Que exemplos, e que formosura!»[89]

«Acerca dos meios preventivos contra a criminalidade[90] importante

e vasto assumpto tem os mais distinctos moralistas escripto grossos

volumes, em que se discutem as divergencias, opinião sobre a

criminalidade e sobre os meios praticos que a sociedade tem a empregar

não só para punir o crime, mas tambem para o evitar, materia a que

ligeiramente nos referiremos n’este limitadissimo esboço. Um dos

mais distinctos alienistas, Maudsley, estabelece com quasi todos os

physiologistas modernos que assim como para haver uma regularidade nas

funcções dos differentes orgãos, sob o ponto de vista da organisação

physica, é necessario e indispensavel o exercicio d’esses mesmos

orgãos, principio formulado por Lamarck, assim tambem para se

desenvolver a potencia psychica da coordenação mental, é necessario

o mesmo exercicio funccional do cerebro, o que mesmo se póde chamar

_um exercicio gymnastico_ pela sua analogia com a gymnastica cujo fim

salutar consiste em operar o desenvolvimento organico do individuo, em

qualquer dos casos trata-se de aperfeiçoar orgãos que na inactividade,

como já vimos, se esterilisam, chegando mesmo a deformar-se, o que

tanto sob este ponto de vista mental, como sob o propriamente chamado

organico, tem consequencias gravissimas para a constituição social,

por isso que este atrophiamento é a origem da loucura e do crime,

e da degenerescencia physica a que tambem corresponde a decadencia

mental. A falta de exercicio muscular produz n’uma serie de gerações,

mais ou menos longa, segundo as circumstancias mesologicas, uma raça

esteril d’elementos anemicos, cheios de vicios e defeitos e por

isso incapazes para a vida, condemnados a occuparem o ultimo logar

na concorrencia vital pela sua inferioridade attestada não só pela

deficiencia de construcção, como tambem nas luctas do pensamento pela

deficiencia mental. Por outro lado a hygiene physica sem a gymnastica

mental, com quanto produza uma raça forte, está longe de produzir uma

raça perfeita, muito longe mesmo de produzir uma raça medianamente

aproveitavel e util no estado actual da sociedade; traz comsigo a

inaptidão para que o individuo aprecie em toda a sua complexidade e

com a clareza necessaria, as circumstancias que sobre si proprio

actuam por isso que lhe não é possivel subordinar os seus actos ao

imperio de uma vontade indisciplinada, pela falta d’ideias fixas sobre

as necessidades individuaes e collectivas. N’este caso a desordem

funccional é a causa, a origem immediata da loucura ou do crime,

cujos prodromos a maior parte das vezes começam a manifestarem-se no

desregramento que arrasta os futuros criminosos aos focos infectantes

e immundos. Ahi pelo contacto com individuos semelhantes e com

certas affinidades justificadas pela sua organisação a que não podem

ser superiores, acabam de se cretinisar tanto pelo abuso do alcool

como pelos prazeres vulgares, em que muitas vezes chegam tambem a

inutilisar-se outros bem conformados, ou pelo menos com predisposições

organicas para obter um logar na concorrencia da vida, e isto em

consequencia de um vicio de educação, apesar de comprehenderem, ou

terem pelo estudo, adquirido as noções coordenativas da actividade

social de cada individuo. Estes casos são todavia pouco vulgares, por

isso que, existindo uma profunda convicção scientifica tirada do estudo

methodico dos factores sociaes e da analyse dos factos succedidos,

essa convicção arrasta o individuo para o campo das investigações

philosophicas onde sobretudo se adquire uma disciplina superior,

que constitue um preservativo contra todos esses vicios sociaes.

