Miranda morreu hontem ás dez horas; enterra-se hoje ás quatro. Creio
que deixa a familia bem. Davamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se
fosse a somar os amigos que tenho perdido por esse mundo, chegaria a
algumas duzias delles. Os jornaes dizem que não ha convites para o
enterro; irei ao enterro sem convite.
* * * * *
Dez horas da noite.
Lá fui a enterrar o Miranda. Não valeria a pena contal-o, se não fosse
o que me sucedeu no fim. Muita gente, as tristezas do costume. A
propria Cesaria parecia abatida; não digo se chorava ou não. Aguiar e
Campos tambem compareceram, e outros conhecidos.
No cemiterio, deitada a ultima pá de terra na cova, lembrou-me ir ao
jazigo dos meus. Desviei-me e fui; achei-o lavado como de costume,
e depois de alguns minutos, vendo que a gente não acabava de sair,
caminhei para o tumulo do Noronha, marido de Fidelia. Sabia onde
ficava, mas ainda lá não fora.
Agora que a viuva está prestes a enterral-o de novo, pareceu-me
interessante miral-o tambem, se é que não levara tal ou qual sabor em
atribuir ao defunto o verso de Shelley que já puzera na minha boca, a
respeito da mesma bella dama: _I can, etc._ Tumulo grave e bonito, bem
conservado, com dous vasos de flores naturaes, não ali plantadas, mas
colhidas e trazidas naquella mesma manhã. Esta circumstancia fez-me
crer que as flores seriam da propria Fidelia, e um coveiro que vinha
chegando respondeu á minha pergunta: «São de uma senhora que ahi as
traz de vez em quando...»
A pergunta foi feita tão naturalmente que o coveiro não teve duvida em
responder, nem eu em contal-o aqui. Tambem não quero calar o que vim
pensando commigo. Já não havia ninguem dos que acompanharam o enterro
do Miranda. Chegava outro, e entre um e outro meti-me no carro e vim
para casa. Em caminho pensei que a viuva Noronha, se efetivamente ainda
leva flores ao tumulo do marido, é que lhe ficou este costume, se lhe
não ficou essa afeição. Escolha quem quizer; eu estudei a questão por
ambos os lados, e quando ía a achar terceira solução chegara á porta
da casa. Desci, dei ao cocheiro a molhadura de uso, e enfiei pelo
corredor. Vinha cançado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar.
Ao fim da noite se puder, direi a terceira solução: se não, amanhã.
A terceira solução é a que lá fica atraz, não me lembra o dia... ah!
foi no segundo anniversario do meu regresso ao Rio de Janeiro, quando
eu imaginei poder encontral-a deante da pessoa extinta, como se fosse
a pessoa futura, fazendo de ambas uma só creatura presente. Não me
explico melhor, porque me entendo assim mesmo, ainda que pouco. D.
Cesaria, se vier a sabel-o é capaz de ir dizel-o ao proprio Tristão,
com uma gota amarga ou corrupta, ou ambas as cousas para variar... Já
já, não; está ainda com a morte do cunhado na garganta, mas tudo passa,
até os cunhados.
* * * * *
Sem data.
Já lá vão dias que não escrevo nada. A principio foi um pouco de
reumatismo no dedo, depois visitas, falta de materia, emfim preguiça.
Sacudo a preguiça.
A noite passada estive em casa da viuva Noronha, quasi que a sós com
ella; havia a mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha.
Tristão fôra a Petropolis, levado pelos padrinhos até á barca da
Prainha, e por mim que os vi passar na rua da Quitanda, e subi ao carro
convidado por elles. Não lhes ouvi então o motivo da ida a Petropolis,
mas já o sabia de vespera; foi examinar uma caza para o noivado.
Conclui, não sei porque, que elles ficavam morando aqui.
Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ella. Tendo ouvido
ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo,-que sou
eu-imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não
fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.
Eu, relativamente a Fidelia, já cheguei á liberdade de lhe perguntar
se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada,
um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto
mais frequente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso delle
e francamente é muito, ao que ella retrucava sem vaidade, antes com
modestia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que
elle recebera cartas da familia, confirmando por extenso o que já lhe
mandára em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases
da futura sogra, e foi buscar a carta della para que eu a lesse tambem.
--Cartas politicas não vieram?
--Parece que vieram.
Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna,
ainda que derramada, mas ternura de mão não conhece sobriedade de
estilo. Era escrita á propria Fidelia.
Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi musica; ella é que foi
de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão
não ouviu em Petropolis não foi por falta de expressão da pianista. A
eternidade é mais longe, e ella já lá mandou outros pedaços da alma;
vantagem grande da musica, que fala a mortos e a ausentes.
* * * * *
Sabado.
Fidelia parece retrair-se agora depois das primeiras confidencias
que me fez, e é natural. Como eu lhe pedisse noticias de Tristão,
respondeu-me que não as tinha, e falou de outra cousa; mas falando-lhe
eu da alegria recente de D. Carmo, referiu-me as tristezas que lhe
ouviu uma vez a proposito da volta do afilhado, e do conselho que então
lhe deu de ir com elle; ao que a boa senhora retrucou que seria preciso
separar-se do marido e não podia.
--Veja o perigo de dividir a alma com duas pessoas; eu, em moço, nunca
o fiz, menos o faria agora depois de velho.
Sobre isto (que não tinha sentido claro nem intenção) dissemos cousas
que não importa escrever aqui. Ella falou com graça, e provavelmente
com verdade, mas não tratámos do assunto principal do coração da moça.
Eu deleitava-me em aprecial-a por dentro e por fora, não a achando
menos curiosa interna que externamente. Sem perder a discrição que lhe
vae tão bem, Fidelia abre a alma sem biocos, cheia de confiança que lhe
agradeço daqui.
* * * * *