MARTINHO DE MENDONÇA.

É innegavel que a educação, o meio social e a hereditariedade são os

guias principaes que dirigem o individuo durante toda a sua vida. Se a

acção educativa não é, como pretendem alguns sociologos, efficaz para

reformar os sentimentos do individuo, porque elles são o resultado

hereditario de lentas elaborações, é o todavia para reformar uma

geração, para criar uma sociedade futura, mais justa, mais moralisada

e mais cheia de sentimentos bons e generosos. O sentimento é um dos

factos psychologicos, que maior influencia exerce sobre o caracter;

insuflar pois na alma o sentimento religioso, o sentimento esthetico, o

sentimento moral, é melhorar o individuo, é engrandecer a sociedade.

A educação em alguns casos possue relativamente pouco poder

para modificar os sentimentos e tem de exercer a sua acção pela

intelligencia afim de dirigir a acquesição dos habitos. A acção

volitiva sobre a intelligencia começa hesitante, disciplinando as

numerosas associações de movimentos reflexos necessarios para dirigir

certos musculos em determinado sentido. Por ultimo basta que os nervos

sensitivos levem aos centros nervosos o grau determinado de impressões

para a excitação ser immediatamente produzida. É assim que os habitos

se adquirem e que transmittidos pela hereditariedade se convertem em

instinctos. Se a acção educativa é pouco efficaz no individuo, ficará

de reserva para os seus descendentes.

Como é sabido a associação das idéas é uma das operações mais

importantes na formação da estructura intellectual. Ha necessidade

de habituar o espirito a formar juizos segundo certas relações das

cousas, no intuito de tirar do valor d’essas relações todo o partido

possivel em favor da educação do caracter. É preciso ensinar a

creança a ligar na sua consciencia d’uma maneira irreductivel, ás más

obras sentimentos de vergonhosa reprovação e de dôr, e ás boas obras

sentimentos de honra, de merito e de respeito para que se habitue

a aborrecer os primeiros e a amar os segundos. Estas associações

tornadas indissoluveis e ás vezes inconscientes é que formam o nosso

caracter e regulam o nosso procedimento na vida moral. O exercicio

intensivamente repetido das nossas operações intellectuaes torna-se

com a frequencia cada vez mais automatico, e como os actos automaticos

são inconscientes, parece que a humanidade caminha a passos rapidos

para o inconsciente, porém não succede assim, porque os resultados das

operações não se tornam inconscientes, o que se torna inconsciente são

estas associações mechanicas dos elementos adquiridos pela experiencia

e transmittidos pela hereditariedade. É claro que a consciencia a que

nos acabamos de referir não é a consciencia moral, porque essa não

augmenta nem diminue com a herança accumulada, permanece inalteravel,

impondo á vontade a necessidade de executar uma acção em obediencia

á lei do dever. A intelligencia culta esclarece melhor o valor dos

motivos actuantes, mas a verdadeira superioridade moral d’um individuo

ou d’uma nação está em respeitar a lei.

No caracter é preciso distinguir o que é congenito e o que vem pela

influencia do meio e da educação. Para as disposições nativas é

difficilimo alcançar extirpação radical, mas para as adquiridas toda

a formação do caracter depende de bem dirigir os habitos, sobretudo,

no periodo psychogenico. As inclinações innatas podem ser attenuadas

dentro de certos limites e até vencidas por considerações de interesse

proprio ou pela inoculação d’uma paixão elevada que lucte contra uma

paixão ruim.

Punir é uma triste necessidade social, evitar que o crime exista é que

deve ser a principal funcção das sociedades que aspiram á tranquilidade

e á segurança economica. Pretender a extincção total do crime seria uma

aspiração chimerica, mas diminuir a sua frequencia pela acção educativa

e por outros melhoramentos e circumstancias, que desinvolvem o bem

estar social, é _desideratum_, que progressivamente póde converter-se

em realidade.

O grande contingente dos criminosos é recrutado entre os menores

abandonados, filhos de paes crapulosos, que no alvorecer da vida lhes

deram tristes exemplos. Para estes a rapinagem converte-se n’uma

profissão, primeiro impellidos pela necessidade, depois atrahidos pelo

habito. A ausencia de educação moral faz com que tenham por unicos

prazeres o ocio, a embriaguez, a libertinagem, a vãgloria, o jogo,

que são outros tantos incentivos para a pratica do crime. É já um

aphorismo em jurisprudencia que muito mais vale prevenir os crimes do

que punil-os. A educação posta ao serviço da sciencia social preventiva

do crime, é a alavanca mais poderosamente salutar, para destruir as más

inclinações e converter em habito o amor do bem e a pratica do justo. A

acção educativa é muito mais efficaz na creança que no adulto, por isso

são preferiveis os asylos de imfancia ás penitenciarias correccionaes;

os primeiros evitam em parte as segundas.

Sobre a influencia da educação nos instinctos criminaes escreve

Garofalo, o porta-bandeira da jurisprudencia anthropologica: «Muitos

philosophos crêem na possibilidade de modificar os sentimentos moraes

pela educação ou pelas influencias do meio e na possibilidade de

transformar o meio social mediante o poder do Estado. Duas questões

se seguem, uma psychologica, outra social e sobretudo economica, e

ambas merecem um detido exame. Começaremos pela questão da influencia

que pode ter a educação sobre as tendencias dos criminosos afim de

podermos apreciar o que ha de verdadeiro e de acceitavel na theoria

penal, chamada correccionalista. O problema da educação seria, com

effeito, da maior importancia para a sciencia penal se, por meio de

ensinamentos fosse possivel transformar o caracter do individuo _já

vindo da infancia_. Desgraçadamente parece demonstrado que a educação

só representa uma d’essas influencias actuantes _nos primeiros annos

da vida_ e que, como a herança e a tradição contribuem para formar

o caracter. Estando este fixado como a physionomia no physico, fica

o que hade ser toda a vida. Ponho até em duvida que um instincto

moral ausente se possa criar pela educação no periodo da primeira

infancia. Em primeiro logar, quando se trata da infancia, a palavra

educação não deve ser tomada em sentido pedagogico, significa antes

um conjuncto inteiro de influencias exteriores, uma serie completa

de scenas que a creança vê desenrolarem-se continuadamente e que lhe

imprimem habitos moraes, ensinando-lhe experimentalmente, e quasi

inconscientemente, qual é o procedimento a seguir nos differentes

casos. São os exemplos da familia, ainda mais que os ensinamentos

que actuam em seu espirito e em seu coração. Mas dando-se á palavra

_educação_ uma significação extensa, não havemos a certeza do seu

effeito, ou ao menos, esse effeito de modo algum se pode medir.[69]

Podem-nos fazer notar que quasi todas as creanças parecem privadas

de senso moral nos primeiros annos da sua vida; a sua crueldade

para com os animaes é conhecida assim como a sua tendencia para se

apoderarem do que pertence aos outros; são inteiramente egoistas, e

quando se trata de satisfazer os seus desejos, nada absolutamente se

preoccupam com os desgostos que os outros soffrem. Na maior parte

dos casos, tudo isto muda em chegando a adolescencia; mas podem-nos

objectar que esta transformação psychologica é o effeito da educação

ou sómente se hade ver n’isto um phenomeno d’evolução organica,

semelhante á evolução embryogenica, que faz percorrer o feto pelas

differentes formas da animalidade, desde as mais rudimentares até ás

do homem? Tem-se dito que a evolução do individuo reproduz em ponto

pequeno a da especie. Assim no organismo psychico, os instinctos que

primeiro apparecem, seriam os do animal, depois os mais egoistas,

os do homem primitivo, aos quaes viriam ajuntar-se successivamente

os sentimentos ego-altruistas, e altruistas, adquiridos pela raça

primeiramente, em seguida pela familia e finalmente pelos paes da

creança. Seriam outras tantas juxtasposições d’instinctos e de

sentimentos, que todavia não seriam devidos á educação, ou á influencia

do meio ambiente, mas simplesmente á herança. «A consciencia, diz M.

