Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára
para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves.
Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena
abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da
projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella
rapariga, com tal preoccupação.
As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem
d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.
Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta
dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto.
Christina foi acordal-a ao leito.
A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.
--Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares
estremunhando a casa esta noite?
--Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são
estas as madrugadas em que falavas?
--De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.
--Dentro em pouco é dia. Queres vêr?
E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e
correu as cortinas.
A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave
estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da
natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos,
scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
--Vês?--disse Christina.
--Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie
melhor do que esta lamparina.
Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de
creança.
--Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper
do sol.
--Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!
--Está tão bonita, que parece de primavera.
--Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá
coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.
Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e
voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel
necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
quando nos deixamos apossar da impaciencia.
--Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê
neve.
--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me
que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia
ganhando. Vês?
--Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!...
Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um
engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.
--Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma
fogueira no coração, não precisa...
--Ahi principias com as tuas coisas!
--Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios
matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu
t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.
--Não quero saber de explicações; veste-te, anda.
--Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia
Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo;
dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que
sorte de invejar!
E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella
madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e
heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito
para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.
Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e
transmittindo á prima as observações que fazia.
--Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os
pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que
não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar
prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão
ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
--Elle! Quem é esse elle que vem ahi?
--Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?
--É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em
mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um
«elle».
--Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo--disse Christina,
que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
fazia de baixo.
--Então, com effeito já chegou?--perguntou a morgadinha,
admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle
tambem tem alguma coisa no coração!
--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;--é vêr como hontem te
falou.
--Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a
pessoa que causou esse mal.
--Não sei o que elle me está a dizer--disse Christina, olhando para o
pateo.--Posso abrir a janella, Lena?
--Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã.
Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.
Christina correu a vidraça.
A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.
--Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?--perguntou
elle a Christina.
Christina respondeu, sorrindo:
--Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio
dia.
--Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha
indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de
Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a
ella, mas sempre sem receber resposta.
Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio
tivera ainda.
--De maneira que nós, priminha--continuou Henrique--damos uma lição de
mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos
appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.
--Eu vou chamal-a--disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena,
com certo modo, que não podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao
sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.
A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao
penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha
e disse-lhe sorrindo:
--Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos
ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que
não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não
via.
--Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir
accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço
falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para
completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.
Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois
ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes
companheiras na romagem.
A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as
pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de
Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais
vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas;
no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do
campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito
esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos
e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.
Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro
aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá
margens a confidencias.
Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles
certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.
Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando
não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois
indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e
fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.
Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas
ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de
dezembro.
Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de
D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e
mesmo do leito perguntou-lhes:
--Então já vão, meninas?
--Vamos, tia; vamos, mamã--responderam as duas a um tempo.
--O Luiz já partiu com o almoço?
--Já partiu, já, minha senhora.
--E ides agasalhadas?
--Como se fôssemos para a Siberia--respondeu Magdalena.
--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa
Senhora.
--Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.
--Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.
Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã
d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára
com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.
Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique,
depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe
attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
porque se lembrou de Christina.
--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas é preciso que
o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo
isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em
que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro,
embora seja o de um heroe.
--Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se
escusa--replicou Henrique.
--É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma
pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço
de giestas, por exemplo.
--Vê lá, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor
que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.
--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr.
Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direcção do
nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista;
leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de
perigos e de fadigas. Partamos!
O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus
milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era
uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais
de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica
vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes,
arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o
gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava
sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em
vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés,
permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma
convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em
colosso.
Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda,
que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da
ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam.
Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra
os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma
longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito
deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus
passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um
absurdo.
Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que
d'elle o separava.
O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava
um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido
pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.
Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do
monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi
infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes
negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o
cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da
madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos
climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua
verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral
do quadro.
A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com
lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e
atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o
passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das
outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.
Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se
indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os
córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e
os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por
aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.
As difficuldades para Henrique eram continuas.
A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte
de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse
d'aquillo.
Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a
paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava,
apparecia mais surprehendente e maravilhosa.
Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.
As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a
belleza do quadro.
Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes
mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia
aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos
canteiros de um jardim.
Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.
--É magnifico! é admiravel! é soberbo!--dizia elle, a cada momento e
quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.
O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os
montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na
planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.
Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que
viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.
Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena;
parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a
ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem
lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi
achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.
A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava
insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.
--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á
necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos
auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a
vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto.
Tenho um pouco de alpestre. Adeante.
E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:
--Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve
a lembrança de lh'o offerecer.
Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o,
offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.
--Então por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.
--Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.
