JAYME MONIZ.

Cumpre ao pedagogo indagar se a virtude, se o bem moral augmenta no

individuo á medida que a intelligencia se esclarece pela instrucção,

e na sociedade á medida que a sciencia, a arte e a industria se

desenvolvem. Trata-se de saber se o homem instruido, ou se os

individuos mais cultos nas sociedades mais adiantadas, formam uma

idéa mais clara da justiça e comprehendem melhor o principio dos

seus deveres e se os praticam d’um modo mais desinteressado e mais

completo. Para saber se ha progresso moral no individuo ou nas

sociedades é preciso distinguir o que é immutavel do que é perfectivel

na natureza psychica do homem. As faculdades e as leis do nosso

espirito, as inclinações fundamentaes do nosso coração, todos os

elementos psychicos essenciaes da nossa natureza, não se alteram com

a constancia da actividade reflectida, nem com o desenvolvimento da

civilisação. Cada homem, como diz Montaigne, leva em si a fórma inteira

da condição humana. O individuo da nossa especie estudado por Laucio

ou por Platão é o mesmo que estudado por Kant ou por H. Spencer. Assim

como na natureza cosmica as leis e os agentes permanecem os mesmos,

qualquer que seja o augmento dos productos que d’ella tira a cultura

scientifica, do mesmo modo os elementos primordiaes da natureza

psychica são immutaveis, embora sejam diversos os seus productos nas

mudanças da civilisação.

O progresso, diz Proudhon «tem a sua base de operações na justiça

e a sua força motriz na liberdade. De feito nada existe de elevado

no desinvolvimento social sem o sentimento do dever e sem o uso da

liberdade.

Ha dois aspectos sob os quaes póde ser considerado o progresso da

consciencia moral--um theorico, outro pratico. Ao estudarmos o complexo

de idéas moraes n’um individuo ou n’uma epocha, a variedade dos juizos

sobre as acções justas ou injustas, reconhecemos que ha um fundo

inalteravel de principios absolutos que se manifestam no sentimento

que cada homem tem a respeito do que o eleva acima da animalidade. Na

analyse dos elementos moraes, d’um instante do tempo ou d’um ponto

do espaço, observamos que ha alguma cousa de fixo e alguma cousa de

progressivo. O primeiro é o elemento theorico, o segundo é o pratico.

O que constitue o valor moral das acções permanece invariavel, isto é

o dever absoluto, que se impõe a cada um de actuar conforme o que elle

crê o bem e de evitar o que elle crê o mal, procedendo com inteira boa

fé e completa sinceridade.

A existencia e o uso da energia moral é indispensavel em toda a

condição de vida sociologica; não se póde conceber um estado da

humanidade, sem que n’elle tenha logar a virtude.

O desenvolvimento da civilisação favorece o progresso da ethica geral,

porque alarga cada vez mais a area dos deveres reciprocos. O selvagem

não sente obrigações senão dentro da sua pequena tribu. A vida e

a propriedade alheia são para elle uma variedade da caça. O grego

ante-socratico só percebe a idéa de probidade no sentido autochtono

da palavra e dentro das fronteiras da Hellade. O romano do imperio

inspirado na philosophia estoica e educado na sociedade romana já

estende as suas relações até aos limites dominadores do codigo e do

gladio latino. O christão medieval obedece á acção moral do evangelho

e n’uma esphera já assaz ampla, illuminada pelo sentimento radioso

da caridade, reconhece a egualdade de todos os homens perante Deus.

Não obstante o seu horror sagrado pelos pagãos e pelos infieis sente

deveres a cumprir para com todos.

Não ha descobrimentos nem invenções em moral, em quanto aos seus

principios fundamentaes, mas póde have-los nas suas consequencias e

nas suas applicações. Como diz Francisco Bouillier, é o progresso

das luzes na moral que se traduz nas instituições, nas leis e nos

costumes. Na ordem intellectual o progresso demonstra se por uma

especie de inventario do desenvolvimento de conhecimentos. O progresso

moral do individuo não póde verificar-se, porque se dá no segredo da

consciencia, no amago do coração ou no arcano da vontade. A obrigação

de proceder segundo a lei do bem exige por toda a parte, em todas as

condições do tempo, os mesmos principios e os mesmos fins. O valor

moral deve medir-se unicamente pelo grau da intenção, do esforço e

do sacrificio. A intenção moral é tão veneravel em qualquer selvagem

como em Socrates, em D. João de Castro ou em Washington. O tempo ou a

condição não influem sobre o valor intimo da acção ethica.

As virtudes sociaes são mais cultivadas nas relações pequenas, em

que os homens vivem em mais intima connexão, do que nos grandes

centros, onde as relações são mais vastas. A concepção moral d’um typo

idealisado varia segundo as circumstancias do tempo e do espaço, posto

que o principio ethologico seja sempre substancialmente o mesmo. Um

typo de virtude forma-se primeiro pelas circumstancias da nação ou

da epoca, depois constitue-se em modelo sobre o qual se architectam

theorias. Aristides ou Catão são dois typos de virtude creados pelo

meio atheniense e romano. É assim que os povos organisados teem

uma ethica nacional differente, posto que o principio que a inspire

seja substancialmente o mesmo. Assim as circumstancias geographicas,

ethicas, religiosas ou outras, que fazem uma nação militar e outra

industrial, produzirão em cada uma um typo de exellencia moral

differente. Os heroes nacionaes da historia da França ou da Inglaterra,

são na sua psychologia moral assás differentes por numerosos caracteres.

A moral ensinada nos livros tende a unificar-se, mas a ensinada na

familia conserva um caracter mais multiplo. Ora é exactamente a moral

da familia a que prevalece. Os paes, os irmãos, os companheiros de

creanças são quem mais influe sobre a formação do caracter. A escola

ministra a cultura intellectual e ethica, mas esta vem sobre tudo do

lar, fonte dos prazeres mais puros, doce refugio e salva-guarda da

honra, da familia e da nação.

Na humanidade inculta as paixões são mais violentas e mais grosseiras,

e a vontade é mais energica tanto para o vicio como para a virtude.

