--Sabe o que D. Fidelia me escreveu agora? perguntou-me Aguiar. Que o
Banco tome a si vender Santa-Pia.
--Creio que já ouvi falar nisso...
--Sim, ha tempos, mas era ideia que podia passar; vejo agora que não
passou.
--Os libertos têm continuado no trabalho?
--Têm, mas dizem que é por ella.
Não me lembra se fiz alguma reflexão ácerca da liberdade e da
escravidão, mas é possivel, não me interessando em nada que
Santa-Pia seja ou não vendida. O que me interessa particularmente é
a fazendeira,-esta fazendeira da cidade, que vae cazar na cidade. Já
se fala no cazamento com alguma insistencia, bastante admiração, e
provavelmente inveja. Não falta quem pergunte pelo Noronha. Onde está o
Noronha? Mas que fim levou o Noronha?
Não são muitos que perguntam, mas as mulheres são mais numerosas,-ou
porque as afligiam as lagrimas de Fidelia,-ou porque achem Tristão
interessante,-ou porque não neguem belleza á viuva. Tambem pode ser
que as tres razões concorram juntas para tanta curiosidade; mas,
emfim, a pergunta faz-se, e a resposta é um gesto parecido com esta
ou outra resposta equivalente:-Ah! minha amiga (ou meu amigo), se eu
fosse a indagar onde param os mortos, andaria o infinito e acabaria a
eternidade.
É engenhoso, mas não é bom, principalmente não é certo. Os mortos param
no cemiterio, e lá vae ter a afeição dos vivos, com as suas flores e
recordações. Tal sucederá á propria Fidelia, quando para lá fôr; tal
sucede ao Noronha, que lá está. A questão é que virtualmente não se
quebre este laço, e que a lei da vida não destrua o que foi da vida
e da morte. Creio nas afeições de Fidelia; chego a crer que as duas
formam uma só, continuada.
Quando eu era do corpo diplomatico efetivo não acreditava em tanta
cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me apozentei foi
justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos
desconfiem!
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