A crise que está atravessando a moral e o sentimento religioso é um
problema grave. O nosso seculo é a epoca de transição entre um passado
insufficiente e um futuro prenhe de audaciosos acontecimentos, que os
espiritos circumspectos e que veem largo, não ousam encarar sem um
grande espanto ou um justo receio.
Os revolucionarios e os innovadores não se inquietam, porque esperam
ver um dia o genio do homem sair victorioso do combate titanico, que
a sciencia travou contra as forças da natureza, escondidas ainda na
intelligencia humana. Mas o conteudo do decimetro cubico da nossa massa
encephalica fica absolutamente satisfeito com a sciencia positiva? A
religião é uma fórma transitoria da evolução humana como pretendem os
positivistas? É uma invenção dos sacerdotes como queriam os philosophos
do seculo passado? Tem origem n’um sentimento passageiro, como dizia o
poeta romano: _primus in orbe deos fecit timor_?
Ao estudarmos as religiões na sua continuidade historica, na filiação
dos cultos, no encadeamento logico das concepções, vemos que o passado
é a génese inexgotavel do futuro. Ainda que a civilisação verta sobre
a alma da humanidade muitos gozos e beneficios a razão achal-os-ha
impotentes para a satisfazer. A religião é, na vida humana sensivel,
comtemporanea da dôr e durará tanto como ella. O seu objecto ficará
sempre como sublime aspiração para um ideal que não abranje só este
mundo, e que como uma columna de fogo illuminará nas crises dolorosas
a senda mysteriosa da consciencia humana. O homem dirige-se pelas
idéas verdadeiras ou falsas, mas dirige-se e consola-se tambem pelo
sentimento. Póde affirmar-se que são principalmente os sentimentos
os moveis da nossa actividade e que a nossa vida moral, no que ella
tem de externo á lei do dever, dimana sempre d’um sentimento ou d’uma
emoção a procurar ou a evitar. É possivel que n’um futuro longinquo,
a sciencia acabe sobre a terra por substituir completamente o cerebro
ao coração, o raciocinio ao sentimento, tornando a alma humana inane
ao aguilhão do desejo e indifferente ás emoções da sensibilidade. No
momento evolucionario em que não houver nem amor, nem dedicação, nem
piedade, nem ternura, nem sinceridade, n’esse dia a vida humana, tal
como a concebemos, terá desapparecido n’um horror de tristeza, na
profundissima treva cantada por Byron. As puras abstracções da sciencia
não podem dirigir, nem satisfazer a humana aspiração. Nenhuma realidade
contingente póde encher a vida immensa da nossa alma.
Penetrando pela analyse nos factos passados da humanidade, reconhecemos
em grande parte, que muitas das suas concepções mais consoladoras e
mais queridas, com as quaes ella explicava a natureza das cousas,
cairam á luz das investigações severas da sciencia como phantasmagorias
enganosas. Aos velhos deuses, ainda que invejosos e crueis,
susceptiveis ao menos de misericordia, succedeu a fatalidade inexoravel
da lei, que é surda á supplica do crente e inaccessivel á esperança do
afflicto. Alguns espiritos demasiado positivos promettem á humanidade
pela sciencia um futuro reinado de Astrêa, quando em verdade nunca
durante o imperio incontestado dos deuses o homem foi tão escravo
como é hoje em frente das leis desapiedadas e brutaes da natureza. São
todas as religiões positivas uma illusão, uma chimera? Supponhamos, sem
o conceder todavia, que sim. Mas não ha na sciencia muita hypothese
gratuita, muita theoria enganosa? Eu prefiro a crença na doutrina que
tem servido de doce abrigo e de suave conforto á humanidade desditosa,
á explicação hypothetica fornecida pela dura realidade da sciencia, mas
que rouba ao coração humano o sentimento augusto da esperança, que é
mais verdadeiro que o da propria felicidade.
Não póde negar-se que todo o sentimento religioso tem um fundo de
verdade. É-nos desconhecida a natureza intima, o principio que inspira
essas manifestações, mas essa ignorancia existe a proposito de muitos
phenomenos scientificos. Por ventura conhecemos, por exemplo, a
natureza intima da electricidade?
Se o sentimento religioso tem sempre um fundo de verdade, resulta
até perante a sciencia que a religião é evidentemente util. A
especulação religiosa foi o primeiro factor intellectual que elevou a
alma humana acima da animalidade «sendo, como diz Littré, necessario
e indispensavel um systema philosophico ou conjuncto de idéas por
meio das quaes tudo seja explicado; na ausencia do verdadeiro que
estava ainda na sombra de um longinquo futuro, os homens crearam-no
hypothetico, mas não arbitrario; transitorio, mas conforme ao estado
intellectual do momento. Estes systemas foram a theologia e a
metaphysica.»
