D. ANTONIO DA COSTA.

Das medidas prophylaticas contra o crime, com o fito na innocuidade

dos delinquentes, aquella de que ha mais a esperar, é sem duvida da

educação. Se as inclinações para o crime são devidas á idiosyncrasia

ou a lesões somaticas, podem em parte combater-se pela educação

physica. Diz o proverbio que a boa mão de rocim faz cavallo, e a ruim

de cavallo faz rocim. Não póde negar-se que a educação é o primeiro

factor na acquisição dos habitos e que são estas influencias d’origem,

que formam quasi por completo o nosso caracter. É nos exemplos dos

paes, nas acções beneficas do lar que bebemos o que ha de mais eficaz

em o governo da nossa alma. Ao contrario, o que damnifica mais o

coração é a influencia da familia, quando é deleteria e má. Diz

um adagio portuguez que passarinho que n’agua se cria sempre por

ella pia. É esta agua psychogenica que sobretudo faz do individuo

um innocuo, um cidadão prestabilissimo ou um perverso. A perversão

póde ser muitas vezes hereditaria, mas é mister desviar quanto

possivel essa hypothese, acceita-la discricionariamente e sempre,

equivale a submetter-nos passivos ao seu imperio bruto e fatal. E

hoje está-se abusando desmesuradamente, na propria sciencia, da

explicação hereditaria, muitos escriptores sempre que não podem

explicar na psychologia corrente certos factos abrigam-se sob a egide

da hypothese--hereditariedade. Mas tal expediente é uma deserção do

criterio scientifico. É obvio que ha inclinações herdadas, mas a sua

origem está na educação e nas influencias mesologicas. Enriquecer

pois pela educação o espirito é ampliar o campo dos motivos elevados

sobre que vem a actuar a vontade. Menandro disse «que dar educação

á mulher é augmentar o veneno d’uma vibora» paraphraseando podem

dizer os penologos determinantes «dar instrucção ao delinquente é

augmentar o veneno d’uma vibora.» E de feito, admittida a existencia

do perverso congenito e incorregivel, a instrucção era um instrumento

que vinha augmentar a peçonha da sua deprimente acção social. Porém o

que não póde acceitar-se é que todos os criminosos sejam congenitos e

incorrigiveis.

A estatistica criminal com referencia á instrucção primaria tem

illudido muita gente, porque tem visto no numero dos criminosos

augmentar a lista dos que sabem ler e escrever, ora esse augmento é

natural consequencia de ter crescido o numero de escolas. Se todos os

cidadãos do paiz soubessem ler e escrever como era muito de desejar,

nenhum criminoso era analphabeto. O que prova tudo isto, é que a

instrucção primaria tem sido felizmente cada vez mais diffundida.

A etiologia do crime tem de procurar-se nas condições biologicas e

nas circumstancias sociaes. A escola anthropologica é incompleta e

exagerada, incompleta porque descura os factores sociaes e desdenha o

estudo do direito criminal jurisprudente; exagerada, porque pretende

explicar, fóra dos justos limites scientificos, tudo pela biologia e

pela pathologia.

O attentado contra a propriedade é ordinariamente um producto de

factores sociaes, o attentado contra a honra e contra a vida é muitas

vezes determinado por factores pathologicos, porém o crime é sobretudo

um phenomeno social. O que a escola anthropologica juridica chama

factores pathologicos do crime, como o alcoolismo, a degenerescencia

physica, não são mais do que effeitos das deprimentas condições sociaes

do delinquente. Se ministraram ao ser humano desde a vida intra-uterina

todas as condições hygienicas favoraveis á creança, todos os fecundos

elementos d’uma salutar educação physica, d’uma boa educação

intellectual e d’uma solida educação moral, ver-se-ha ao fim de poucas

gerações com a sensivel rehabilitação de homem animal e com a elevação

do homem moral, a deminuição relativa do crime.

Não ha anthropologicamente o chamado _typo criminoso_, os caracteres

anatomicos encontrados são communs a muito homem probo e honesto. A

_tatuagem_, por exemplo, encontra-se tanto nos marinheiros, soldados,

pastores como nos criminosos, é um ornato esthetico que nasce do ocio e

no occidente europeu é tradicional esse costume na raça celtica. Hoje

a tatuagem nos criminosos tende até a desapparecer, porque é para os

tribunaes um signal de reconhecimento de identidade e sabem já quanto

os prejudica na pratica do seu triste mister.

É difficil corrigir o criminoso habitual e reincidente, desde que

inveterado na perversidade, mas era provavel com boa direcção do

sentimento moral desvia-lo d’essa senda, antes de a ter encetado. E

esta emenda era tão possivel no criminoso habitual, como no criminoso

d’accidente ou de occasião, porque ambos contrahiram livremente

esse habito, ou aproveitaram a occasião. O enfermo epileptico ou

dipsomaniaco, apezar d’uma rigorosa educação physica ou acção

therapeutica é difficil de rehabilitar. Os actos violentos d’elle não

são verdadeiros crimes, porque rouba ou mata, seja a quem fôr quando o

seu accesso o ataca, em quanto o criminoso rouba ou mata, quando tem

occasião opportuna. O primeiro é um doente que urge sequestrar até á

cura, o segundo é um delinquente que é mister punir.

A má educação exerce sobre o delinquente uma influencia mais corruptora

do que o proprio meio social. Mas o criminoso não é inteiramente

victima da fatalidade da educação nem da hereditariedade, elle tem

o poder de reagir contra os impulsos internos da hereditariedade

ou externos da educação, e qualquer mestre escola nos dá centenas

d’exemplos que provam que o homem é por natureza livre.

Nunca a educação deixará de influir sobre o caracter, porque o seu

fim é a acquisição dos habitos e segundo Rosmini Serbati, «habito

considerado em relação á essencia da alma é o que accrescenta alguma

cousa de bom ou de mau ao seu estado natural e por conseguinte põe a

alma n’um estado melhor ou peior.»[79]

Admittida a _cerebração inconsciente_ ou melhor o automatismo

psychologico, gerado pelo habito originario ou adquirido o homem

póde commetter um crime, porque o principio da justiça que podia

salva-lo póde ter permanecido como sepultado na noite silenciosa da

vida directa. As theorias biologicas e hypnoticas explicam a seu modo

este phenomeno, mas o principio scientifico que o governa ainda é

desconhecido.

O direito criminal, como funcção social importantissima, que é, não

póde ser modificado em nome de hypotheses tam vagas.

O sentimento da responsabilidade é tão fundo na consciencia humana

que a ignorancia e a ingenuidade d’outras épocas tem levado o homem a

estender de modo extravagante o sentimento da justiça e do castigo a

actos de animaes.

Nos seculos XIV e XV ainda o espirito humano teve uma curiosissima

jurisprudencia criminal. Foi a que se referiu aos processos instaurados

aos animaes. Se o animal podia ser preso e levado ao tribunal, o

processo corria, em geral, no foro civil. Se os animaes não podiam ser

capturados, então o tribunal ecclesiastico tomava conta da questão. No

eleitorado de Moguncia houve um d’estes processos instaurado contra

uma alluvião de moscas, que infestaram aquella localidade, o qual se

tornou muito notavel por um despacho do juiz, que é do theor seguinte:

...Vista a pequenez do seu corpo, e attendendo principalmente á sua

tenra idade, entendemos por bem nomear ás rés curador e defensor para

os fins convenientes. Este magistrado _ex-officio_ defendeu com calor

as suas clientes, não negou os estragos, demonstrou a criminalidade

devida a causa de força maior, e pediu em conclusão um local para

onde as moscas podessem ir viver tranquilamente sem causar prejuizo a

ninguem. Instauraram-se processos similhantes a pardaes, por habitarem

os telhados d’uma egreja e perturbarem os fieis nas suas orações, ás

sanguesugas por corromperem as aguas do lago de Genebra, ás lagartas,

aos gafanhotos e ás lesmas, por fazerem mal ás plantas. Na Suissa até

os gallos eram sentenciados no tribunal e queimados em publico. Havia

então a crença popular de que os gallos punham ovos, e que d’estes ovos

malditos saiam serpentes e basiliscos. Os cavallos, burros, touros e

porcos, accusados de homicidio voluntario, eram sentenciados á morte

ou a soffrer diversas mutilações. Muitas vezes vestiam-lhes um facto

de homem, para executarem com todo o rigor a pena de Talião. Os bodes,

cabras e gatos que eram accusados de magia, eram condemnados, em geral,

a morrer na fogueira com os seus donos, e, passaram negra vida n’essas

épochas medievaes em que dominava a ignorancia e a feitiçaria.