São grandes na virtude e no crime. Basta comparar a historia antiga

com a historia contemporanea. Em certo grau de progresso intellectual

a violencia repugna, mas é substituida pela corrupção; se a violencia

humilha, todavia não avilta nem desmoralisa como a corrupção. Com o

desinvolvimento pacifico das sociedades, a vontade enerva-se e as

paixões recebem em vez d’uma expansão violenta, que gera as acções

epicas, uma concentração suave que não é mais do que o egoismo.

Os malfeitores de dada cathegoria entregam-se a actos selvagens e

barbaros em sociedades policiadas, porque se inspiram n’uma athmosphera

permanentemente cheia de sentimentos de odio e de vingança, nascidos

d’um juizo perturbado que tem uma falsa noção das conveniencias e do

dever.

Nas revoluções e na guerra das sociedades modernas, os homens de

faculdades normaes, sem ser em legitima defeza, esquecem todos os

precedentes moraes da civilisação para se entregarem á barbaria.

Aquelle ambiente em que o horisonte está tingido de sangue fa-los

retrogradar dezenas de seculos. Os biologos explicam este phenomeno

pela hereditariedade, os theologos explicam-no pelo peccado original;

as concepções divergem, mas a explicação do facto é a mesma. A guerra

foi durante muitos seculos a principal fórma da actividade humana, e

este habito repetido durante muito tempo, passou a instincto, vindo

conseguintemente a ser hereditario. Hoje o mesmo instincto ergue-se

sempre que as circumstancias o reclamam, passando uma esponja pelas

acquisições moraes nascidas da civilisação.

O espirito humano tem em todos os phenomenos moraes a faculdade de

recusar a sua adhesão a qualquer tendencia que o solicite. Nos proprios

phenomenos de sensibilidade o imperio da vontade possue o poder de

intervir e a sua acção póde, dirigida pelas idéas, disciplinada pelo

habito e fortalecida pelo exemplo, contrahir sentimentos nobres e

amortecer inclinações ruins. Ainda que a existencia do senso moral no

criminoso seja demasiado tenue, a instrucção ampliando as relações

funestas que resultam da pratica do crime, veem mostrar ao criminoso

as tristes consequencias do delicto e os nobres estimulos e delicados

prazeres que gera a obra da virtude. Toda a educação resulta de bem

dirigir a acquisição dos habitos. A vontade é o mobil das nossas acções

e a força civilisadora por excellencia. Fortalece-la pois com exemplos

elevados, deve ser o destino da educação.

Apezar da absoluta independencia intima da liberdade, os habitos e os

outros moveis fornecidos pela sensibilidade ou pela intelligencia, que

se modificam com a educação, actuam constantemente como objecto das

resoluções. A noção clara do dever moral que se aviva com a instrucção,

não determina necessariamente a sua pratica, todavia é mais um grau de

probabilidade para a execução do bem.

A cultura intellectual dilata o poder da liberdade e modifica por

tanto o genero do crime, porém não o supprime; mas a cultura do

sentimento moral, inoculando o principio do dever, desvia o homem da

senda do crime, e se o homem é como cremos até certo ponto o artista

do seu destino, póde, pela educação com afinco obstinado e inflexivel,

aniquilar na sua alma as inclinações ruins e substitui-las por

aspirações d’uma ethica elevada.

É evidente que nós defendemos a necessidade da cultura moral, pondo

como fundamento a liberdade; declarar que o homem não é livre nos seus

actos, é não só destruir o sentimento do merito, mas ferir a nossa

especie na sua dignidade.

Os mais esplendidos productos de enthusiasmo moral que se referem a uma

força suprema de convicções, raras vezes existem em espiritos muito

cultivados, porque são vehementemente sensiveis á possibilidade do

erro, ao peso das circumstancias e á collisão dos argumentos. A alta

cultura intellectual, que disperta novas concepções do dever, é menos

alimentadora do fanatismo do que a ignorancia e a mediocridade mental.

Thomaz Buckle prefere no governo dos povos os homens illustrados e

corrompidos aos ignorantes e austeros; diz que em todos os tempos os

homens mais sinceros e mais puros teem sido os que fizeram derramar

mais sangue innocente com menos escrupulo e com menos piedade. Os mais

crueis inquisidores de Hespanha foram homens de intenções puras, o que

os tornou mais nefastos por inaccessiveis á corrupção ou á ameaça. O

melhor dos imperadores romanos Marco Aurelio,[66] foi um dos que mais

perseguiu os christãos, em quanto Commodo e Elagabalo os deixaram viver

em paz.

Buckle julga esteril o elemento moral como causa do progresso da

civilisação. Defende este paradoxo, levado pela idéa de que houve

fanaticos sinceros e desinteressados que foram um flagello da

sociedade, emquanto homens engolphados na corrupção moral e falhos de

convicções serviram a civilisação. É evidente para encurtar razões,

que o mais alto progresso intellectual, desajudado do elemento moral,

não podia constituir uma sociedade, porque se desapparecessem da

consciencia a probidade, a honra, a virtude publica e privada, não

podia subsistir a familia alicerce e cellula da vida social.

Para Buckle toda a superioridade social se encerra na fecundidade

do elemento intellectual. O elemento moral é esteril no progresso

da civilisação. As proprias virtudes resultam da cultura mental. O

illustre escriptor inglez adduz muitos exemplos para comprovar o seu

paradoxo, mas não explicou a baixeza de caracter do seu compatriota

o genial F. Bacon, os seus crimes de concussão, e o seu vilissimo

procedimento para com o seu bemfeitor, o desditoso conde de Essex.

Como explica egualmente as fraquezas de Seneca, que é ao mesmo tempo

philosopho e auctor aviltado da _Consolatio ad Polybium_, e defensor de

Nero, accusado perante o senado de parricidio? Por ventura, nem Bacon,

nem Seneca tinham bastante clareza de entendimento para comprehenderem

os seus deveres ethicos? Porque é que o seu altissimo talento os não

salvou d’estas fraquezas?