Ha comtudo casos que não vem a proposito citar e por isso abrimos

esta excepção. Como já vimos o crime e a loucura são por assim dizer

_duas doenças_ analogas tanto no caso da sua origem ser meramente

accidental, como n’aquelle em que a incapacidade e o desregramente

se manifesta em consequencia de um vicio organico, a maior parte das

vezes hereditariamente transmittido, como o attestam innumeros casos

observados nos hospitaes de alienados, onde tantas vezes vão parar

muitos membros d’uma mesma geração, ou ainda nas prisões pela repetição

do mesmo phenomeno, para que é necessario se dirijam as attenções dos

legisladores a fim de estatuirem leis concernentes ao humanitario fim

de evitar tanto quanto possivel as causas da degenerescencia physica

e mental. Ha pois dois casos distinctos que devemos considerar em

separado apesar da intima correlação que entre elles existe e são o da

perturbação e deficiencia funccional que é susceptivel de modificar-se

com um regimen hygienico, e o da constituição propria do cerebro em

qualquer d’estes os meios a empregar são approximadamente os mesmos e

consistem em procurar n’uma educação scientificamente dirigida, o modo

de lhes desenvolver a potencia determinativa. Ha porém uma differença

entre estes casos que consiste em que sendo muitas mais vezes

impossivel obter d’um individuo defeituoso uma certa tendencia para

ser util, cumpre á sociedade empregar medidas radicaes sobre o destino

d’estes que as conveniencias geraes da maioria obrigam a sacrificar

condemnando-os ao hospital no caso d’idiotia, loucura ou monomania,

caracterisadas por um forte desarranjo das faculdades intellectuaes,

ou com o desterro quando esse mesmo desarranjo se manifesta pela

perversidade de sentimentos, isto é, por uma tendencia irresistivel

para ser prejudicial á collectividade ainda que o criminoso esteja

certo das consequencias dos actos que pratica, como muitas vezes

succede. Estabelecidas estas differenças vejamos em resumo os meios

que a sciencia aconselha como preventivos e que em um futuro não muito

remoto, hão-de ter produzido resultados satisfatorios, se os poderes

publicos dos estados mais civilisados se resolverem a attender a esta

questão a que está affecto o bem-estar social, como necessariamente hão

de ser obrigados pelas exigencias progressivamente accentuadas pela

corrente scientifica que actualmente se dirige em todos os sentidos. E

isto apesar das graves difficuldades do problema para cuja solução, a

par d’uma grande liberdade cujas garantias estão estabelecidas por este

mesmo desenvolvimento scientifico, é necessario mais estabelecerem-se

certas e determinadas restricções tendentes a impedir a degenerescencia

organica e mental pelos cruzamentos indevidos. Prende-se tambem com

este problema a momentosa questão economica que exige ainda muito

trabalho dos philosophos para que se cheguem a estabelecer e a fazer

comprehender no publico um certo numero de doutrinas já debatidas e

aceitas, contra que ainda se levantam graves attrictos apesar de se

não poder conseguir por emquanto a sua resolução definitiva para o que

o maior trabalho ainda está por fazer e nem mesmo se sabe quando se

fará. Leibnitz escreveu «dae-nos educação e nós mudaremos em menos d’um

seculo a face da Europa.» Na primeira linha dos meios preventivos a

que nos temos referido depara-se logo com a _Educação_. É este o mais

pratico, o mais efficaz e o primeiro a empregar, por isso mesmo que é

principio assente de que só por meio d’uma instrucção publica ampla

e obrigatoria, racional e methodica, junta a uma educação dirigida

segundo as necessidades contemporaes se póde obter a revivescencia

da actividade popular, isto é, a sua preparação para a vida social,

livremente dos actuaes preconceitos e contingencias, que são como que

uma negativa da civilisação. Já Leibnitz dizia que quem reformasse a

educação, reformaria tambem o genero humano, e o sabio Spencer no seu

livro sobre este assumpto a que dedica o maximo interesse diz que o seu

fim é preparar o individuo para a vida completa. Em poucas palavras

traçou este philosopho o fim da educação moral, intellectual e physica

até hoje crivada de preconceitos estereis que lhe transtornam a acção,

que chegam mesmo a esterilisar as intelligencias nascentes opprimidas

pelo jugo terrivel de uma direcção anarchica. Não procura acompanhar

o desenvolvimento das faculdades intellectuaes, partindo do mais

concreto para o mais abstracto, seguindo o processo do desenvolvimento

do espirito humano, de cuja marcha o desenvolvimento individual é como

que uma momentanea repetição das differentes phases que atravessou

durante os longos periodos da vida. É como diz também Espinas[91]

«mudando as idéas que se mudarão as instituições e os costumes, sendo

portanto a educação o instrumento da reconstituição social». Mas

para que este meio preventivo de todas as calamidades sociaes dê os

resultados satisfatorios que os philosophos lhe attribuem é necessario

mais que proclamar o ensino obrigatorio de que resulta simplesmente o

ensino da leitura e da escripta. É necessario mais do que instituir

escolas por toda a parte, regidas por professores pouco instruidos

que não podem ultrapassar os limites de um ensino esterilisador...

Devendo a educação ter um caracter scientifico, exclusivamente

scientifico e obedecer nas suas regras a leis determinadas pelo estudo

physio-psychologico do individuo, nós vemos que realmente a escola

primaria, em que reside o futuro das sociedades, não satisfaz ao fim

que é destinada. Limita-se exclusivamente a ensinar materialmente as

creanças a ler e escrever, atrophiando-lhes as faculdades intellectuaes

pelo abuso da fixação absurda de certos conhecimentos superiores que

desenvolvendo a memoria, condemnam o desenvolvimento do raciocinio.

E ante este estado da instrucção publica, parece ser este o seu fim

principal e não preparar cidadãos uteis e prestantes. Ainda as classes

dirigentes não chegaram a comprehender que a sciencia e a verdadeira

interpretação do dever social, é a mais solida disciplina em que póde

assentar a solidariedade por isso que, como diz Espinas, a sciencia é

o patrimonio commum da humanidade por toda a parte onde se encontram

sufficientes luzes. Ella bastará com a arte porque a imaginação

encontra mais abundantes recursos nas suas grandiosas concepções, que

nas invenções mesquinhas da fabula. Bastará não menos á industria

que em todos os tempos tem sido a sua obra, e mais, ella chegará a

organisar os differentes elementos de producção prevenindo as soluções

artificiaes e revolucionarias; chegará a estabelecer a harmonia entre

o capital e o trabalho. Desenvolver por todos os meios a educação

imprimindo-lhe um caracter verdadeiramente concorde com as aspirações

hodiernas dos grandes philosophos, que por meio da investigação e da

experiencia têem descoberto as leis do desenvolvimento humano tanto sob

o ponto de vista physiogenetico como anthropogenetico, eis a primeira

necessidade de todos os organismos sociaes empenhados em estabelecer

o bem-estar geral. É este um trabalho complexo enormemente grandioso

quando comparado sob todos os seus aspectos de prosperidade social,

e que se prende não só com a familia onde a creança recebe não só as

predisposições organicas e as primeiras sensações, as primeiras idéas

cujos vestigios quasi sempre se manifestam atravez de todos os periodos

da nossa existencia. Para terminarmos sobre este ponto essencialissimo

de prevenção do crime e da loucura, citaremos a opinião de Maudsley

que diz: «Abstraindo do dever positivo de todo o homem em adquirir

a mais completa intelligencia, e estabelecer relações com o meio

ambiente, a fim de tirar d’elle o melhor partido em proveito do seu

desenvolvimento pessoal, o estudo e a pratica das sciencias naturaes,

constitue a gymnastica a mais favoravel ás faculdades intellectuaes.