Esta affirmação de que o estado theologico é transitorio é o reflexo da
falsa lei comteana dos tres estados. Não ha tres methodos radicalmente
oppostos de philosophar, o methodo é essencialmente o mesmo, a
integração das causas é que progressivamente converte principios
explicativos menos geraes n’uma lei universal. Escreveu Diderot na
sua _Carta sobre os cegos para uso dos que vêem_. «Se a natureza nos
offerece um nó difficil de desfazer, deixemol-o pelo que vale e não
empreguemos a cortal-o a mão de um ser que em seguida se torna para nós
um novo nó mais indissoluvel que o primeiro. Perguntaes a um indio como
está o mundo suspenso nos ares; responder-vos-ha que descança no dorso
de um elephante; e o elephante sobre que assenta? Sobre uma tartaruga.
E esta quem a sustenta?... O indio causa-vos dó!»
A existencia do homem, diz J. Stuart Mill, apresenta-se primeiro
envolta no mysterio: a estreita região da nossa experiencia é como uma
pequena ilha perdida n’um mar immenso que eleva os nossos sentimentos
ao mesmo tempo que estimula a nossa imaginação pela sua immensidade e
pela sua obscuridade.
O que obscure mais o mysterio, é que o dominio da nossa existencia
terrestre não é sómente uma ilha no espaço infinito, mas tambem
no tempo infinito. O passado e o futuro furtam-se egualmente ás
nossas vistas: não sabemos nem a origem, nem o fim de nenhuma cousa
existente.[58] A religião e a poesia pelas suas concepções idealmente
bellas e grandiosas é que mitigam em parte a sêde da nossa alma. A
influencia da religião melhora e ennobrece no individuo a natureza
humana. As religiões da humanidade civilisada, incluiram nos seus
preceitos os melhores principios de moral, que a razão e a bondade
poderam crear com elementos tirados quer da philosophia, quer da
historia heroica, quer d’outra parte.[59]
A religião na sua pureza ideal é o refugio das almas superiormente
delicadas, e nas suas fórmas regularmente cultuaes e dogmaticas é
a philosophia das massas, cujo influxo pesa salutarmente no seu
espirito pelo amor ou pelo receio. Não desprezemos nada do que póde
melhorar-nos, porque a nossa felicidade é a hypothese, emquanto o
infortunio é a realidade.
Não temos a certeza positiva de ser immortaes, mas temos a consciencia
de ser feitos para a immortalidade. Nutrimos o horror pelo nada e
o amor pela idéa de viver eternamente. Quando offerecemos o nosso
coração, quando dedicamos o nosso affecto, é para sempre, cada uma
das nossas faculdades aspira a fins que não attingem só este mundo.
Esta vida é preludio d’uma tarefa immensa que tem por guia a visão
do infinito. A razão almeja constantemente por uma verdade absoluta,
a vontade aspira a uma virtude perfeita. A natureza indestructivel
da alma deve ser acceite por todos os que admittem a permanencia
de força, substancia que não póde cessar. Mas esta immortalidade é
irrisoria porque não salva a bondade do nosso esforço, nem assegura o
desenvolvimento da nossa perfectibilidade. Viver e mudar são synonimos,
todavia viver é triumphar da mudança, reconhecendo a personalidade. O
homem deve ser immortal, porque tudo é immortal e indestructivel, desde
o imperceptivel verme, desde o grão de areia, desde a gota d’agua até
ao astro o mais colossal e o mais radiante. Mas a vida na immortalidade
humana, deve recordar a personalidade. A religião e a poesia são as
duas fórmas mais elevadas que reveste esta modalidade do nosso ser,
por isso o vago sentimento poetico e o indefinido sentimento religioso
serão eternos. O caminhar da civilisação póde mudar a corrente do
sentimento religioso, mas jámais poderá esgotar-lhe a nascente.[60] A
religião é uma necessidade do coração e uma necessidade racional.
Magistratura civil e magistratura espiritual na sua funcção sociologica
completam-se mutuamente. O juiz pune, o professor e o sacerdote
podem emendar o delinquente. Diz S. João Chrysostomo, fallando dos
magistrados: «quanto a vós se deixaes o criminoso impune contribuis
para que elle se torne peior; se o condemnaes ao supplicio, não
conseguis emendal-o. Eu não o deixo ir impune, mas nem por isso o
castiguei ao vosso modo; procuro-lhe a penitencia que me parece justa e
assim faço com que elle por si mesmo se corrija do mal que praticou.» É
innegavel que o sentimento religioso é uma mordaça para o delinquente.
Se em certas comarcas e em dadas regiões, apezar da influencia do
sentimento religioso o crime existe em grande escala, qual não seria a
progressão criminosa se a crença religiosa não existisse? Attribuir á
religião n’este caso o augmento da estatistica do crime, seria o mesmo
que attribuir á medecina a morte pelo cholera, onde elle é endemico.