Faltava-lhe a energia do sentimento do dever que é a augusta

superioridade que distingue o homem no mundo e o individuo na

sociedade. Seneca não foi um perverso, mas foi um suicida moral a

quem falleceu, durante parte da sua vida publica, a coragem que até

certo ponto resgatou no final com o heroico suicidio physico. Não ha

progresso, não ha verdadeira civilisação sem a virtude. Os sonhos do

homem sobre a terra são a esperança do reinado da justiça. O amor

individual da justiça converte-se para a humanidade no sentimento que a

eleva e que a engrandece; ora a justiça social é a expressão intensa do

bem e o bem é a finalidade d’este mundo.

É uma these difficultosa saber até que ponto, a educação moral,

ministrada na familia e na escola pelo sentimento, pelos principios

e pelo exemplo, póde moralisar aquelle que a recebe. Apresenta-se a

alguns psychologos como duvidoso se a instrucção considerada em si,

restringida exclusivamente á receptividade de conhecimentos, desinvolve

maior inclinação para enfraquecer os elementos viciosos do espirito do

que para mudar a direcção e a qualidade do crime.

É obvio que n’este caso se entende sómente a cultura intellectual e

technica e de modo nenhum se adapta á educação moral e religiosa.

Cerebro sem coração, penetração intellectual sem bondade, talento

sem moralidade, são poderes que mais podem servir para a execução da

perversidade do que para a pratica do bem.

As faculdades intellectuaes e as aptidões technicas são valiosissimas

na vida social, mas encaminhadas para fitos maus podem trazer para a

humanidade em vez do progresso a destruição, em logar da felicidade a

desgraça. É obvio que não fallamos dos delinquentes cujo delicto nasceu

de más circumstancias economicas, da inaptidão para ganhar a vida,

porque para estes a cultura technica teria evitado a senda do crime,

visto que este não é proveniente da ausencia ou perversão do senso

moral.

Assim a nossa antiga policia secreta recrutava os seus guardas e os

seus chefes entre os gatunos mais astutos e mais dextros. Depois de

membros do corpo de policia faziam-se homens probos e empregados

zelosos, o que demonstra que não eram seres incorrigiveis e que não

abraçavam a vida do furto por inclinação congenita, mas por necessidade

economica do meio em que tinham vivido.

É pela educação moral que os individuos e as gerações se formam e

constituem um typo social. A acção suggestiva do ambiente começa para

o homem antes de despertarem os primeiros clarões do entendimento. De

instante a instante, de dia a dia os que cercam a creança, formam-lhe o

sentimento e as inclinações, de modo que a sua vida moral ao attingir o

pleno desenvolvimento, é quasi a summula das idéas e dos sentimentos,

que hauriu nas condições mesologicas em que germinou, cresceu e floriu.

Não queremos com isto dizer que a idéa da personalidade fica aniquilada

deante do influxo do meio; ha muitos individuos que se revoltam contra

o existente e que são refractarios ás suggestões provocadas desde a

infancia, mas póde dizer-se que todos conservam a sua individualidade

em maior ou menor grau, exercendo a sua acção sobre a familia, sobre

os amigos e sobre os visinhos. Os de faculdades mais poderosas, ou de

vontade mais energica fazem irradiar a sua acção sobre uma esphera mais

ampla no tempo e no espaço; pela força como por exemplo Alexandre Magno

ou Cezar, pelo livro como Platão ou Aristoteles, pela palavra como

Demosthenes ou S. Paulo. Estes que teem assim uma acção decisiva na

historia são justamente chamados grandes homens.

O pedagogo cuidando do ensino intellectivo deve antes de tudo applicar

a sua attenção ao lado moral, inoculando o sentimento do dever,

ensinando a supremacia do direito, desenvolvendo a concepção do bem,

a consciencia da vontade livre e o sentimento da responsabilidade.--O

primeiro dever do educador é capacitar a creança de que ella vem a ser

a senhora do seu destino.

Na ordem do ensino deve inspirar-se-lhe primeiramente um elevado

principio religioso, alliado ao sentimento moral, depois o

desenvolvimento da habilidade intellectual no ponto de vista do

raciocinio e da applicação pratica. Só mais tarde pelo conhecimento das

operações intellectuaes, é que pela abstração, póde isolar o principio

religioso da idéa moral, desenvolvendo todavia harmonicamente as tres

syntheses da actividade psychologica, a synthese affectiva ou do

sentimento, a synthese especulativa ou da intelligencia e a synthese

activa ou da vontade.

A cultura intellectual separada da educação moral é insufficiente

senão nociva para a formação do caracter. Mudança no entendimento póde

produzir mudança na moral, mas uma alteração d’essa natureza póde

despertar tanto disposições elevadas como deprimentes. É facto corrente

na historia dos individuos e das nações, encontrar homens e epocas

brilhantes pelas manifestações especulativas e estheticas, coexistindo

com uma grande depressão moral.

A cultura moral, diz Baudrillard, ainda com uma luz muito minguada vale

mais do que o desenvolvimento intellectual, mal dirigido, tam frequente

em os nossos grandes centros.[67] A decadencia dos costumes no

proletariado das grandes cidades vem sobretudo da descrença religiosa e

da ausencia de educação moral.

A cultura intellectual é sem duvida um grande bem e todos os apostolos

que lhe dedicam os seus sinceros esforços devem merecer ardentes

applausos dos bons cidadãos.

Mas a instrucção sem o respeito da disciplina hierarchica, sem o

sentimento da honra, sem a idéa do dever, n’uma palavra, sem educação

moral, póde tornar-se mais nociva do que a propria ignorancia.

Quando o saber ler e escrever serve apenas, para adquirir noções

perigosas, chamariz de direitos phantasticos sem obrigações, quando

serve para aprender o desprezo das leis, o irrespeito e o odio pela

auctoridade, quando serve para falsificar firmas, para macular em

pasquins anonymos a honra alheia teria sido muito melhor para a

sociedade o não haver-lhe ministrado esse instrumento desajudado

da educação do caracter. É uma illusão suppor-se que a cultura da

intelligencia só por si basta para melhorar o caracter; essa cultura

sem o sentimento do dever acompanhado d’um cortejo de crenças que o

tornem mais sensivel, mais vivo e mais poderoso, será um deserviço

feito á sociedade.