Esta extravagante jurisprudencia nasceu d’uma inducção

illegitima--estender o que existe em nós a todo o ser vivo. O

espirito tende a confundir a ordem da genese das suas idéas ácerca

dos objectos extranhos com a ordem da genese dos proprios objectos.

Ha uma disposição innata em dar realidade objectiva ao que é

puramente subjectivo. Principalmente no espirito dos homens incultos,

a familiaridade é geralmente confundida com a simplicidade, e na

explicação de qualquer phenomeno seguem o caminho traçado pela evolução

das suas idéas, imaginando d’este modo haverem explicado o facto que

os preoccupava. Effectivamente, perante o seu espirito individual,

o problema está resolvido, mas não o está perante a verdade logica,

que carece do ser impessoal para se tornar scientifica. Illuminado o

espirito pelo criterio da evidencia, todos os homens se sobmettem á

verdade scientifica, porque entre a intelligencia de um sabio e a de um

ignorante não ha differença de natureza é apenas uma differença de grau.

Ninguem hoje ignora que o alcoolismo é uma das causas dominantes da

pobreza moral e physiologica das classes populares.

O doutor Delannoy, n’uma conferencia de physiologia e pathologia em

que tratou do alcool, demonstrou que as bebidas espirituosas não são

nem tonicas nem alimenticias. Constituem, apenas, excitantes que podem

ser uteis, em certos casos, e dos quaes se deve usar com moderação.

A excitação procurada produz-se á custa do estado geral; impede a

nutrição, diminuindo o acido carbonio exhalado e a quantidade de

urina emittida. Ora, está demonstrado que estes productos marcam a

intensidade da nutrição organica. A sua diminuição, sob a influencia

do alcool, enfraquece o organismo e traduz-se, entre os bebedores, por

um estado de enfraquecimento vital que não tem analogo sob o ponto

de vista physico, senão no que se encontra nos individuos affectados

de tysica pulmonar. Por isso os bebedos offerecem pouca resistencia

aos agentes morbificos e dão um largo contingente para as doenças

epidemicas. O conferente demonstrou que o uso immoderado das bebidas

espirituosas produz um grande numero de doenças, a maior parte das

quaes são mortaes. Entre outras apparecem: a ulcera e o cancro do

estomago, a gastrite chronica, a cirrhose, a hydropesia, a apoplexia, a

albuminuria o _delirium tremens_, a demencia paralytica, etc. O doutor

Delonnoy affirma que o abuso do alcool constitue uma das causas mais

frequentes da miseria, da loucura e do crime.

A embriaguez não é uma condição excepcional da especie humana, é

commum a outros animaes, que igualmente são modificados no seu systema

nervoso pela ingestão de substancias toxicas. Na dynamica do crime e

na degenerescencia physica o alcoolismo é uma causa determinante e

predisponente. É mister não o confundir nunca com a dipsomania.

Ha dez annos que vive na Penitenciaria de Buenos Ayres um recluso

de nome Ulisses Paganno. Este infeliz conta actualmente 36 annos de

edade e entrou no carcere pouco antes de completar 26 annos, isto é,

na plenitude da vida e possuindo medianas condições intellectuaes

e aptidões artisticas, nos periodos tranquillos intermediarios da

sua existencia procellosa. Levaram-o ao presidio cinco homicidios,

praticados successivamente em momentos de embriaguez. Pouco tempo

depois de se encontrar na Penitenciaria, tendo já dado signaes

inequivocos de bons sentimentos e de costumes irreprehensiveis, um dia,

e sem que pessoa alguma suspeitasse dos meios de que poude valer-se,

visto que não tinha dinheiro, poude adquirir uma garrafa de aguardente.

Quando ao fim da tarde Paganno sahiu da cella para ir trabalhar com os

outros presos, a primeira coisa que fez foi approximar-se de um d’estes

e cravar-lhe no coração um punhal que levava escondido. Dava-se porém,

a circumstancia de que Paganno não conhecia a victima, comprovando-se

tambem que ao commetter o crime se achava completamente embriagado.

Pouco mezes mais tarde, tendo-se-lhe proporcionado tambem outro licor,

na visita da manhã, ao ir um empregado inspeccionar a sua cella,

Paganno, aproveitando um descuido, precipitou-se sobre elle, ferindo-o

gravemente nas costas. Esta segunda punhalada ia tambem dirigida ao

coração, mas por fortuna resvalou em uma das falsas costellas. Desde

então empregam-se todas as precauções e é rara a occasião em que se lhe

permitte sahir da cella. É necessario insistir em uma circumstancia:

Paganno, não embriagado é um dos reclusos mais trataveis, inoffensivos

e affectuosos que existem na Penitenciaria. Em 10 annos que conta

de prisão ainda não perdeu os seus habitos de trabalhador, e vae

para quatro annos entretem-se a domesticar e ensinar ratos. Ulisses

é italiano de nacionalidade, porém falla correctamente o hespanhol.

O seu estado de saude physica é relativamente satisfactorio e não

apresenta nenhum symptoma accentuado de doença mental. A physionomia,

porém, é repulsiva; tem grande mobilidade nos olhos, cerra os dentes

com frequencia e o seu rosto toma em certas occasiões uma côr sombria

e fatidica, que não inspira, na verdade, confiança alguma. Todos os

que o observam ficam na crença de que Paganno é um desventurado louco

que padece a monomania que podia chamar-se «homicida.» A sua pena

será indifinida, dada a horrivel historia dos seus crimes e a feroz

propensão para dar punhaladas no seu semelhante, emquanto experimenta

os effeitos do alcool. Paganno está comdemnado a não gosar jámais

liberdade, o que não lhe dá o minimo cuidado, pois, segundo affirmam

os periodicos da localidade, é dos poucos reclusos que tem logrado

identificar-se com a triste condição da soledade e retiro perpetuos.

No dia 29 de julho a 1 de agosto realisou-se em Paris o congresso

internacional para o estudo das questões relativas ao alcoolismo. As

questões propostas pela commissão respectiva foram as seguintes: 1.ᵒ

Consumo de bebidas e de alcooes. Estatistica comparada das vendas

de bebidas nos differentes paizes. Relações entre o augmento do

consumo do alcool e o desenvolvimento da criminalidade e da alienação

mental. Meios de restringir o consumo de bebidas e de combater a sua

influencia funesta. Quaes os resultados que teem produzido os dois

systemas em vigor nos differentes paizes: o da liberdade concedida

sob certas condições á venda de bebidas e o da auctorização previa?

2.ᵒ Influencia nefasta do abuso das bebidas alcoolicas. Considerações

medico-legaes sobre os delictos e crimes commettidos debaixo da

influencia do alcoolismo. Meios legaes de prevenir as desgraças

causadas pelo alcoolismo, como assassinios, incendios, suicidios, etc.

3.ᵒ Bebidas sãs que se devem dar ás classes populares. Estabelecimento,

pelas sociedades de temperança, de bufetes ou cantinas na proximidade

das grandes officinas onde se reunam temporariamente muitos operarios.

Meios de reconhecer rapidamente as falsificações das bebidas alcoolicas.

Os moralistas attribuem principalmente á falta de crenças o suicidio

e o crime, mas a essa causa é mister accrescentar a falta de recursos

economicos. Para os que teem fome e miseria são insufficientes as

consolações espirituaes, é mister que a civilisação ministre remedios

materiaes. Alem dos factores pathologico-mentaes, a miseria, a ausencia

do sentimento religioso, e as leituras d’uma litteratura dissolvente

são principalmente a causa do crime e do suicidio. Estes dois productos

da pathologia social são em maior numero nas cidades que nos campos,

nos homens do que nas mulheres. Nos habitantes dos campos e nas

mulheres, as crenças religiosas tem-se conservado mais vivas, emquanto

que o operario da cidade deixou extinguir essa luz d’esperança e de

consolo, sem que ponha outro sentimento equivalente na sua alma.