Ha entre a crença religiosa e a lei do dever uma ligação assás
estreita, intima; o imperio da primeira avigora e fortalece a
segunda. Não queremos com isto dizer que o principio da obrigação
moral não tenha um valor proprio, como todas as idéas racionaes,
independentemente da idéa religiosa, mas como é inoculada geralmente
em nome do sentimento religioso, é pela sua acção, como diz Javary,
que se tem espalhado e que se mantem, em grande parte, na sociedade.
Nos individuos ignorantes e de paixões brutaes a concepção abstracta
da lei moral, separada da religião, é incapaz de exercer praticamente
o seu imperio. Não ha a possibilidade de fazer philosophos de todos os
homens, por isso é mister que os desherdados da luz recebam na sua
alma a moral pela religião e a metaphysica pela theogonia. A religião
é, como pensa Kant, não o fundamento da moral, é antes a moral que
nos conduz á religião; a philosophia aprecia a alteza e o valor das
religiões pela moral que ellas pregam. Qualquer organisação religiosa,
por pouco que ella valha, serve sempre de disciplina ás consciencias e
tem a vantagem d’exercer uma acção reguladora na ordem social. Já Vico
disse que sob a influencia da religião se formaram as mais illustres
sociedades do mundo, o atheismo não fez nada.
De vez em quando o luar da historia humana apparece tragicamente
avivado pela revelação d’um grande crime. O psychologo e o jurista
estudam o delinquente e o delicto. Esta ordem de phenomenos ainda
está n’um periodo de discussão e de elaboração. Ha muito a esperar da
educação moral e religiosa no seio da familia, ministrada com carinhosa
intensidade e dirigida por elevados preceitos confirmados por bellos
exemplos. Regeitemos por isso as exaggerações pessimistas da parte da
escola anthropologica italiana, que crê toda a educação esteril para
melhorar o criminoso.
A este respeito escreve Garofalo em defeza da educação religiosa:
«Sem duvida as emoções religiosas tem grande influencia quando tem sido
excitadas desde os primeiros annos. Deixam sempre vestigios que embora
enfraquecidos pelo tempo, não desapparecem nunca, até no abysmo da
fé. A impressão dos mysterios religiosos sobre a imaginação é de tal
modo viva que as regras de procedimento impostas em nome da divindade
podem tornar-se instinctivas, porque,--como disse Darwin,--«uma crença
_inculcada_ constantemente durante os primeiros annos da vida quando
o cerebro é mais impressionavel, parece quasi adquirir a natureza
d’um instincto, é a que se produz independentemente da razão.»[61] A
influencia d’um codigo de moral--accrescenta Spencer--defende antes
das _emoções_ provocadas por seus imperativos, que do sentimento de
utilidade em lhe obedecer. Os sentimentos inspirados na infancia _pelo
espectaculo da sancção social e religiosa_ dos principios moraes,
exercem sobre o procedimento uma influencia _muito maior_ ainda que a
idéa do bem-estar, que se obtém pela obediencia aos principios d’este
genero. Quando os sentimentos, que o espectaculo d’estas sancções faz
nascer, chegam a faltar, a fé utilitaria _não basta_ ordinariamente
para levar á obediencia.--_Até nas raças melhor educadas_,--accrescenta
elle, entre os homens superiores, nos quaes as _sympathias_, tornadas
_organicas_, são a causa de que elles se conformem espontaneamente com
os preceitos altruistas, a sancção social, derivada em parte da sancção
religiosa, adquire uma certa importancia sobre a influencia d’estes
preceitos; pois, ella a tem muito grande sobre as acções das pessoas
d’um espirito menos elevado.
«O mesmo auctor reconhece uma influencia perniciosa no preconceito
irreligioso ou anti-theologico.--Diz áquelles que creem que a sociedade
póde conformar-se em tudo com os principios da moral: «Como se poderia
avaliar a quantidade de espirito de direcção necessaria, sem regras
recebidas hereditariamente e que constituem auctoridade, para obrigar
os homens a comprehender porque, sendo dada a natureza das cousas,
seja pernicioso um certo modo de obrar e aproveitavel outro; para as
forçar a ver além do resultado immediato, e a discernir claramente os
resultados indirectos e affastados, taes como se produzem sobre elles
mesmos, sobre os outros, e sobre a sociedade?
«Não é pois duvidoso, para os positivistas, que a religião seja uma das
mais activas entre as forças da educação. Mas para isto são necessarias
duas condições,--a primeira quando se trata d’uma creança,--a segunda,
que o ensino da moral seja o verdadeiro alvo do ensino religioso, o que
desgraçadamente não acontece quasi nunca em muitos paizes catholicos,
onde um clero ignorante, sobretudo nas parochias ruraes, se occupa
geralmente de praticas completamente vasias de significação para a
direcção moral, e cujo fim visa a assegurar a mais inteira obediencia
dos fieis, que entretanto desamparam as paginas sublimes do Evangelho.