Não ha felicidade sem a continencia e a moderação nas ambições,

segundo as circumstancias de cada um. Escreve um distincto jornalista:

«O anarchismo faz hoje _pendant_ ao epicurismo. Por cima estala

o Champagne, por baixo o anathema; por cima rodam caleches, por

baixo nas viellas tenebrosas rola obscuramente o trovão surdo de

um protesto odiento. Em cima goza-se, em baixo nos subterraneos

sociaes, cubiça-se. E como efflorescencia morbida d’estes dois estados

egualmente doentios, apparecem nas livrarias elegantes os productos de

uma litteratura requintada até á pornographia, e correm pelos sotãos

lobregos dos proletarios as folhas soltas da propaganda anarchista,

como outr’ora--bons tempos ingenuos!--a historia da imperatriz Porcina

e os romances de cordel. Essas folhas lêem-se como evangelhos que a

desordem epicurista dos que estão por cima commenta e sublinha. São

ellas que ensinam os oradores dos clubs e que arrastam ao crime os

fanaticos, por temperamento, por misanthropia, por genio ás vezes--por

_pose_ tambem, n’esta epocha singular em que o delirio do _reclame_

faz com que a novidade seja cultivada com amor, e mereçam attenção e

curiosidade egual um bandido como Pranzini, ou um grande homem como

Bismarck. É que no regimen do epicurismo reinante, as coisas perdem

a significação moral, e só vale o que impressiona imaginações de

sybaritas, constantemente em procura de sensações novas. Um crime

é picante, especialmente se reveste circumstancias dramaticas ou

romanticas; uma boa acção, um acto simples e digno, são semsaborias.

Que admira, portanto, a _pose_ e a petulancia dos actores da comedia do

crime? São, como os actores de todos os palcos, os queridos da gente

_blasée_. Ás vezes, porém, toma ares tragicos, e n’esses momentos a

sociedade estremece de medo. É por isso que os crimes do fanatismo

são os que mais aggravam, e aquelles para que se reclama a maxima

punição; ao passo que os crimes bestiaes teem por vezes um encanto

morbido. É que estes exprimem apenas casos individuaes, emquanto

os primeiros abalam visceralmente a propria estructura social. O

instincto da conservação manifesta-se ás vezes d’um modo brutal,

sempre falho da serenidade critica e comprehensiva. Pensem n’isto os

que negam á sociedade uma vida, um temperamento, sentimentos e nervos

proprios, capazes de commoção e paixões. Pensem, e tirem as illações

consequentes. Uma das illusões dos doutrinarios individualistas foi a

distincção entre crimes civis e crimes politicos. Para os primeiros,

toda a severidade; para os segundos, toda a indulgencia. Imaginava-se

que acima do nós pairava uma atmosphera de bem e de harmonia, dentro da

qual apenas se podiam dar divergencias do opinião, confessaveis sempre,

embora violentas por vezes. Essa illusão passou, como tantas outras,

para dar, porém, logar a uma verdadeira aberração; ao criminoso por

fanatismo ou por paixão chama-se doido, e declara-se irresponsavel.»

A instrucção é um instrumento de que se póde fazer bom ou mau uso. Ha

proletarios que só lêem o cathecismo d’um socialismo barato ou uma

imprensa que serve para apostolar a calumnia, o erro, a iniquidade e

todas as paixões ruins. Ha individuos que se aperfeiçoam na escripta

para poder falsificar firmas, ha quem estude chimica toxicologica para

envenenar o seu similhante. Porém d’estes factos podemos concluir que o

aprendizado da escripta e da chimica são um mal? N’esse caso deviamos

supprimir a agua e o fogo que produzem o horror das inundações e dos

incendios.

A instrucção é sempre um elemento para a satisfação de necessidades

organicas e artisticas, e o ensino moral é uma nascente inspiradora do

bem.

O desequilibrio entre o capital e o trabalho gera muitas paixões e

produz numerosos crimes. Se compararmos o presente com o passado,

apezar das crises industriaes e commerciaes, do sentimento de

imprevidencia, é innegavel que a pobreza diminuiu. O bem material tem

consideravelmente augmentado, mas o desejo da commodidade tem excedido

os meios de a satisfazer. O que se faz mister é uma energica educação

da vontade que imponha o seu imperio salutar aos apetites desregrados,

ás ambições que excedem a condição social do individuo e aos maus

conselheiros nascidos da inveja e da vaidade. Sem a temperança dos

desejos, segundo as circumstancias não ha na alma humana felicidade nem

paz.

Escreve H. Spencer:

«Persuade-se muita gente, imbuida de certos erros de estatistica, de

que a educação do Estado devia reprimir o crime. Estão os jornaes

cheios de comparações entre o numero dos criminosos que sabem

ler e escrever e o dos analphabetos; e, como este ultimo é muito

superior áquelle, acceita-se a conclusão de que a ignorancia é a

causa dos crimes. Não acode ao espirito a idéa de inquirir se outras

estatisticas, baseadas no mesmo systema, não provariam com a mesma

força que o crime é causado pela falta de lavagem de corpo e de roupa

ou pela má ventilação das habitações ou por não se dormir em quartos

separados. Entrem em uma cadeia e perguntem quantos são os presos que

tinham o habito de se lavar de manhã. Ver-se-ha que a criminalidade

está ordinariamente a par da falta de limpeza do corpo. Contem-se

os que tinham mais de uma andaina de fato; a comparação das sommas

ha de mostrar que é bem diminuto o numero dos que tinham roupa para

mudar. Pergunte-se se elles moravam em ruas largas ou dentro do

pateos; saber-se-ha que quasi todos os criminosos das cidades saem das

habitações immundas. Assim acharia tambem na estatistica a justificação

não menos completa da sua crença o partidario fanatico da absoluta

abstinencia de bebidas espirituosas ou dos melhoramentos hygienicos.