A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não
lhe disse nada.
Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já
tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia
encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo
apparecimento do sol.
--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a
primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.
Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á
contemplação d'aquella perspectiva solemne.
As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa,
n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um
espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam
longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em
simples phrases, como estas:
--É bello!
--É magnifico!
--É sublime!
E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E
eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só
bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o
panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a
imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse
d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.
Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade
precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a
fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre
os quatro.
Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus
projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua
mutua frieza.
--Lá está o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar
indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui!
--É verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vêem bem as
janellas do teu quarto.
--Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...
Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:
--Para cumprimentares a estrella d'alva.
--As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.
--Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia
Victoria não é muito matinal.
--Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?--perguntou Henrique,
apontando n'outra direcção.
--É--respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que
passou ante-hontem. Não é verdade?
--É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei!
D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter
passado tambem.
--Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou
Magdalena, apontando para um ponto distante.
--Perfeitamente.
--É a minha quinta dos Cannaviaes.
--Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.
--Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de
Nossa Senhora, muito milagrosa.
--Sim? hei de visital-a.
--Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é
concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão
da mais insinuante sinceridade.
--Que quer dizer o voto da meia noite?
--Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no
altar da Senhora--continuou Christina.
--Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra
desejo que se não satisfaça.
--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve até a
ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas
mortas por a sua antiga casa, dizem.
--Cada vez sinto mais desejos de lá ir--accrescentou Henrique, depois de
ouvil-a.
--Além, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um
philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.
--É verdade; o bom do tio Vicente.
--Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu
possa augmentar o meu parentesco na aldeia?
--O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos
montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso
parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim
como quasi toda a gente por aqui.
--Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da
igreja?--perguntou Christina.
--Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas--disse
Henrique de Souzellas.
--São as mulheres que vão ouvir o missionario--respondeu a
morgadinha.--Escutem, lá está a tocar o sino.
Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas
do campanario da aldeia.
--A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira,
que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas
devoções--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a
que na vespera assistira.
--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a
verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue
assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!
--Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos
missionarios?--perguntou Henrique.
--E não tem lavrado pouco!--tornou Magdalena.
Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as
palavras da morgadinha.
--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda será preciso o seu auxilio
para livrar do contagio esta innocente Christina.
--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a
minha vontade.
--Olha, Lena, não vês?--exclamou Christina--são os pequenos que nos
estão a dizer adeus das janellas do mirante.
De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços
brancos.
Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a
prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação.
Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da
alameda já se tingiam de luz.
Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida
faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as
extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro
inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal
candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu
nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões
que o retinham.
O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas
meias sombras da madrugada.
Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha,
que veio annunciar que o almoço estava prompto.
--Pois devéras temos um almoço?--exclamou Henrique, sinceramente
surprehendido.
--Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em
casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que
estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o
appetite--respondeu Magdalena. E logo após continuou para
Henrique:--Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os
recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a
ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender,
limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena
fingiu não perceber.
E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de
pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A
alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das
iguarias convidavam.
Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de
circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido,
correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á
cozinha do Mosteiro.
Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças,
conversou animada e espirituosamente.
Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com
vontade das que ouviu a Augusto.
A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de
amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do
congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam
contrariados.
Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre
o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas
letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--não imaginava que havia
poetas na aldeia! Querem ouvir?
E leu:
Se estás mais perto do céo
N'estas alturas da serra,
Ai, porque tens, peito meu
Inda saudades de terra?
Em vez-de erguer os olhares
Á luz d'este firmamento,
Desço-os á sombra dos lares,
Onde tenho o pensamento.
--É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?
--Não sei; da aldeia de certo que não é--respondeu Magdalena, com
indifferença.
Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.
--Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil
crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um
romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever
saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do
poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se
vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim,
confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra
companhia--accrescentou, olhando significativamente para a
morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta
expressão do meu sentir, porque...
Em vez de erguer os olhares.
Á luz d'este firmamento
Eu tambem...
Os _abaixaria_ aos lares
Onde tenho o pensamento.
Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.
Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito
ao ficar só com Henrique.
--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado
tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com
franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém,
sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode
imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.
--Perdão,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que é isso que me vae
dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto
de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir
preparando uma resposta adequada.
-Que prazer tem em ser cruel!
-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, séria já.--Quem ouvisse o
sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer
uma declaração.
-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por
que não?
-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista
d'ellas.
--Por quê?
--Porque não posso escutal-o.
--Ou não quer.
--Ou não quero; seja.
--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração
já...