Ha ainda uma outra cousa a notar: é que o poder da religião sobre a
moralidade individual parece deter-se precisamente nos casos mais
graves, isto é, quando elle encontra _inclinações criminosas_. Nada
mais natural. Com effeito, se o ensino para tornar-se util, deve ser
acompanhado da _emoção_, como se póde esperar que esta emoção seja
excitada nos homens, que, por um defeito de organisação physica tem
_uma sensibilidade moral muito menor que_ a normal? E como se póde
pensar então que elles cheguem nunca á pura idealidade da religião?
«Que importa isso, dir-nos-hão. O temor do castigo na outra vida
será sempre um freio assaz poderoso para bem dos individuos que não
teem podido elevar-se ao verdadeiro ideal religioso. Isto póde ser
verdadeiro para homens d’um espirito pratico, tranquillo, e calculador,
não seguramente para aquelles que tem um _caracter criminoso_, porque
a imprudencia, a imprevidencia, a leviandade, distinguem sobre tudo
este caracter. Se, em todas as occasiões, para a satisfação immediata,
de suas paixões, elles não olham para o dia immediato, como se ha de
esperar d’elles que olhem para o fim da vida? Outros delinquentes
formam esta classe que se chama dos _impulsivos_. Elles obram por
impulso do seu temperamento colerico ou nevropathico, ou pelo do
alcoolismo; é pois pouco provavel que no momento de offender as
sancções religiosas lhe venham ao espirito. Outros emfim encontram-se
na condição de _névrosthenia moral_ que os torna impotentes para
resistir ás influencias do meio: pode-se porventura imaginar que a sua
instrucção seja sufficiente para lhe dar iniciativa e energia?
«É assim que o estudo experimental do criminoso destroe muitas
illusões, e que confirma a conclusão que já demos, fallando da educação
em geral, isto é, que se um caracter póde ser por ella aperfeiçoado,
é muito duvidoso que possa jámais supprir uma lacuna da organisação
psychica, tal como a ausencia dos sentimentos altruistas. Emfim, é
verdade que esta especie de religião, que está ao alcance do maior
numero, ameaça espantosamente o criminoso? Não, porque se lhe tem
fallado ao mesmo tempo da misericordia Divina, e elle crê que um
acto de arrependimento em qualquer tempo e logar, será uma reparação
sufficiente para uma vida passada inteiramente no vicio. É assim que se
póde explicar o facto muitas vezes verificado em ladrões e assassinos,
muito devotos da Virgem e dos Santos. Um caso muito differente póde
explicar-se do mesmo modo: senhoras muito crentes podem passar toda
a sua vida no adulterio, e, na egreja, chorarem ajoelhadas ao pé da
cruz. Porque a luxuria é um peccado mortal, como o odio e a cholera,
mas a benção d’um padre póde egualmente absolvel-os a todos. Parece-me
ouvir responder; é que estas pessoas não teem o verdadeiro sentimento
religioso; é que a sua religião não é senão superstição! Mas póde a
religião do maior numero ser outra cousa? Nas pessoas vulgares, em
todas as religiões, encontra-se a idéa do anthropomorphismo de Deus.
É assim como se tem muito bem notado--«que o homem brando e honrado
adora um Deus de amor e de perdão; e que o homem perverso e immoral
fórma um Deus cruel e odiento.»[62] E se o verdadeiro sentimento
religioso é cousa de tal modo rara que bem poucos espiritos nobres
podem pretendel-o, será temerario dizer que estes mesmos espiritos não
teriam tido necessidade d’elle para não commetter crimes; que, embora
elles não tivessem sido crentes, teriam sido da mesma fórma pessoas de
bem? Apezar de tudo, é preciso admittir que, _nos mesmos limites em que
a educação póde ser operante_, a religião é um seu auxiliar, porque
ella póde desenvolver bons principios e reforçar caracteres fracos. Um
governo esclarecido deveria, pois, fornecer esta força moralisadora,
ou pelo menos não lhe crear obstaculos. Em quanto ao mais, o que póde
fazer não é grande coisa. Em um paiz sceptico todos os seus esforços
seriam inuteis, e no seio de uma nação animada da fé dispensa-se a
sua approvação. Tem-se visto religiões do Estado decairem e morrerem;
o christianismo invadir irresistivelmente o Imperio romano, da mesma
fórma que o budhismo a Asia Oriental. Em nossos tempos um governo só
tem a religião que encontra na nação. Da mesma fórma que no seio d’uma
familia todo o ensino será nullo sobre o coração dos filhos se seus
pais não lhes patenteiam a todos os momentos a sua inteira submissão a
estes mesmos preceitos, o Estado não poderá moralisar nunca senão _pelo