Não se torna notavel pelos nomes esse longo obituario, mas torna-se

horroroso pelos numeros. Na estatistica dos suicidios na França,

durante o anno de 1887, encontra-se um numero horrivel--8:202. D’estes

emigrados voluntarios da vida 6:434 eram homens e 1:768 mulheres.

Entre os 6:434 homens, suicidados em 1887, conta-se 2:381 celibatarios,

2:910 casados e 928 viuvos, e entre as 1:768 mulheres contam-se 513

celibatarias, 796 casadas e 427 viuvas. A classe dos agricultores

contribuiu n’esse mesmo anno com 2:020 homens e 594 mulheres para o

suicidio. Sendo essa a classe mais numerosa da França, é esse numero

proporcionalmente muito menor do que 1:772 homens e 504 mulheres que

deu a classe operaria. Entre os proprietarios houve 591 suicidios de

homens e 140 de mulheres, e nas profissões liberaes registaram se 340

suicidios, sendo 197 de homens e 143 de mulheres. De todas as classes,

a que proporcionalmente concorreu menos para o suicidio foi a dos

criados de servir, que são realmente os menos accessiveis ás causas que

deixamos apontadas.

As utopias sociaes e a idealisação exaggerada de sentimentos

phantasticos dando ao espirito como alimento planos irrealizaveis e ao

coração aspirações chimericas são motivos frequentes do suicidio.

Em primeiro logar é necessario expor as proporções em que se produzem

em cada nacionalidade, formando o typo de um milhão, e consignando o

numero de suicidios que lhe correspondem.

Casos de suicidio

Nações Habitantes por milhão

Russia 93:000:000 31

Austria-Hungria 40:500:000 174

França 38:500:000 150

Grã-Bretanha 37:200:000 70

Italia 30:200:000 37

Hespanha 16:900:000 18

Suissa 7:900:000 220

Belgica 5:850:000 79

Romania 5:400:000 52

Turquia 5:900:000 40

Suecia 4:700:000 99

Hollanda 4:400:000 45

Portugal 4:410:000 22

Dinamarca 2:190:000 290

Servia 2:000:000 66

Noruega 1:990:000 194

Prussia 20:000:000 181

Baviera 5:300:000 127

Saxonia 3:000:000 373

Wurtemberg 2:000:000 104

Hannover 2:500.000 300

A execução capital, além de ser uma pena irreparavel não influe

beneficamente na moralidade social.

Um jornal francez publicou a seguinte relação das execuções em França

desde 1813: 22 de junho de 1813: na praça da Gréve, Perchette e sua

mulher, crime de assassinio; 27 de julho de 1816, na praça de Gréve,

Pleignier, Tolleron e Carbonneau; 23 de agosto de 1822: na praça

da Gréve, Raoulx, Pommier, Goublin e Bories, os quatro sargentos

da Rochella; 24 de janeiro de 1824, na praça da Gréve, Lecouffe e

sua mãe--crimes de assassinio e roubo; 20 de abril de 1824: na praça

de Gréve, Renaud, Delaporte e Ochard, os ultimos salteadores da

floresta de Bondy; 26 de maio de 1826: na praça de Gréve, Ratta e

Malagutti--crime de homicidio; 27 de julho de 1830: na praça de Greve,

Bardon, Guérin e Chandellet, crimes do assassinio e roubo; 9 de janeiro

de 1836: na barreira de R. Jacques, Fleschi, Pépin e Morin, n’esta

epocha as execuções passaram a ser na praça da Roquette; 24 de março

1843: na praça de Roquette, Norbert, e Deprá, crimes de assassinio

de um operario e roubo de 32 francos! Pormenor curioso: a execução

foi no dia da _Serração da velha_ e a guilhotina esteve durante ella

cercada de mascaras; 13 de março de 1858: na praça da Roquette, Orsini

e Pietri, anarchistas; 13 de março de 1874: na praça da Roquette,

Moreau e Bondas, crime de assassinio; 8 de setembro de 1878: na praça

da Roquette, Barré e Lebiez, assassinio de uma leiteira; 10 de agosto

de 1885: na praça da Roquette, Gaspard, o assassino do padre Delannay,

e Marchandon, o amante de Joanna Blin, e assassino da sr.ᵃ Carnet; 3

de outubro de 1886: na praça do Roquette, as execuções de Sallier e

Allorto.

Esta estatistica é incompletisissima, não menciona muitos

guilhotinados, entre outros, os celebres Pranzini e Prado.

Damos em seguida um extracto do relatorio que o abbade Faure, capellão

da Grande-Roquete, dirigiu ultimamente ao ministro francez, e onde

relata as observações que tem feito nos condemnados á morte. Ha seis

annos que o abbade Faure exerce o referido cargo, e tem assistido

a treze condemnados á morte, comprehendendo os dois assassinos de

Auteil, executados ainda ultimamente.--Desde que principiei a exercer

as minhas funcções como capellão do deposito de condemnados, tenho

estado em contacto com um grande numero de condemnados á morte, que

visitei durante um lapso do tempo variando entre quarenta e oitenta

e sete dias. Todos, menos um, que pertencia á religião protestante,

reclamaram os soccorros da religião com signaes mais ou menos

assignalados de convicção ou de indifferença, conforme a educação

que haviam recebido. Posso, pois, apresentar-vos os resultados das

minhas observações sobre esta cathegoria de criminosos. O condemnado

á morte, desde a sua entrada na cellula é preso de uma prostração

profunda e que não desapparece senão depois de um espaço de tempo

assaz prolongado. Todavia essa energia revela-se pouco a pouco, e a

esperança de uma commutação de pena dissipa o terrivel effeito de

sentença condemnatoria. O dever do capellão é alimentar esta esperança,

fazer acreditar na possibilidade da annulação de uma sentença de

morte, na clemencia do chefe do Estado. O infeliz aferra-se a todas

essas esperanças de salvação, atem-se antecipadamente a este beneficio

e compraz-se de boa vontade em esperar que a sua vida seja salva,

mesmo depois dos delictos mais monstruosos. É facil então fazer-lhe

entrever a sorte que o espera depois de uma commutação de pena. A

grilheta perpetua perde todos os seus horrores para aquelle cuja

cabeça está ameaçada, e é todo offegante que o miseravel, á medida que

o termo fatal se approxima, interroga aquelles que o visitam sobre a

esperança que elle póde ter. Os dias são penosos apesar das distracções

que os guardas se esforçam em proporcionar aos infelizes. Os jogos,

as leituras, o recreio, as visitas alteram um pouco a monotonia da

cellula e algumas vezes parece que o condemnado se illude ácerca da

sua terrivel situação. Mas a noite!... Quantas vezes eu tenho sido o

confidente das torturas moraes que soffre o desgraçado! Se o somno

chega por fim a fazer-lhe sentir a sua benefica influencia, quanto

esse repouso é agitado, febril, penoso. Alguns confessaram me que

prolongavam as suas vigilias muito pela noite adiante, esperando d’este

modo não accordarem senão bastante tarde no dia seguinte. Vã esperança!

O despertar chegava sempre á hora em que é dado o terrivel signal.

Em onze condemnados a cujos ultimos momentos assisti, tres sómente

estavam adormecidos quando se lhes foi dar a terrivel nova. Um unico

condemnado á morte dos que eu visitei recusou assignar o pedido de

indulto, e ainda sou levado a crer que elle conhecia esta formalidade

inutil para dictar o procedimento do chefe do Estado. Para apreciar

bem o effeito que produz a pena de morte sobre os grandes criminosos,

basta comparar a attitude do condemnado na vespera e no dia seguinte

ao da sua commutação. Houve tal, que eu vi durante os quarenta dias da

sua reclusão na cella da Roquete constantemente doente, arquejando com

febre, sem appetite, sem somno, transfigurar-se no dia em que lhe foi

annunciada a commutação. Fallava da sua viagem a Numéa como de uma

viagem de prazer, fazia projectos, referia-se ao seu bom procedimento

futuro em proveito de uma graça que elle se esforçaria por merecer.