Espinas, cresce como o organismo e parallelamente a elle, encerrando

aptidões, fórmas predeterminadas de pensamento e de acção, que são

emanações directas de consciencia, anteriores _eclipsadas um instante

é certo na obscuridade da transmissão organica_, mas reapparecendo

um dia com caracteres de semelhança não equivocas, que logo se

confirmam cada vez mais pelo exemplo e pela educação. _Uma geração

é um phenomeno de fissiparidade transportado na consciencia._ Esta

hypothese não é inverosimil, ainda que seja impossivel demonstral-a

rigorosamente porque seria para isso necessario poder distinguir, no

desenvolvimento moral d’uma creança, o que é devido á herança do que é

devido á educação. E como o conseguiriamos, tanto mais que estas duas

influencias actuam ordinariamente na mesma direcção, porque, quasi

sempre _derivam das mesmas pessoas, dos paes? A educação domestica

não é senão a continuação da herança_; o que não foi transmittido

organicamente, sel-o-ha pela força dos exemplos e de uma maneira

igualmente inconsciente. Nunca se poderá calcular a que ponto chegaria

uma d’estas duas forças sem o soccorro da outra. É por isso que

Darwin, d’um lado, tem o direito de dizer que se se transportasse a

um mesmo paiz um certo numero de irlandezes e de escocezes, passado

algum tempo, seriam aquelles dez vezes mais numerosas que estes, mas

os escocezes, por causa de suas qualidades hereditarias, estariam á

frente do governo e das industrias.--E Fouillée póde tambem replicar:

«deitae nos berços de amas escocezas crianças irlandezas, sem que os

paes possam dar pela substituição: fazei-os educar como escocezes e

talvez vejais com a maior admiração identico resultado.» Mas, esta

segunda experiencia ainda não foi ensaiada e é até provavel que nunca

se cheguem a fazer experiencias taes. Ha sem duvida milhares de

crianças que não são educadas por seus paes, mas de ordinario são

desconhecidos estes ultimos. Emfim, é sempre preciso dar informações

dos phenomenos d’atavismo, que permanecem ainda na obscuridade e que

se não podem determinar; de sorte que tudo conspirava para que o

problema fique sem solução. Muitas vezes succede que os instinctos

paternos são abafados ou attenuados pelos exemplos maternos; outras

vezes dá-se o contrario. Mas isto nada prova em favor da efficacia

educativa, porque pode-se sustentar com igual apparencia de verdade

que o effeito é simplesmente devido á superioridade final de uma

das duas heranças. O que bem se póde affirmar é que a influencia

_hereditaria_ nos instinctos moraes está _demonstrada_, emquanto que

o da educação é _duvidosa_, mas _provavel_ uma vez que se tome no

sentido dos _exemplos_ e dos _habitos_; que a considerem como sempre

cada vez mais _fraca, á medida que a idade avança_ e que simplesmente

se lhe attribue uma acção _capaz de modificar_ o caracter, isto é

podendo, mas não extirpar os instinctos perversos, que ficariam sempre

latentes no organismo psychico. É o que explica como a perversidade,

talvez atavica, revelada por algumas crianças em tenra idade, jámais

pôde ser corrigida em toda a sua vida, apesar do procedimento mais

exemplar de seus paes e das pessoas que com ellas vivem em contacto e a

despeito dos cuidados mais assiduos e dos melhores ensinamentos. Pelo

contrario, parece incontestavel que a _influencia deleteria_ de uma _má

educação_ ou de um meio ambiente depravado, pôde abafar inteiramente

o senso moral transmittido e substituil-o pelos maus instinctos. De

sorte que a _criação artificial de um bom caracter seria sempre pouco

estavel, emquanto a de um mau caracter seria completa_. Isto explica-se

facilmente, segundo M. Ferri, quando pensamos que os germens maus

ou instinctos anti-sociaes, que correspondem á idade primitiva da

humanidade, estão mais profundamente enraizados no organismo psychico,

precisamente porque elles remontam a uma data mais affastada na raça.

São pois mais fortes do que aquelles que foram substituidos pela

evolução. Por isso, é que os instinctos selvagens «não sómente não

podem ser nunca inteiramente abafados; mas apenas o meio ambiente e as

circumstancias da vida, favorecem a sua expansão, brotam com violencia,

porque, dizia Carlyle, a civilisação não é mais que um involucro sob o

qual pode sempre arder em fogo infernal a natureza selvagem do homem.»

Agora se a influencia da educação _pelo que respeita ao sentido

moral_, é duvidosa, _mesmo durante a infancia_, o que será ao sahir

d’este periodo? M. Sergi crê que o caracter é formado por camadas

sobrepostas, que podem cobrir e esconder inteiramente o caracter

congenital; o meio ambiente a educação experimental, os mesmos

ensinamentos poderiam produzir uma nova camada, não só durante a

infancia, mas durante toda a vida do homem. Esta hypothese não é

admissivel, a meu ver, salvo se supposermos que as camadas mais

recentes nunca alteram o typo já formado do caracter. Ninguem duvida

de que o organismo psychico não tenha o seu periodo de formação e

de desenvolvimento tanto como o organismo physico. O caracter, como

a physionomia, declara-se desde a mais tenra idade. Póde tornar-se

mais docil ou mais rispido, amaciar, embotar as unhas ou aguçal-as,

disfarçar-se na vida ordinaria; mas, como poderia elle perder o seu

typo? Ora um typo differente do caracter, e do homem desprovido dos

mais elementares sentimentos moraes, é um defeito organica que deriva

da herança, do atavismo ou d’um estado pathologico. Como poderiamos

suppor que influencias exteriores reparem este defeito congenital?

Seria uma criação _ex nihilo_, a producção _artificial do sentido

moral_ pertencente á _raça_, mas de que o _individuo_ se encontra

_excepcionalmente_ desprovido! Eis o que é dificil de conceber, o que

parece até impossivel, quando se não trata já de uma criança. Isto

não é negar o poder da educação. Quem póde duvidar dos seus prodigios

quando se trata de aperfeiçoar um caracter, de tornar mais delicados

os sentimentos já existentes, de trabalhar no estofo, n’uma palavra?

O que lhe não reconhecemos é o poder de tirar alguma cousa do nada.