Nenhum outro estudo póde no mesmo grau ensinar a observar com maior

exactidão e a raciocinar com melhor criterio»[92]. A melhor garantia

d’uma clara percepção, d’um sentimento justo, d’um entendimento

vigoroso e d’uma vontade intelligente, em qualquer circumstancia da

vida, é o habito contrahido nas circumstancias procedentes d’uma

percepção sã, d’um sentimento justo, d’um entendimento vigoroso e

d’uma vontade intelligente; por outros termos, é o desenvolvimento

completo da natureza intellectual e moral. Na maioria dos homens,

diz ainda Maudsley, a formação de caracter qualquer que seja, é o

resultado do acaso e nunca o effeito da premeditação; é o producto

accidental da disciplina e da educação que o individuo recebe. Este

facto presenceia-se a todos os momentos, entre esses individuos que

por circumstancias fortuitas são educados n’um meio corrupto, ou mesmo

ainda entre aquelles que prematuramente são pela sociedade arremessados

para essas escolas de desmoralisação chamadas as prisões, onde muitas

vezes se estiolam intelligencias aproveitaveis e espiritos susceptiveis

de receberem uma orientação util, se se não votasse o maior despreso

a esta serie de miserias sociaes que são uma affirmativa do estado de

rudimentos da nossa civilisação. Quanto mais estudamos a criminalidade

e vemos os meios preventivos, alguns de grande facilidade no seu

emprego, tanto mais nos convencemos como Quetelet de que exactamente

essa sociedade que tanto odio vota aos criminosos é a unica responsavel

por actos detestaveis e ainda mais pela perda d’um grande numero dos

individuos que os praticam. Onde ella vê criminosos perigosissimos

para quem o desterro se póde applicar, teria cidadãos uteis se tivesse

tratado de os formar. A educação, dissemos, é o grande meio preventivo

contra a criminalidade, mas ainda não é tudo e ha mesmo outras medidas

concernentes ao mesmo fim que é necessario empregarem-se.»

A educação carece d’uma actividade constante na vida exterior, que

forneça elementos de elaboração á vida psychologica, directa ou

automatica. A sensibilidade, a intelligencia, a vontade modificam-se

inconscientemente pelo trabalho educativo. O pensamento na phase

psychogenica é essencialmente receptivo, alimenta-se das circumstancias

que o rodeiam. Existe, é verdade, congenitamente um peculio de força

psychica, proveniente da mesma natureza humana e da hereditariedade,

mas a energia da educação póde imprimir a essa força, quasi no estado

nascente, certa linha directriz. É por isso que o eminente psychologo

contemporaneo Bernard Perez, faz nos seus interessantes estudos a

alliança da psychologia infantil com a pedagogia. A educação criminal

nas prisões para adultos, é já apenas um remedio, quando no lar deve

ser um alimento vivificante.

O distincto psychologo a que acima nos referimos, escreve:

«O mêdo é um dos sentimentos que mais se oppõem ao bem estar physico

e moral da creança, e, conseguintemente, ao seu desenvolvimento

intellectual. É um instincto innato que pela perturbação geral do

organismo, pela rapidez da circulação e respiração reage, mesmo

inconscientemente, contra um mal presente ou proximo. Corresponde

a um consideravel affluxo de sangue para os centros nervosos, aos

quaes desperta e prepara logo para a lucta, para o ataque ou defeza.

É hereditario nas suas manifestações geraes; apparece geralmente

durante o somno, reagindo por tal modo contra o perigo imminente.

Muitos physiologistas e psychologos consideram-n’o como que hereditario

nas suas differentes especies, taes como o mêdo das impressões

bruscas, intensas e insolitas, o receio de certos animaes, o pavôr

da escuridão e da solidão, e até o proprio mêdo da morte. Haja porém

o que houver ácerca de taes affirmações, que por mais d’uma vez tive

occasião de discutir, certo é que alguns sustos especiaes, como mêdo

dos cães, dos ursos, dos elephantes, das serpentes, precizam, para

reproduzir-se no herdeiro das gerações antigas, que se dê a repetição

frequente das causas que outr’ora os produziram. Se esses objectos

não se apresentam na primeira edade, a predisposição hereditaria

poderá não manifestar-se, ou demorar-se a sua manifestação. Mais

tarde encontrariam no ser já desenvolvido, formado, aguerrido, mais

obstaculos para produzir os seus effeitos.

Coragem e mêdo são sentimentos por egual innatos. A mãe parece

grandemente apta, em virtude dos effeitos duraveis da incubação

physica e moral, para transmittir o instincto da coragem ou do mêdo.

É porém, especialmente, pela incubação artificial da creança, que as

mães medrosas ou corajosas, produzem, como se tem dito, filhos que se

lhes assimilham. O mêdo é uma susceptibilidade enferma, que attinge

os filhos de paes pouco sãos de corpo e de espirito, mas em diversos

graus e todos na proporção da sua fraqueza. Nos primeiros tempos,

especialmente, a cura d’uma tal nevrose depende quasi totalmente do

regimen e da hygiene. Uma prova do facto é que os homens mais senhores

de si tornam-se algumas vezes sensiveis e timoratos como creanças,

quando a doença os debilita. E de mais, não esqueçamos que se o mêdo

nasce da fraqueza, esta origina aquelle. «Isso constitue, diz Mosso,

um circulo fatal nas funcções do organismo... A excitação do systema

nervoso predispõe o individuo para o mêdo, o qual actuando por seu

turno sobre a excitabilidade augmenta-a indefinidamente[93].»