exemplo_, e o melhor exemplo que pode dar é _a justiça_ a mais severa,
a mais imparcial, a mais facil de obter.»[63]
Sobre o mesmo assumpto escreve Tarde:
«Limitemo-nos á estatistica criminal e concluamos mais esta vez ainda
que o mal crescente, indicio aliás de um melhoramento occulto, que
ella expõe aos nossos olhos, não se póde imputar nem á policia, nem
á justiça, nem á civilisação, nem tão pouco á lei penal, mas antes
quem sabe, ao retrocesso dos instinctos caritativos e á exaltação
das paixões revolucionarias. Sem embargo, desconheceremos nós a
acção favoravel, ou não favoravel á criminalidade, de cousas taes
como a instrucção, o trabalho, a riqueza e a indifferença nas crenças
religiosas? Indiquemos em poucas palavras qual a resposta que temos
a dar a estas interrogações. Pelo que respeita á ultima, é fóra de
duvida que o medo do inferno, demos-lhe o seu nome, por mais que tenha
enfraquecido e ainda que venha até a extinguir-se inteiramente, ao
menos nos adultos, assim como o desejo do ceo e o amor de Deus, as
regras e os habitos moraes de nossos paes, bem como de nossa infancia,
para cuja formação contribuiram aquelles sentimentos, nem por isso
subsistem ou subsistirão menos, mas cada dia mais abalados, mais
incapazes de resistir aos embates das tentações. Para que o havemos
de dissimular, o diabo tem talvez contribuido tanto como o carrasco
para _formar o coração_ dos europeus passados e presentes inclusive
os d’aquelles a quem a pena de morte e as superstições mais revoltam.
Christã ou não, a França permanecerá ainda muito tempo christianisada,
do mesmo modo que bonapartista ou não, desde a idade organica do
Consulado, está ella, queira ou não queira bonapartisada e até á
medulla dos ossos. Todavia esta sobrevivencia da moral religiosa aos
dogmas, como a das instituições a seus principios, só tem um tempo?
e onde irão as gerações vindouras beber a sua moralidade quando
estiver esgotada a antiga fonte? N’outros termos, para luctar contra
as tendencias destruidoras, que sentimentos fecundos differentes dos
precedentes nutrirão essas gerações, ou se deverá fortificar n’ellas?
Porque, são sentimentos, e diremos melhor principios, isto é restos de
convicções estaveis, inconscientes, definitivas, e não ideias, isto é
convicções em via de se formarem e prestes a descerem do espirito ao
coração e do coração ao caracter, o que se trata de suscitar aqui.»
Sobre o mesmo assumpto Dupanloup, o egregio prelado faz as seguintes
considerações:[64]
«Todos sabem quanto a _Instrucção_ e a _Disciplina_ devem á Religião, e
bem poucos deixarão de ter experimentado quanto é profunda a influencia
da Religião e da virtude sobre a _Educação intellectual_. O coração
mais puro purifica o espirito, torna-o mais sensivel ás impressões do
bello, mais docil aos ensinamentos do verdadeiro e fal-o saborear com
vivacidade o doce e nobre prazer de escutar a rasão.
Sob os auspicios da Religião, a verdade penetra na intelligencia, não
como uma secca theoria que apenas conquista uma especie de adhesão
passiva, mas como que alguma cousa de vivente, de substancial, que
fecunda o espirito e o eleva e por elle chega á alma para a vevificar
toda inteira.
Pela Religião, sente-se o Espirito fortemente appoiado n’um principio
de fé e não vai chocar-se com todas as incertezas humanas; eleva-se ao
ponto de vista divino, para ver de mais alto e mais longe que viram os
mais sabios.
Eliminai a _Religião_, e a Instrucção não será mais que um vão
pasto offerecido á curiosidade ou ao orgulho, ella não fará amar
profundamente o verdadeiro; os mais elevados pensamentos perdem-se
em ambitos acanhados; a verdade fria e inanimada pára no espirito e
não sabe ir até ao coração. Ella exalta sobremaneira a intelligencia,
como por vezes o tenho visto, e é um dos maiores perigos da Educação
puramente humana, ella exalta a intelligencia em detrimento do caracter
e da consciencia, em certas naturezas avidas de conhecer; ou então a
deixa inerte e esteril em outras, cuja intelligencia só poderia ser
chamada ao movimento e á vida pelo grito da consciencia ou pelas ternas
insinuações da Religião. N’estas naturezas mediocres, a Instrucção
reduzida a si mesma, não é nada, ou, quando muito, apenas é um deposito
confiado á guarda inactiva da memoria, uma serie de conhecimentos,
uma avida nomenclatura, um montão indigestivo de sciencia sem luz, de
factos sem ligação e sem vida.
