PAUL JANET.

A crise que está atravessando a moral e o sentimento religioso é um

problema grave. O nosso seculo é a epoca de transição entre um passado

insufficiente e um futuro prenhe de audaciosos acontecimentos, que os

espiritos circumspectos e que veem largo, não ousam encarar sem um

grande espanto ou um justo receio.

Os revolucionarios e os innovadores não se inquietam, porque esperam

ver um dia o genio do homem sair victorioso do combate titanico, que

a sciencia travou contra as forças da natureza, escondidas ainda na

intelligencia humana. Mas o conteudo do decimetro cubico da nossa massa

encephalica fica absolutamente satisfeito com a sciencia positiva? A

religião é uma fórma transitoria da evolução humana como pretendem os

positivistas? É uma invenção dos sacerdotes como queriam os philosophos

do seculo passado? Tem origem n’um sentimento passageiro, como dizia o

poeta romano: _primus in orbe deos fecit timor_?

Ao estudarmos as religiões na sua continuidade historica, na filiação

dos cultos, no encadeamento logico das concepções, vemos que o passado

é a génese inexgotavel do futuro. Ainda que a civilisação verta sobre

a alma da humanidade muitos gozos e beneficios a razão achal-os-ha

impotentes para a satisfazer. A religião é, na vida humana sensivel,

comtemporanea da dôr e durará tanto como ella. O seu objecto ficará

sempre como sublime aspiração para um ideal que não abranje só este

mundo, e que como uma columna de fogo illuminará nas crises dolorosas

a senda mysteriosa da consciencia humana. O homem dirige-se pelas

idéas verdadeiras ou falsas, mas dirige-se e consola-se tambem pelo

sentimento. Póde affirmar-se que são principalmente os sentimentos

os moveis da nossa actividade e que a nossa vida moral, no que ella

tem de externo á lei do dever, dimana sempre d’um sentimento ou d’uma

emoção a procurar ou a evitar. É possivel que n’um futuro longinquo,

a sciencia acabe sobre a terra por substituir completamente o cerebro

ao coração, o raciocinio ao sentimento, tornando a alma humana inane

ao aguilhão do desejo e indifferente ás emoções da sensibilidade. No

momento evolucionario em que não houver nem amor, nem dedicação, nem

piedade, nem ternura, nem sinceridade, n’esse dia a vida humana, tal

como a concebemos, terá desapparecido n’um horror de tristeza, na

profundissima treva cantada por Byron. As puras abstracções da sciencia

não podem dirigir, nem satisfazer a humana aspiração. Nenhuma realidade

contingente póde encher a vida immensa da nossa alma.

Penetrando pela analyse nos factos passados da humanidade, reconhecemos

em grande parte, que muitas das suas concepções mais consoladoras e

mais queridas, com as quaes ella explicava a natureza das cousas,

cairam á luz das investigações severas da sciencia como phantasmagorias

enganosas. Aos velhos deuses, ainda que invejosos e crueis,

susceptiveis ao menos de misericordia, succedeu a fatalidade inexoravel

da lei, que é surda á supplica do crente e inaccessivel á esperança do

afflicto. Alguns espiritos demasiado positivos promettem á humanidade

pela sciencia um futuro reinado de Astrêa, quando em verdade nunca

durante o imperio incontestado dos deuses o homem foi tão escravo

como é hoje em frente das leis desapiedadas e brutaes da natureza. São

todas as religiões positivas uma illusão, uma chimera? Supponhamos, sem

o conceder todavia, que sim. Mas não ha na sciencia muita hypothese

gratuita, muita theoria enganosa? Eu prefiro a crença na doutrina que

tem servido de doce abrigo e de suave conforto á humanidade desditosa,

á explicação hypothetica fornecida pela dura realidade da sciencia, mas

que rouba ao coração humano o sentimento augusto da esperança, que é

mais verdadeiro que o da propria felicidade.

Não póde negar-se que todo o sentimento religioso tem um fundo de

verdade. É-nos desconhecida a natureza intima, o principio que inspira

essas manifestações, mas essa ignorancia existe a proposito de muitos

phenomenos scientificos. Por ventura conhecemos, por exemplo, a

natureza intima da electricidade?

Se o sentimento religioso tem sempre um fundo de verdade, resulta

até perante a sciencia que a religião é evidentemente util. A

especulação religiosa foi o primeiro factor intellectual que elevou a

alma humana acima da animalidade «sendo, como diz Littré, necessario

e indispensavel um systema philosophico ou conjuncto de idéas por

meio das quaes tudo seja explicado; na ausencia do verdadeiro que

estava ainda na sombra de um longinquo futuro, os homens crearam-no

hypothetico, mas não arbitrario; transitorio, mas conforme ao estado

intellectual do momento. Estes systemas foram a theologia e a

metaphysica.»