Tive muitas vezes occasião de verificar o mesmo phenomeno n’aquelles

que escapavam á pena capital, e creio estar no direito de concluir, que

é a unica pena que inspira um verdadeiro terror. Quanto áquelles que

a soffrem, a sua vista sómente basta a um espirito não prevenido para

lhes fazer conhecer os sentimentos e o terror. Parece-me impossivel

achar um espectaculo mais commovedor que o do infeliz, até o mais

resignado, o mais christãmente preparado, durante o tempo tão curto

e ao mesmo tempo tão espantosamente longo de que se precisa para os

aprestos do supplicio. Eu não hesito em crêr que qualquer que seja

a pena que se possa substituir á pena de morte, será impotente para

inspirar um terror mais legitimo e mais horrivel.

Ha poucos annos ainda, não havia entre nós nenhum trabalho systematico

e completo sobre este assumpto, tão importante como elemento de

investigação scientifica e de proveitosa vantagem social. Não começámos

cedo, mas ainda vamos a tempo de avaliar a vitalidade d’uma nação que

alguns julgam, senão moribunda, pelo menos profundamente enferma.

É a estatistica a base para poder formular leis dynamicas d’uma

sociedade, nas quaes apoiado o homem de Estado e o homem de sciencia

podem dar solução aos complexos problemas economicos e politicos. Na

multiplicidade dos phenomenos sociologicos reveladores das differentes

fórmas da actividade humana póde estudar-se a vida psychologica,

objectivamente, sob todos os seus aspectos. A demographia póde fornecer

ao psychologo dados preciosos para estudar a mentalidade humana nas

cathegorias sociaes da moral, do direito, da religião, da sciencia, da

arte e da industria. A estatistica é um ramo de actividade scientifica

relativamente moderno, remonta ao seculo XVIII, foi Achenwall,

professor de direito publico na universidade de Gottinga quem lhe

deu este nome. Desde esse momento este ramo de saber tem caminhado

pasmosamente e o registo dos seus phenomenos sociaes, expressos

em numeros, tem sido o material que fornece ao sociologo os dados

das suas inducções scientificas. A estatistica, como expressão dos

numeros fornecidos pelos cadastros dos systemas tributarios e pelos

recenseamentos é muito antiga, remonta á historia da antiguidade

oriental, encontra-se sobretudo entre os assyrios, os judeus, os

persas, mas com o caracter scientifico expresso pela demographia

moderna no intuito de penetrar na vida de um povo, é de data recente.

Os seus resultados são devidos especialmente aos fatigantes, pacientes

e aridos trabalhos de Quetelet na Belgica e do dr. Bertillon em França.

A estatistica de numeros é um elemento precioso e essencial para sobre

elle architectar as grandes generalisações sociologicas, mas sem tirar

das premissas nascidas d’aquelle estudo estas consequencias, aquelle

trabalho tem relativamente pouca utilidade. Para organisar devidamente

estes serviços, ha em Portugal apenas duas repartições regularmente

constituidas--uma no ministerio da justiça e negocios ecclesiasticos,

direcção geral do registo civil e estatistica, outra é a repartição

respectiva do ministerio de obras publicas.

Outro funesto resultado do nosso deploravel atraso em publicações de

estatistica, são os deficientissimos documentos que a respeito da

estatistica de Portugal, se encontram nas estantes dos demographos

estrangeiros e nas repartições publicas correlativas, o que impede que

muitos productos da nossa actividade social, não tenham podido entrar

no estudo comparado da demographia das principaes nações da Europa e da

America como mais um elemento de comprovação sociologica.

«Todos sabem como elemento de comprovação sociologica o enorme

interesse que hoje se liga á questão palpitante da penalidade. Abolição

da pena de morte, abolição de todas as penas corporaes e irreparaveis,

novos systemas de detenção, moderação nos castigos, etc., etc., são

problemas a um tempo sociologicos e humanitarios que trazem agitados

e commovidos a grande somma dos pensadores que se dedicam com amor ao

bem estar dos seus concidadãos e a alliviar os soffrimentos dos seus

semelhantes.»[80]

A estatistica, diz o illustre Alphonse de Candolle, não é uma sciencia,

é um methodo. O que se faz mister é fazer bom uso d’ella e até ao

presente tem sido algumas vezes victima de má hermneutica.

«Uma observação de natureza a dissipar muitas illusões--escreve

o distincto publicista sr. Oliveira Martins--é o movimento da

criminalidade comparado com o grau de instrucção e cultura das

sociedades: os homicidios diminuem com a civilisação, os roubos

augmentam. Na especie do assassinato a Italia tem o primeiro logar

(8,12 homicidio por 100 mil habitantes), a Hespanha o segundo,

depois a Hungria, depois a Austria, depois Portugal, e em seguida,

successivamente, a Belgica, a França, a Allemanha e por fim a

Inglaterra (0,69). Mas a Allemanha, que tem o penultimo logar no

assassino, occupa o primeiro no roubo: e a Inglaterra que é a ultima

na primeira série vem logo apoz na segunda. A illação por muitas vezes

tirada d’estas observações é que, se a instrucção amacia os costumes,

nem por isso corrige a perversidade; ou por outra, que por si só é

insufficiente para formar esse estado de equilibrio inacessivel ou

refratario ás tentações do crime. Os crimes dos barbaros, o talião e

a vendetta ou _revendeyta_ dos nossos foraes, proveem de uma energia

de paixões conciliavel com a nobreza de instinctos que se agitam na

atmosphera crepuscular de cerebros infantis. As creanças são crueis,

mas não são perversas, e como creanças são os barbaros--meigos,

ingenuos, espontaneos, mas terriveis. A sua alma é como a onda fluida

e mobil que passa n’um instante da serenidade limpida de um espelho á

convulsão espumante de uma tempestade.»

Os dados fornecidos pela estatistica não fornecem argumentos contra a

liberdade individual: «Os numeros exprimem simplesmente factos por meio

dos quaes se póde apreciar uma probabilidade para o futuro, e o livre

arbitrio de cada individuo é totalmente independente d’estas cifras.

A demonstração d’isto é facil. Basta raciocinar, sem commetter erro

sobre os casos particulares... A vontade do homem é uma causa de acção.

Os numeros ao contrario e as medias são effeitos. É destruida a ordem

logica se se suppozer que um effeito possa influir sobre uma causa.

Direi pois de bom grado com Quetelet que o livre arbitrio desempenha

nos phenomenos sociaes o papel d’uma causa, mas accrescentarei: os

seus effeitos são sensiveis, pode-se muitas vezes contar e servir-se

do seu numero para apreciar ou a volta de effeitos semelhantes ou a

intensidade variavel da causa.»[81]

Só com a theoria da regeneração moral dos delinquentes se tem

generalisado e diversificado o regimen penitenciario. Para a escola

fatalista do criminoso nato, não póde haver regeneração, porque não

existe o sentimento da liberdade individual. Desde que não existe a

probabilidade da emenda moral do criminoso, o systema correccionalista

é uma burla ou uma chimera e como consequencia não mais educação moral

nem profissional do condemnado. Felizmente nenhum estado ensaiou

a execução d’estas theorias que são as consequencias da escola

anthropologica italiana.

As escolas penaes que não teem por base do direito de punir o

sentimento da justiça, fazem responsaveis dos crimes, diversos

factores sociaes ou pathologicos exceptuando sempre o delinquente que

o commetteu. É verdadeiramente extraordinario. O delinquente, não o

louco, é a unica causa do crime, o meio social póde fornecer-lhe apenas

as circumstancias.

