26 de Fevereiro.

Miranda morreu hontem ás dez horas; enterra-se hoje ás quatro. Creio

que deixa a familia bem. Davamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se

fosse a somar os amigos que tenho perdido por esse mundo, chegaria a

algumas duzias delles. Os jornaes dizem que não ha convites para o

enterro; irei ao enterro sem convite.

* * * * *

Dez horas da noite.

Lá fui a enterrar o Miranda. Não valeria a pena contal-o, se não fosse

o que me sucedeu no fim. Muita gente, as tristezas do costume. A

propria Cesaria parecia abatida; não digo se chorava ou não. Aguiar e

Campos tambem compareceram, e outros conhecidos.

No cemiterio, deitada a ultima pá de terra na cova, lembrou-me ir ao

jazigo dos meus. Desviei-me e fui; achei-o lavado como de costume,

e depois de alguns minutos, vendo que a gente não acabava de sair,

caminhei para o tumulo do Noronha, marido de Fidelia. Sabia onde

ficava, mas ainda lá não fora.

Agora que a viuva está prestes a enterral-o de novo, pareceu-me

interessante miral-o tambem, se é que não levara tal ou qual sabor em

atribuir ao defunto o verso de Shelley que já puzera na minha boca, a

respeito da mesma bella dama: _I can, etc._ Tumulo grave e bonito, bem

conservado, com dous vasos de flores naturaes, não ali plantadas, mas

colhidas e trazidas naquella mesma manhã. Esta circumstancia fez-me

crer que as flores seriam da propria Fidelia, e um coveiro que vinha

chegando respondeu á minha pergunta: «São de uma senhora que ahi as

traz de vez em quando...»

A pergunta foi feita tão naturalmente que o coveiro não teve duvida em

responder, nem eu em contal-o aqui. Tambem não quero calar o que vim

pensando commigo. Já não havia ninguem dos que acompanharam o enterro

do Miranda. Chegava outro, e entre um e outro meti-me no carro e vim

para casa. Em caminho pensei que a viuva Noronha, se efetivamente ainda

leva flores ao tumulo do marido, é que lhe ficou este costume, se lhe

não ficou essa afeição. Escolha quem quizer; eu estudei a questão por

ambos os lados, e quando ía a achar terceira solução chegara á porta

da casa. Desci, dei ao cocheiro a molhadura de uso, e enfiei pelo

corredor. Vinha cançado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar.

Ao fim da noite se puder, direi a terceira solução: se não, amanhã.

A terceira solução é a que lá fica atraz, não me lembra o dia... ah!

foi no segundo anniversario do meu regresso ao Rio de Janeiro, quando

eu imaginei poder encontral-a deante da pessoa extinta, como se fosse

a pessoa futura, fazendo de ambas uma só creatura presente. Não me

explico melhor, porque me entendo assim mesmo, ainda que pouco. D.

Cesaria, se vier a sabel-o é capaz de ir dizel-o ao proprio Tristão,

com uma gota amarga ou corrupta, ou ambas as cousas para variar... Já

já, não; está ainda com a morte do cunhado na garganta, mas tudo passa,

até os cunhados.

* * * * *

Sem data.

Já lá vão dias que não escrevo nada. A principio foi um pouco de

reumatismo no dedo, depois visitas, falta de materia, emfim preguiça.

Sacudo a preguiça.

A noite passada estive em casa da viuva Noronha, quasi que a sós com

ella; havia a mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha.

Tristão fôra a Petropolis, levado pelos padrinhos até á barca da

Prainha, e por mim que os vi passar na rua da Quitanda, e subi ao carro

convidado por elles. Não lhes ouvi então o motivo da ida a Petropolis,

mas já o sabia de vespera; foi examinar uma caza para o noivado.

Conclui, não sei porque, que elles ficavam morando aqui.

Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ella. Tendo ouvido

ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo,-que sou

eu-imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não

fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.

Eu, relativamente a Fidelia, já cheguei á liberdade de lhe perguntar

se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada,

um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto

mais frequente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso delle

e francamente é muito, ao que ella retrucava sem vaidade, antes com

modestia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que

elle recebera cartas da familia, confirmando por extenso o que já lhe

mandára em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases

da futura sogra, e foi buscar a carta della para que eu a lesse tambem.

--Cartas politicas não vieram?

--Parece que vieram.

Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna,

ainda que derramada, mas ternura de mão não conhece sobriedade de

estilo. Era escrita á propria Fidelia.

Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi musica; ella é que foi

de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão

não ouviu em Petropolis não foi por falta de expressão da pianista. A

eternidade é mais longe, e ella já lá mandou outros pedaços da alma;

vantagem grande da musica, que fala a mortos e a ausentes.

* * * * *

Sabado.

Fidelia parece retrair-se agora depois das primeiras confidencias

que me fez, e é natural. Como eu lhe pedisse noticias de Tristão,

respondeu-me que não as tinha, e falou de outra cousa; mas falando-lhe

eu da alegria recente de D. Carmo, referiu-me as tristezas que lhe

ouviu uma vez a proposito da volta do afilhado, e do conselho que então

lhe deu de ir com elle; ao que a boa senhora retrucou que seria preciso

separar-se do marido e não podia.

--Veja o perigo de dividir a alma com duas pessoas; eu, em moço, nunca

o fiz, menos o faria agora depois de velho.

Sobre isto (que não tinha sentido claro nem intenção) dissemos cousas

que não importa escrever aqui. Ella falou com graça, e provavelmente

com verdade, mas não tratámos do assunto principal do coração da moça.

Eu deleitava-me em aprecial-a por dentro e por fora, não a achando

menos curiosa interna que externamente. Sem perder a discrição que lhe

vae tão bem, Fidelia abre a alma sem biocos, cheia de confiança que lhe

agradeço daqui.

* * * * *

Memorial de Ayres · 第 149 / 174 题