No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das
eleições geraes que estavam proximas.
Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava
Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia
e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de
coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.
Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de
Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume
patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a
memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias
e frequentes inexactidões em que a via cair.
Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não
ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava,
achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.
Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto
dos Reis.
--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D.
Dorothéa.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!
--Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito--disse
Maria de Jesus, com ar de mysterio.
--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorothéa.--Por essa estou eu.
--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
mesma.
--Então é mais do que certo.
--Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!--disse Henrique,
rindo.--Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?
--Pois, menino, aquillo a falar a verdade!
--E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?
--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que
aquelles não calhavam bem nas lôas?
--O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e
até suspeito com que fim.
--Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do
Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem
um livro. A senhora não se lembra?
--Ora se lembra!
--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faça versos?
--Versos!--repetiu a D. Dorothéa, admirada.--Ninguem, que eu saiba.
--Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos
desafios?
--Sem ser o João do Trolha--tornou Henrique, sorrindo.
--Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no
outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que
elle botou?
Viva a senhora D. Dorothéa,
Raminho de bem-me-queres,
Quando põe a sua touca
É a rainha das mulheres.
--E depois a mim:
Viva a senhora Maria,
A perola das criadas,
Quando se chega á janella
Ficam as estrellas pasmadas.
--Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer
do que pasmarem--disse D. Dorothéa.
--Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que
diz...
--E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?--perguntou
Henrique.
--Que eu saiba...--disseram as duas.
--E aquelle Augusto?
--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.
--Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?
--Tolos não digo, mas...
--Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?
--Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um
homem de respeito, faz versos?
--Por que não?
--Versos?!
--Versos, sim, senhora.