Parece que o crime caminha com os progressos da instrucção primaria:

«mas este facto é uma consequencia necessaria da diffusão geral

da instrucção em França, se ella fosse diffundida como era de

desejar, todos os francezes saberiam, pelo menos, ler e escrever

e, por conseguinte todos os criminosos francezes seriam contados

como lettrados. Quer o numero total dos criminosos tenha diminuido

ou augmentado, a estatistica não accusaria todavia um augmento de

lettrados muito maior. Haveria 100 sobre100, emquanto que agora ha

somente 69, e havia 39 no fim da Restauração. A mudança nas relações

conduz a uma conclusão certa: que a instrucção tem feito progressos.

É as mais das vezes nas baixas camadas da sociedade que se recruta o

triste contingente da criminalidade. Se a instrucção primaria estivesse

suficientemente derramada, teria penetrado até n’estas cavernas, e

todos os criminosos saberiam, como o resto da nação, pelo menos ler

e escrever. Em consequencia d’isto, a estatistica judiciaria, é uma

maneira de lançar a sonda n’estas camadas inferiores e de ver quaes são

os progressos da instrucção primaria n’estas mesmas camadas onde só

difficilmente chega a sondagem.»[82]

O criminoso é imprevidente, é leviano e é preguiçoso. A diffusão do

ensino e do amor ao trabalho, aconselhado na familia e ministrado na

escola faz nascer no espirito o desejo d’uma occupação honrosa. Os

ladrões francezes, como diz Lombroso, chamam-se no calão _pègres_

(preguiçosos). O vadio é hoje aos olhos da lei em todos os paizes

uma variedade do typo criminoso, detesta o trabalho e é nas grandes

cidades quem mais contribue para povoar as cadeias. Não teem

constancia, nem persistencia, nem energia senão para o mal. Os ladrões,

segundo Vidocque, não são aptos para nada do que reclama energia ou

assiduidade. Não podem e não sabem fazer outra cousa senão roubar.[83]

Entre nós o soldado reservista que volta para os campos depois de

se ter habituado á ociosidade da caserna, é um grande elemento de

desmoralisação, em geral vem vicioso e ocioso, e fica o frequentador

assiduo da taberna da aldeia.

Os elementos estatisticos de que vamos servirnos são extrahidos da

_Estatistica da Administração da Justiça Criminal nos Tribunaes de

Primeira Instancia do reino de Portugal e Ilhas Adjacentes_. Egualmente

aproveitamos as notaveis considerações, verdadeira novidade scientifica

entre nós, que sobre o assumpto faz o primoroso escriptor e esclarecido

demographo o sr. Silveira da Motta, dignissimo conselheiro director

geral do ministerio da justiça.

Quanto ao grau de instrucção verificou-se que sabiam ler 4:099 réus

(30,71 por %); que não sabiam ler 9.156 (68,60 por %), e não se

obtiveram informações sufficientes ácerca de 90 (0,67 por %).

A civilisação gradual e continua das sociedades pela educação popular é

uma das momentosas questões que convem examinar sob todos os aspectos.

Se ha, comtudo, algum por que deve com preferencia ser estudada, é

de certo o concernente á acção benefica nos seus progressos, ha de

diminuir a pouco e pouco a existencia de alguns crimes; cuido que

outros se acommodarão a qualquer estado de cultura; isto, porém são

apenas conjecturas, e não bastam ellas para que o desenvolvimento

do ensino possa indisputavelmente ser considerado dynamometro da

progressiva reducção da criminalidade. Tal é o motivo porque eu quizera

ao menos poder agora confrontar o grau de illustração dos réus com a

somma dos habitantes do reino e ilhas, que, bem ou mal, sabem ler.

Infelizmente não está ainda publicado, em todas as suas divisões e

subdivisões, o ultimo recenseamento da população, onde é de esperar

appareçam os esclarecimentos essenciaes sobre esse importantissimo

assumpto.

N’estas circumstancias restrinjo-me a apresentar no seguinte epitome

a proporção média que, conforme averiguei, existe n’outras nações com

referencia ao grau de instrucção dos réus.

-------------+---------------------------------------

| Numero dos réus

|

| | | De que

| Que | Que não | se ignorou

| saibam ler |saibam ler | o grau

| | | de instrucção

+------------+-----------+--------------

Allemanha | 95 por % | 5 por % | --

França | 68 » | 32 » | --

Inglaterra | 66 » | 33 » | 1 por %

Belgica | 61 » | 37 » | 2 »

Italia | 31 » | 69 » | --

Hespanha | 27 » | 70 » | 3 »

-------------+------------+-----------+--------------

Com relação ás profissões podem incluir-se nas seguintes categorias:

--------------------------------------+---------+--------------

| | Proporção

Profissão ou occupação | Numero | com

|dos réus |o numero total

| | dos réus

--------------------------------------+---------+--------------

Agricultor (_a_) |5:485 |41,10 por %

Industrial (_b_) |4:569 |34,23 »

Negociante (_c_) | 543 | 4,06 »

Proprietario |1:323 | 9,91 »

Empregado civil ou militar | 234 | 1,75 »

Creado de servir | 514 | 3,85 »

Qualquer outra profissão ou occupação | 277 | 2,07 »

Nenhuma profissão | 220 | 1,64 »

Ignora-se | 180 | 1,34 »

--------------------------------------+---------+--------------

(_a_) Abrange esta classe os cultivadores não proprietarios, os

hortelãos, jardineiros, pastores, lenhadores, mineiros,

valladores, creados de lavoura, jornaleiros, etc.

(_b_) Comprehendem-se n’esta classe os directores e empregados de

qualquer empreza, que não seja agricola ou restrictamente commercial

e todos os operarios em artes fabris ou manufactureiras, quer

trabalhem em officinas quer fóra d’ellas.

(_c_) Incluem-se tambem n’esta classe os caixeiros ou empregados de

commercio.

Do resumo antecedente poder-se-iam inferir deducções valiosas, se

tivessemos elementos bastantes para o comparar com a população

dividida em identica escala de profissões e occupações. Na falta de

taes elementos offerece pouco interesse o exame d’essa condição dos

réus, e só no futuro poderá de algum modo servir para que se conheça

a influencia das profissões, se não sobre o numero, ao menos sobre

a natureza dos crimes. É isto o que já acontece nos paizes que se

encontram na dianteira da civilisação. Ahi, por exemplo, longas series

de estatisticas parece demonstrarem que o numero proporcional dos

crimes contra as pessoas é notavelmente avultado nos individuos que

se entregam aos trabalhos e habitos da vida rural, ao passo que nos

negociantes, nos industriaes, nos creados de servir, predominam os

crimes contra a propriedade.

No seguinte quadro que exara os dados estatisticos correspondentes

ao anno de 1879 procuramos comparar a criminalidade com o estado da

instrucção elementar no reino e ilhas adjacentes.