A _Disciplina_ é a seu turno ennobrecida pela instrucção: deve ser
elevada á dignidade de guarda da intelligencia; mas é sobre tudo pela
_Religião_ que a disciplina se torna uma verdadeira potencia moral na
Educação.
Pela _Religião_, a Disciplina não é sómente o olho do superior e a
garantia da obediencia material; é o olho de Deus e a inspiração de uma
nobre docilidade.
É sob os auspicios da Religião sómente que a disciplina se torna a
protectora dos costumes e a guarda da innocencia; o penhor dos grandes
estudos; a inspiração do bom espirito; a dispensadora e a thesoureira
do tempo; e nervo do regulamento interior e a mola poderosa de toda a
Educação.
Sem Religião, pelo contrario, a Disciplina não é mais que uma policia
de caserna, aviltante para aquelles que a soffrem, mais aviltante ainda
para aquelles que a fazem soffrer.
Por mais severa que seja, nunca poderá chegar ás almas e a isso
desafio. Logo apesar da severidade, nenhuma consciencia, intratavel,
sem freio nas paixões secretas e menos respeito.
Jámais conseguirá esta disciplina toda material, toda exterior, educar
o homem, a não ser que se queira fazer da sociedade uma colonia
militar, para a qual seria a Educação encarregada de formar conscriptos!
Fique-se bem sabendo, nada ha de commum entre o regimen despotico de
alguns collegios e esta nobre Disciplina das almas, que é a verdadeira
_Educação_ da mocidade.
Na Educação, não basta que se obedeça, é necessario que haja gosto na
obediencia. E o que faz amar a obediencia? a Religião, só a Religião.
Oh! sem duvida é muito mais facil de exercer a Disciplina militar,
a Disciplina de mão armada: será sempre mais facil commandar corpos
que almas. Dispõe-se da força, os corpos humilham-se, mas as almas
resistem; ou se se humilham, é porque foram embrutecidas por uma
obediencia servil.
Que notavel differença na Educação christã! Para esta ha mister uma
arte profunda; e é d’esta arte que se disse: _Ars artium, regimen
animarum_.
Ás almas se applicam todos os esforços da direcção christã: a ordem
moral eis o fim a que se pretende chegar. A ordem material tem sua
importancia, não ha duvida, mas estabelece-se naturalmente, por uma
simples consequencia e como um reflexo exterior da ordem moral; em
quanto que n’essas outras escolas, onde se ostentam pomposamente os
rigores de uma inflexivel disciplina, muitas vezes não ha no intimo do
seu organismo, senão desordem e anarchia. Tudo quanto ahi se quer é que
essa anarchia e essa desordem não constem cá fóra. Que, depois d’isso,
as creanças ignorem o que é a virtude e a felicidade, pouco importa!
Que não haja Educação para o coração, para a consciencia, tambem pouco
importa! Ah! eu não conto aqui, senão o que todos sabem e foi com a
auctoridade de mais de um exemplo que se disseram estas palavras
bem verdadeiras; _A mais severa Disciplina pode esconder vicios
medonhos_.[65]
Desgraçados dos paes que n’este ponto, se descuidam, elles chorarão um
dia amargamente! Desgraçado do paiz onde a Educação publica chegou a
este ponto: serão ahi raros os bons cidadãos!
As sagradas Escripturas disseram uma bella e profunda verdade quando
definiram a _Disciplina--a guarda das leis, Disciplina, costodia legum_.
É com effeito o que deve ser e o que nós temos visto. Mas como póde
a disciplina cumprir dignamente esta grande e augusta missão? É
inspirando o respeito e o amor d’essas mesmas leis que são confiadas
á sua guarda. Se ella é toda material, só ensina o respeito da força,
isto é, o medo servil que fana as almas sem lhes tirar a tendencia para
a revolta; se é religioso e moral, ensinará a respeitar o principio
da auctoridade e a lei que é a expressão das mesmas; submetterá as
almas ao imperio d’essas santas noções sobre as quaes repousa a ordem
social, quer se trate da grande sociedade humana, que é a patria, quer
se trate d’essa outra sociedade mais circumscripta e mais humilde, mas
depositaria dos destinos da primeira, do collegio: ahi onde se faz
a aprendizagem das virtudes ou dos vicios, pelos quaes serão um dia
rebustecida ou perturbada, a paz e a prosperidade publicas.
Perdoem ter-me deixado arrastar pela importancia d’esta questão.
Limitar-me-hei, pois, a repetil-o: é necessario na Educação que a
Disciplina não seja observada á força, mas respeitada e amada de
coração. De outro modo, as almas soffrem e a Educação não passa de uma
obra de violencia, algumas vezes cheia de horror.
Mas, se nada póde egualar a influencia da Religião sobre a disciplina,
ao mesmo tempo que sobre os estudos e o desenvolvimento natural do
espirito; sobre o caracter e os defeitos da creança, e sobre os
destinos da sua vida inteira, a _Religião_, do seu lado, reclama o
concurso dos dois outros grandes meios d’Educação.