Se, porém, não acceitais a fortuita conclusão de que a ignorancia e o

crime são causa e effeito; se tomais conta em que, como acabais de ver,

com egual fundamento era facil attribuir o crime a outras causas muito

diversas,--podeis achar que existe uma relação real entre o crime e um

modo inferior de vida, filho geralmente de uma inferioridade original

de natureza; que, emfim, a ignorancia não passa de um concomitante, que

póde tanto ser a causa do crime como muitas outras cousas. Os auctores

de quebras fraudulentas, os fundadores de companhias phantasticas,

os fabricantes de generos falsificados, os que empregam marcas

falsas, os que vendem com pesos falsos, os proprietarios de navio sem

condições de navegações, os que roubam as companhias de seguros, os

traficantes, a maior parte dos jogadores--são todos gente educada. Ou,

para irmos ao extremo do rebaixamento moral, entre os envenenadores

de todas as epochas não ha porventura um numero consideravel de

pessoas bem educadas, um numero tão grande, em proporção com as

classes illustradas, como é o numero total dos assassinos comparado

com a população total? Mas é até absurda _a priori_ esta confiança

nos resultados moralizadores da cultura intellectual, negados tão

categoricamente pelos factos.

E em verdade que especie de relação póde existir entre o saber que

certos grupos de caracteres representam umas certas palavras e o

adquirir um sentimento mais nobre do dever? Como é que a facilidade

de formar signaes que representam sons póde fortalecer a vontade de

fazer bem? De que modo póde o conhecimento da taboada da multiplicação

ou a pratica das addições e das divisões desenvolver os sentimentos

de sympathia a ponto de reprimir a tendencia de offender o proximo?

Como é possivel que os themas de orthographia e de analyse grammatical

nutram o sentimento da justiça, e por que razão emfim os apontamentos

sobre geographia colligidos com toda a perseverança hão de augmentar

o respeito pela verdade? O parentesco de taes causas com taes effeitos

não é maior do que o da gymnastica que exercita os dedos com a que

robustece as pernas. Quem esperasse ensinar geometria com licções de

latim, ou piano com as regras de desenho, todos o julgariam no caso de

entrar para uma casa de orates: e comtudo não seria mais disparatado do

que aquelles que, disciplinando as faculdades intellectuaes, imaginam

crear sentimentos melhores.»

Spencer escolhe de proposito as formas da cultura intellectual que

menos se podem aproveitar para ensinamentos moraes. No entanto o

professor póde, em nosso entender, achar em qualquer cathegoria de

ensino scientifico uma relação que influa no sentimento do alumno.

Não póde dizer-se nunca, como pretende Spencer, que haja _irrelação_

entre o conhecimento especulativo e a pratica do bem. A imaginação e

a sensibilidade elaboram productos psychicos que tem a sua origem na

intelligencia, os quaes veem a ser condições de volição. O entendimento

nas suas funcções de acquisição de idéas, da sua conservação, da sua

elaboração e do principio racional que as dirige tem necessariamente

muitas vezes de lhe communicar emoções que influem directa ou

indirectamente sobre a vontade. A imaginação é a faculdade do ideal, a

intelligencia a do real, a primeira conhece, a segunda inventa. É pela

imaginação que o homem se distrae e se consola das vicissitudes da vida

real, creando um mundo subjectivo que é o principal impulsionador da

vontade.

As sciencias mathematicas, physico-chimicas, biologicas e grammaticaes,

teem na verdade uma influencia muito longiqua na vida moral. O mesmo

não póde dizer-se das sciencias historicas e da litteratura. Ninguem

desconhece a influencia moral notavelmente fecunda, nascida das

lettras-classicas, da leitura por exemplo das _Vidas parallelas dos

homens illustres_ de Plutarcho, que é ao mesmo tempo historiador e

moralista, fazendo da historia um verdadeiro ensinamento moral. As

estatisticas registam todos os dias a influencia perniciosa dos maus

romances sobre o crime e o suicidio. É bem conhecido o influxo moral

da cultura helleno-romana sobre os espiritos directores da revolução

franceza. As circumstancias e os principios philosophicos deram o

motivo, mas Roma deu-lhe principalmente a inspiração.

O effeito da cultura intellectual poderá ser para a formação do

caracter favoravel ou deprimente, excellente ou detestavel, o que de

modo nenhum será, é indifferente e sem relação, como quer Spencer.

A dependencia em que estão as nossas funcções psychicas é tal que

pensamos porque sentimos, e queremos porque o sentimento e o pensamento

são a materia prima da nossa actividade volitiva. Não ha volição,

por conseguinte não ha acto moral sem motivo sensivel, intellectivo

ou racional, e todos estes actos se refletem na consciencia; logo é

evidente que ha relações reciprocas e influencias mutuas entre a vida

intellectual e o desenvolvimento moral.

Para Spencer não ha relações entre a acção e as lições moraes e

intellectuaes, ha sómente entre a acção e o sentimento; entre a cultura

intellectual e o sentimento moral ha uma _irrelação_. Diz com razão F.

Bouillier que não existe tal _irrelação_, ainda que a relação não seja

sempre proporcional e constante. Não póde negar-se que entre todos os

phenomenos psychologicos existe uma connexão intima que se encontra

sobretudo na unidade da consciencia. A vida moral tem necessariamente

relações com a vida sensivel e intellectiva.

Mas no que de modo nenhum, se póde seguir Herbert Spencer, é em

restringir a educação moral ao exercicio do sentimento, pondo fóra

por conseguinte como esteril, a acção emotiva de elevados principios

ethicos, de bellas maximas moraes e de sublimes exemplos em holocausto

do dever. Não só estes factos geram no espirito por uma elaboração

consciente ou automatica novas emoções e fecundas idéas moraes, mas

ficam como motivos para dirigirem a vontade. Uma das sciencias que deve

ser para o bom professor um fecundo meio de ensino moral é a historia.

A opinião, o costume, a imitação instinctiva, o influxo moral são os

principaes factores do caracter, especialmente no periodo psychologico

de maior plasticidade mental. Os movimentos da nossa vontade seguem os

sentimentos e tambem os pensamentos.

É frequente ver publicistas, apostolos d’uma democracia barata,

prégarem como remedio infallivel e salvador de todos os males a

diffusão da instrucção primaria, mas secular. O sentimento que os

anima é mais um odio cego contra as idéas religiosas, um fanatismo de

intolerancia contra as doutrinas christãs, do que a convicção profunda

dos beneficios do estudo e da sciencia.[68]

Entre nós apparecem quotidianamente periodicos e pamphletos, propagando

o fanatismo irreligioso, mais nocivo e nefasto que o pernicioso

fanatismo de religião.