É sobre este ponto que um illustre psychologo, o dr. Despine, se

contradiz, me parece a mim, da maneira mais espantosa. É certamente

a elle que nós devemos uma serie de observações sobre os criminosos

confirmando a sua anomalia; foi elle até que formulou uma theoria

muito approximada á nossa, sobre a ausencia do sentido moral, não

sómente entre os assassinos a sangue frio, mas tambem nos grandes

criminosos violentos. Foi ainda elle quem affirmou que «a educação

mais diffusa não pode crear faculdades, só póde cultivar as que

existem ao menos em germen. As faculdades intellectuaes por si sós não

procuram os conhecimentos instinctivos dados pelas faculdades moraes;

não teem esse poder,» que «é facil reconhecer nas faculdades moraes

a origem dos motivos d’acção que devem apresentar-se ao espirito do

homem nas diversas circumstancias em que este pode encontrar-se» e,

emfim que «todos os raciocinios, todos os actos intellectuaes, não

provarão já o sentimento do dever, não provarão as affeições, o medo,

a esperança o sentimento do bello.» E apesar d’isto é este mesmo

auctor quem propõe um _tratamento moral palliativo e curativo_ para os

criminosos, tratamento que elle resumiu da maneira seguinte: Impedir

toda a communicação entre os individuos moralmente imperfeitos.--Não

os deixar na solidão, porque elles não possuem na sua consciencia,

nenhum meio de emenda.--Conserval-os constantemente em contacto com

pessoas moraes, capazes de os vigiar, de estudar a sua natureza

instinctiva, de imprimir n’esta e dar aos seus pensamentos uma boa

direcção, inspirando-lhes ideias d’ordem, e fazendo nascer n’elles o

gosto e o habito do trabalho. O estado deveria pois tomar a seu cargo

estes cuidados assiduos, constantes pelos encarcerados; vigiar os seus

progressos, como se pratica n’um collegio de pequenos; tentar, por

meio de exemplos, pela experiencia, pela instrucção, suavisar-lhes

o caracter, tornal-os affectuosos, probos, cheios de caridade e de

zelo. A ideia da applicação de uma semelhante therapia moral a muitos

milhares de criminosos é, praticamente, uma utopia. Não fazia falta

collocar ao lado de cada prezo um anjo consolador, por assim dizer?

As pessoas chamadas para um semelhante emprego deveriam ser dotadas

das mais nobres qualidades, das mais raras no homem; a paciencia, a

vigilancia, a severidade e com um conhecimento profundo do coração

humano, deveriam ter instrucção e dedicação. Onde se encontrariam em

numero suficiente medicos das almas nas condições requeridas? Quaes

seriam as finanças que poderiam supportar semelhantes despezas? Mas,

suppondo por um pouco que as dificuldades praticas não levantariam

um obstaculo insuperavel a este systema, quaes seriam os effeitos do

seu emprego? O individuo, uma vez separado de toda a sociedade e não

tendo já sob os olhos as tentações continuas da vida ordinaria, não

experimentaria já em seu coração as impulsões criminosas. A causa

occasional essa faltar-lhe-hia, mas o germen criminal continuaria a

residir n’elle em estado latente, prompto a mostrar-se, assim que as

condições precedentes da sua existencia normal viessem a reproduzir-se.

A emenda pois seria apenas apparente, se é que não era fingida.

Poder-se-hia acaso fallar de uma pedagogia experimental? Mas, se

é certo que os instinctos moraes da humanidade foram criados por

milhões de experiencias utilitarias feitas por nossos antepassados

durante milhares de seculos, como se poderá imaginar a sua repetição

artificial n’um espaço de tempo tão curto como a vida d’um individuo,

cujo instincto não herdou, fructo d’estas experiencias das gerações

passadas? É evidente que nada podemos tentar fóra do raciocinio. Tem-se

tratado depois de fazer propostas mais praticas. Em primeiro logar

seria inutil applicar a cura moral de um modo _directo_, conforme a

utopia de Despine; mas effectuar-se-hia por si mesma, mediante um

bom regime penitenciario. O isolamento, o silencio, o trabalho, a

instrucção traziam a reconsideração e as boas resoluções, capazes de

regenerar o condemnado. Mas, quanto ao isolamento «para o pobre e para

o desgraçado, para o homem que tudo perdeu e cahiu,--diz eloquentemente

Mittelstad,--não é a separação da sociedade humana que lhe faz falta

é sim o amor e o contacto d’esta...» E quanto ao trabalho diz ainda o

mesmo auctor: «Não resta presentemente para nós humanistas da escola

correccionalista, senão o vago desesperador d’este dilemma, a ouvir-se

n’estas palavras: «_trabalho educativo dos presos_». Querem elles

o effeito benefico do trabalho sobre os costumes? Então é preciso

que elle se exerça sem coerção e que se substitua a detenção pela

liberdade ou antes querem elles a coerção ao trabalho? Então eil-os

de novo no campo da dor penal, e o fim da emenda, que é d’elle?![70]

Mas ao trabalho obrigatorio, respondem os correccionalistas, deve

alliar-se a educação do espirito e do coração com o auxilio de escolas,

onde os condemnados, ordinariamente grosseiros e ignorantes, podem

adquirir os conhecimentos do bem e da verdade, que lhes fazem falta.

Desgraçadamente, como nós o veremos em breve, a experiencia tem

demonstrado que a efficacia da escola é ordinariamente nulla sobre a

moral individual. Tem-se um delinquente adulto, privado de uma parte

do senso moral, o instincto da piedade; pretende-se inculcar-lhe este

instincto por meio do ensino, isto é repetindo-lhe que um dos deveres

do homem é ser compassivo, que a moral prohibe fazer mal aos nossos

semelhantes e assim outras cousas muito bonitas... O delinquente

porem só adquirirá, se o não tiver já, um certo criterio para saber

conduzir-se mais seguramente conforme os principios da moral. N’uma

palavra, adquirir ideias, não sentimentos. E depois? O homem é bom não

pela reflexão, mas por instincto que lhe falta. Como proceder para

supprir este defeito organico? Elle verá o bem, mas fará o mal, quando

o mal lhe convir e lhe causar prazer.

_Vejo e approvo o que é melhor

Mas sigo o peior._[71]

Por mais que se lhe repita que o interesse social tem muito mais

importancia que o interesse individual; que este, no fim de contas,

se confunde até com aquelle: que, como membros da sociedade, nós

devemos, em certos casos, sacrificar o nosso egoismo, para que assim

procedam comnosco. Ou antes tomando por base um principio religioso,

falle-se-lhe da felicidade de uma vida futura para o homem justo e de

condemnação eterna que espera os perversos. Na essencia, tudo se reduz

a um raciocinio: se tu praticares uma tal acção, advir-te-ha mal. _Logo

para evitar isto, não deverás praticar aquillo._ Mas, se o delinquente

prefere satisfazer antes a sua propria paixão, que entregar-se a

qualquer outro prazer, a qualquer outra esperança, o raciocinio então

já não tem valor para elle, o que poderia impedil-o de commetter

um novo crime, não é ver claramente o que os outros, e não elle,

consideram como um interesse predominante,--mas seria necessario que

elle _experimentasse a mesma repugnancia_ que os outros experimentam

pelo crime; porque o que explica toda a acção humana, é, em ultima

analyse, o caracter do individuo e sua maneira geral de sentir.

Ora um raciocinio não poderá nunca criar um instincto. Este não póde

ser senão natural ou transmittido, ou antes adquirido inconscientemente

por um effeito do meio ambiente. Eis-nos pois novamente em face dos

dois agentes principaes a herança e o meio. A educação, uma vez que

ella não represente senão ensinamentos, é de um effeito nullo, ou

pouco menos, se o meio continúa o mesmo, isto é se o criminoso, depois

da expiação da sua pena ou culpa se tornar a achar no mesmo meio

que d’antes occupava. É conhecida a historia d’aquelles negrinhos

que depois de terem sido educados e instruidos na Europa, foram

reconduzidos aos seus respectivos paizes para _civilisarem_ os seus

compatriotas. Assim que elles se viram de novo entre estes, tudo

esqueceram, tanto a grammatica e as suas regras como as boas maneiras

que tinham aprendido; despojaram-se dos seus vestidos, retiraram-se

para as florestas e eil-os outra vez selvagens como seus paes, que

aliás nem tinham conhecido! Eis aqui precisamente a que chegaria o

systema correccionalista; julgue-se do resto pelos ensaios que já se

teem tentado: o systema cellular, o de Auburn, o systema Irlandez, etc.