--Que impertinente pergunta? Se _já_, não tenho ainda no sr. Henrique a
necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas
de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.--E accrescentou logo
depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
Henrique.
--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado.
Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os
olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
--O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter;
o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a
lisonjear uma mulher na presença de outra--e redargui por isso, pondo em
dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na
tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora
dize tu.
Christina córou intensamente e não teve que responder.
Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo
sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou
desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:
--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á
accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da
doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima
Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa
Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que
alludiu.»
A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras;
mas fingiu não comprehender.
Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos
n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave
expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico,
que não escapou tambem a Henrique.
Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum
parecesse disposto a baixar-se deante do outro.
Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina,
dizendo:
--Olhem o tio Vicente por aqui!
Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e
approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos
falado no decurso dos passados capitulos.
X
Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e
penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes
meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle
semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os
annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o
caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que
atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem
permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando
para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.
Era um enigma vivo.
Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe
curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita
consagrava as maiores attenções e canceiras.
Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém
ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que
vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo
velho.
Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle,
como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns
alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e
mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros
de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de
astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais
predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo
Semedo.
O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que
revézes de familia haviam interrompido.
Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os
erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou
a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por
maravilhosa.
E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de
concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos
simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a
austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que
dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle
typo, para ella quasi lendario.
Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a
Augusto, que lh'a apertou com affecto.
--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e
Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas;
grandes madrugadas hoje!
Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi
desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
--Guarde-o Deus!
Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe
com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
--Quem é?
Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
--O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa
pergunta.
O velho nem sequer o olhou.
--Este senhor--respondeu Magdalena--é sobrinho de D. Dorothéa; está
hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
Vicente tornou a examinar Henrique.
--Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã...
Umh!...
Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam
desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo
jovialmente:
--A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.
--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--Lá
veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto
scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo
uma pedra do feitio de uma amora.
--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expressão de pasmo--ahi
estava um cerebro de concepções rijas!
--É divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para
Magdalena.
--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal é a melancolia. Não é
verdade?
--Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia
Dorothéa, que lhe chamou mania.
--Mania e melancolia não são a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem lá
na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem
furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou
cólera requeimada.
--De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou
Henrique, no mesmo tom.
Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse
por irritar o velho, perguntou a este:
--Parece-lhe que terá cura a doença?
--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a
final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de
ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.
--Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer
o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que
receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe
ficava proximo.
O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras
impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um
relampago de irritação.
Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
--Está bom, menino,--replicou elle amargamente.--Não diga mais, para se
não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os
attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não
pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que
é isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas
sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.--As folhas veem d'este
lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.
E, depois de olhar para o ar, continuou:
--Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e
aquellas nuvens.
E levantou-se.
--Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que
virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o
quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não
tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as
hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu,
depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que
parecia haver o que quer que era de forçado.
--É realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente
sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
--Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na
aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vêr as
coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender!
depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não
estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é
bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças
suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?
--Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado
geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
--É um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade
de expressão, que até alli não mostrára ainda.
Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou
firmemente aquelle olhar.
--Não o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os
homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a
imbecilidade.
--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um
juizo são e uma razão clara.
--Acha?--tornou Henrique, já algum tanto azedado.--Ha de dar-me licença
de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.
--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheço aquelle homem ha
muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor
quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma
digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A
consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
--Lê fundo nas consciencias dos outros!
--Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de
ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui
suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção
aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que
dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.
Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
--Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que
qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.
Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada
ironia:
--É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu
programma... de mestre-escola.
--Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre;
rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem
dar lições a elegantes filhos das cidades.
--Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia,
dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as
circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do
estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que
receber.
--Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o
discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.
--E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?--perguntou
Henrique, cada vez mais petulantemente.
Augusto respondeu com a mesma serenidade:
--Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito
salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.
O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais
acerbo caracter.
Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como
para convidal-a a intervir.
Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto.
A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens,
rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a
surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.
--Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre
os senhores é uma altercação--disse ella por fim.--Vejam que só teem por
testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a
contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha
que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel.
--Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu
proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu
pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... _magister_...
Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...
--Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me
agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que
levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser
injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se
diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem
sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo
por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer,
lastimo-o; é porque não os tem.
--Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois--disse
Magdalena.--É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e
aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja
porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui
traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo
sacrilego, que se fizesse n'ella.
Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo
antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto,
representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e
florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles
pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos
desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé
ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto.
D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que
reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que
estava.
Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique
examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára
mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da
Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não
sei se pensando n'ellas.
Esperava-os uma surpreza á saida.
Realisára-se o prognostico do herbanario.