Esta affirmação de que o estado theologico é transitorio é o reflexo da

falsa lei comteana dos tres estados. Não ha tres methodos radicalmente

oppostos de philosophar, o methodo é essencialmente o mesmo, a

integração das causas é que progressivamente converte principios

explicativos menos geraes n’uma lei universal. Escreveu Diderot na

sua _Carta sobre os cegos para uso dos que vêem_. «Se a natureza nos

offerece um nó difficil de desfazer, deixemol-o pelo que vale e não

empreguemos a cortal-o a mão de um ser que em seguida se torna para nós

um novo nó mais indissoluvel que o primeiro. Perguntaes a um indio como

está o mundo suspenso nos ares; responder-vos-ha que descança no dorso

de um elephante; e o elephante sobre que assenta? Sobre uma tartaruga.

E esta quem a sustenta?... O indio causa-vos dó!»

A existencia do homem, diz J. Stuart Mill, apresenta-se primeiro

envolta no mysterio: a estreita região da nossa experiencia é como uma

pequena ilha perdida n’um mar immenso que eleva os nossos sentimentos

ao mesmo tempo que estimula a nossa imaginação pela sua immensidade e

pela sua obscuridade.

O que obscure mais o mysterio, é que o dominio da nossa existencia

terrestre não é sómente uma ilha no espaço infinito, mas tambem

no tempo infinito. O passado e o futuro furtam-se egualmente ás

nossas vistas: não sabemos nem a origem, nem o fim de nenhuma cousa

existente.[58] A religião e a poesia pelas suas concepções idealmente

bellas e grandiosas é que mitigam em parte a sêde da nossa alma. A

influencia da religião melhora e ennobrece no individuo a natureza

humana. As religiões da humanidade civilisada, incluiram nos seus

preceitos os melhores principios de moral, que a razão e a bondade

poderam crear com elementos tirados quer da philosophia, quer da

historia heroica, quer d’outra parte.[59]

A religião na sua pureza ideal é o refugio das almas superiormente

delicadas, e nas suas fórmas regularmente cultuaes e dogmaticas é

a philosophia das massas, cujo influxo pesa salutarmente no seu

espirito pelo amor ou pelo receio. Não desprezemos nada do que póde

melhorar-nos, porque a nossa felicidade é a hypothese, emquanto o

infortunio é a realidade.

Não temos a certeza positiva de ser immortaes, mas temos a consciencia

de ser feitos para a immortalidade. Nutrimos o horror pelo nada e

o amor pela idéa de viver eternamente. Quando offerecemos o nosso

coração, quando dedicamos o nosso affecto, é para sempre, cada uma

das nossas faculdades aspira a fins que não attingem só este mundo.

Esta vida é preludio d’uma tarefa immensa que tem por guia a visão

do infinito. A razão almeja constantemente por uma verdade absoluta,

a vontade aspira a uma virtude perfeita. A natureza indestructivel

da alma deve ser acceite por todos os que admittem a permanencia

de força, substancia que não póde cessar. Mas esta immortalidade é

irrisoria porque não salva a bondade do nosso esforço, nem assegura o

desenvolvimento da nossa perfectibilidade. Viver e mudar são synonimos,

todavia viver é triumphar da mudança, reconhecendo a personalidade. O

homem deve ser immortal, porque tudo é immortal e indestructivel, desde

o imperceptivel verme, desde o grão de areia, desde a gota d’agua até

ao astro o mais colossal e o mais radiante. Mas a vida na immortalidade

humana, deve recordar a personalidade. A religião e a poesia são as

duas fórmas mais elevadas que reveste esta modalidade do nosso ser,

por isso o vago sentimento poetico e o indefinido sentimento religioso

serão eternos. O caminhar da civilisação póde mudar a corrente do

sentimento religioso, mas jámais poderá esgotar-lhe a nascente.[60] A

religião é uma necessidade do coração e uma necessidade racional.

Magistratura civil e magistratura espiritual na sua funcção sociologica

completam-se mutuamente. O juiz pune, o professor e o sacerdote

podem emendar o delinquente. Diz S. João Chrysostomo, fallando dos

magistrados: «quanto a vós se deixaes o criminoso impune contribuis

para que elle se torne peior; se o condemnaes ao supplicio, não

conseguis emendal-o. Eu não o deixo ir impune, mas nem por isso o

castiguei ao vosso modo; procuro-lhe a penitencia que me parece justa e

assim faço com que elle por si mesmo se corrija do mal que praticou.» É

innegavel que o sentimento religioso é uma mordaça para o delinquente.

Se em certas comarcas e em dadas regiões, apezar da influencia do

sentimento religioso o crime existe em grande escala, qual não seria a

progressão criminosa se a crença religiosa não existisse? Attribuir á

religião n’este caso o augmento da estatistica do crime, seria o mesmo

que attribuir á medecina a morte pelo cholera, onde elle é endemico.