O numero das reincidencias por toda a parte tem augmentado, á medida

que se teem suavisado as penas e abreviado a sua duração. Em França

na proporção de 21 p. c. em 1851, chegou a 44 p. c. em 1882 para os

_delictos_ e de 23 a 52 p. c. para os _crimes_. A reincidencia--dizia

o Ministro--continua a sua marcha invasora... O augmento do numero

dos malfeitores em estado de reincidencia legal é, em dez annos de 39

p. c., perto de 2 quintas partes. A maré da reincidencia continua a

subir. Relatorio de 28 de março de 1886 onde se deplora o mesmo facto.

Na Belgica a reincidencia attingira a proporção de 56 p. c. em 1870 e

de 52 p. c. em 1873. Houvera diminuição desde 1874 até 1876, mas em

1879 chegou a proporções assustadoras (49 p. c.!) Na Italia, desde

1876 até 1885, a reincidencia dos condemnados pelos tribunaes subiu

de 10¹⁄₂ p. c. A mesma progressão em Hespanha. Ha tambem augmento,

ainda que menos pronunciado, na Austria e na Carinthia. Tudo isto

prova experimentalmente o absurdo da theoria correccionalista, das

suas applicações pelo menos. Nem podia deixar de ser assim, porque nos

seus principios ha contradicção flagrante. Com effeito, emquanto que

de um lado se declara que o fim da pena é a _correcção_ do culpado do

outro lado estabelece-se uma _medida fixa_ de pena para cada delicto,

isto é um certo numero de mezes ou de annos de detensão n’uma casa do

Estado; o que--como o disse o juiz Wilert--se parece com o tratamento

que um medico prescrevesse ao seu doente, com a indicação do dia em

que lhe deveria dar alta do hospital, quer elle estivesse curado ou

não. Tudo quanto se póde saber do naufragio d’esta theoria são as

instituições para a infancia abandonada e para os adolescentes que

começaram a mostrar más inclinações. Quanto aos adultos, apenas se

póde tentar fazel-os adquirir o _habito_ de um genero de vida que

elles _deveriam desejar poder continuar sempre_, porque será mais util

_para elles_ que qualquer outra actividade em o novo ambiente para

onde os transportarem. É assim que aquelles d’entre os criminosos que

não são inteiramente homens degenerados poderão deixar de ser nocivos

á sociedade. Isso só é realisavel pela deportação ou por colonias

agricolas que se estabeleçam nas regiões pouco habitadas da mãe-patria,

com a condição de que esta especie de exilio seja perpetuo, ou que ao

menos se não fixe d’antemão o tempo da sua duração, afim de que se

não libertem senão os raros individuos cuja regeneração pelo trabalho

possa realmente ser verificada. São casos excepcionaes. Mas nos casos

ordinarios é absurdo pensar que depois de uma ausencia mais ou menos

longa, um delinquente possa reapparecer no meio que é sua pequena

patria sem ahi passar pelas mesmas influencias que o tinham impellido

para o crime.»

Em toda a critica feita por Garofalo á escola correccionalista ha

excellentes argumentos, muitos preconceitos systematicos e algumas

contradicções. Nos capitulos anteriores já nós combatemos muitas das

hypotheses d’esta escola. Os seus defeitos nascem por um lado d’uma

funesta e erronea orientação philosophica, por outro lado da exagerada

extensão generalisadora, dada aos factos sommaticos, generalisação que

de modo nenhum scientificamente elles abrangem. O principal argumento

é--que a educação é impotente para vencer os instinctos hereditarios,

quando em boa psychologia se póde demonstrar, que a acção educativa,

quando efficaz, aniquilla as más qualidades herdadas, substituindo-as

pelos salutares beneficios adquiridos pela civilisação.

A má educação na familia é um influxo mais corruptor e mais profundo do

que o meio social. O instincto de imitação actua como importantissimo

elemento para a formação do caracter.

A educação segundo a anthropologia franceza modifica o encephalo, o

seu influxo faz augmentar ou diminuir a capacidade da caixa craneana,

apressar ou retardar o encerramento das soturas e a sua ossificação. É

innegavel que o cerebro é a condição do pensamento e sendo modificado

por factos exteriores ou internos, vem a ser ainda que indirectamente,

tambem modificadas as suas faculdades.

Paulo Broca affirma que segundo o costume de Taiti os indigenas crêem

poder fabricar, á vontade, homens de conselho ou homens de guerra

achatando nas creanças a parte posterior da cabeça no primeiro caso e o

frontal no segundo.[72]

Não póde nenhum penologo deixar de prestar justiça aos meritos e

de reconhecer os esforços da escola italiana, comtudo é impossivel

acceitar a extraordinaria affirmação de que todos os malfeitores são o

reapparecimento do homem primitivo e que o meio de verificar este typo

são especialmente os caracteres externos.

A theoria biologica do transformismo está invadindo d’um modo

anti-scientifico os principios explicativos dos phenomenos

psychologicos e sociaes, é preciso na sua applicação um pouco mais de

logica.

«Os nossos anthropologos consideram como herança da antiga barbarie a

predilecção que a mulher tem pelos adornos, que Isaias e Plauto, antes

dos nossos prégadores e dos nossos comicos, reprehenderam como um senão

e como um vicio.

A arte dos adornos, na opinião d’elles, é uma das primeiras que o

homem conheceu. Precedeu o vestuario. O selvagem de pelle aspera e

cabelluda, de costumes bestiaes, não sentia nenhuma necessidade de

se vestir. Mas o orgulho, o cuidado de se defender, o desejo sempre

crescente de se differençar e de metter medo, fizeram com que elle

pintasse e ornasse o corpo conforme o seu ideal rudimentar de belleza.

O adorno é mais que tudo a insignia do guerreiro, que quer fazer maior

e exagerar o seu typo. «Na origem das sociedades, é o homem que traz

os braceletes, manilhas, brincos, collares, pinjentes, alfinetes para

o cabello, plumas de cores vivas; é elle que se pinta, que emprega a

tatuagem, para chamar a vista, para fascinar o inimigo, affirmar a

sua cathegoria entre os seus eguaes, e excedel-os se póde; um penacho

é uma coroa.[73]» Mais tarde com o progresso relativo das artes e

da abastança, o nivel da mulher, destinado a ficar sempre inferior

ao homem, alevantou-se um nada, o senhor, que primeiramente fiava,

tecia e ennastrava permittiu-lhe que se occupasse n’esses humildes

trabalhos, não lhe desagradou vel-a adornar-se para elle, o luxo em

torno do senhor era com effeito apenas a amplificação da sua propria

magnificencia. Como elle achava de continuo meios novos de assignalar

a sua superioridade, deixou para a mulher os adornos que já não eram o

seu prestigio unico, o progresso da civilisação, é realisado sobretudo

pelo homem e para o homem, e o apartamento faz-se cada vez mais

sensivel entre os dois sexos.

É por isso que a mulher conforme dizem os anthropologos representa o

typo inferior da especie, adorna-se e enfeita-se ainda com melhor gosto

sem duvida, mas com a mesma paixão que o selvagem e o homem primitivo.