Sem a _Instrucção_ e sem a _Disciplina_, não formaria a Religião homens
dignos d’ella.
A Religião quer ser esclarecida: gosta dos caracteres firmes e rectos:
espiritos imbecis ou caracteres abatidos e indolentes sómente seriam
bons para a deshonrar.
Em vão experimentaria formar-lhes coração e intelligencia.
A Disciplina que, como se deixa perceber, é, sem a Religião, o quer
que seja de material e triste, é a seu turno para a Religião um
indispensavel auxilio.
Pelo silencio e pela paz mantem a concentração; prepara o caminho ás
lições da sabedoria christã ou ás impressões da graça.
Conter ou reprimir os desmandos da vontade arrastada para longe do
dever pelas paixões ou pela inexperiencia da idade; submetter sem
humilhar, mandar sem aviltar, elevar abatendo, fortalecer e fazer
avançar detendo impedir que as faculdades se não desvairam e se
não enfraqueçam dissipando-se: proteger ao mesmo tempo a piedade,
os estudos e os costumes; tal é a obra, _tal é o dever da educação
disciplinar_.
Como poderia a _Religião_ dispensar o auxilio da Disciplina?
A _Instrucção_, da sua parte, offerece á _Religião_ o seu poderoso
concurso.
Abrir e desenvolver a intelligencia da creança, despertar-lhe
o pensamento, fazer nascer n’ella ideias sãs, formar-lhe e
desenvolver-lhe a penetração, o bom senso, a applicação do espirito;
enriquecer-lhe a memoria, formar-lhe a razão e a palavra, fecundar-lhe
a imaginação, polir-lhe o gosto, exercitar-lhe o juizo; _é o dever da
Educação intellectual e a gloria da Instrucção_.
Quem poderá desconhecer todo o bem que a _Religião_ póde d’ella esperar?
Espiritos assim preparados, engrandecidos, elevados, fortalecidos,
comprehenderão melhor as altas verdades christãs.
O joven que cultivou convenientemente o seu espirito terá um coração
mais delicado, uma alma mais generosa, ao mesmo tempo que uma razão
mais elevada.
Nos estudos classicos encontrou elle o bello e o verdadeiro sob suas
fórmas litterarias; quando com a Religião elles lhe apparecem no seu
mais alto esplendor, com que enthusiasmo os não acolhe?
Vê-se por tanto, como a _Disciplina_ e a Instrucção não podem passar
sem a _Religião_, a Religião não póde passar sem ambas para attingir o
grande fim da Educação.
Emfim conservar a força da creança, velar pela sua vida, auxiliar sua
constituição physica em se fortificar, desenvolvendo-se, proceder de
fórma que seus membros sejam sempre flexiveis e vigorosos, que um
sangue generoso e puro lhe circule nas veias, que esta chamma celeste,
que brilha em seus olhares, não amorteça nem se extinga mais: que este
amavel colorido, este encanto inexprimivel que embelleza a fronte da
infancia virtuosa, este não sei que de feliz que vem dos dons do ceo,
não desappareça sob tristes nuvens; é o dever da _Educação physica_;
e este dever não se cumpre senão pelos cuidados mais attentos, mais
delicados, mais respeitosos. Mas não vemos nós, sem necessidade de que
nol-o demonstrem, que influencia têem estes cuidados preciosos, n’uma
casa d’Educação, sobre a disciplina, sobre o bom ou mau exito dos
estudos, sobre a mesma piedade?
E não se comprehende ao mesmo tempo o que a Instrucção e o trabalho,
o que a Ordem e a Disciplina, e sobre tudo o que a Religião, podem
em troca, para a conservação da saude e das forças, conservando os
costumes? Já o têem dito, a Religião é o aroma que não deixa corromper
a sciencia. Nós tambem o dissemos: a verdade é o balsamo divino que
conserva a vida e a frescura da creança. E é só a disciplina moral e
religiosa que guarda a virtude.
Acabarei tudo isto por algumas explicações que não deixam de ter
interesse e dar luz: assim, por exemplo, é a _Educação physica_,
hygienica que conserva por todas as partes, n’uma casa de Educação,
com um cuidado e uma vigilancia infatigaveis, o _aceio_, que todos os
mestres da moral e da virtude christã, com razão e d’um sentido muito
verdadeiro têem chamado uma virtude: e é o _aceio_ que contribue para
dar e para conservar um certo vigor corporal, uma certa dignidade
exterior que mantém a dignidade e o vigor da alma.
E no entanto a Religião impede que o aceio degenere em _fatuidade_ em
mollesa e que cessa a virtude onde começa o excesso.