Ha entre a crença religiosa e a lei do dever uma ligação assás

estreita, intima; o imperio da primeira avigora e fortalece a

segunda. Não queremos com isto dizer que o principio da obrigação

moral não tenha um valor proprio, como todas as idéas racionaes,

independentemente da idéa religiosa, mas como é inoculada geralmente

em nome do sentimento religioso, é pela sua acção, como diz Javary,

que se tem espalhado e que se mantem, em grande parte, na sociedade.

Nos individuos ignorantes e de paixões brutaes a concepção abstracta

da lei moral, separada da religião, é incapaz de exercer praticamente

o seu imperio. Não ha a possibilidade de fazer philosophos de todos os

homens, por isso é mister que os desherdados da luz recebam na sua

alma a moral pela religião e a metaphysica pela theogonia. A religião

é, como pensa Kant, não o fundamento da moral, é antes a moral que

nos conduz á religião; a philosophia aprecia a alteza e o valor das

religiões pela moral que ellas pregam. Qualquer organisação religiosa,

por pouco que ella valha, serve sempre de disciplina ás consciencias e

tem a vantagem d’exercer uma acção reguladora na ordem social. Já Vico

disse que sob a influencia da religião se formaram as mais illustres

sociedades do mundo, o atheismo não fez nada.

De vez em quando o luar da historia humana apparece tragicamente

avivado pela revelação d’um grande crime. O psychologo e o jurista

estudam o delinquente e o delicto. Esta ordem de phenomenos ainda

está n’um periodo de discussão e de elaboração. Ha muito a esperar da

educação moral e religiosa no seio da familia, ministrada com carinhosa

intensidade e dirigida por elevados preceitos confirmados por bellos

exemplos. Regeitemos por isso as exaggerações pessimistas da parte da

escola anthropologica italiana, que crê toda a educação esteril para

melhorar o criminoso.

A este respeito escreve Garofalo em defeza da educação religiosa:

«Sem duvida as emoções religiosas tem grande influencia quando tem sido

excitadas desde os primeiros annos. Deixam sempre vestigios que embora

enfraquecidos pelo tempo, não desapparecem nunca, até no abysmo da

fé. A impressão dos mysterios religiosos sobre a imaginação é de tal

modo viva que as regras de procedimento impostas em nome da divindade

podem tornar-se instinctivas, porque,--como disse Darwin,--«uma crença

_inculcada_ constantemente durante os primeiros annos da vida quando

o cerebro é mais impressionavel, parece quasi adquirir a natureza

d’um instincto, é a que se produz independentemente da razão.»[61] A

influencia d’um codigo de moral--accrescenta Spencer--defende antes

das _emoções_ provocadas por seus imperativos, que do sentimento de

utilidade em lhe obedecer. Os sentimentos inspirados na infancia _pelo

espectaculo da sancção social e religiosa_ dos principios moraes,

exercem sobre o procedimento uma influencia _muito maior_ ainda que a

idéa do bem-estar, que se obtém pela obediencia aos principios d’este

genero. Quando os sentimentos, que o espectaculo d’estas sancções faz

nascer, chegam a faltar, a fé utilitaria _não basta_ ordinariamente

para levar á obediencia.--_Até nas raças melhor educadas_,--accrescenta

elle, entre os homens superiores, nos quaes as _sympathias_, tornadas

_organicas_, são a causa de que elles se conformem espontaneamente com

os preceitos altruistas, a sancção social, derivada em parte da sancção

religiosa, adquire uma certa importancia sobre a influencia d’estes

preceitos; pois, ella a tem muito grande sobre as acções das pessoas

d’um espirito menos elevado.

«O mesmo auctor reconhece uma influencia perniciosa no preconceito

irreligioso ou anti-theologico.--Diz áquelles que creem que a sociedade

póde conformar-se em tudo com os principios da moral: «Como se poderia

avaliar a quantidade de espirito de direcção necessaria, sem regras

recebidas hereditariamente e que constituem auctoridade, para obrigar

os homens a comprehender porque, sendo dada a natureza das cousas,

seja pernicioso um certo modo de obrar e aproveitavel outro; para as

forçar a ver além do resultado immediato, e a discernir claramente os

resultados indirectos e affastados, taes como se produzem sobre elles

mesmos, sobre os outros, e sobre a sociedade?

«Não é pois duvidoso, para os positivistas, que a religião seja uma das

mais activas entre as forças da educação. Mas para isto são necessarias

duas condições,--a primeira quando se trata d’uma creança,--a segunda,

que o ensino da moral seja o verdadeiro alvo do ensino religioso, o que

desgraçadamente não acontece quasi nunca em muitos paizes catholicos,

onde um clero ignorante, sobretudo nas parochias ruraes, se occupa

geralmente de praticas completamente vasias de significação para a

direcção moral, e cujo fim visa a assegurar a mais inteira obediencia

dos fieis, que entretanto desamparam as paginas sublimes do Evangelho.