Do selvagem ao criminoso innato a distancia é pequena, e a assimilação

d’um ao outro reflectiu-se na mulher. Se o criminoso representa nas

nossas sociedades civilisadas, a selvageria primitiva, encontra-se

entre elle e a mulher semelhanças notaveis. «Ellas são mais prognathas

que os homens, tem o craneo menos volumoso (Topinard) e o cerebro menos

pesado, mesmo com estatura egual e as fórmas cerebraes tem o que quer

que seja infantil, e embryonario; são mais que os homens canhotas ou

ambisdextras; tem, se é licito dizer-lho a ellas, o pé mais chato e

menos arqueado; emfim, ellas são menos musculosas e tão completamente

imberbes como abundantes de cabêllo. São estes outros tantos traços

communs com os nossos malfeitores. Mas isto ainda não é tudo. A mesma

imprevidencia, a mesma vaidade, dois caracteres que Ferri assignala

com razão como dominantes no criminoso».[74] Paro aqui n’esta ultima

parecença. Não poderia admittir em nenhum ponto de vista a assimilação

do typo feminino ao typo selvagem ou criminoso. Com os mesmos titulos

que o homem, mas com um feitio proprio, a mulher é um ente civilisado.

Cada um tem aproveitado o progresso e collaborado com o seu quinhão,

conforme o seu destino social.

O papel da mulher é sobretudo «agradar ao homem» diz Rousseau; «e a

belleza da mulher é o signal da sua missão,» diz Proudhon; Renan poude

portanto dizer com razão que adornando, aperfeiçoando, idealisando a

sua belleza, «ella pratica uma arte, arte especial, em certo sentido a

mais encantadora das artes.»

Tenham paciencia os anthropologos extremos, a predilecção pelos

adornos, restringida pelo pudor e o bom senso, assignala antes uma

perfeição do typo humano na mulher. Mas nós precisamos defender tambem

a creança contra as pretensões abusivas de certos philosophos. Se a

mulher, reproduz em certas proporções o typo selvagem e primitivo,

a creança reproduz-lhe as differentes phases. O desenvolvimento

individual não é senão uma fórma abreviada do desenvolvimento da

especie desde o seio da mãe e durante muitos annos, a creança repete

a serie da evolução prehistorica. Aos seis mezes, ao anno, aos dois

annos, mesmo aos tres, o que domina n’elle é o selvagem. Conheço

transformista a quem não custaria mostrar-nos no «Bébé» primeiro o

selvagem da pedra lascada, depois o da pedra polida, e emfim o da edade

de bronze, tudo isto muito exactamente.

Admittamos a theoria por hypothese e verifiquemos.

O encommodo que o contacto e a pressão da roupa, produz no recemnascido

lembrará, estou d’accôrdo, a feliz e livre nudez do velho antepassado.

O curioso é que este mimo primordial persiste entre muitas creanças,

aliás, muito bem dotadas, e que a insensibilidade da pelle é um

dos caracteres attribuidos ao typo criminoso «ou selvagem». Não me

encarrego de explicar a contradicção. Mas lá vae outra: desde o decimo

segundo ao decimo quinto mez, a predilecção nascente pelo adorno

coexiste com o prazer de estar nuazinha. Deveriamos vêr n’isto duas

phases successivas de selvageria que se fundiam?

Nós chegamos, despresando as transições á edade de tres ou quatro annos

e podemos suppôr-nos no limiar da pedra polida. Ora n’esta épocha, e

sobretudo na epocha do bronze, o adorno era em geral o privilegio do

sexo forte. Deveriamos pois, achar a predilecção mais precoce e mais

viva nos rapazes que nas meninas; sem o que a doutrina da repetição

historica nos parece estar em perigo. A não ser que se supponha tambem

(uma hypothese a mais ou a menos, não é coisa de grande monta) n’essas

edades distantes a paixão pela argola de metal e por um trapo não fosse

um desejo bastante violento para se assemelhar ao sentimento da posse.

Mas vamos aos factos e estudemos sem idéa antecipada as creanças dos

dois sexos.[75]»

Póde affirmar-se[76] que as bellas artes indirectamente concorreram

para o desenvolvimento moral da humanidade. As faculdades estheticas

são até certo ponto intermediarias entre as faculdades puramente moraes

e as faculdades puramente intellectuaes. Ha homens para quem não é

possivel despertar uma certa actividade especulativa sem submetter

a sua intelligencia a um regimen esthetico previo. Este influxo é

salutar e reage sobre o espirito e sobre o coração, podendo constituir

espontaneamente um dos processos mais poderosos da pedagogia. É

incontestavel que o convivio com as bellezas da natureza ou da arte

purifica a sensibilidade, eleva o espirito, engrandece o horisonte

onde a alma se move, torna o sentimento da dignidade mais vivo e mais

delicado, expungindo do coração o que é vil e miseravel, senão para

sempre ao menos emquanto dura a vibração do enthusiasmo. Estes são os

fins indirectos, mas o fim essencial da arte é interpretar idealmente

as bellezas da natureza e com ellas deleitar-nos.

É uma das glorias mais formosas dos espiritos d’escol na civilisação

moderna, dar um logar cada vez mais amplo á sensibilidade humana

no banquete dos prazeres intellectuaes. H. Spencer, levado por um

preconceito nacional que caracterisa exclusivamente o espirito

inglez, antepoz d’um modo particular a utilidade ao sentimento

esthetico, a sciencia á arte. Propugna este paradoxo com a finura do

seu immenso talento,--representando uma inconsolavel mãe que perde o

seu filho, cuja saude comprometteu pela ignorancia da hygiene, e a

quem não consolará uma leitura da Divina Comedia de Dante no texto

original.--Podem saber-se umas noções de hygiene e conhecer o italiano,

sem que estas duas ordens de idéas se excluam, pelo contrario podem

harmonisar-se e completar-se. Seria revoltantemente injusto privar o

espirito da mulher de emoções tão delicadas e tão latificantes como o

attractivo da poesia e os encantos da arte.

As obras litterarias, d’um requinte subtil, são unicamente para os

espiritos excepcionalmente cultos e delicados, mas as universaes

bellezas da arte grega e latina, e muitas ha n’este genero, estão ao

alcance de todas as intelligencias. Ao ler, por exemplo, o dialogo do

divino Platão, o _Criton_, onde se narra pormenorisadamente a morte

sublime de Socrates, ou a descripção que Herodoto faz da passagem

do desfiladeiro das Termopylas, ou da batalha de Marathona, ninguem

deixará de sentir uma emoção benefica e consoladora, pela belleza da

narrativa e pela grandiosidade heroica dos factos. A circumstancia

de obrigar o nosso espirito a pensar e a fallar da vida do mundo

hellenico-romano não só nos incute aquelle delicado sabor esthetico,

mas imprime ao nosso caracter aquella energia moral intemerata e

athletica, que parecia feita do bronze da lança de Minerva. Meditamos

n’aquella unidade e harmonia, que tanto distingue a civilisação grega

e de que tanto carece a sociedade moderna. O nosso espirito chega a

sentir saudades d’esse passado, vendo como essa unidade e essa harmonia

foram impostas pelo sentimento artistico, cujo esplendor foi a funcção

historica d’esse glorioso povo. Nenhuma nação do mundo, em tão limitado

espaço e em tão pouco tempo, fez tanto e tão bem. O que nos resta da

formosa Hellade, passados mais de dois mil annos, ainda nos maravilha

e nos encanta, as deliciosas reliquias da sua alma são um lenitivo aos

nossos desgostos, como o capitoso _nepenthes_ de que falla Homero.

Não é meu intuito fazer n’esta occasião um curso de sciencia da

educação; porém não será fóra de proposito mostrar de modo rapido

como a cultura esthetica do espirito humano pela litteratura e pelas

bellas artes póde contribuir para o seu aperfeiçoamento moral. Querendo

esclarecer esta questão basta analysar as relações que unem o bem e

o bello, visto que as lettras e as bellas artes são as expressões do

bello, e que a idéa do bem serve de guia a tudo o que póde contribuir

para o nosso aperfeiçoamento. Ha quem sustente a these opposta, J. J.