---------------+------------------+-----+----+-----+----+-------+-----

| Habitantes de | | | | | |

| facto | | | | | |

Districtos +--------+---------| | | | | |

| Que | Que não | | | | | |

| saibam | sabem | A | B | C | D | E | F

| ler | ler | | | | | |

| | | | | | | |

---------------+--------+---------+-----+----+-----+----+-------+-----

Angra | 13.217 | 58.412 | 18|0,02| 19|0,02| 1 |0,001

Aveiro | 38.864 | 218.185 | 210|0,08| 351|0,13| 3 |0,001

Beja | 18.265 | 123.854 | 80|0,05| 255|0,17| 21 |0,014

Braga | 60.438 | 259.026 | 250|0,07| 254|0,14| 19 |0,005

Bragança | 24.930 | 143.721 | 183|0,10| 607|0,35| 4 |0,002

Castello Branco| 19.167 | 154.816 | 82|0,04| 268|0,15| -- | --

Coimbra | 36.403 | 255.634 | 179|0,06| 343|0,11| 7 |0,002

Evora | 17.034 | 89.821 | 83|0,07| 276|0,25| 2 | --

Faro | 28.544 | 170.598 | 77|0,03| 175|0,08| -- | --

Funchal | 12.284 | 117.700 | 49|0,03| 167|0,12| -- | --

Guarda | 31.541 | 196.953 | 206|0,09| 546|0,23| 4 |0,001

Horta | 11.066 | 50.834 | 11|0,01| 39|0,06| -- | --

Leiria | 21.471 | 171.511 | 60|0,03| 200|0,10| 18 |0,009

Lisboa |146.093 | 351.966 |1.174|0,23|2.224|0,40| 95 |0,019

Ponta Delgada | 22.176 | 104.095 | 44|0,03| 155|0,12| 1 | --

Portalegre | 13.755 | 87.371 | 50|0,04| 193|0,19| -- | --

Porto |110.414 | 351.467 | 290|0,06| 586|0,12| 3 | --

Santarem | 30.371 | 190.510 | 117|0,05| 359|0,16| 11 |0,005

Vianna | 40.418 | 160.972 | 156|0,07| 219|0,10| -- | --

Villa Real | 48.508 | 176.120 | 271|0,12| 393|0,17| 2 | --

Vizeu | 53.363 | 318.208 | 245|0,06| 641|0,17| 2 | --

+--------+---------+-----+----+-----+----+-------+-----

Total |798.925 |3.751.774|3.835|0,08|8.469|0,18| 193 |0,005

---------------+--------+---------+-----+----+-----+----+-------+-----

A Numero dos réus que sabem ler

B Proporção por 100 habitantes

C Numero dos réus que não sabem ler

D Proporção por 100 habitantes

E Numero dos réus de que se ignorou a instrucção

F Proporção por 100 habitantes

Para que se possa com algum proveito comparar o estado da instrucção

com o da criminalidade, deve abater-se da massa total da população

a parcella respectiva aos menores até 10 annos, os quaes, na maxima

parte, nem podem ter alcançado qualquer instrucção litteraria, nem

ter commettido crimes. Reduzida d’este modo em numeros redondos a

3:500:000 a somma dos habitantes do reino e ilhas, fica de O,10 a

percentagem dos réus que sabem ler, e de O,24 a dos réus que não

sabem ler. Não é porém ainda a esta luz que deve ser considerado o

assumpto. A proporção só póde estabelecer-se logicamente, cotejando

nas classes respectivas o numero dos réus que sabem ler com o dos

habitantes que sabem ler, o numero dos réus que não sabem com o dos

habitantes que não sabem ler. Posto assim o problema, a quota dos réus

que sabem ler é de O,48 por 100 habitantes que sabem ler, e a dos réus

analphabetos é de O,31 por 100 habitantes analphabetos. Applicando

o mesmo methodo aos crimes julgados em 1878, a quota dos réus que

sabem ler é de O,51 por 100 habitantes que sabem ler, e a dos réus

analphabetos é de O,33 por 100 habitantes analphabetos. Com relação

ao anno de 1880 ainda não ha informações completas, mas em vista dos

documentos já examinados deve fundadamente presumir-se uma proporção

quasi identica. Se não me illudo sobre a exacção do calculo, que

conclusões se podem inferir? Contribuirá o derramamento da instrucção

para o acrescimo da criminalidade? Será nocivo o simples e deficiente

ensino primario? Constituirão os factos colligidos n’estes poucos

annos uma situação anormal, em que não possam estribar-se quaesquer

illações ou conjecturas? São questões do futuro, cuja decisiva solução

está ainda longe. Á estatistica cumpre por emquanto agrupar e ordenar

methodicamente os factos: só longas series de trabalho d’esta ordem

descobrirão o valor d’esses factos e os corollarios que d’elles devam

deduzir-se.

Ahi fica a estatistica criminal portugueza no anno de 1879 e vamos em

seguida beber na mesma fonte os dados estatisticos com respeito ao anno

de 1880.

Quanto ao grau de instrucção verificou-se que sabiam ler 3:882 réus

(31,59 por c.), que não sabiam ler 8:239 (67,06 por c.), e não se

obtiveram informações sufficientes ácerca de 164 (1,32 por c.).

Conforme o systema que experimentei no precedente volume busco no

quadro immediato comparar a criminalidade com o estado da instrucção

elementar no reino e ilhas adjacentes.

------------------+------------------+-----+----+-----+----+-----

| Habitantes de | | | | |

| facto | | | | |

Districtos | | | | | |

| Que | Que não | A | B | C | D | E

| saibam | sabem | | | | |

| ler | ler | | | | |

------------------+--------+---------+-----+----+-----+----+-----

Angra | 13.217| 58.412| 9|0,01| 73|0,10| 1

Aveiro | 38.864| 218.185| 189|0,07| 312|0,12| 15

Beja | 18.265| 123.854| 100|0,07| 289|0,26| 6

Braga | 60.438| 259.026| 282|0,08| 394|0,12| 6

Bragança | 24.930| 143.721| 150|0,08| 557|0,33| 2

Castello Branco | 19.167| 154.816| 99|0,05| 369|0,21| --

Coimbra | 36.403| 255.634| 188|0,06| 403|0,13| 4

Evora | 17.034| 89.821| 81|0,07| 260|0,24| 2

Faro | 28.544| 170.598| 87|0,04| 216|0,10| --

Funchal | 12.284| 117.700| 46|0,03| 172|0,13| --

Guarda | 31.541| 196.953| 247|0,10| 546|0,23| 3

Horta | 11.066| 50.834| 17|0,02| 18|0,02| 6

Leiria | 21.471| 171.511| 91|0,04| 212|0,10| 2

Lisboa | 146.093| 351.966|1.119|0,22|1.799|0,36| 94

Ponta Delgada | 22.176| 104.095| 52|0,04| 141|0,11| 1

Portalegre | 13.755| 87.371| 57|0,04| 205|0,20| --

Porto | 110.414| 351.467| 212|0,06| 523|0,11| 1

Santarem | 30.371| 190.510| 149|0,06| 378|0,17| 3

Vianna do Castello| 40.418| 160.972| 121|0,06| 170|0,08| 15

Villa Real | 48.508| 176.120| 336|9,14| 539|0,23| --

Vizeu | 53.363| 318.208| 260|0,06| 663|0,17| 3

+--------+---------+-----+----+-----+----+-----

| 798.925|3.751.774|3.882|0,08|8.239|0,18| 164

------------------+--------+---------+-----+----+-----+----+-----

A Numero dos réos que sabem ler

B Proporção por 100 habitantes

C Réos que não sabem ler

D Proporção por 100 habitantes

E Réos de que se ignorou a instrucção

Abatida da massa total da população a parcella respectiva aos menores

até 10 annos, os quaes na maxima parte nem podem ter alcançado qualquer

instrucção litteraria, nem haver commettido crimes, e reduzida d’este

modo a 3.500:000 a somma dos habitantes do reino e ilhas, a quota dos

réus que sabem ler é de O,48 por 100 habitantes que sabem ler, e a dos

réus analphabetos é de O,30 por 100 habitantes analphabetos. Sobre este

importante assumpto dou como reproduzidas as considerações expostas no

volume antecedente. Os factos colligidos com relação ao anno, a que o

actual trabalho se refere, offerecem caracter identico ao dos annos

anteriores. Estes factos, porém, têm tal alcance, e podem ser tão

significativos que me pareceu util, a proposito dos crimes mais graves

commettidos durante o anno de 1880, e durante o triennio de 1878 a

1880, cotejar no epitome immediato o numero dos réus que sabem ler com

o dos habitantes que sabem ler, e o numero dos réus analphabetos com o

dos habitantes analphabetos.