Ha ainda uma outra cousa a notar: é que o poder da religião sobre a

moralidade individual parece deter-se precisamente nos casos mais

graves, isto é, quando elle encontra _inclinações criminosas_. Nada

mais natural. Com effeito, se o ensino para tornar-se util, deve ser

acompanhado da _emoção_, como se póde esperar que esta emoção seja

excitada nos homens, que, por um defeito de organisação physica tem

_uma sensibilidade moral muito menor que_ a normal? E como se póde

pensar então que elles cheguem nunca á pura idealidade da religião?

«Que importa isso, dir-nos-hão. O temor do castigo na outra vida

será sempre um freio assaz poderoso para bem dos individuos que não

teem podido elevar-se ao verdadeiro ideal religioso. Isto póde ser

verdadeiro para homens d’um espirito pratico, tranquillo, e calculador,

não seguramente para aquelles que tem um _caracter criminoso_, porque

a imprudencia, a imprevidencia, a leviandade, distinguem sobre tudo

este caracter. Se, em todas as occasiões, para a satisfação immediata,

de suas paixões, elles não olham para o dia immediato, como se ha de

esperar d’elles que olhem para o fim da vida? Outros delinquentes

formam esta classe que se chama dos _impulsivos_. Elles obram por

impulso do seu temperamento colerico ou nevropathico, ou pelo do

alcoolismo; é pois pouco provavel que no momento de offender as

sancções religiosas lhe venham ao espirito. Outros emfim encontram-se

na condição de _névrosthenia moral_ que os torna impotentes para

resistir ás influencias do meio: pode-se porventura imaginar que a sua

instrucção seja sufficiente para lhe dar iniciativa e energia?

«É assim que o estudo experimental do criminoso destroe muitas

illusões, e que confirma a conclusão que já demos, fallando da educação

em geral, isto é, que se um caracter póde ser por ella aperfeiçoado,

é muito duvidoso que possa jámais supprir uma lacuna da organisação

psychica, tal como a ausencia dos sentimentos altruistas. Emfim, é

verdade que esta especie de religião, que está ao alcance do maior

numero, ameaça espantosamente o criminoso? Não, porque se lhe tem

fallado ao mesmo tempo da misericordia Divina, e elle crê que um

acto de arrependimento em qualquer tempo e logar, será uma reparação

sufficiente para uma vida passada inteiramente no vicio. É assim que se

póde explicar o facto muitas vezes verificado em ladrões e assassinos,

muito devotos da Virgem e dos Santos. Um caso muito differente póde

explicar-se do mesmo modo: senhoras muito crentes podem passar toda

a sua vida no adulterio, e, na egreja, chorarem ajoelhadas ao pé da

cruz. Porque a luxuria é um peccado mortal, como o odio e a cholera,

mas a benção d’um padre póde egualmente absolvel-os a todos. Parece-me

ouvir responder; é que estas pessoas não teem o verdadeiro sentimento

religioso; é que a sua religião não é senão superstição! Mas póde a

religião do maior numero ser outra cousa? Nas pessoas vulgares, em

todas as religiões, encontra-se a idéa do anthropomorphismo de Deus.

É assim como se tem muito bem notado--«que o homem brando e honrado

adora um Deus de amor e de perdão; e que o homem perverso e immoral

fórma um Deus cruel e odiento.»[62] E se o verdadeiro sentimento

religioso é cousa de tal modo rara que bem poucos espiritos nobres

podem pretendel-o, será temerario dizer que estes mesmos espiritos não

teriam tido necessidade d’elle para não commetter crimes; que, embora

elles não tivessem sido crentes, teriam sido da mesma fórma pessoas de

bem? Apezar de tudo, é preciso admittir que, _nos mesmos limites em que

a educação póde ser operante_, a religião é um seu auxiliar, porque

ella póde desenvolver bons principios e reforçar caracteres fracos. Um

governo esclarecido deveria, pois, fornecer esta força moralisadora,

ou pelo menos não lhe crear obstaculos. Em quanto ao mais, o que póde

fazer não é grande coisa. Em um paiz sceptico todos os seus esforços

seriam inuteis, e no seio de uma nação animada da fé dispensa-se a

sua approvação. Tem-se visto religiões do Estado decairem e morrerem;

o christianismo invadir irresistivelmente o Imperio romano, da mesma

fórma que o budhismo a Asia Oriental. Em nossos tempos um governo só

tem a religião que encontra na nação. Da mesma fórma que no seio d’uma

familia todo o ensino será nullo sobre o coração dos filhos se seus

pais não lhes patenteiam a todos os momentos a sua inteira submissão a

estes mesmos preceitos, o Estado não poderá moralisar nunca senão _pelo

exemplo_, e o melhor exemplo que pode dar é _a justiça_ a mais severa,

a mais imparcial, a mais facil de obter.»[63]