Rousseau trata com desamor as sciencias e as artes porque vê n’ellas um

instrumento não de progresso moral mas de corrupção. O genio grego e

romano era d’uma opinião opposta, admittindo quasi a identidade do bem

e do bello, e confundindo muitas vezes as duas idéas. O bello e o bem

dimanam d’uma unica idéa, a idéa de ordem que é tão precisa á esthetica

como á moral. Evidentemente o bello não poderia existir na arte sem

a harmonia, a regularidade; em pintura as leis da perspectiva, da

proporção, impõem-se ao artista; a musica tem como condição, a medida e

o rhythmo; o drama não poderá libertar-se das tres unidades no tempo,

no espaço e na acção: ora é obvio que é sempre a idéa de ordem que se

manifesta n’estas concepções sob aspectos diversos. Succede o mesmo em

moral, a ordem é uma condição da virtude. O homem honesto carece da

razão, do senso commum e da medida que regula todos os seus actos.

Ha uma relação intima entre o bem e o bello; porque teem um principio

commum, poder-se-hia mesmo, dentro de certos limites, substituir o

gosto esthetico á consciencia moral. A harmonia reinaria em todos os

nossos actos tendo o bello invariavelmente, na sua significação mais

grandiosa, como norma do procedimento. O bello repelle a grosseria

e a bruteza, é sempre fiel á honra, á pollidez e á virtude. É além

d’isso desinteressado, não serve senão para deleitar a alma; perante um

objecto bello não somos egoistas, satisfazemo-nos em contemplal-o, não

desejamos appropriar-nos d’elle para uso exclusivo.

O gozo esthetico affasta as paixões ruins e depura a alma; com effeito

depois de um homem ter passado horas na comtemplação ou leitura das

grandes obras onde ha opulencia de belleza, não poderá entregar-se ás

brutalidades da embriaguez e das paixões degradantes.

Ha distracção mais fina e mais delicada, conforto moral mais consolador

do que a leitura do _Prometheu_ de Eschylo, da _Antigone_ de Sophocles,

ou da _Historia da guerra do Peleponeso_ de Thucydides?

As bellas lettras não corrompem o homem, o que o corrompe é a riqueza,

e esta coincide quasi sempre com as epochas de desenvolvimento

artistico e litterario: d’ahi vem a confusão de se attribuir, como

na _renascença_, a decadencia moral ás artes, quando ella provém do

excesso de riqueza. Com effeito o bello tem fórmas que são estranhas

ao bem; Cesar, ás vezes, fez uso immoral do seu genio, mas a nossa

admiração e o nosso criterio distingue bem dos seus vicios o seu

extraordinario heroismo.

Ha homens d’uma grande inferioridade moral que manifestam grande

admiração pelas artes. Ludovico de More, duque de Milão, que passou

politica e estheticamente por um grande principe, e que protegeu

copiosamente as artes, chegando a fundar uma academia na sua côrte,

retribuindo largamente os grandes artistas Bramante e Leonardo de Vinci

tem uma vida de tyranno cheia de perversidades e de crimes. Outro

exemplo assaz saliente é Nero. Modernamente póde citar-se Napoleão I

que é um todo extraordinario e de quem de Candolle, fazendo-lhe um

retrato moral execravel diz que tinha um fraco sentimento das artes

plasticas e nenhuma disposição para a musica, sem embargo de ter

ostentado que as amou. Sem duvida todos os tyrannos, que protegem

as artes é mais pela vaidade propria e como chamariz da admiração

alheia, do que pelo sentimento intimo da contemplação do bello.

Conseguintemente estes não podem servir de norma para apreciar a acção

moral do sentimento artistico.

«Na transmissão educativa transformada ao impulso da civilisação

moderna ha, como consequencia de grandes causas de erro,

alterações pathologicas individuaes que se podem grupar em duas

classes--_alterações anatomicas e alterações funccionaes_.[77]

Este segundo grupo ainda convem dividil-o em _perturbações da vida

animal e perturbações da mentalidade_.

Não é que estas differentes anomalias se destaquem realmente e possam

apparecer exclusivamente sós n’um dado individuo, mas pela razão de

todas as classificações--a commodidade e o methodo de estudo.

O typo normal especifico do homem actual soffre, em virtude da

adaptação escolar um desvio bastante notavel e importante, no ponto

de vista anthropologico que comprehende o individuo, a especie e as

sociedades.

A alteração d’este typo é o resultado das deformações a que o individuo

é sujeito durante a actividade escolar. Estas deformações são o

producto das posições viciosas que tomam os alumnos ou que lhes fazem

tomar no exercicio quotidiano de desenvolvimento intellectual e de

acquisição scientifica.

Este exercicio prolongado por mezes e annos, nas más condições

mesologicas que ordinariamente se encontram na escola, e sem a devida

compensação do exercicio physico, bem pensado e dirigido, constitue

um agente poderoso de transformação individual que a hereditariedade

reforça e fixa, já pela tendencia transmittida, já pela transmissão de

mudança que o habito operou no individuo.

N’estas considerações abrangemos com a maxima generalisação todas as

modificações de que é susceptivel o individuo humano convencionalmente

adaptado ao meio escolar.

Especialisando convenientemente, encontramos no primeiro grupo definido

os desvios da columna vertebral.

D’esta classe só pretendemos estudar, conforme o nosso ponto de vista

particular, os desvios _não symptomathicos_ de qualquer affecção.

Excluidos estes apresentam-se-nos na escola dois generos de incurvações

rachidianas:--_incurvações antero-posteriores e incurvações

lateraes_.--Pertencem ao primeiro genero a _cyphose_ e a _lordose_ e

ao segundo a _scoliose_ como especie unica, mas com variedades mais ou

menos accentuadas.

A cyphose dá uma incurvação exagerada á espinha dorsal e é

ordinariamente limitada á região dorsal, pelo que póde considerar-se

como uma ampliação da curvatura d’essa região. É produzida pelas

attitudes demoradas, com o dorso curvado, lendo, escrevendo ou

costurando, e devida, em parte, á necessidade creada pela myopia

de inclinar muito o tronco para approximar os olhos do trabalho em

execução.

Esta especie de desvio encontra-se mais frequentemente do que parece e

nem sempre se torna notavel. Mas observa-se vulgarmente nas modernas

gerações que passam a sua adolescencia na escola um arqueamento

pronunciado no dorso e a saliencia posterior anormal dos hombros,

projectando para diante a cabeça e o pescoço. É o que se encontra mais

frizantemente na velhice mais adiantada, principalmente nos individuos

cuja profissão ou habito obriga á incurvação prolongada do tronco, por

exemplo, escrivães, costureiras, cavadores. Na outra especie d’este

genero--a lordose--a convexidade da curvatura é anterior e dá-se na

região lombar e quando muito na cervical. É uma incurvação que tem mais

geralmente logar nas mulheres e que, como deformação escolar tem a sua

etiologia na attitude forçada a que são obrigadas as alumnas para se

manterem direitos em assentos sem espaldar.

Por muito distantes que pareçam estar estas ideias, ha entre ellas uma

relação mais proxima, infelizmente do que entre escola e educação;

porque tal como educação e escola se consideram hoje, o que se adquire

mais facilmente do que uma educação bem dirigida e equilibrada é um

certo grau de morbidez caracteristico dos individuos que vivem em

logares restrictos e que são adaptados a um modo de vida artificial e

anomalo.

A escola, como equivalente de estufa ou de viveiro, dá productos

de degenerescencia que são o resultado mais contraproducente da

civilisação moderna, d’este pretendido progresso humano que nos leva

por vezes a um pessimismo doloroso e desolador em vez de nos conduzir a

um aperfeiçoamento a que já teria decerto chegado a nossa especie, se

varios elementos perturbadores não influissem na sua evolução.