Locke e Rousseau escreveram bellissimas e sensatissimas paginas

sobre a necessidade de ir habituando progressivamente a creança a

não temer demasiado o perigo verdadeiro, e sobretudo a temer o menos

possivel o perigo afastado. Locke dá-nos até um conselho precioso a

respeito da creancinha. «É conveniente afastar da vista da creancinha

de peito tudo quanto possa assustal-a; porque até que ella possa

fallar e comprehender o que se lhe diz, seria inutil apresentar-lhe

razões para a convencer de que não tem nada a temer da parte d’essas

cousas assustadoras, que nós quereriamos tornar-lhe familiares

approximando-lh’as cada vez mais n’uma gradação insensivel. Mas,

se, não obstante, acontece que uma creancinha ainda de peito se

sensibilisa ao ver cousas que não podem commodamente furtar-se-lhe

á sua apreciação, e que manifesta repugnancia sempre que ellas lhe

apparecem á vista, é preciso n’esse caso empregar todos os meios

para lhe diminuir esse mêdo, desviando-lhe o pensamento d’esses

objectos, ou juntando-lhes imagens graciosas e agradaveis, até que

se lhe tornem tão familiares que a não incommodem[94].» Na edade dos

dois ou tres annos notam-se na creança umas certas aprehensões, a

proposito da côr ou da fórma dos objectos que não conhece ou cujas

analogias lhe não são muito familiares. Creio que é preciso, já o

disse n’outro logar, uma como especie de transformação imaginativa

das experiencias pessoaes n’essas vagas aprehensões do mal que podem

causar lhe esses objectos desconhecidos. Seja qual fôr a origem d’essas

antipathias ou d’esses sustos, que se não explicam, o que mais nos

deve aqui importar, é a faculdade de desapparecerem após repetidas

experiencias que tornaram familiares ás creanças os objectos que a

principio lhes eram terriveis. Locke e Rousseau deram a proposito da

cura d’esta especie de receio conselhos quasi similhantes, alguns

dos quaes podem mui bem seguir-se na educação da creança. «O vosso

filho, diz Locke, estremece e foge ao ver uma rã: mandae a uma outra

pessoa que pegue n’ella, e determinae-lhe que a colloque a distancia.

Acostumae-o primeiro a encaral-a, e quando elle puder fital-a sem

constrangimento, a consentil-a mais perto do si, a vel-a saltar sem se

impressionar; depois mandae que lhe toque ao de leve, em quanto alguem

a segura com as mãos; continuando assim gradualmente a tornar-lhe

familiar o animal, de modo que elle possa tocar-lhe como toca n’uma

borboleta ou n’um passaro. Assim se procurará disciplinar este

juvenil soldado...[95]» Rousseau desenvolve mais minuciosamente este

preceito: «Quero que o habituemos a ver objectos novos, animaes feios,

repugnantes, extravagantes, mas a pouco e pouco, de longe, até que se

acostume, e que á força de ver os outros mecherem-lhe, elle mesmo lhes

mecha. Se, em creança, viu sem temor sapos, cobras, lagostas, verá

sem horror, quando fôr maior, qualquer outro animal. A impressão dos

objectos horrorosos desapparece para quem se habitua a vêl-os.» Assim

a creança habitua-se a não se assustar das mascaras e a rir d’ellas,

quando outras pessoas as põem na cara á sua vista. Acostuma-se tambem

aos tiros de espingarda, bombas, tiros de peça, e mais terriveis

detonações, se se começa por se queimar uma simples escorva e se passa

a mais fortes cargas. Depressa se acostumam tambem a ver pessoas

vestidas de preto que lhe fallam com meiguice, ás caras estranhas, ás

vozes estrondosas ou cavernosas, que a principio tanto a assustavam.

Estes processos, d’uma facil applicação, preparam as transições, o

que é essencial em materia d’educação. Convém porém evitar o excesso,

e, por exemplo, não familiarisar a creança com o perigo ficticio a

ponto de a entregar sem defesa ao verdadeiro perigo. Muitas vezes a

valentia da creança é simplesmente ignorancia ou falta d’imaginação.

Devemos saber e prever por ella. Que se mostrem todos esses horrores

zoologicos á creança, mas na sua presença mexa-se-lhes com todas as

cautellas. Deve saber que um sapo é immundo, uma serpente venenosa, uma

lagosta picante, e como deve usar-se para lhes pegar ou approximar-se

d’elles. Quando tem dois annos podem explicar-se-lhe estas cousas, mas

de sorriso nos labios, e nunca manifestando um receio muito serio. É

preciso disciplinar mas não supprimir este util instincto o do receio.