O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo,
viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e
empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se,
pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de
longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea.
Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se,
acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao
mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a
erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas
moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as
aguardavam firmes.
Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da
ermida.
--Depressa!--exclamou Augusto--já não ha tempo a perder! Desçamos antes
que a tormenta nos colha.
--Tem medo?--disse Henrique em tom de mofa.--Um montanhez!
--Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco
digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor
d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida.
Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos.
Vamos.--Detendo-se, porém, disse para Magdalena:--Se descessemos por o
outro lado, minha senhora?
--Para quê?--respondeu esta.--É um momento, emquanto chegamos abaixo.
A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar;
os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a
chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente;
havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas
igualmente sinistras.
Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas;
Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.
Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo
d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi
impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em
catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás
arestas salientes da rocha.--Era necessario estar muito amestrado para o
descer sem perigo.
Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de
repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas
aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos
despenhadeiros do monte.
A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que
inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez,
girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido
chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil
transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em
embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos
braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára,
sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O
proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso
admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de
Augusto.
O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto
mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e
aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de
baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este
momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto,
ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma
compensação.
Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos
quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar
risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser
alimento de animadas e joviaes recordações.
Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao
lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a
pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas
e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado
tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a
mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao
abysmo.
Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria
difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.
Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror
Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente
desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado
susto.
A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que
involuntariamente causára.
--Descança em paz!--disse ella, olhando para a mantilha; e
accrescentou:--Sigamos.
--Mas não será possivel tiral-a d'alli?--perguntou Augusto, examinando o
sitio.
--Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso--respondeu Magdalena.
--Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um
momento--insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.
Henrique notou, sorrindo:
--O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de
tão bom aviso.
E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia
humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia
a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma
desnecessaria imprudencia.
Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão,
deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda
do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha,
até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um
ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em
exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço,
segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.
Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos,
pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e
nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em
terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto
radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de
triumpho.
Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma
palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.
Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça
murmurando:
--Que imprudencia!
--Na verdade!--disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este
incidente lhe causára--foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.
E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de
agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais
desejava reprehender, do que recompensar.
Esta reserva offendeu Henrique; serviços a seu vêr de menor importancia,
tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.
Revoltou-o esta ingratidão.
Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo
sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e
aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o
tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca
aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o
desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras!
Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das
enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares,
era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado
mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham
encontrado quasi submersa.
Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:
--Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar
já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do
moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.
--Então deixa-nos sós?--exclamou Christina, assustada.
--É um instante.
--Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação--disse
Magdalena.
--O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte;
o caminho indica-se por si.
E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na
rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.
Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina
fechava o cortejo.
O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios
com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
a direcção do rancho.
Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava
merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella
contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o
humilhava.
Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique
perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo
o dia.
Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular
um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
nem sempre demasiado affavel.
Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar.
Christina menos.
Este silencio acabou por exasperar Henrique.
Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do
riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor
do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.
--Estou devéras arrependido, prima Magdalena,--disse elle com leve
ironia--do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a
gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era
demasiado cauteloso para heroe...
Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou
proseguir.
Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas,
pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.
Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa
d'aquelle duplo grito.
Refiramol-o em poucas palavras.
Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou
não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.
O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em
taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não
conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O
andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou
para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o
verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua
pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio
caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava.
Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava
muitos passos de avanço.
Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se
dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em
descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente
caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam
signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os
açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em
cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.
O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas,
sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.
Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira,
pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da
corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um
passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de
sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio,
caiu na levada para o lado dos moinhos.
Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o
estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a
urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem
perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados
do moinho.
Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o
espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua.
Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas
abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto
se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco,
deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o
papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria,
para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por
ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a
convenção, que se chama elegancia.
Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.
Augusto era differente.
As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos,
para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.
Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida
para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais
segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida,
para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o
fazia recuar.
Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a
margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás
anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:
--Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe
tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua
imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a.
Confesse que não foi tão justificada como esta.
Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr
que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda,
inferior ao seu companheiro.
Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo
que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se
obrigar a ir apertar a mão a Augusto.
O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a
corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo:
--Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida,
rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.
Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D.
Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto
estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem
ahi dentro mudar de fato.
Augusto seguiu o herbanario a casa.
Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de
haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.
No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas
exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas,
como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os
criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem
avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante,
repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de
chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.
Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma,
ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
cobertores, emborcaram-o de _punch_ e taes mêdos lhe insinuaram, que as
apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram
reapossar-se da sua antiga victima.