É que realmente tem-se desenvolvido mais a intelligencia do que a

energia physica e alcançou-se com este desequilibrio uma tal devassidão

dos elementos psychicos na educação que se obtem frequentes resultados

negativos, agora, isto é, na epoca em que os programmas attingiram o

maximo desenvolvimento.

Se collocarmos em parallelo esta exhuberancia dos programmas e do

ensino intellectual com a marcha evolutiva da educação physica e

moral e com a nosographia, particularmente na applicação á escola,

tornar-se-ha bem avultante, apesar de todos os aperfeiçoamentos

apparentes, o amesquinhamento das raças, mesmo nas manifestações

intellectuaes, que tanto se obstinam as boas sociedades em fazer

realçar, embora á custa da salubridade individuar e collectiva,

produzindo a final um definhamento cujos signaes se pronunciam cada

vez mais nas descendentes das velhas raças europeas civilisadas, mas

decadentes.

Esta conclusão é tanto mais legitima quanto maior numero de exemplos a

Historia apresenta de genios, de sabios, de celebridades de diversos

typos, que representam em grande parte a negação da escola, e foram

comtudo grandes, livres na sua expansibilidade genial, e vieram a

occupar as culminancias sociaes, como as aguias e os açores nas

eminencias dos rochedos olhando o mundo com o desprezo que lhe permitte

a potencia das suas azas e das suas garras.

Justamente, muitos genios, precisaram, para mais largamente exercitarem

o seu vôo, forçar os gradeamentos tristonhos das gaiolas de educação

a que em vão pretenderam sujeital-os e para alguns, como Darwin, por

exemplo, só depois de passado o tempo escolar poderam manifestar as

suas aptidões, porque na escola eram tidos como menos aptos.

O que é tristemente certo e independente de qualquer pessimismo é

que, apesar da extraordinaria ampliação dos programmas de ensino,

os sabios que ainda hoje ha e os que ainda são robustos pertencem á

geração anterior, contemporaneos de Chevreul, e anteriores ainda ao

movimento escolar moderno, emquanto que da geração actual, sahida da

estufa educativa não se distinguem, proporcionalmente, na quantidade

e na qualidade, os genios, os sabios, por estudos, por descobertas

que possam tornal-as equivalentes a Pasteur, a Trousseau, a Broca, a

Lombroso, a V. Hugo, a Tourgueneff, a Wagner, a Delacroix, e a tantos

outros que, por assim dizer, monopolisaram a originalidade, o poder

descobridor e inventivo que tem apenas um echo nas sociedades hodiernas.

O ensino collectivo, escolar, restricto, apenas mais complicado,

mas não muito mais vasto do que nas epochas passadas, fornece á

vida pratica productos de fabrica, industriaes levando a respectiva

marca--os stigmas da degenerescencia. São resultados de tentativas

frustres, talvez typos de transição, mas a sociedade não se acha

realmente mais adiantada, menos viciosa, antes pelo contrario. E se,

nas revelações exteriores da actividade commum, ainda se admira alguma

obra grandiosa como a celebração do centenario da Republica franceza,

essa maravilha é feita de passadas glorias, é obra de adultos e de

velhos experimentados e sabedores, é resultante de exforços conduzidos

scientificamente de outras eras, o aproveitamento de descobertas

anteriores; o que tem de novo é a fórma e a applicação. Tal é, por

exemplo, o phonographo Tainter--Edison. É preciso lembrar que a torre

Eiffel não se ensina a construir na escola.

Seria de certo exigir muito, mas por isso bastam á escola principios,

noções, idéas, e a escola de hoje, moldada nas reformas recentes, tem

pouco d’esse indispensavel material, por muito que lá se trabalhe;

porque ha sensivelmente falta de ordem, de equilibrio, de methodo,

e d’este trabalho desordenado sae, como no poema surprehendente de

V. Hugo--_Puissance egale bonté_--um _gafanhoto brilhante_ mas...

destruidor de culturas. Será isto uma consequencia da degeneração das

raças que habitam o velho continente ou simplesmente o resultado da

educação como até aqui tem sido dirigida? É o que tratamos de estudar.

Em primeiro logar as nações arrastadas por uma corrente de

industrialismo teem hoje o triplo fim--industria, commercio e luxo.

Desde muito tempo que a actividade civilisada se reduz totalmente

á industria, tendencia que mais se accentuou desde o começo d’este

seculo. O principio é a fabrica, o meio é o commercio e o fim é o luxo.

De modo que cada vez é mais pequena a esphera da actividade

desinteressada, scientifica ou artistica. Hoje tudo quanto trabalha não

tem singelamente como fim a existencia e o bem estar normal, primitivo;

ha em vista o luxo e a gloria, que é tambem um luxo.

Na consecução d’este fim multiplo a humanidade desviada da sua linha

natural de aperfeiçoamento entra no dominio da pathologia. Esta

explica-nos como, a despeito do progresso de todas as epochas, dos

seculos passados e do presente, as raças que se chamam civilisadas vão

cahindo n’uma degeneração tristissima, porque, como dizia Theophilo

Gautier, a ruina humana é a mais triste das ruinas.

As sociedades tem ainda os grandes contagios, a tuberculose, o

arthritismo, o crime, o alcoolismo e variadas fórmas de nevrose que

constituem um grupo nosologico á parte e o assumpto de um vasto estudo,

porque o industrialismo usurpa em seu favor os mais generosos exforços

e arrasta até os artistas e os homens de sciencia, e os hygienistas

mal podem vibrar a sua palavra auctorisada no meio do ruidoso labor

dos tantos industriaes e mal conseguem vencer a astucia de tantos

_industriosos_.

Obedecendo á mesma lei, a escola é tambem uma fabrica onde se trabalha

em _alta pressão_ conforme a phrase do dr. J. Rochard, produzindo o

que este illustre hygienista francez chama _petits savants à lunettes,

myopes, chétifs bourrés de chiffres et de formules_...

Esta adulteração não póde passar sem reparo perante aquelles que prezam

sinceramente a sciencia e as legitimas manifestações intellectuaes,

visto que a cultura, como ella é presentemente feita, dá productos

analogos aos que uma horticultura banal obtem pela transformação de

plantas naturalmente simples e bellas em monstros botanicos para

admiração do vulgo e vaidade do jardineiro.

Com os primeiros exercicios escolares começam as deformações anatomicas

e consequentemente as alterações funccionaes que tomam facilmente um

feitio peculiar de modo que a escola, fóra dos preceitos, muitas vezes

da hygiene mais elementar, entra largamente na secção etiologica da

pathologia geral, onde, com sentimento, não vemos a menor adhesão

especifica a este grupo de causas, a não ser muito largamente.

Este esquecimento admira-nos tanto mais quanto achamos o parentesco

pathogenico de muitas lesões e desvios anatomico-physiologicos na

nosologia escolar.

É preciso não esquecer um só momento que é dos primeiros annos que

depende o resto da existencia de cada homem e que abandonado ou mal

dirigido n’esses primordios da vida fica vitaliciamente entregue á sua

hereditariedade e ás commoções do meio social e climaterico.

Fallámos da hereditariedade e parece-nos dever declarar aqui que este

importantissimo factor não fica por nós posto de parte no estudo da

nosographia escolar a que nos dedicamos. Mas se effectivamente a

creança vem para a escola na posse de uma herança morbida qualquer,

a escola não modifica vantajosamente, nem no physico nem no moral, e

muitas vezes, nem no intellecto, o individuo que lhe foi confiado.