Desde os tres annos e mesmo ainda antes, uma creança bem educada póde

comprehender por ver os seus educadores, que se póde ser valente sem

temeridade, e prudente sem fraqueza. Os nossos leitores poderão ler no

_Emilio_ as mais interessantes paginas que se teem escripto a respeito

dos meios de corrigir o mêdo das trevas, Darwin julga-o hereditario,

e Rousseau, julga-o natural em todos os homens; e em certos animaes,

dá-se, segundo Buffon, uma explicação scientifica do caso. Este tão

commum espanto não deve attribuir-se só ás historias das amas; os

phantasmas da escuridão não nos estão apenas na imaginação, mas tambem

d’algum modo nos olhos. Levados naturalmente a julgar dos objectos

segundo a grandeza da imagem que formam em nossos olhos, nós povoamos

a meia escuridão da noite de figuras gigantescas, ou medonhas, em

virtude d’aquella illusão que em certos casos nos levará a tomar uma

mosca que passa junto de nós por um passaro que estivesse a grande

distancia. Os objectos assim transformados espantam como tudo o que

se desconhece ou não vê bem. «É tambem muito provavel que a ausencia

d’impressões visuaes concorra para augmentar outras sensações,

especialmente a audição e o tacto, como é facil de experimentar

observando as proprias sensações em condições identicas[96]» Ajunte-se

a esta causa natural do erro a influencia dos contos phantasticos,

e a imaginação trabalhará do mais deploravel modo. As impressões

penosas, os maus tratos, uma sensibilidade doentia, predispõem para

o susto. Este genero de fraqueza, tão funesto á creança, tem causas

immediatas, que são mais faceis de prevenir do que as remotas, seriam

de eliminar. O mêdo de que fallamos é sobretudo devido á educação. Se

os selvagens, segundo narrativas de certos viajantes, teem algumas

vezes medo das trevas, é porque a sua imaginação supersticiosa as povôa

de espiritos invisiveis. O animal não tem mêdo das trevas, por causa

das proprias trevas. Conheci creanças que por um effeito evidente de

educação não manifestavam tal fraqueza. O meu sobrinho Carlos, assim

como o seu irmão Fernando, nunca mostraram mêdo da escuridão. Todavia

Fernando chora quando o deixam só ás escuras, e Carlos pede muitas

vezes á ama para lhe alumiar na escada. Será mêdo? Não é. Fernando

chora porque se julga abandonado, porque já não vê a mãe, como chora

de dia, quando ella sóbe sem esperar por elle, e como fica a gritar

na escada quando ella parte. Carlos tambem fazia assim n’outro tempo.

Este faz-se alumiar, porque só assim vê para andar, e para dirigir-se

melhor. Fernando chora algumas vezes na cama quando o vão deitar e

deixam só. Carlos hoje já não chora, e adormece logo, não se importando

para nada com a escuridão. Um e outro sahem sós da casa de jantar para

atravessarem o corredor ou irem para a cosinha. Quando foram escriptas

estas linhas, o mais velho tinha sete annos, o outro quasi cinco.

Nada vejo que haja a accrescentar aos excellentes preceitos de

Rousseau, com respeito ao mêdo da escuridão e do que elle póde ter

de hereditario, e de mais ou menos espalhado na nossa especie. Elle

aconselha muitos brinquedos de noite, e especialmente brinquedos

alegres, de modo que a creança se acostume a estar ás escuras, a

servir-se das mãos e dos pés tateando os objectos que não vê. Mas não

é «com surprezas» que devem «acostumar-se as creanças a não terem, de

noite, susto de cousa alguma. Este methodo é contraproducente, dá um

resultado inteiramente contrario ao que se deseja, e serve só para as

tornar mais medrosas. Não podem a razão nem o habito socegar-nos o

espirito com respeito á idéa d’um perigo presente de que se não conhece

o grau ou a especie, nem ainda com respeito ao receio de surprezas

tantas vezes experimentadas[97].» Em caso nenhum, convém brincar com o

medo presente d’uma creança. Creio até que, passado o susto, o habito

dos exercicios proprios a darem-lhe serenidade actuariam melhor no seu

amor proprio para o corrigir d’essa enfermidade do que a zombaria.

O inverno é propicio para isso; aproveitemol-o; disponhamos os seus

prazeres para as horas da noite. Ensinemos-lhe a reconhecer por si

mesma os objectos que a escuridão nos faz tomar por muito differentes

do que são. Approximemo-nos de todos que passarem ao nosso alcance, e

prolonguemos á vontade a conversação, permitindo á creança que fique

junto de nós ou que se afaste, nada perdendo das suas impressões.

Façamos que naturalmente se habitue aos mil pequenos rumores que se

ouvem particularmente de noite, e que saiba rindo e sem o esquecer,

que as cousas só para os ignorantes são mysteriosas; que os phantasmas

outra cousa não são mais do que a obra do medo que perturba a

imaginação, ou dos maus farcistas que por mais d’uma vez tem pagado

caro a sua phantasia[98]. Quanto á creança de berço que está quasi

inteiramente á mercê das influencias hereditarias, deveria habituar-se

a dormir com e sem luz, a ouvir fallar, a sentir-se amimada, a ouvir

ralhar-se-lhe, ora de perto, ora de longe, a escutar na escuridão

todas as especies de rumores, a ver a luz e os objectos apparecerem e

desapparecerem repentinamente. São optimas precauções para tomar antes

da epocha em que as primeiras experiencias das coisas, e o perigo

quasi inevitavel dos contos absurdos, hão de começar a desenvolver o

instincto innato do susto. Até á idade de quatro ou cinco annos, a

creança tem apenas uma idéa muito vaga da morte: não póde portanto

causar-lhe mêdo ou horror. Ella assimilhar-se-ia por isso á maior parte

dos animaes superiores, porque não está provado, como o disse Caro,

que estes tenham uma concepção similhante á do homem adulto. Quando

muito teem o vago instincto d’um perigo supremo, que excede todos os

conhecidos[99].» O argumento tirado dos cães que gemem e se deixam

morrer de fome sobre o tumulo do dono não é absolutamente decisivo:

a tristeza de ver-se privado d’um dono affeiçoado póde produzir esta

prostração das forças physicas e moraes terminando pela impossibilidade

de viver. O suicidio das creanças provaria muito mais, e sabe-se que

não é elle rarissimo nas creanças muito infelizes, muito susceptiveis,

d’uma sensibilidade doentia. De resto, esta mania nunca affecta

creanças de menos de seis annos. Foi com certeza n’uma epocha posterior

que se deu o seguinte facto. «Eu conheço o caso d’uma creança que por

tal modo se tinha impressionado com o mêdo da morte que não dormia de

noite; não era isto effeito de descripções horrorosas da morte que

lhe tivessem incutido, mas o resultado das suas proprias reflexões

sobre o assumpto[100].» Devia haver alguma cousa de anormal n’aquella

tenra cabeça e nas condições exteriores do seu desenvolvimento

moral. Certo é que a creança tem uma qualquer idéa da morte. Como é

impossivel que ella não oiça fallar d’esse grande pavor dos adultos,

convém familiarisal-a com o caso e apresentar-lh’o só sob a fórma

d’um repouso eterno ou d’um somno tranquillo. Póde, por exemplo,

apresentarem-se-lhe animaes mortos, como fizeram ao filho de Taine.

