Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo
d'uma duvida!
A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da
esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas
instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado
enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e
triste.
Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos
oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo,
sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de
terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um
cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no
espirito, embora oppostamente.
O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas
delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande
ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas
tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a
ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma
realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro
do seu ninho.
Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que
seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a
vimos.
Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e
satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que
ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto,
os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava
o seu coração, tão viçoso e tão sedento!
Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico
encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada
felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do
sul!
No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae
mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous,
d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o
juizo recto da sua impolluta consciencia.
Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham,
separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se,
embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa
provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a
ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.
Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse
ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada
senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava
e dominava!
O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo
nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato
vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só
porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar,
era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão
tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte,
sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de
antipathia e de raças.
Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das
oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros,
mas o mulato não se fez esperar.
O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda
do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na
varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.
Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no
rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado
d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento
das ondas interiores.
No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!
Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da
escadaria.
Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.
--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.
--O branco veio, senhora moça,
--E aonde está?
--Na sala grande que deita para o jardim.
--E vem contente?
--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.
--Vieste com elle?
--Vim, minha filha.
--E Americo?
--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o
negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.
--Ao mulato? perguntou assustada.
--Sim.
--Mataste-o?
--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...
--Eu quero-te prudente, cabinda!
--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!
--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.
--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho
da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe.
A minha filha comprehende?
--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o
diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.
--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de
contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até
ha-de dançar o batuque!
--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com
o jubilo do bom escravo.
Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do
palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz
permanecia só, esperando pelo capitalista.
Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos
ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli,
olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem
trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.
O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens
diversas e faceis de explicação.
Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a
sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião,
qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da
felicidade por que suspirava com tanta loucura.
Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz
intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel,
indigno e injustificavel.
Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os
reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse
fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo
menos indispor de todo Luiz e Magdalena.
Estava uma tarde explendida.
Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso,
projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da
sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos
jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.
Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr
em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos
beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora
subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de
tamanhos variados e côres vivas e formosas.
Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores
as juritys mimosas.
Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos
na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido
quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores.
Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se
desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e
contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.
Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala
espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior
da casa.
Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao
personagem que entrava.
Era Jorge de Macedo.
Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada
com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se
cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz
e d'Americo.
Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa
cortezia.
Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não
estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram
no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga
melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal
traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que
rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.
Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra
a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que
mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido,
para nunca mais apparecer.
Teve tentações de fazel-o.
Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava
a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!
Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia
ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle
adorava muitissimo.
E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o
de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem
desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para
os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e
sentidas lagrimas.
E Magdalena?
E o cabinda?
O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir
da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice
d'este?
Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente
collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala
grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era
possivel escutarem o que se passava.
Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do
capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras,
collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem.
Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda.
Houve um momento de silencio.
Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para
começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração
para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os
escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.
Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares,
tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles
personagens!