Sobre o mesmo assumpto escreve Tarde:

«Limitemo-nos á estatistica criminal e concluamos mais esta vez ainda

que o mal crescente, indicio aliás de um melhoramento occulto, que

ella expõe aos nossos olhos, não se póde imputar nem á policia, nem

á justiça, nem á civilisação, nem tão pouco á lei penal, mas antes

quem sabe, ao retrocesso dos instinctos caritativos e á exaltação

das paixões revolucionarias. Sem embargo, desconheceremos nós a

acção favoravel, ou não favoravel á criminalidade, de cousas taes

como a instrucção, o trabalho, a riqueza e a indifferença nas crenças

religiosas? Indiquemos em poucas palavras qual a resposta que temos

a dar a estas interrogações. Pelo que respeita á ultima, é fóra de

duvida que o medo do inferno, demos-lhe o seu nome, por mais que tenha

enfraquecido e ainda que venha até a extinguir-se inteiramente, ao

menos nos adultos, assim como o desejo do ceo e o amor de Deus, as

regras e os habitos moraes de nossos paes, bem como de nossa infancia,

para cuja formação contribuiram aquelles sentimentos, nem por isso

subsistem ou subsistirão menos, mas cada dia mais abalados, mais

incapazes de resistir aos embates das tentações. Para que o havemos

de dissimular, o diabo tem talvez contribuido tanto como o carrasco

para _formar o coração_ dos europeus passados e presentes inclusive

os d’aquelles a quem a pena de morte e as superstições mais revoltam.

Christã ou não, a França permanecerá ainda muito tempo christianisada,

do mesmo modo que bonapartista ou não, desde a idade organica do

Consulado, está ella, queira ou não queira bonapartisada e até á

medulla dos ossos. Todavia esta sobrevivencia da moral religiosa aos

dogmas, como a das instituições a seus principios, só tem um tempo?

e onde irão as gerações vindouras beber a sua moralidade quando

estiver esgotada a antiga fonte? N’outros termos, para luctar contra

as tendencias destruidoras, que sentimentos fecundos differentes dos

precedentes nutrirão essas gerações, ou se deverá fortificar n’ellas?

Porque, são sentimentos, e diremos melhor principios, isto é restos de

convicções estaveis, inconscientes, definitivas, e não ideias, isto é

convicções em via de se formarem e prestes a descerem do espirito ao

coração e do coração ao caracter, o que se trata de suscitar aqui.»

Sobre o mesmo assumpto Dupanloup, o egregio prelado faz as seguintes

considerações:[64]

«Todos sabem quanto a _Instrucção_ e a _Disciplina_ devem á Religião, e

bem poucos deixarão de ter experimentado quanto é profunda a influencia

da Religião e da virtude sobre a _Educação intellectual_. O coração

mais puro purifica o espirito, torna-o mais sensivel ás impressões do

bello, mais docil aos ensinamentos do verdadeiro e fal-o saborear com

vivacidade o doce e nobre prazer de escutar a rasão.

Sob os auspicios da Religião, a verdade penetra na intelligencia, não

como uma secca theoria que apenas conquista uma especie de adhesão

passiva, mas como que alguma cousa de vivente, de substancial, que

fecunda o espirito e o eleva e por elle chega á alma para a vevificar

toda inteira.

Pela Religião, sente-se o Espirito fortemente appoiado n’um principio

de fé e não vai chocar-se com todas as incertezas humanas; eleva-se ao

ponto de vista divino, para ver de mais alto e mais longe que viram os

mais sabios.

Eliminai a _Religião_, e a Instrucção não será mais que um vão

pasto offerecido á curiosidade ou ao orgulho, ella não fará amar

profundamente o verdadeiro; os mais elevados pensamentos perdem-se

em ambitos acanhados; a verdade fria e inanimada pára no espirito e

não sabe ir até ao coração. Ella exalta sobremaneira a intelligencia,

como por vezes o tenho visto, e é um dos maiores perigos da Educação

puramente humana, ella exalta a intelligencia em detrimento do caracter

e da consciencia, em certas naturezas avidas de conhecer; ou então a

deixa inerte e esteril em outras, cuja intelligencia só poderia ser

chamada ao movimento e á vida pelo grito da consciencia ou pelas ternas

insinuações da Religião. N’estas naturezas mediocres, a Instrucção

reduzida a si mesma, não é nada, ou, quando muito, apenas é um deposito

confiado á guarda inactiva da memoria, uma serie de conhecimentos,

uma avida nomenclatura, um montão indigestivo de sciencia sem luz, de

factos sem ligação e sem vida.

