Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito
tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente
offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado
silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo
soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão
justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a
final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.
Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma
banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha.
N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe
recordassem as do supplicio.
Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só
entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e
encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira
vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia,
perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao
caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os
humanitarios instinctos.
Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e
amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores
do penoso tirocinio;--mas que importa? nem por isso é menos real o
supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O
lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e
semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e
volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem
os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado,
coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem
sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se
olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos
os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que
lhe mingúa.
De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as
desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita
vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande
thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia
concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em
não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os
momentos de alegria.
Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam
os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado
absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro
contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo,
d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que
a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde
professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe
com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas
do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas.
Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor
as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas
intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar
agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não
tinham azas para voar.
Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus
mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do
esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os
ensinou a ler.
Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não
são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres
diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona
do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão
mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de
instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por
escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma
de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na
vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as
suas obrigações lhe permittiam respirar.
D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.
Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma
voz bem conhecida d'elle.
Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
--Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. _Amice!_ Pode falar a um amigo
e colega?--dizia elle.
Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.
O latinista entrou esfregando as mãos.
--A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!--dizia elle,
batendo no hombro a Augusto.--Invejo-lhe mais a pachorra do que o
proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as
canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este
mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu.
E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto,
poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.
--Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!...
Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é
agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz
até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas
nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica...
Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e
Dorothéa--continuava elle, examinando os livros.--Novellas... Poh!... E
isto que é? _Confessions_ de Rousseau--n'este nome deixou aos diphtongos
o valor portuguez--Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada!
Poh! poh! poh! poh!...--E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi
arremessado como se estivesse em braza.
Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de
repulsão do mestre.
--Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?--perguntou elle.
--Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor,
meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade...
_Quousque tandem, Catilina_... Mas, é por esta vez...
--Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.
--Ah! grande maganão, que adivinhou--exclamou o mestre, abraçando
Augusto com effusão.--É isso mesmo, se lhe não custasse...
--Irei.
--É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica...
Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal,
e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do
_Trovador_ para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh!
poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o
pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha.
Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e
julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá
esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me
que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem
modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito
feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor?
Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
d'isto. Pois não lhe parece, hein?
--Não sei bem o que quer dizer com a imagem--respondeu Augusto,
levemente enfadado.--Além de que não posso adivinhar as intenções de um
homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.
--Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo
que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a
boa musica, _et coetera_, andar leguas e leguas para se metter n'este
desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é
natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, _et coetera_...
O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao
dinheiro, meu amigo.
A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
Augusto, que não redarguia.
--Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de
ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas
agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.
--Eu?!
--Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o
convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o
caso, observe-o e verá se eu tenho razão.
--Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a
criada--disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.--Em
seguida irei aos seus rapazes.
--Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe
não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com
ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a
encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e
falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições.
O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por
outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo
pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu
espero.
--Se quizer fazer-me companhia...
--Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua
vontade.
Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas
voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto,
poz-se a examinar os papeis que ella continha.
Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções
e esgares dos labios.
A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto
trazia, quando o vimos no Mosteiro.
Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais
curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o,
desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo
a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.
Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si,
para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o
escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a
tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro
e encetou novas variações de trompa.
--Então já! Apre! Isso é jantar a vapor--disse o latinista, pondo-se a
pé, logo que Augusto voltou.
E momentos depois sairam juntos.
Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de
latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para
voltarmos ao Mosteiro.
Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao
parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares
vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens,
que pareciam limital-o.
D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As
creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas
vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que,
a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.
A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e
longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que
se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á
tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos
apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno
costuma dar-lhe.
Christina interrompeu o silencio por fim.
--O que eu não sei--principiou ella--é como o primo Henrique de
Souzellas...
--Onze!--atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da
perspectiva, que fitava.
--Onze quê?--perguntou Christina, erguendo os d'ella.
--Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo
silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas,
uma vez que está decidido que seja primo.
Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.
--E então que queres dizer com isso?
--Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.
--Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse
caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece
dezembro.
--Não; vae magnifico para os nabaes--replicou Magdalena zombeteiramente.
--Se não mudar com a nova lua--continuou Christina, ainda formalisada.
--É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso,
principalmente os das terras baixas.
E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.
--Não sei de que te ris!--acudiu Christina, cada vez mais séria.--Pois
não é esta a conversa de que tu gostas?
--Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.--E,
mudando repentinamente de tom, accrescentou:--Ora vamos, Christe; não te
zangues commigo.
--Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas
coisas que mettem raiva--respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
--Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo
Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.
Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
--Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle
agora; por isso...
--Pelo menos completa a duzia.
--Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.
--Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a
gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que
te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho
na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas
franquezas.
Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão
da prima.
--E não sabes a razão d'isso?--respondeu-lhe ella--a razão é o genio que
tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não
perdesse a paciencia comtigo.
--Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades
que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante!
Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se
te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E
pagas-me assim!
--És muito infeliz commigo. Pobre Lena!
--Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso
vêr assim.--E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda
certa malicia, Magdalena continuou:--Pois é verdade, dizias tu que não
sabias por que o primo Henrique de Souzellas...
Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.
--Então que é isso? Não me acceitas a expiação?--perguntou Magdalena,
sorrindo.
--Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que
te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
razões que tens para isso...
--Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam
quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!
--Eu não quero dizer...
--O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se
fala n'este assumpto.
--Que lembrança!--tornou Christina, cada vez mais embaraçada--pois
imaginas devéras que eu?...
--E por que não?
--Lena!
--Não ha nada mais natural.
--Se queres, juro-te...
--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.--Isso não, que é
mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua
consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que
ousadia ias pronunciar um juramento falso!
--Falso!
--Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres
então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo
agora que eram fundadas.
--Suspeitas! que suspeitas?...
--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.
--Lena!
--Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora.
Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do
privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella
timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma
pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até
descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me
dares a preferencia.
--Mas como imaginaste?...
--Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por
ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é
espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato
do mundo...
--Mas...
--Faça favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios.
Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por
isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem
receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço
o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.
Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse.
Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita
demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez,
suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto,
que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais
persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella
o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a
completou.
Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para
confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.
A morgadinha proseguiu:
--É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos
de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são
imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia
hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas
qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem
esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que
olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu
sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso
primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse
titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto,
Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos
olhos muitos dos seus defeitos.
--Quaes são?--perguntou Christina com viveza.
--Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda
perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu
logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que
n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um
passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este
sobrinho da tia Dorothéa te causára.
--Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas
horas? Julgo que me imaginas apaixonada?
--Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer
termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não
é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me
de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial,
por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos
medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.
--Pois o tino enganou-te.
--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr
realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais
digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não
fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso
tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa
fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em
Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz
mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em
muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude,
agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e
desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais
da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar
cair a primeira capa, para que o natural appareça.
--Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de
outra--notou Christina, sorrindo.
--Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha
annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella
suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o
verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois
o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais
sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os
inexperientes.
Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou,
olhando pela primeira vez fita para Magdalena:
--Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar
que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o
meu, que vias dependente do estudo que fazias?
A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas
recriminações.
--Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um
sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a
desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te
falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e
immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia.
Satisfaz-te esta razão?
A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára
quasi o da commoção.
Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida,
apertou as mãos da amiga.
--Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de
ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para
sempre, envenenado o coração.
A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.
--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as
nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa
que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora
tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.
Christina hesitou.
--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declaração
para me guiar... E crê que é para bem teu.
--Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.
--Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um
«agradada», por exemplo.
--Confesso que...
--Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz
muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não
corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente
coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como
se costuma dizer.
--E então qual é o teu ideal?
--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma
especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
e não sei onde o procure.
N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D.
Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o
costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo,
attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.
No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de
galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal
podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a
sua timidez não a deixava luctar.
De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de
Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos
da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova
visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua
admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma
sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á
volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas
pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos
officiaes.
Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.