------------+------+------+---------+-----------+---------+-----------

| | | C | D

| | +---------+-----------+---------+-----------

Crimes | A | B | Em 1880 |No triennio| Em 1880 |No triennio

------------+------+------+---------+-----------+---------+----------

Infanticidio| 26 | 23 | 0,24 por| 0,16 |0,83 por | 0,79 por

| | | 100.000 |por 100.000| 100.000 | 100.000

Homicidio | 155 | 175 | 5,89 » | 8,02 » | 3,84 » | 3,91 »

voluntario| | | | | |

Estupro | 51 | 44 | 2,88 » | 2,50 » | 1,01 » | 0,83 »

Ferimentos |2.416 |2.401 |88,84 » |89,34 » |61,19 » |66,29 »

Contrab.ᵒ | 62 | 54 | 1,37 » | 1,21 » | 1,84 » | 1,59 »

Roubo | 311 | 308 | 9,89 » |10,35 » | 8,15 » | 8,07 »

Furto |1.840 |1.868 |43,23 » |44,23 » |52,93 » |54,23 »

Fogo posto | 57 | 52 | 1,12 » | 1,25 » | 1,17 » | 1,32 »

------------+------+------+---------+-----------+---------+----------

A: Numero dos réos em 1880

B: Média dos réos no triennio

C: Proporção dos réos que sabem ler com os habitantes que sabem ler

D: Proporção dos réos que não sabem ler com os habitantes que não

sabem ler

Quanto ás profissões, os réus julgados em 1880 podem classificar-se da

seguinte fórma: agricultores 5:102, industriaes 4:386, negociantes 463,

proprietarios 1:244, empregados publicos 175, creados de servir 392,

com profissão scientifica ou litteraria 100, com outras occupações 22

e sem profissão alguma 271. Ignorou-se a profissão ou occupação de 130

réus. A proporção entre os reus julgados e os individuos pertencentes

a estas differentes classes não se distanceia importantemente da dos

annos anteriores; e não offerece por ora esclarecimentos que bastem

para avaliar o predominio do estado ou posição social na somma, na

qualidade ou na aggravação dos crimes.»[84]

A Penitenciaria costuma publicar um relatorio interessante sobre o

estado moral e intellectual dos reclusos. Em 1888 diz:

Pelo grau de instrucção litteraria vemos:

1.ᵃ classe--Analphabetos 127; 2.ᵃ classe--Sabendo ler e escrever alguma

cousa, mas não sabendo contar 36; 3.ᵃ classe--Sabendo ler, escrever e

contar 15--Total 178.

Na tabella seguinte damos a classificação dos crimes em relação aos

temperamentos, constituição physica e grau de instrucção litteraria dos

presos entrados na Penitenciaria Central de Lisboa no anno de 1886:[85]

+-------------------------------+-----------------+---------+---------

| | 1 | 2 | 3

|Crimes em geral |--------+--------+----+----+----+----

| Crimes em especial |A |B |C |D |E |F |G | H |I | J |K |L

+-------------------------------+--+--+--+--+--+--+--+---+--+---+--+--

|Crimes contra a religião

| Desacato e profanação |--|--|--|--|--| 1| 1| --|--| 1|--|--

|Crimes contra a ordem e tranquilidade publica

| Moeda falsa |--|--|--|--|--| 2|--| 2|--| 2|--|--

| Falsificação | 1|--|--|--|--|--|--| --| 1| --|--| 1

|Crimes contra as pessoas

| Usurpação do estado civil | 1|--|--|--|--|--|--| --| 1| 1|--|--

| Homicidio voluntario |19|--| 8| 6| 2|34|16| 37|16| 49|14| 6

| Infanticidio |--|--|--|--| 1| 3|--| 2| 1| 2| 1|--

| Ferimentos resultando | 7| 1| 1|--|--| 6| 1| 11| 4| 12| 4|--

| a morte

| Homicidio frustrado | 2|--|--|--|--| 3|--| 4| 1| 2| 1| 2

| Offensas corporaes | 1|--|--|--|--| 2|--| 2| 1| 2| 1|--

| Tentativa de offensas |--|--|--|--|--| 1|--| 1|--| 1|--|--

| corporaes

| Ferimentos | 2|--|--|--|--| 3| 1| 4|--| 4|--| 1

| Attentado ao pudor | 2| 1| 1|--|--| 3|--| 3| 4| 5|--| 2

| Estupro | 1|--| 1|--|--| 6| 3| 4| 1| 5| 3|--

| Violação | 2|--|--|--|--|--|--| --| 2| 2|--|--

|Crimes contra a propriedade

| Furto | 6|--| 1| 1|--|12| 2| 11| 7| 15| 4| 1

| Roubo |10|--| 2| 1|--| 8|--| 15| 6| 14| 6| 1

| Subtracção fraudulenta | 1|--|--| 1|--| 8|--| 9| 1| 8| 1| 1

| Tentativa de roubo |--|--| 1|--|--| 1|--| 2|--| 1| 1|--

| Collocação de pedras na |--|--| 1|--|--|--|--| 1|--| 1|--|--

| via ferrea

| +--+--+--+--+--+--+--+---+--+---+--+--

| |55| 2|16| 9| 3|93|24|108|46|127|36|15

| +--------+--------+----+----+----+----

| | 178 | 178 | 178

+-------------------------------+-----------------+---------+---------

1: Temperamento

2: Constit. physica

3: Grau d’instrucção litteraria

A: Lymphatico

B: Nervoso

C: Sanguineo

D: Bilioso

E: Lymphatico bilioso

F: Mixto

G: Robusta

H: Regular

I: Fraca

J: 1.ᵃ classe

K: 2.ᵃ classe

L: 3.ᵃ classe

A instrucção puramente intellectual é uma aptidão que póde tanto pôr-se

ao serviço da virtude como do crime. O lado efficaz da instrucção é a

cultura do sentimento moral e do sentimento religioso. O lado puramente

intellectual ministrado em pequeno quinhão dá a certos individuos o

cunho da vaidade e da insubordinação, fallando com desprezo das crenças

dos outros e explicando tudo ao sabor do seu caracter. Urge combater

este funesto estado, tanto na escola primaria como nas prisões.

Recolhem ás prisões de Paris annualmente cerca de 110 a 120 mil

delinquentes. Ha a casa de detenção junta á Prefeitura de policia;

as casas de correcção cellulares de Mazas e da La Santé; a casa de

correcção de _Saint-Pelagie_ para rapazes; a de _Saint-Lazare_ para

prostitutas; a grande prisão chamada _La Conciergerie_; o deposito de

condemnados _Grande Roquette_, e a casa de detenção correccional, e

_Petite Roquette_.

Além d’estas, ha o estabelecimento de educação correccional da rua

de Vaugirard destinada ás filhas de familia; o convento das damas

Saint-Michel na rua de Saint-Jacques, destinado ás donzellas da

religião catholica e ali detidas por correcção paternal; a instituição

das damas preladas, estabelecida em Paris na rua de Meuilly, onde estão

enclausuradas as jovens protestantes submettidas á correcção por ordem

paternal, e emfim o refugio das jovens israelitas, situado no boulevard

de la Saussaye, em Neuilly, para raparigas judias.

Para rapazes sujeitos á correcção por familias decentes, ha apenas em

Paris a escola industrial da rua Clevel. É dirigida por protestantes e

notavel pela sua austeridade.

Para repressão da mendicidade tambem ha a casa do Saint-Dinis, para

onde se levam presos os vadios, que se encontram a pedir esmola.

Entre nós não ha educação correccional, se exceptuarmos a modestissima

casa de correcção de Lisboa. As cadeias do paiz são em geral um foco

de desmoralisação. Não existe n’ellas nem professor nem capellão. A

Penitenciaria de Lisboa é a primeira e unica escola correccional.

Precisavamos derramar a mãos largas a instrucção que ensina a discernir

e a educação ministrada no lar, na escola, que corrige os defeitos e

fórma o caracter, contrariando desde o berço as inclinações ruins.

Algumas nações tornam justamente responsaveis os paes ou tutores pelo

mau exito da educação de seus filhos. Procuremos melhorar as condições

da sociedade pela creação de instituições de previdencia, para prevenir

accidentes de ordem material e moral.

«Vê-se pois, affirma um interessante documento official, que os crimes

que mais predominam foram furtos e vadiagem.

A criminalidade, como diz o citado visconde de Hanssonville, tem

duas causas unicas, a miseria e as paixões; porém na infancia tem

uma terceira causa especial, que é o abandono e a ausencia de toda a

educação moral.

Os menores abandonados pelos pais, ou pessoas d’elles encarregados,

começam pela vadiagem, passam depois aos crimes contra a propriedade,

d’onde muitas vezes chegam ao de homicidio.

É indispensavel, pois, affastal-os d’aquelles, que pela sua falta do

conhecimentos ou pela sua desmoralisação o não podem educar.