Pelo contrario, as mais das vezes, a escolariedade imprime á creança ou

ao adolescente os caracteres morbidos que mais se accentuam de geração

em geração, pela hereditariedade.

N’um precedente estudo indicamos as alterações anatomicas de que o

individuo humano é passivel na escola[78] e dividimos as alterações

funccionaes em dois grupos:--perturbações da vida animal e perturbações

mentaes.

Procuraremos por ora occupar-nos um pouco d’esta primeira sub-divisão.

O que se nos impõe logo como defeito escolar é a insanidade commum a

todas as acumulações humanas, como de quaesquer reuniões de animaes em

espaço limitado e sempre demasiadamente acanhado.

Todas as vezes que ha agglomeração de individuos que precisam de ar

para viver, e teem de ficar encerrados n’um recinto mal ventilado,

ou de, modo nenhum ventilado, é claro que vão cerceiando uns aos

outros o ar de que cada um carece. Ao cabo de uma hora ou ainda menos,

acha-se a atmosphera sensivelmente modificada, diminuida no seu

oxygenio e augmentada no gaz carbonico, alem de outros productos de

desassimilação que se eliminam pelos pulmões e pela pelle. Herscher

demonstrou pelo calculo que n’uma aula tendo 8 metros cubicos por

alumno a viciação de ²⁄₁₀₀₀ de anhydrido carbonatico é attingida em

uma hora, se não se estabelece a ventilação. Attendendo a que a maior

parte dos estabelecimentos escolares não fornecem, mesmo dada alguma

ventilação, aquelles 8 metros cubicos a cada alumno, principalmente nos

dormitorios, póde concluir-se, embora grosseiramente, que a viciação

da atmosphera n’estes institutos é mais consideravel do que a media

fornecida pelo calculo de Herscher.

O anhydrido carbonico vae-se diluindo no ar e, logo que exceda a

proporção de 3 a 4 por 1000, este torna-se irrespiravel. Ora a

ventilação tem sido um problema de solução delicada e ordinariamente

não se faz bem, porque quasi nunca as edificações escolares satisfazem

a esta exigencia, entre nós e mesmo n’outros paizes, se prestarmos fé

ás queixas de hygienistas e visitadores de escolas do estrangeiro.

O collegial soffre, pois, durante grande parte do dia e portanto

durante grande parte da sua vida, a influencia do ar deleterio, e

patenteia-se ao observador mais especialmente instruido a anemia

caracteristica dos individuos que persistem muito tempo em logares mal

arejados.

Combinando a falta do ar com a falta de movimentos necessarios ao

regular desenvolvimento do organismo tem-se uma grande diminuição da

vitalidade geral, uma diminuição da capacidade total respiratoria, e

portanto uma debilidade que predispõe para qualquer estado morbido

determinado pela incidencia das causas pathogenicas. De facto a vida

escolar predispõe para a tysica, já pela falta de ar livre, já pelas

attitudes contrafeitas que originam deformações da espinha dorsal e

do thorax e dão perturbações da respiração, o que, conjunctamente com

a mobilidade demasiado restricta que traz a atrophia dos orgãos, dá a

apparencia estiolada e o fundo morbido correspondente.

Além d’isto, ha uma actividade cerebral forçada, exaggerada que rouba

aos outros orgãos o fluido nutritivo, fatiga os centros nervosos e

contribue para o desequilibrio funccional que de ordinario se observa

nos escolares.

A este respeito diz o professor Peter: «Não ha só trabalho excessivo

e reparação insufficiente, ha ruminação do ar nas salas de estudo mal

ventiladas durante a estação quente e de modo algum na estação fria,

ruminação do ar nos dormitorios menos arejados do que as salas de

estudo, ha durante a maior parte do dia a clausura longe do sol, isto

é o estiolamento, a immobilisação nos bancos, isto é, os musculos em

repouso e o cerebro em trabalho forçado. E tal que tinha nascido para

bom cultivador saudavel, torna-se um tuberculoso forte em themas.»

Quando tudo isto fosse apenas previsão do nosso espirito ou exhalação

acrimoniosa de um pessimismo da moda, não seriam confirmadas estas

observações pelos resultados da estatistica.

Assim, conforme a estatistica de Finkelnburg, em Berlim por 100

creanças que morrem tysicas ha 4,81 de 5 a 10 annos de idade; 12,96

de 10 a 15 annos e 31,88 de 15 a 20 annos. Vê-se que esta mortalidade

augmenta com o numero de annos e como o ensino é mais desenvolvido e

complicado quanto maior é a idade escolar, póde concluir-se, tendo

em vista a situação da creança e do adolescente na escola, que esta

favorece a evolução da terrivel doença.

Quando menos encontram-se nos escolares, e com certa frequencia

as congestões abdominaes, produzidas pela estação sentada durante

muito tempo e as congestões de cabeça, que se traduzem ás vezes por

expistaxis e ordinariamente por cephalalgias repetidas e cujo numero de

casos varia de 20 a 40 por 100 conforme os estabelecimentos (Arnould).

Michel Levy conta 104 vezes cephalalgia nos alumnos da Escola

Polytechnica, sobre 360 casos de doença.

Estes accidentes são attribuidos ao mau funccionamento pulmonar nas

posições contrafeitas que os alumnos tomam nas salas de estudo.

Serão muitas vezes attribuiveis á fadiga cerebral, principalmente

quando se trata de preparar os exames.

O estudo nocturno, alem da demorada applicação da vista de dia, é

causa não só da myopia tão vulgar na classe escolar, mas de varias

doenças oculares determinadas pelo excesso de funcção, estando ou

não predisposto o alumno para taes desvios pathologicos que são

tambem muitos frequentes nos escolares. Ordinariamente acontece que

o trabalho de leitura e escripta muito prolongado e feito em más

condições com a cabeça inclinada para a frente, circulação viciosa e

luz insuficiente, produz uma tensão vascular das membranas do olho,

estase sanguinea e muitas vezes inflamações, atrophia da choroidea que

durante a acomodação forçada comprime as arterias, diminuindo as trocas

nutritivas pelo obstaculo posto á circulação.

É incontestavel a perturbação da physiologia da retina pelo cançaço

do orgão, pela illuminação intensa, que deslumbra em certas salas

d’estudo e que é em geral defeituosamente conduzida, sendo notavel

que, precisamente porque o orgão visual por muito melindroso carece de

numerosos e delicados cuidados, faltam quasi ou absoluto nas escolas.

Iriamos longe se descrevessemos minuciosamente com as suas relações

de causalidade todas as modificações pathologicas que a bem dizer

se fabricam na escola, por isso limitamo-nos a uma exposição breve,

abrangendo nos seus contornos geraes a nosologia escolar.

Pondo de parte conforme nosso plano, as alterações physico-mechanicas

cujas principaes tracejamos n’outro estudo, podem reduzir-se todas as

perturbações mencionadas a erros de circulação e nutrição.

Viciadas simultaneamente estas actividades organicas, a constituição do

sangue altera se consequentemente e amplia o movimento de dessimilação,

a depauperação do organismo determinada pela adaptação a condições

anormaes de existencia.

D’ahi resulta para o systema dominante de toda a organisação

superior--para o systema nervoso--a incorrecção que nos individuos

affectos da escolaridade, toma uma fórma particular, caracterisada, em

geral por uma demasiada susceptibilidade dos orgãos, dores nevralgicas

visceraes, nauseas lypothimias, palpitações e, finalmente, por

modificações da personalidade, e da mentalidade que serão objecto de

outro estudo.»

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 24 / 32 题