«Ante-hontem o jardineiro matou uma pêga que dependurou por uma perna

do esgalho d’uma arvore, em ar de espantalho; disseram-lhe que a pêga

estava morta, ella quiz vêl-a.--Que é que faz a pêga?--Não faz nada, já

não meche, está morta.--Ah!--Pela primeira vez a idéa da immobilidade

final entra em seu espirito.» Poucas creanças, é certo, se assimilham

a esta menina, a quem uma resposta satisfaz, e que tem apenas um ah!

para replicar. Aquelle ah! aquella interjeição ali posta como fecho de

objecção não é d’uma creança, ou a menina do que falla Taine era dotada

d’uma imaginação muito pacifica. E de mais, assim é que se deve fallar

da morte a uma creança.

Quando uma creança está de saude não ha inconveniente, a meu ver, em

lhe mostrar pessoas mortas ou ossadas humanas. A pallidez e a rigidez

cadaverica, e com mais forte razão os restos osseos não teem nada de

pavoroso. Uma creança de tres annos fallava da morte como d’um estado

em que já se não soffre do estomago nem da cabeça; de noite fallava dos

parentes mortos, como de qualquer outra coisa. É porque seu pae, sabio

livre de prejuizos, mostrava-lhe diversas vezes animaes ou pessoas

mortas, dizendo-lhe: «Vê lá, quando se está morto, não se meche, não

se falla, não se ouve e não se vê nada; é como uma arvore, uma pedra,

uma cadeira, uma meza; não se move perna ou braço, não se sente bem ou

mal, não se precisa comer nem beber.» Estas imagens e estas explicações

haviam dado á creança uma idéa assaz justa, assaz desassombrada da

morte. Perguntou um dia para que se mettiam os mortos n’uma grande

caixa e se levavam para muito longe: o pae não lhe respondeu nada

mais senão que se levavam para o cemiterio, e que iria com elle

visital-o. Levou-o lá effectivamente, no dia seguinte; approximou-se

d’uma cova aberta de fresco e disse-lhe:--«Vês aquelle buraco, é ali

que se depositam a caixa e o morto, para sempre; cobrem-se com terra

porque os mortos apodrecem como a fructa ou a carne, e cheirariam

muito mal.» Fel-o depois reparar n’alguns ossos desenterrados pela

enxada do coveiro; mecheu sem dizer nada n’uma tibia, n’uma vertebra,

n’um craneo; a creança fez logo o mesmo. Ás perguntas seguiram-se as

perguntas. O pae respondia-lhe simplesmente. «Quando se está morto e

corrupto, tornamo-nos bocados do ossos.--Succeder-me-ha o mesmo a mim

quando eu morrer?--Sim, e a mim tambem e a tua mãe. Mas, meu filho, não

havemos de morrer ámanhã, nem depois de ámanhã, nem por muito tempo

ainda.--Ha de chorar muito quando eu morrer?--Oh! não morrerás antes

de mim, assim o espero. Não se sabe quando se ha de morrer.--E porque

choraria, diga?--Porque te amo, e desejaria viver sempre comtigo. De

resto, quando se está morto, não se é desgraçado, pelo contrario, não

mais se soffre. Somos ossos mettidos na terra. Vamo-nos embora.» A

creança pegou na mão do pae, mas largou-a logo para seguir rindo, uma

borboleta que acabava de voar d’uns arbustos. O insecto levou mais

longe o seu vôo, e a creança voltou logo a dizer ao pae: «Havemos de

voltar aqui, sim, papá?» Se esta creança tivesse ouvido alguma tola

ama fallar com seriedade de phantasmas, de lobis-homens, a scena que

reproduzimos deixal-a ia tão tranquilla? É assim que se consegue, sem

empregar equivocos ou uma falsa sentimentalidade, mostrar á creança

a verdade que póde comprehender. «Um remedio directo para um temor

particular, disse a judiciosa madame Necker de Saussure, é substituir

pela presença do objecto temido a idéa que se formava d’elle. Não

figuramos aquillo que vemos, e a realidade por mais desagradavel e

ingrata que seja produz um effeito calmante nos sentidos. Este meio,

podendo praticar-se, é efficacissimo, mas devemos servir-nos d’elle

cautellosamente.»[101]