São esses democratas de cultura superficial e viciada que proclamam

a falsa banalidade «abrir uma escola é fechar uma prisão» querendo

desterrar ao mesmo tempo do lar e do ensino publico a educação moral e

religiosa.

Diz F. Bouillier: «o fim de todos os hereticos e de todos os fanaticos

foi até ao presente introduzir uma crença, uma fé ardente no lugar

d’outra crença e d’outra fé; fanatismo e scepticismo eram dois termos

contradictorios. As cousas mudaram; é um fanatismo puramente negativo

e sceptico, um fanatismo do vacuo, por assim dizer, que pretende

exterminar em pretendido proveito da democracia e da moral, o que resta

das idéas religiosas nas cidades e nos campos. Temos horror a estes

tristes fanaticos que com o odio na alma, sem nenhuma outra crença, sem

nenhuma outra fé para desculpa, incitam á destruição dos templos e até,

o temos nós visto, á matança dos sacerdotes.»

Ha uma necessidade secreta e imperiosa na vida espiritual da fé

philosophica e da fé religiosa. Só os individuos que rastejam pela alma

dos brutos, é que se suppõem isentos d’esta mysteriosa necessidade.

A falta do sentimento religioso é condição dos individuos de cultura

inferior e de mediocre talento viciosamente dirigido. O sabio, o

homem de genio profundo, a alma popular singella e penetrante são por

natureza seres religiosos. Tudo na terra está na inter-dependencia do

universo e a cada instante a nossa razão descobre relações com outros

mundos, cada vez mais longinquos, o que prova que o espirito não exgota

n’este mundo a a sua essencia.

Escreve o distincto criminalista G. Tarde:

«Não nos admiremos pois de se não descobrir na estatistica criminal

o vestigio de nenhuma influencia benefica exercida pelo progresso

da instrucção primaria na criminalidade. É bem visivel a acção da

instrucção sobre a loucura e sobre o suicidio que augmentam a par dos

seus progressos; de modo algum se percebe a sua acção nomeadamente

restrictiva na criminalidade. O relatorio oficial bem o manifesta e

deplora. Mostra-se n’um mappa que os departamentos onde a população

dos illitteratos é maior, esses estão sempre longe de mostrar

maior numero de accusados comparativamente com o numero dos seus

habitantes. Por outro lado, nos campos, onde ha menos instruidos,

contam-se oito accusados por anno em cem mil habitantes, e nas cidades

desaseis. Exactamente o dobro. E todavia deverá inferir-se que o grau

d’instrucção d’um povo é indifferente no ponto de vista criminal?

Não. Em primeiro logar influe evidentemente na qualidade, senão na

quantidade dos delictos. E o mesmo succede com o grau da riqueza.

Algumas luzes mais, o goso de mais algumas commodidades desenvolvem

certos appetites, comprimem outros, transtornam emfim a hierarchia

interior dos nossos desejos, origem de todos os crimes e delictos.

Nos departamentos pobres, são eguaes em numero os crimes contra as

pessoas aos crimes contra as propriedades. Nos departamentos ricos

excede muito a proporção d’estes ultimos. Se a estatistica comparada

dos roubos esmiuçasse este artigo conforme a natureza dos objectos

roubados,--menção sociologicamente mais util que as indicações

relativas á idade dos roubadores,--ver-se-ia sem duvida que, de ha 40

ou 50 annos a esta parte, desde que a França enriqueceu, tem diminuido

o numero proporcional dos roubos de colheitas e que pelo contrario tem

augmentado e augmenta ainda o de joias, de dinheiro, etc. Assim succede

com a proporção dos delictos contra os costumes, das rebelliões,

gatunices, etc., que tem crescido espantosamente, effeito provavel da

emancipação e da subtileza dos espiritos.

Mas se apreciarmos a questão pelo lado da instrucção simplesmente

primaria, forçoso será reconhecer que a quantidade dos crimes e

dos delictos tomados em globo, de nenhum modo é influenciada pela

sua diffusão. Pelo contrario, a acção beneficiadora da instrucção

secundaria e sobre tudo superior não é duvidosa. A prova d’isto está na

fraquissima contribuição das profissões liberaes, das classes lettradas

para o contingente criminal da acção: resultado, notemol-o, que não

é devido á riqueza relativa d’estas classes porque a menos rica, a

dos agricultores participa d’este privilegio por qualquer outra causa

por indagar, provavelmente por ser a mais laboriosa, e a classe dos

commerciantes, de todas porventura a mais rica apresenta phenomeno

inverso. Não é certamente a fé religiosa a que mais actua nas classes,

mais instruidas. Actúa n’ellas muito menos. Não é emfim porque estas

classes tenham pelo trabalho mais decidida energia; n’este ponto

excede-lhes tanto a classe dos commerciantes e dos industriaes, quanto

a classe agricola excede á d’estes. É pois, creio eu, á sua instrucção

levada a um certo grau ou antes á sua educação de uma natureza especial

que havemos de attribuir a moralidade relativa d’estas differentes

classes sociaes. É para notar que a influencia moralisadora do saber

começa no momento em que elle deixa de ser uma ferramenta apenas e se

torna um objecto d’arte. Se a instrucção, pois, viesse a ser sómente

profissional, se deixasse de ser esthetica, quando não classica,

perderia sem duvida alguma a sua virtude de ennobrecimento. Porque?