É ainda a _Educação physica_ que dá uma justa medida de repouso á
_Educação intellectual_, concede ao espirito o descanço conveniente,
faz succeder ás horas do estudo as horas do recreio; mas, do lado, a
prudente e firme _Disciplina_ não permitte que se dêem de mais; não tem
nada de austero nem de affectado; mas prepara o prazer pelo trabalho
e desenfada do trabalho pelo prazer e, sob sua prudente direcção, as
folgas e os brinquedos convenientemente se entremeia com as occupações
graves e sérias.
Finalmente a _administração economica_ de uma casa procura para todos,
mestres e discipulos, uma certa independencia intellectual, uma nobre
segurança, um feliz esquecimento dos cuidados materiaes da vida, cuja
isempção é favoravel ao recolhimento da piedade e das lettras.
É com este fim que ella escolhe um bello local; uma casa vasta, bem
accommodada ás necessidades da Disciplina; sallas espaçosas, grandes
dormitorios, aulas bem arejadas, uma bella capella, magnificos jardins.
É tambem ella que admitte professores convenientes não só pela saude,
como pela decencia e dignidade litteraria; que dispõe tudo como é
necessario á idade dos alumnos, a essa idade tão tenra, tão viva, tão
ardente e tão admiravelmente applicada, que sabe ser silenciosa e
immovel, doze horas em cada dia, durante dez annos!
E entretanto a _Religião_, que é o bom senso superior de todas as
cousas, requer que esta casa esteja sem luxo, que seja de uma nobre
simplicidade, magnifica somente pela elevação, pela boa ordem e pelo
espaço conveniente ao grande numero dos seus jovens habitantes.
Quer ver banidos os moveis faustuosos, as ninharias deslumbrantes, os
ornamentos superfluos e tudo que respire vaidade e molleza, reserva
para o sanctuario os vasos de ouro e de prata, os estofos ornados de
enfeites, as pedras preciosas, os perfumes exquisitos.
Não multiplicarei mais estes pormenores; os indicados bastam para o
meu designio, eram-lhe necessarios. Nada importava tanto como lançar
assim algumas luzes sobre a influencia, que cada um dos grandes meios
d’Educação exerce sobre a Educação inteira e tambem revelar a estreita
união que as deve fazer concorrer para o mesmo fim, se quizermos que
este fim seja completo e efficazmente attingido, se quizermos que a
educação seja uma realidade.
Ora, pois que é tempo de concluir, inspirar a tenras almas o gosto de
uma vida seria e applicada, que ha-de produzir um dia a gravidade dos
costumes e a fidelidade aos deveres;
Excitar ao amor do trabalho, o gosto intelligente das lettras, das
sciencias, das artes, da industria, da agricultura e do commercio,
segundo as differentes especialidades da Educação, e o ardor por todos
os conhecimentos bellos, pelos nobres progressos, que desde tantos
seculos se tornaram o apanagio da nossa patria;
Sob os auspicios da Religião, submetter, regularisar, dirigir as
paixões no tempo conveniente, de modo que se deixem senhorear e que,
longe de serem um obstaculo ao bem, sejam o instrumento util das
grandes cousas;
Formar para este saber-viver, que consiste em se constranger uma pessoa
a si mesma, sem constranger os outros e que deslumbra menos pela bellas
maneiras, que encanta pela simplicidade e impõe pelo respeito;
Em uma palavra sob a Direcção de uma disciplina igualmente suave e
firme, pelo ascendente de uma auctoridade sempre querida e respeitada
constituir e manter solidos e brilhantes estudos litterarios, ou
industriaes, agriculas e commerciaes, ao mesmo tempo que costumes
puros, uma docilidade generosa, uma fé esclarecida e uma piedade
profunda;
Estabelecer, emfim, por isso mesmo, entre mestres e discipulos esses
doces e poderosos laços que nunca se quebram, essas lembranças de
dedicação e de reconhecimento, d’affeição e de respeito, que são a
mais suave recompensa dos professores, como se tornam, no coração
dos discipulos, uma d’essas felizes e inolvidaveis impressões que
sobrevivem a tudo;
Formar assim por meio simples e poderosos, esses jovens espiritos para
a intelligencia do verdadeiro, que é a luz mesma de Deus; esses jovens
corações ao amor do bem, que é o esplendor da verdade, e a sua vida
inteira á pratica do bem; fazer-lhes sentir por isso nas impressões e
nas recordações da sua Educação, a felecidade, a verdade e a virtude, e
ao mesmo tempo a mais alta dignidade de sua natureza.
Repito-o, tal é a grande obra, tal é o fim essencial da Educação; tal é
a alta e santa missão dos professores da mocidade.
Eis a _Educação geral essencial_ a quem tem direito todo o homem que
vem a este mundo.
É a Educação humana por excellencia! Mas proclamo-o de novo, e agora
se comprehenderá melhor que nunca: é isto essencialmente, e superior a
tudo, uma obra de religioso respeito.