Grande parte dos menores condemnados pelo crime de furto, já tinham

sido presos pelo crime de vadiagem, e alguns exemplos podia apresentar

de menores, que entraram na casa de correcção por mais de uma vez como

vadios, sendo-lhes imposta a pena de prisão só por poucos dias, e

quando passavam dos dezoito annos foram processados por crime de roubo

e condemnados a degredo.

Pelo mappa das reincidencias vê-se que desde a installação d’este

estabelecimento sessenta menores entraram alli duas vezes, trinta e um

tres vezes, nove quatro vezes, sete cinco vezes, um seis vezes e um

sete vezes.»[86]

Os crimes contra a propriedade são actualmente em maior numero do

que os crimes contra as pessoas, devido ao progresso na brandura dos

costumes, ao desenvolvimento da policia e á progressiva vigilancia

que fez apparecer nos tribunaes maior numero de certos crimes, como

attentados contra o pudor, que a maior parte das vezes passavam

desapercebidos.

Sendo hoje maior a riqueza, aguça mais o sentimento da cubiça e da

inveja, gera o alcoolismo que prepara o nevrotico e o degenerado para o

crime contra as pessoas.

O infanticido parece ter augmentado, mas o augmento no numero d’esse

crime é, como dissemos acima, devido á mór vigilancia da policia.

Ha delinquentes effectivamente irregeneraveis, todavia por isso

devemos desprezar a educação? N’esse caso tambem devemos condemnar a

therapeutica e a hygiene. Uma das causas por que o crime, registado nas

estatisticas, parece augmentar com a instrucção é porque a população

urbana dá maior contingente que os campos e as cidades e estas tentam

mais o malfeitor pela facilidade da fuga e abundancia do roubo.[87]

«Condemnado o prezo, escreve o nosso illustre jurisconsulto Silvestre

Pinheiro Ferreira, a uma isolação e a um silencio absolutos, e

forçando-o a concentrar-se em si mesmo; que esperavam podesse elle

achar no fundo de sua alma corrompida, que houvesse de o trazer a

sentimentos honestos? Que noções de resignação, de moderação, de

virtude, de amor aos seus similhantes julgavam elle podesse achar em

uma alma tal? Quanto ao passado, as suas recordações só lhe apresentam

devassidão e crimes. O presente só lhe offerece a perspectiva de

uma immensa e odiosa tortura. O futuro, não lhe promette senão a

continuação d’essa tortura até á expiação da pena; e, a partir d’esse

ponto, a fatal alternativa ou de perecer na miseria, ou de se lançar de

novo nos caminhos do crime.

E que ha ahi que o possa arrancar a estas funebres meditações? Nada,

absolutamente nada, porque o systema da isolação e de mudismo não lhe

permitte distracção alguma. E poude com effeito, alguem persuadir-se

seriamente que um espirito sumido em taes ideias poderia abrir-se á

linguagem da religião e da moral? Seria não conhecer o coração humano.

O espirito para poder escutar com attenção as lições da moral ha de

achar n’ellas attractivos: para que essas lições se gravem no coração

e se tornem sentimentos, é necessario que a alma procure consolação

e prazer encantador em as escutar. Mas que prazer e encanto poderão

provar as almas embrutecidas no vicio ouvindo a linguagem da virtude?

Não ha mais que um meio para o conseguir,--é illuminal-as. Comtudo,

essa é outra grande difficuldade a vencer. Espiritos preguiçosos,

a quem o mais leve pensar fatiga e aborrece, precisam de um movel

poderoso para se determinarem a receber a menor instrucção. Este movel

deve achar-se na esperança de alliviar a immensa tortura moral do

silencio.

Saiba, pois, o preso que se elle prestar ouvidos doceis ao ensino e

instrucção, elle se achará admittido ás conferencias que, segundo

os regulamentos, deverão ter logar entre as pessoas a esse objecto

commissionadas, e aquelles dos presos que d’ellas se fizerem dignos.

Estas conferencias não devem versar unicamente sobre a moral, porque

(e ainda outra vez e muitas o repito) o que for semear n’um campo por

arrotear, só deve esperar ver perdido o seu trabalho, colhendo sómente

espinhos. É preciso pois habituar o espirito do preso a dirigir a sua

attenção a objectos, que, ao mesmo que instructivos, puxem e convidem,

a objectos que, tendo pouca ou nenhuma ligação com os seus habitos de

vicio, não o indisponham a dar-lhes attenção.

Assim como nos conservatorios das artes se tem creado cursos

scientificos ao alcance das classes operarias, alguns d’estes deveriam

tambem estabelecer-se no centro das casas de correcção. Porque então o

espirito dos presos, desenvolvendo-se e dilatando-se por meio do estudo

d’estas diversas sciencias, viria a tornar-se diariamente sempre mais

disposto a subir da consideração dos phenomenos da natureza até ao Ente

Supremo, de onde ella tira a sua origem; e então os seus corações,

abrindo-se insensivelmente aos sentimentos religiosos, principiavam

acceitando sem custo e acabariam acolhendo com gosto essas mesmas

lições de moral, que ao principio os seus espiritos ainda enlodados no

vicio, por ventura repudiaram com tedio e desdem. Alem da inapreciavel

vantagem de adoçar illuminando estes caracteres selvaticos; além da

utilidade que elles não menos que a sociedade hão-de deduzir desta

longa carreira de estudos graduaes e proporcionados á capacidade de

cada um d’elles eu apontarei ainda outra vantagem, a meus olhos muito

mais importante; e é a de preservar os contrictos já soltos, de cahirem

n’aquellas perigosas sociedades que antes frequentavam.[88]»

O nosso illustre tratadista de litteratura pedagogica D. Antonio da

Costa escreve:

«N’aquelle mesmo anno de 1879 achava-se na cadeia de Braga, condemnado

tambem a prisão perpetua, Albino de Sá Carneiro, que havia annos

creára e regia dentro dos ferros uma escola primaria para os presos

e para creanças. Estas aprenderam ali ás centenas. Presos, mais de

cem. Quatorze annos de carcere imprimiram no preso professor aquella

tristeza resignada, que é um dos caracteristicos mais dolorosos dos que

padecem. O dia estava triste como elle; e o carcere, se é possivel,

ainda mais triste do que nós ambos. Entretanto, como n’um dia tenebroso

e por entre o ribombar dos trovões despede o sol por sobre a natureza

um raio fugitivo, e por isso mais brilhante, não sei que raios formosos

reflectiam sobre a escuridão do carcere os livros dos alumnos,

dispersos por aquella carunchosa mesa, e os quadros da leitura nas

paredes silenciosas.

Na larga conversação que tivemos, perguntei-lhe:

--E quaes são os presos mais difficeis de regenerar?

--Os ladrões; inquestionavelmente os ladrões.

Ó ladroeira eterna! como o teu reinado, alem de universal, é sobretudo

incorrigivel! Bem te conhecia Pedro I, que te cortava pela raiz!

--Quantos presos teem saído instruidos da sua escola?

--Nem todos podem completar a instrucção, porque uns acabam de cumprir

a sentença; outros, quando já se vão adiantando, são removidos. Mas

posso calcular que um cento de analphabetos e desmoralisados tem levado

d’aqui mais ou menos instrucção.

--E só instrucção?

--Não só; mais e melhor, a educação. Sem esta escola, como é que um

João da Silva, preso e analphabeto durante quarenta annos, seria hoje

procurador em Barcellos? como é que o pedreiro Soutello saíria apto

para dirigir os seus negocios? como é que um José Pereira Barbosa,

vendo-se instruido ao reentrar na sociedade, poderia partir para o

Brazil: ganhar ali a sua vida, começar logo um commercio, fazel-o

progredir, mandar dinheiro á familia, e em seguida regressar á patria

com o fructo do seu trabalho? como é que um Manuel Rodrigues e um

José Gomes teriam apresentado, depois de soltos, um comportamento

exemplar, correspondendo-se com o seu professor por meio da escripta

que elle lhes ensinara, narrando-lhe as suas vidas, e protestando-lhe

a transformação completa que n’elles se operou?--porque, proseguiu Sá

Carneiro, fico-me interessando por todos esses que eduquei, como se

fossem meus filhos.

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 27 / 32 题