Porque o bem não póde ser concebido senão como o _util social_ ou o

_bello interior_, e porque d’estes dois unicos fundamentos da moral

(postos de parte os preceitos divinos,) o primeiro, o fundamento

utilitario, implica necessariamente o segundo; porque nos conflictos

tão frequentes do interesse geral e do interesse particular, sobre

que se ha-de appoiar o individuo para sacrificar este áquelle, para

amar aquelle mais do que este? Unicamente sobre o amor do bello, desde

muito tempo cultivado por uma educação apropriada e sobre a persuação

de que se embelleza interiormente por este sacrificio, louvado ou

não, conhecido de todos ou somente de si mesmo. Este motivo bastaria

para recommendar ao porvir os estudos litterarios, a arte e tambem

as especulações philosophicas, todas as cousas que, interessando o

homem ao seu objecto por este objecto, o desinteressam por si mesmo e

lhe revelam no fundo d’este desinteresse o seu supremo interesse, no

fundo do inutil o bello. Quando elle sabe conhecer certas impressões

delicadas, toma-lhe gosto e o desejo de as tornar a achar fal-o

repellir as satisfações baixas que lhe fechem o caminho que d’ellas o

approximam. Porque, se a alta cultura moralisa, é porque a moralidade

é a primeira condição subentendida da alta cultura, como a primeira

condição da flora alpestre é um ar puro. Eu sei que poucos são os

bons pelo amor da arte, os estheticos da moral, os novos mysticos, em

quanto que é crescido o numero d’aquelles que hoje o são com medo da

policia ou da deshonra, como outr’ora o eram com medo do diabo ou

da excommunhão. Mas emquanto, á imitação d’estes ultimos, se pensa

em aperfeiçoar o Codigo penal, não seria mais urgente augmentar a

minoria dos primeiros, espalhando por todos e principalmente levantando

entre as primeiras familias humanas, d’onde dimana o exemplo, o culto

das bellas inutilidades indispensaveis? Em summa, tão raros são os

homens que, por sentimento da sua dignidade pessoal, especie de gosto

esthetico reflectido e chamado sciencia, são corajosos, francos,

dedicados, apesar da vantagem evidente que elles encontrariam as mais

das vezes em ser cobardes, egoistas e mentirosos? Conforme o modelo,

assim o valor das copias. Felizmente para nós os nossos modelos

invisiveis, os semi deuses venerados na educação dos collegios, grandes

theoricos, grandes artistas, inventores de genio, eram a flor da

honestidade humana e a logica assim o queria, porque teria sido para

elles uma contradicção nos termos ter sido da verdade pura por exemplo

e procurar illudir a outrem, em quanto que não é contradictorio por

fórma alguma aprender a chimica para envenenar uma pessoa, estudar

o direito para usurpar os bens do visinho, d’onde se conclue que a

honestidade dos chimicos, dos jurisconsultos, dos medicos, dos sabios,

é incompativel com os seus estudos propriamente scientificos no sentido

profissional e utilitario da palavra. Mas os grandes homens de que

eu fallo foram moraes por necessidade intellectual d’abnegação e de

franqueza e posto que esta necessidade se não faça sentir na media

das pessoas instruidas, elles dão-lhe tom, imprimem-se mais ou menos

em cada novo alumno e propagados assim em innumeraveis exemplares,

recommendam-se por sua estampa ás naturezas mais vulgares como um bello

cunho liso e brilhante em moedas de cobre.

Tem-se zombado tanto dos nossos estudos classicos! Todavia é para notar

que, onde elles se cultivam melhor, ahi florescem as virtudes sociaes,

e que, apezar das mais avultadas tentações, das mais vivas paixões, das

mais variadas necessidades, da mais completa emancipação do pensamento,

apesar emfim dos maiores recursos para o crime e das facilidades

relativas que tem o criminoso de se subtrair á acção das leis, não

obstante tudo isso, a criminalidade ahi está no seu _minimum_. Não é

talvez sem uma rasão profunda que, precisamente quando o catholicismo

recebeu o seu primeiro grande abalo, no decimo sexto seculo, teve

nascimento o _humanismo_, como por uma especie de contrapeso. Não

tenho pois de que me admirar vendo no decimo oitavo seculo, ao segundo

grande assalto do dogma, entre os encyclopedistas ou outros, o respeito

singular das tradições litterarias e dos typos consagrados da arte,

a admiração quasi supersticiosa de Virgilio e de Racine crescerem á

medida dos progressos da sua irreligião irreverenciosa para tudo o

mais. Pelo contrario, tem-se notado que os romancistas do Imperio

e de 1830, luctando contra as tradições litterarias e o culto da

arte classica, se tinham apoiado no sentimento christão reanimado ou

galvanisado, conservadores aqui tanto, quanto innovadores além. Todos

estes contrastes têem parecido estranhos aos que não têem feito caso

de descobrir n’isto a instinctiva compensação de uma fonte de fé e

de moralidade em substituição de uma outra.--Apparentes inutilidades

ha que são funcções superiores. Dá-se por isso, quando ellas são

cortadas. De que servem, dizia-se, as bellas florestas inexploradas

das montanhas? E deitaram-nas abaixo para cultivar o solo inclinado

que ellas sustinham; e desde então as inundações dos rios têem causado

estragos de que os antigos nunca ouviram fallar. Como se uma pouca

de verdura sombreando a sua nascente fosse bastante para moderar

o seu primeiro impulso.--Outro tanto podemos talvez dizer d’essas

outras superfluidades que se chamam _lettras_, artes, e d’aquellas

que para o vulgo têem valor identico, as festas tradicionaes,

populares, domesticas ou religiosas, os folguedos, os anniversarios

costumeiros, como altas florestas de pinheiros. Um povo que n’um

pensamento utilitario, sacrifica as suas alegrias puras, virá a

deplorar a sua perda; e quando nos corações desencadeados não houver

já cousa que no seu declive sustenha a ambição, o amor, a inveja,

o odio, a cubiça, ninguem deverá admirar-se de ver cada anno subir

a maré da sua criminalidade transbordante. A minha conclusão é que

seria grande o perigo de enfraquecer nos collegios o lado esthetico

da educação, que convem fortificar ali de preferencia, depois de se

ter supprimido na escola o ensino religioso. O momento seria tanto

mais mal escolhido, quanto pela primeira vez o poder politico, d’onde

acaba sempre com o tempo por derivar a força proselytica, o prestigio

exemplar, o verdadeiro poder social em uma palavra, é tirado aos

professores liberaes, onde a criminalidade é de 9 accusados por anno

para 100:000 pessoas d’estas cathegorias e conferido, não ás classes

agricolas, onde é de 8 para o mesmo numero de agricultores, mas na

realidade ás populações industriaes e commerciantes das cidades, onde

é de 14 e 18 para um igual numero de industriaes e commerciantes.