A _Disciplina_ é a seu turno ennobrecida pela instrucção: deve ser

elevada á dignidade de guarda da intelligencia; mas é sobre tudo pela

_Religião_ que a disciplina se torna uma verdadeira potencia moral na

Educação.

Pela _Religião_, a Disciplina não é sómente o olho do superior e a

garantia da obediencia material; é o olho de Deus e a inspiração de uma

nobre docilidade.

É sob os auspicios da Religião sómente que a disciplina se torna a

protectora dos costumes e a guarda da innocencia; o penhor dos grandes

estudos; a inspiração do bom espirito; a dispensadora e a thesoureira

do tempo; e nervo do regulamento interior e a mola poderosa de toda a

Educação.

Sem Religião, pelo contrario, a Disciplina não é mais que uma policia

de caserna, aviltante para aquelles que a soffrem, mais aviltante ainda

para aquelles que a fazem soffrer.

Por mais severa que seja, nunca poderá chegar ás almas e a isso

desafio. Logo apesar da severidade, nenhuma consciencia, intratavel,

sem freio nas paixões secretas e menos respeito.

Jámais conseguirá esta disciplina toda material, toda exterior, educar

o homem, a não ser que se queira fazer da sociedade uma colonia

militar, para a qual seria a Educação encarregada de formar conscriptos!

Fique-se bem sabendo, nada ha de commum entre o regimen despotico de

alguns collegios e esta nobre Disciplina das almas, que é a verdadeira

_Educação_ da mocidade.

Na Educação, não basta que se obedeça, é necessario que haja gosto na

obediencia. E o que faz amar a obediencia? a Religião, só a Religião.

Oh! sem duvida é muito mais facil de exercer a Disciplina militar,

a Disciplina de mão armada: será sempre mais facil commandar corpos

que almas. Dispõe-se da força, os corpos humilham-se, mas as almas

resistem; ou se se humilham, é porque foram embrutecidas por uma

obediencia servil.

Que notavel differença na Educação christã! Para esta ha mister uma

arte profunda; e é d’esta arte que se disse: _Ars artium, regimen

animarum_.

Ás almas se applicam todos os esforços da direcção christã: a ordem

moral eis o fim a que se pretende chegar. A ordem material tem sua

importancia, não ha duvida, mas estabelece-se naturalmente, por uma

simples consequencia e como um reflexo exterior da ordem moral; em

quanto que n’essas outras escolas, onde se ostentam pomposamente os

rigores de uma inflexivel disciplina, muitas vezes não ha no intimo do

seu organismo, senão desordem e anarchia. Tudo quanto ahi se quer é que

essa anarchia e essa desordem não constem cá fóra. Que, depois d’isso,

as creanças ignorem o que é a virtude e a felicidade, pouco importa!

Que não haja Educação para o coração, para a consciencia, tambem pouco

importa! Ah! eu não conto aqui, senão o que todos sabem e foi com a

auctoridade de mais de um exemplo que se disseram estas palavras

bem verdadeiras; _A mais severa Disciplina pode esconder vicios

medonhos_.[65]

Desgraçados dos paes que n’este ponto, se descuidam, elles chorarão um

dia amargamente! Desgraçado do paiz onde a Educação publica chegou a

este ponto: serão ahi raros os bons cidadãos!

As sagradas Escripturas disseram uma bella e profunda verdade quando

definiram a _Disciplina--a guarda das leis, Disciplina, costodia legum_.

É com effeito o que deve ser e o que nós temos visto. Mas como póde

a disciplina cumprir dignamente esta grande e augusta missão? É

inspirando o respeito e o amor d’essas mesmas leis que são confiadas

á sua guarda. Se ella é toda material, só ensina o respeito da força,

isto é, o medo servil que fana as almas sem lhes tirar a tendencia para

a revolta; se é religioso e moral, ensinará a respeitar o principio

da auctoridade e a lei que é a expressão das mesmas; submetterá as

almas ao imperio d’essas santas noções sobre as quaes repousa a ordem

social, quer se trate da grande sociedade humana, que é a patria, quer

se trate d’essa outra sociedade mais circumscripta e mais humilde, mas

depositaria dos destinos da primeira, do collegio: ahi onde se faz

a aprendizagem das virtudes ou dos vicios, pelos quaes serão um dia

rebustecida ou perturbada, a paz e a prosperidade publicas.

Perdoem ter-me deixado arrastar pela importancia d’esta questão.

Limitar-me-hei, pois, a repetil-o: é necessario na Educação que a

Disciplina não seja observada á força, mas respeitada e amada de

coração. De outro modo, as almas soffrem e a Educação não passa de uma

obra de violencia, algumas vezes cheia de horror.

Mas, se nada póde egualar a influencia da Religião sobre a disciplina,

ao mesmo tempo que sobre os estudos e o desenvolvimento natural do

espirito; sobre o caracter e os defeitos da creança, e sobre os

destinos da sua vida inteira, a _Religião_, do seu lado, reclama o

concurso dos dois outros grandes meios d’Educação.

