Já se não vende Santa-Pia, não por falta de compradores, ao contrario;
em cinco dias apareceram logo dous, que conhecem a fazenda, e só o
primeiro recusou o preço. Não se vende; é o que me disseram hoje de
manhã. Conclui que o cazal Tristão iria lá passar o resto dos seus
dias. Podia ser, mas é ainda mais inesperado.
O que ouvi depois é que Tristão, sabendo da resolução da viuva,
formulou um plano e foi communicar-lh'o. Não o fez nos proprios termos
claros e diretos, mas por insinuação. Uma vez que os libertos conservam
a enxada por amor da sinhá-moça, que impedia que ella pegasse da
fazenda e a désse aos seus cativos antigos? Elles que a trabalhem para
si. Não foi bem assim que lhe falou; poz-lhe uma nota voluntariamente
seca, em maneira que lhe apagasse a côr generosa da lembrança. Assim
o interpretou a propria Fidelia, que o referiu a D. Carmo, que m'o
contou, acrescentando:
--Tristão é capaz da intenção e do disfarce, mas eu tambem acho
possivel que o principal motivo fosse arredar qualquer suspeita de
interesse no cazamento. Seja o que for, parece que assim se fará.
--E andam criticos a contender sobre romantismos e naturalismos!
Parece que D. Carmo não me achou graça á exclamação, e eu mesmo não
lhe acho graça nem sentido. Aplaudi a mudança do plano, e aliás o novo
me parece bem. Se elles não têm de ir viver na roça, e não precisam do
valor da fazenda, melhor é dal-a aos libertos. Poderão estes fazer a
obra comum e corresponder á boa vontade da sinhá-moça? É outra questão,
mas não se me dá de a ver ou não resolvida; ha muita outra cousa neste
mundo mais interessante.
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