O nosso codigo penal abrange nas circumstancias dirimentes da

responsabilidade criminal, a falta da imputabilidade e a justificação

do facto, e julga não susceptiveis de imputação os menores de 10

annos e os loucos que não tiverem intervallos lucidos, ou os loucos

que, embora tenham intervallos lucidos, praticarem o facto no estado

de loucura. O nosso codigo penal previu claramente as hypotheses

acceitaveis da escola anthropologica quando affirma que os loucos que,

praticando o facto, forem isentos de responsabilidade criminal, serão

entregues á sua familia para os guardarem ou recolhidos em hospitaes de

alienados, se a mania fôr criminosa ou se o seu estado o exigir para

maior segurança. Entende egualmente que os menores, que, praticando

o facto forem isentos de responsabilidade criminal por não terem 10

annos ou por terem obrado sem discernimento sendo maiores de 10 annos

e menos de 14, serão entregues a seus paes ou tutores, ou a qualquer

estabelecimento de correcção ou colonia penitenciaria se a houver no

continente. É obvio que n’esta legislação criminal está assignalada a

idéa de hospitaes de alienados para os perigosos á ordem publica e a

idéa de estabelecimento de casas de correcção. O fundamento do direito

de punir no codigo penal portuguez é a responsabilidade criminal que

consiste, segundo, a sua bella definição no dever em reparar o damno

causado na ordem moral da sociedade, cumprindo a pena estabelecida na

lei, e applicada pelo tribunal competente.

A responsabilidade criminal é ainda aggravada ou attenuada quando

concorrem no crime, ou no agente d’elle, circumstancias attenuantes

ou aggravantes e dada a aggravação da pena. O alcoolismo é, perante

o nosso codigo penal muitas vezes um crime, outras vezes uma

circumstancia attenuante e nunca uma circumstancias dirimente. O artigo

40 diz o seguinte: a privação voluntaria e accidental do exercicio da

intelligencia e inclusivamente a embriaguez voluntaria e completa no

momento da perpetração do facto punivel, não dirime a responsabilidade

criminal, apezar de não ter sido adquirida no proposito do perpetrar,

mas constitue circumstancia attenuante de natureza especial, quando

signifique alguns dos seguintes casos: 1.ᵒ ser a privação ou a

embriaguez completa e imprevista, seja ou não posterior ao projecto

do crime; 2.ᵒ ser completa e procurada sem proposito criminoso e não

posterior ao projecto do crime. Em qualquer dos casos a isenção de

responsabilidade criminal não envolve a responsabilidade civil, quando

esta se dê. Todo o nosso direito criminal tem por base a intenção,

visto que são puniveis não só o crime consumado, mas tambem frustrado

e a tentativa, assim o artigo 6.ᵒ diz que ha crime frustrado quando o

agente pratica com intenção todos os actos de execução que deveriam

produzir-se, como resultado do crime consummado, e todavia não se

produzem por circumstancias independentes da sua vontade. Egualmente,

ainda que a tentativa não seja punivel os actos que entram na sua

constituição são puniveis, se forem classificados como crimes pela lei

ou como contravenções por lei ou regulamento. É evidente que todos

estes principios se applicam a todos os agentes do crime nas suas

differentes condições, quer sejam auctores, cumplices ou encobridores.

É erro corrente da escola italiana suppor que o caracter do

delinquente, resulta apenas de uma fatal causalidade organica. Ainda

porém ultimamente um illustre psychologo francez, Fr. Paulhan, publicou

um vasto livro[102] no qual fez, segundo o seu ponto de vista, uma

analyse profunda das fórmas da actividade mental e dos elementos

psychicos tendo por fim demonstrar que o espirito é a resultante d’uma

synthese de productos sociaes, formada sobre uma synthese de productos

organicos. Estudando os elementos psychicos, reconhece que ha uma

actividade propria, relativamente independente, analoga á dos homens,

das familias e dos partidos, que constituem uma sociedade, estando

porém tudo unificado por uma lei principal, que é a lei da finalidade.

Paulhan, fazendo o estudo da personalidade psychologica, indaga como

as sensações e as percepções são systemas de elementos, como as

ideias são systemas de elementos tirados de numerosas percepções, as

tendencias são associações coordenadas de ideias, de percepções reaes

ou possiveis, de imagens motrizes, de elementos reaes, associando-se

progressivamente a systemas cada vez mais vastos. Cada traço de

caracter resulta da coordenação, segundo dada maneira, de um certo

numero de tendencias. A avareza, por exemplo, é uma systematisação n’um

sentido muito determinado d’estas tendencias, que fazem trabalhar para

ganhar dinheiro, fazendo sacrificios de toda a especie. A personalidade

póde ser modificada por uma d’estas tendencias, que fazem do agente um

heroe ou um criminoso, e a sua formação póde ter uma origem hereditaria

ou adquirida.

A mór parte das qualidades do nosso caracter vem do habito. Ha quem

diga, por exemplo, que o medico alienista vê facilmente em todo o

delinquente um louco, impellido pelo habito de lidar com loucos.

Egualmente se affirma que os juizes habituados a lidar com criminosos,

estão sempre dispostos a ver em cada accusado um criminoso. De facto o

juiz adquire na pratica do seu officio um caracter insensivel e duro.

Desde os legistas dos fins da idade média até ao seculo XVIII, todos os

tribunaes da Europa adoptaram a tortura como processo de julgamento. O

juiz, levado por uma simples denuncia, sujeitava o infeliz accusado,

muitas vezes era um innocente, aos _tratos pela agua_, _pela apoleação_

ou pelos _borzeguins_. Jámais, como Alexandre Magno, o juiz _guardava

um ouvido para o accusado_. Debalde o reu no supplicio podia exorar:

_appello para Philippe em jejum_.

É um aphorismo em psychologia, que a intensidade dos phenomenos

sensiveis, dolorosos ou agradaveis diminue com o habito, em quanto os

phenomenos da intelligencia se avigoram e fortalecem.