Porque não é com exactidão que se diz que o nosso paiz se democratiza.

Democratizar-se não é termo que sirva para uma nação onde tres quartas

partes do povo são camponezes, assentaria melhor, permittam-me o verbo,

_rustificar-se_, ou, para exprimir a cousa com justa conveniencia,

estender e fortalecer os costumes, as preocupações, as idéas agricolas

e ruraes. Mas o contrario succede pela emigração espantosa dos campos

para as cidades, e ainda mais pela importação dos costumes urbanos, das

idéas urbanas, para o centro dos campos. A França commercializa-se,

industrializa-se, se o querem; não se democratiza. A cousa tem o seu

lado bom, o seu lado excellente, tenho-a applaudido a muitos respeitos

mas tinha de mostrar aqui tambem o reverso da medalha. Se, como eu

julguei mostral-o em outro logar a origem da criminalidade profissional

só póde ser estancada em primeiro logar por uma expansão maior de

beneficencia e pela creação de numerosas sociedades de patronato,

importa que as novas classes dirigentes, tanto e mais que as antigas,

tenham aprendido a praticar o culto do bem, do bello para o bello.

E se, em segundo logar, o remedio para o mal da criminalidade geral

se acha em parte na estabilidade do poder politico, é preciso não

esquecer que sem uma forte dose de dedicação da parte dos governos e de

confiança da parte dos governados, não ha governo de possivel duração.

A concorrencia d’estas duas condições é rara! Ora é um povo sincero que

se confia cegamente a um despota, a um egoista de talento ou de genio,

ora é um homem de Estado dedicado aos interesses do paiz que se esbarra

com uma desconfiança geral que o paralysa; mas ha esta differença a

notar que, muitas vezes com o tempo, a dedicação dos chefes leva a

confiança ás massas, emquanto que nunca se viu a confiança dos povos

fazer nascer a abnegação no coração dos seus governantes. É pois

primeiro que tudo o desinteresse, a generosidade, o amor intelligente

do bem publico, que se deseja encontrar nos homens chamados a

governarem, pois que o resto póde vir como consequencia. D’aqui resulta

que as nossas duas precedentes conclusões concordam igualmente para

proclamarmos a necessidade do sacrificio, a insufficiencia do mobil

do interesse pessoal, e a opportunidade de elevar por consequencia a

educação esthetica o mais possivel, tanto como diffundir a instrucção

profissional o mais longe que possa ser.»

Tarde (G.) dá grande importancia á cultura do sentimento esthetico

nos effeitos da criminalidade. De feito, a emoção do prazer e o

sentimento de admiração, que resultam da contemplação do bello, elevam

os nossos juizos e melhoram a nossa alma. Kant resumiu os caracteres

subjectivos do bello, definindo-o o objecto d’uma satisfação,

desinteressada, universal e necessaria. É grande a sua analogia com o

bem, porém distingue-se, porque este mira não só á perfeição geral mas

essencialmente á perfeição moral.

O sentimento esthetico como criterio moral é incompleto; posto que toda

a moralidade seja bella e que o ideal esthetico nos excite á pratica

do honesto e nos inspire o desejo de o realisar; não nos obriga como o

principio do bem, ao cumprimento do dever. A moralidade deve existir

sempre na arte, porém não a absorver, visto que tem por especial

missão, crear o bello, não ensinar o bem. No entanto ella carece sempre

do attributo moral porque a immoralidade fere a consciencia e altera

o prazer esthetico. Ninguem póde negar, que o bello, exercendo a

sympathia desinteressada, é um alliado do bem, mas este conserva a sua

individualidade.

Na escola a educação esthetica não póde supprir a educação do

sentimento moral e religioso. Os italianos têem como nenhum outro povo

notaveis aptidões estheticas e afamados monumentos artisticos, onde

pódem beber as grandes e delicadas emoções da belleza e todavia são

o povo onde a estatistica criminal mais avulta. A renascença é uma

das idades mais esplenderosas e mais fecundas na creação do bello e

todavia apresenta se ao historiador como um periodo de aviltamento e de

depravação moral tanto nos grandes crimes como em detestaveis vicios, o

que prova a coexistencia d’uma alta civilisação intellectual e material

com a depravação.

A approximação excessiva das idéas do bello e do bem provêm da theoria

da escola escoceza, que reduz a consciencia moral a um sentido, que nos

deu a natureza, similhante ao do gosto e ao do paladar. O homem segundo

este systema aprecia o bem como o bello, não pela razão, mas pelo

sentimento immediato que experimenta. H. Spencer, que é n’este ponto

discipulo de Reid e de Darwin considera o _sentido moral_ como um

legado hereditario na especie. O prazer moral n’este caso não differe

dos outros prazeres, não ha motivos de preferencia. Como se vê é uma

forma do empirismo moral.

É extremamente benefico para a alma o sentimento d’uma belleza moral,

placida, serena e vigorosa, inspirada por um ser que goza de todas as

forças; que se encerram nas condições d’um typo poetico, que preenche

completamente a sua grandiosa missão no mundo. Esta belleza, quando

real, filha da natureza ou da sociedade, como diz Krause, tem mais

_plenitude_, porque a natureza cria as suas obras d’um modo integral

com todas as peças nas suas relações mutuas emquanto o bello ideal

tem mais _expressão_, porque o espirito cria as suas obras de um modo

independente, dispondo dos elementos de representação á sua vontade.

A primeira belleza é o fim da arte naturalista, a segunda o da arte

classica.

O egregio criminalista Tarde quando se refere á educação esthetica,

sollicita a attenção para as vantagens da educação litteraria.

Certamente a poesia, o drama, a eloquencia escripta, a historia

narrativa occupam o primeiro lugar na cultura do sentimento moral, da

imaginação e do gosto, não só pela intensidade da emoção, que produzem,

mas porque communicam idéas d’um valor mais preciso e mais nitido.

Depois da educação religiosa e da educação moral, aquella que mais

enriquece, eleva e fortalece o coração, é a educação artistica. Todavia

é certo tambem, que em todas as formas da actividade psychologica se

póde utilisar adequadamente o elemento moral.

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 21 / 32 题