repetiu timidamente o

pae.--Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...

Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.

Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a

soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:

--Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que

desgraçado que eu sou!...

A scena era bastante commovente, para que se não sentissem

impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.

Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do

infeliz, em quem entrára o desespero no coração.

Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,

que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a

toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.

Ouviram-se perfeitamente estas palavras:

Vinde, vinde, ó missionarios,

Com a palavra de Deus

Libertar-nos do peccado,

Encaminhar-nos aos céos.

O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar.

As vozes continuaram:

Minha alma por vós anceia,

Ó ministros do Senhor!

E o meu peito em chammas arde,

Em chammas do vosso amor.

O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos animaram-se-lhe de

um fulgor extranho.

O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua,

em que se passavam estas scenas, um singular cortejo.

O missionario, que nós já conhecemos, por o termos visto em pleno

exercicio de suas funcções predicatorias, vinha seguido por uma cohorte

de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em

chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os

agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como

preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanças.

Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procissão da

casa do Cancella.

Este já estava em pé no meio da rua, á espera d'ella.

O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho,

aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe

apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via.

Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.

O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:

--Sabe quem sou?

O padre fez um signal negativo com a cabeça.

--Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus.

O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem

procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que

um homem que não ouve Deus não estaria muito disposto a escutal-o, a

elle, humilde creatura.

--Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de

minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;

perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creança sem

culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração,

e depois... depois matal-o.

O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle

o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a

violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado,

e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as

feições, e suspender a respiração, aguardando n'esta postura o golpe,

que não podia evitar.

Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o

cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este

foi constrangido a ajoelhar.

--Anda, meu impostor do inferno!

E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á

primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia.

--Anda, meu envenenador de almas!

Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o

caminho do chapéo.

--Anda, meu calumniador de Deus!

E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em pé, e após,

dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mãos, deixou-o ir á mercê da

fôrça transmittida.

O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar na quéda

provavel, e, pé aqui, pé acolá, a passos descommunaes, escapou

miraculosamente de cair, porém não conseguiu parar senão a muitos metros

de distancia.

Escusado é dizer que esta scena não correu entre o silencio dos

espectadores. Mal o Cancella levantou a mão sobre a cabeça do padre, as

beatas ergueram um alarido de atroar céo e terra.

--Aqui d'El-rei!

--Aqui d'El-rei sobre o Herodes!

--Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José!

--Quem acode ao sr. fr. José?!

--Ai, que matam o santinho do missionario!

E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiçadas

mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porém, a intervir mais

activamente.

A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em

cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito.

Este, porém, não oppoz resistencia.

Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.

Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das imprecações das beatas

e dos gritos de indignação dos homens.

As devotas mulheres correram para o missionario.

Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o capote.

--Magoou-se, sr. fr. José?

--Doe-lhe alguma coisa?

--Feriu-se?

Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a

cabeça negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda

a mão espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a

cabeça.

Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a multidão engrossára e

em altos gritos pedia o castigo do criminoso.

O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multidão.

In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi tão

feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando ás

turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de

ser punido com todo o rigor das leis.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 45 / 66 题