Sem a _Instrucção_ e sem a _Disciplina_, não formaria a Religião homens

dignos d’ella.

A Religião quer ser esclarecida: gosta dos caracteres firmes e rectos:

espiritos imbecis ou caracteres abatidos e indolentes sómente seriam

bons para a deshonrar.

Em vão experimentaria formar-lhes coração e intelligencia.

A Disciplina que, como se deixa perceber, é, sem a Religião, o quer

que seja de material e triste, é a seu turno para a Religião um

indispensavel auxilio.

Pelo silencio e pela paz mantem a concentração; prepara o caminho ás

lições da sabedoria christã ou ás impressões da graça.

Conter ou reprimir os desmandos da vontade arrastada para longe do

dever pelas paixões ou pela inexperiencia da idade; submetter sem

humilhar, mandar sem aviltar, elevar abatendo, fortalecer e fazer

avançar detendo impedir que as faculdades se não desvairam e se

não enfraqueçam dissipando-se: proteger ao mesmo tempo a piedade,

os estudos e os costumes; tal é a obra, _tal é o dever da educação

disciplinar_.

Como poderia a _Religião_ dispensar o auxilio da Disciplina?

A _Instrucção_, da sua parte, offerece á _Religião_ o seu poderoso

concurso.

Abrir e desenvolver a intelligencia da creança, despertar-lhe

o pensamento, fazer nascer n’ella ideias sãs, formar-lhe e

desenvolver-lhe a penetração, o bom senso, a applicação do espirito;

enriquecer-lhe a memoria, formar-lhe a razão e a palavra, fecundar-lhe

a imaginação, polir-lhe o gosto, exercitar-lhe o juizo; _é o dever da

Educação intellectual e a gloria da Instrucção_.

Quem poderá desconhecer todo o bem que a _Religião_ póde d’ella esperar?

Espiritos assim preparados, engrandecidos, elevados, fortalecidos,

comprehenderão melhor as altas verdades christãs.

O joven que cultivou convenientemente o seu espirito terá um coração

mais delicado, uma alma mais generosa, ao mesmo tempo que uma razão

mais elevada.

Nos estudos classicos encontrou elle o bello e o verdadeiro sob suas

fórmas litterarias; quando com a Religião elles lhe apparecem no seu

mais alto esplendor, com que enthusiasmo os não acolhe?

Vê-se por tanto, como a _Disciplina_ e a Instrucção não podem passar

sem a _Religião_, a Religião não póde passar sem ambas para attingir o

grande fim da Educação.

Emfim conservar a força da creança, velar pela sua vida, auxiliar sua

constituição physica em se fortificar, desenvolvendo-se, proceder de

fórma que seus membros sejam sempre flexiveis e vigorosos, que um

sangue generoso e puro lhe circule nas veias, que esta chamma celeste,

que brilha em seus olhares, não amorteça nem se extinga mais: que este

amavel colorido, este encanto inexprimivel que embelleza a fronte da

infancia virtuosa, este não sei que de feliz que vem dos dons do ceo,

não desappareça sob tristes nuvens; é o dever da _Educação physica_;

e este dever não se cumpre senão pelos cuidados mais attentos, mais

delicados, mais respeitosos. Mas não vemos nós, sem necessidade de que

nol-o demonstrem, que influencia têem estes cuidados preciosos, n’uma

casa d’Educação, sobre a disciplina, sobre o bom ou mau exito dos

estudos, sobre a mesma piedade?

E não se comprehende ao mesmo tempo o que a Instrucção e o trabalho,

o que a Ordem e a Disciplina, e sobre tudo o que a Religião, podem

em troca, para a conservação da saude e das forças, conservando os

costumes? Já o têem dito, a Religião é o aroma que não deixa corromper

a sciencia. Nós tambem o dissemos: a verdade é o balsamo divino que

conserva a vida e a frescura da creança. E é só a disciplina moral e

religiosa que guarda a virtude.

Acabarei tudo isto por algumas explicações que não deixam de ter

interesse e dar luz: assim, por exemplo, é a _Educação physica_,

hygienica que conserva por todas as partes, n’uma casa de Educação,

com um cuidado e uma vigilancia infatigaveis, o _aceio_, que todos os

mestres da moral e da virtude christã, com razão e d’um sentido muito

verdadeiro têem chamado uma virtude: e é o _aceio_ que contribue para

dar e para conservar um certo vigor corporal, uma certa dignidade

exterior que mantém a dignidade e o vigor da alma.

E no entanto a Religião impede que o aceio degenere em _fatuidade_ em

mollesa e que cessa a virtude onde começa o excesso.