Escreve o grande jurisconsulto Charles Comte: «... no estado actual dos

nossos conhecimentos, é impossível determinar as differenças essenciaes

que existem entre as diversas especies de homens, relativamente ás

suas faculdades intellectuaes e moraes; um systema que explique todas

as differenças que se observam entre as nações, por uma differença nas

faculdades intellectuaes, não é mais conforme á verdade que aquelle

que explica todos os phenomenos physicos, moraes e intellectuaes pela

temperatura da atmosphera, se existisse alguma differença em a natureza

das diversas especies, essas differenças podem ser comparadas por um

grande numero de circumstancias, de sorte que o povo, que por sua

natureza fosse menos susceptivel de desenvolvimento, poderia comtudo

estar mais desenvolvido que aquelle que fosse melhor organisado, mas

que estivesse collocado em circumstancias mais favoraveis.[103]»

Os crimes que resultam da transgressão de leis positivas das

sociedades, estão diminuindo constantemente com o progresso

intellectual, como por exemplo, muitos dos delictos de religião, os

quaes vão desapparecendo com o incremento do sentimento do tolerancia

e de respeito pela consciencia individual; igualmente os crimes de

contrabando, que, com os largos principios economicos da abolição

das barreiras e sumiço de outros estorvos que impedem a liberdade

de commercio, tendem a ser considerados n’um futuro mais ou menos

longinquo actos legitimos. Não succede o mesmo com os crimes que violam

os principios moraes, como os ataques contra a propriedade, contra as

pessoas e contra o pudor, os quaes constituem a grande fraqueza moral

ou estado pathologico da nossa natureza.

O congresso de anthropologia criminal, realisado na epoca da exposição

em Paris, deixou, por parte dos francezes e dos allemães, habilmente

ferida a escola anthropologica juridica italiana. O egregio professor

Cesar Lombroso, que pontifica na universidade de Turim, encontrou na

_dieta_ anthropologico-criminal de Paris, muitos protestantes que lhe

demonstraram a phantasia dos mais queridos dogmas da escola penal

positiva. Benedikt, Manouvrier, Tarde, etc., pozeram bem em evidencia,

a qual não póde negar-se, que devem existir disposições organicas para

o crime, como devem existir para o genio, mas o que de modo nenhum póde

scientificamente affirmar-se, como quer a escola de Lombroso, é que

essas disposições organicas sejam reveladas por caracteres anatomicos.

Em todo o decurso d’este nosso trabalho, elaborado antes do congresso

de Paris, combatemos com sincera convicção esta peregrina escola.

A doutrina que nós ardentemente temos defendido com referencia ao

crime:--educação moral, religiosa, intellectual, artistica, physica,

economica, profissional, acha-se até certo ponto comprehendida na

interessante communicação sobre _anthropologia juridica e criminal_,

ultimamente apresentada ao congresso pelo dr. Manouvrier, sob o nome de

anthropotechnia, isto é, o conjuncto das artes que teem por fim dirigir

o homem--medicina, hygiene, moral, educação, direito e politica. Com

este fim é que effectivamente o criminoso deve ser estudado, e sob este

aspecto é que elle deve ser praticamente combatido.

Cada escola pedagogica ou correccionalista inventa um remedio para

combater o crime. Para uns é educação moral, para outros religiosa,

para muitos intellectual e profissional. Quasi todas as theorias são

exclusivistas. Nós hasteamos humildemente o nosso pendão, affirmando

que as diversas fórmas educativas não se hostilisam nem se refutam,

partindo de diversas origens, estabelecem a harmonia e chegam ao mesmo

fim--a elevação da especie humana.

Pela educação moral adquirimos a noção clara do dever; pela educação

religiosa elevamo-nos á idéa sublime do perfeito, pela educação

artistica sentimos penetrar em nossa alma os encantos do bello, pela

educação intellectual tomamos posse dos dominios da verdade; pela

educação physica conquistamos o dom precioso da robustez e da saude;

pela educação economica aprendemos a ser felizes, dispendendo só o

capital sufficiente e sempre menos do que o que produzimos; pela

educação profissional preparamos as nossas faculdades para crear o que

é util no meio social em que vivemos.

A cultura harmonica d’estes multiplices aspectos da vida humana, se

não conseguir fazer de cada individuo uma actividade equilibrada,

despertará uma vocação que redima o ser pelas suas fecundas

manifestações.

Os homens de faculdades especulativas viveriam tranquillos pela

sciencia, e enlevados pela verdade; os homens de imaginação viveriam

contentes pela arte e pela litteratura; os homens de acção viveriam

satisfeitos pelas emprezas guerreiras, especulações industriaes, ou

intrigas politicas.

A desordem na educação nacional desenfreou a ambição e a cubiça e poz a

descoberto todas as miserias humanas. Na vida externa lida-se pela sede

da riqueza, na vida intima trabalha-se pelo repouso egoista.

São tristes os dias que atravessamos, pela indifferença e pelo

scepticismo, que se apossou da consciencia social. Que valor moral tem

hoje para muitos o sentimento da abnegação, a elevada crença christã ou

os principios de justiça, que foram o nó vital dos grandiosos dramas da

historia? Nenhum, isso é uma ingenuidade de que os espiritos enervados

e os modernos utilitarios se riem.

Esta descrença, este desprezo pelos grandes principios que outr’ora

exaltavam as almas, tornou hoje a sociedade egoista, e a imprensa

propaga diariamente estas ideas, que calam em geral, porque a cubiça

e o interesse tomou logar soberano entre as consciencias faceis. A

dolorida reflexão e a anciosa indagação, sobre a vida contemporanea,

exprimem na alma dos que teem ainda fé n’alguma cousa superior, um

intenso desconsolo, que só póde encontrar lenitivo no mais candidamente

humano e divinamente grandioso dos sentimentos--a esperança.

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 28 / 32 题