--Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já
jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que
não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do
missionario--disse a morgadinha.
--Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.
--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.
--Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer?
Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.
--Dizem que préga tão bem--atalhou Christina.
--Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões--ponderou D.
Victoria.
--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--Já
m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á
figura...
--Então?--interrogou D. Dorothéa.
--É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da
grossura do pulso.
--Pois bom é que vás, menino--disse D. Dorothéa--para acompanhares as
pequenas.
--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas não se constranja. O
Torquato tambem vae.
--Que quer dizer? Que me dispensa?
--Não; mas que se é só por condescendencia que...
--É por prazer. É por devoção.
--N'esse caso...
E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á
igreja.
O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua
invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da
igreja, nada faltára para solemnisar a festa.
O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido
concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas
catechéses.
A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e
Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita
gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.
Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de
sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as
aguas impetuosas.
A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.
As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por
deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a
capella-mór.
Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião.
Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a
extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres
de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á
cabeça.
Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.
Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se
escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao
entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de
pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com
Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no
chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a
Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos
deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de
promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns
pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes
nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos
rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a
circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá
regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e
inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé
porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a
consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.
Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e
exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina,
ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo
cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se
não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes
cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção,
satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles
gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo,
tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os
ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.
De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as
luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta
arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.
Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.
Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja
influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por
aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios
improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião,
de que se dizem ministros.
Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não
pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que
os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.
A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os
differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos
os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem
de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia,
na rua, se prolongava a multidão.
Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta
por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.
Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.
Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois
causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi
a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão,
reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do
Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto
enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
labios, que tanta graça lhe davam!
E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim
ficar tanto tempo aos pés do confessor?
Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e,
como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres
ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo
rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.
Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas
teria a expiar aquella inconsolavel dor?
O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas,
que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e
fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das
sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.
Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou
aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.
Era o missionario.
A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as
borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com
profusão.
Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
do chão um estorvo.
Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e
realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para
abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.
Dizia o homem:
--Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu
quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A
religião manda... Quando um homem se casa...
O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com
modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de
cólera:
--Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter
commigo?!
E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que
rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para
afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se
a dizer mansamente:
--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode
dizer o que sente?
Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:
--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:
--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe
do que de pastor?
O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico.
Henrique arrostou-o com audacia provocadora.
O padre entrou para a sacristia.
No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais
commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.
No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
pouco attrahente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
firmeza.
Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia
talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um
sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:
Emfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa, e principiou.
Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas
humoristicas da _Vida e opiniões de Tristam Shandy_, um sermão sobre a
consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia
sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.
Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a
extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador
acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta
prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da
vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e
prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja
voz é abafada por aquella gritaria.
As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á
missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as
almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de
tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo
Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os
delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e
desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do
inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.
Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor
sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com
imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do
seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que
se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e
as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.
Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava
a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e
principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro
manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em
toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco
impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para
Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas,
tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que
se estava exercendo no animo timido de Christina.
Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador,
que ambas offereciam farto alimento para elles.
D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.
Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios
improprios do logar.
Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os
commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena;
e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador,
exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera,
estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.
Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes,
haviam attingido já a causa d'elles.
D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.
No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas
do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de
anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração
da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao
cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a
prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a
pensar.
N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os
progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do
inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique
approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão
tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria
Christina sorriu tambem.
Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces
apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos
e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:
--Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da
palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes
os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram
esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos,
se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze
esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das
cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as
estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na
alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros
livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...
E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o
braço na direcção de Henrique.
Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e
fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder
alli mesmo.
Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam
alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas,
os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções
assustadoras.
Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de
Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
Henrique resistia e procurava falar.
O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.
O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a
cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.
Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja
por a porta da sacristia.
Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em
confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da
sacristia, e correu clamando atordoadoramente.
E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel
parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de
braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos
pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»
Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente
furiosa e ameaçadora.
--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme.
Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
--Morra o pedreiro livre!
--Ensinem esses senhores da cidade!
--Pouca vergonha!
--Isto não fica assim! Isto é de mais!
--Mação!
--Hereje!
--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
--Havemos de ensinar estes fidalgos.
--Excommungados!
--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo
para elles, levantando o chicote que trazia na mão.
Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!»
levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a
tremer, o braço de Henrique.
E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que,
entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto
de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil
curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos,
procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a
cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e
em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse
para toda aquella gente:
--Não vêem que iam matando esta creança?
Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais
effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia
n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e
será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as
massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por
simulal-a, quando precisam do povo.
--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um.
--Temos tolice!
--Nada de pedra, olá!
--Então isto é coisa de garotos!
Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
«morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E
comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era
evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia
resolveria a crise.
O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.
Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e
concorreu para dissipar a tempestade.
Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que,
pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da
interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio
desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro,
tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que
ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.
Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a
dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas
e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na
caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles
floridissimos periodos acusticos.
Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era
habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.
Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara
metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e
sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as
maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.
Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.
Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.
N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que
preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris,
analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico
entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador
era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira
extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos
portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um
commetimento digno de menção na historia da arte.
Pobre Zé P'reira!
Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto
de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento
de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma
melancolia quasi poetica.
N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo
pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A
intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que
via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão,
principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem
ergueu-se.
Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
tiracollo a alça do tambor.
Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que,
estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.
Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé
P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao
rapaz, e...
_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada
superficie do bombo.
_Taplão, taplão, rataplão, rataplão_...--responderam as baquetas movidas
pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.
O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das
baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.
Principiou a acudir o povo para junto do artista.
Este tomára-se já do _raptus_, do phrenesi musical. Já não eram só as
mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De
olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes,
contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para
traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia,
não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo,
delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes
electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor,
desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos,
aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o
torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo
era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou
com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se
moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos
sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que
succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de
uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.
O povo inteiro applaudiu o artista.
E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já
fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro.
O povo dispersou pacificamente.