É ainda a _Educação physica_ que dá uma justa medida de repouso á

_Educação intellectual_, concede ao espirito o descanço conveniente,

faz succeder ás horas do estudo as horas do recreio; mas, do lado, a

prudente e firme _Disciplina_ não permitte que se dêem de mais; não tem

nada de austero nem de affectado; mas prepara o prazer pelo trabalho

e desenfada do trabalho pelo prazer e, sob sua prudente direcção, as

folgas e os brinquedos convenientemente se entremeia com as occupações

graves e sérias.

Finalmente a _administração economica_ de uma casa procura para todos,

mestres e discipulos, uma certa independencia intellectual, uma nobre

segurança, um feliz esquecimento dos cuidados materiaes da vida, cuja

isempção é favoravel ao recolhimento da piedade e das lettras.

É com este fim que ella escolhe um bello local; uma casa vasta, bem

accommodada ás necessidades da Disciplina; sallas espaçosas, grandes

dormitorios, aulas bem arejadas, uma bella capella, magnificos jardins.

É tambem ella que admitte professores convenientes não só pela saude,

como pela decencia e dignidade litteraria; que dispõe tudo como é

necessario á idade dos alumnos, a essa idade tão tenra, tão viva, tão

ardente e tão admiravelmente applicada, que sabe ser silenciosa e

immovel, doze horas em cada dia, durante dez annos!

E entretanto a _Religião_, que é o bom senso superior de todas as

cousas, requer que esta casa esteja sem luxo, que seja de uma nobre

simplicidade, magnifica somente pela elevação, pela boa ordem e pelo

espaço conveniente ao grande numero dos seus jovens habitantes.

Quer ver banidos os moveis faustuosos, as ninharias deslumbrantes, os

ornamentos superfluos e tudo que respire vaidade e molleza, reserva

para o sanctuario os vasos de ouro e de prata, os estofos ornados de

enfeites, as pedras preciosas, os perfumes exquisitos.

Não multiplicarei mais estes pormenores; os indicados bastam para o

meu designio, eram-lhe necessarios. Nada importava tanto como lançar

assim algumas luzes sobre a influencia, que cada um dos grandes meios

d’Educação exerce sobre a Educação inteira e tambem revelar a estreita

união que as deve fazer concorrer para o mesmo fim, se quizermos que

este fim seja completo e efficazmente attingido, se quizermos que a

educação seja uma realidade.

Ora, pois que é tempo de concluir, inspirar a tenras almas o gosto de

uma vida seria e applicada, que ha-de produzir um dia a gravidade dos

costumes e a fidelidade aos deveres;

Excitar ao amor do trabalho, o gosto intelligente das lettras, das

sciencias, das artes, da industria, da agricultura e do commercio,

segundo as differentes especialidades da Educação, e o ardor por todos

os conhecimentos bellos, pelos nobres progressos, que desde tantos

seculos se tornaram o apanagio da nossa patria;

Sob os auspicios da Religião, submetter, regularisar, dirigir as

paixões no tempo conveniente, de modo que se deixem senhorear e que,

longe de serem um obstaculo ao bem, sejam o instrumento util das

grandes cousas;

Formar para este saber-viver, que consiste em se constranger uma pessoa

a si mesma, sem constranger os outros e que deslumbra menos pela bellas

maneiras, que encanta pela simplicidade e impõe pelo respeito;

Em uma palavra sob a Direcção de uma disciplina igualmente suave e

firme, pelo ascendente de uma auctoridade sempre querida e respeitada

constituir e manter solidos e brilhantes estudos litterarios, ou

industriaes, agriculas e commerciaes, ao mesmo tempo que costumes

puros, uma docilidade generosa, uma fé esclarecida e uma piedade

profunda;

Estabelecer, emfim, por isso mesmo, entre mestres e discipulos esses

doces e poderosos laços que nunca se quebram, essas lembranças de

dedicação e de reconhecimento, d’affeição e de respeito, que são a

mais suave recompensa dos professores, como se tornam, no coração

dos discipulos, uma d’essas felizes e inolvidaveis impressões que

sobrevivem a tudo;

Formar assim por meio simples e poderosos, esses jovens espiritos para

a intelligencia do verdadeiro, que é a luz mesma de Deus; esses jovens

corações ao amor do bem, que é o esplendor da verdade, e a sua vida

inteira á pratica do bem; fazer-lhes sentir por isso nas impressões e

nas recordações da sua Educação, a felecidade, a verdade e a virtude, e

ao mesmo tempo a mais alta dignidade de sua natureza.

Repito-o, tal é a grande obra, tal é o fim essencial da Educação; tal é

a alta e santa missão dos professores da mocidade.

Eis a _Educação geral essencial_ a quem tem direito todo o homem que

vem a este mundo.

É a Educação humana por excellencia! Mas proclamo-o de novo, e agora

se comprehenderá melhor que nunca: é isto essencialmente, e superior a

tudo, uma obra de religioso respeito.

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 19 / 32 题