25 de Fevereiro.

Quando mana Rita veiu trazer-me a noticia oficial do cazamento

mostrei-lhe a minha carta de participação, e fiz um gesto de triunfo,

perguntando-lhe quem tinha razão no cemiterio, ha um anno. Ainda uma

vez concordou que era eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa

aposta é que ella cazaria commigo, e citou a aposta entre Deus e o

Diabo a proposito de Fausto, que eu lhe li aqui em caza no texto de

Goethe.

--Não, trapalhona, você é que me incitou a tental-o, e desculpou a

minha idade, com palavras bonitas, lembra-se?

Lembrava-se, sorrimos, e entrámos a falar dos noivos. Eu disse bem

de ambos, ella não disse mal de nenhum, mas falou sem calor. Talvez

não gostasse de ver cazar a viuva, como se fosse cousa condenavel ou

nova. Não tendo cazado outra vez, pareceu-lhe que ninguem deve passar

a segundas nupcias. Ou então (releve-me a doce mana, se algum dia ler

este papel), ou então padeceu agora taes ou quaes remorsos de não

havel-o feito tambem... Mas, não, seria suspeitar de mais de pessoa tão

excelente.

Ahi fica, mal resumida, a nossa conversação. Não falámos da data do

cazamento, nem da partida do cazal, se partisse. Rita era pouca para

referir anedotas, repetir ditos e boatos, nenhum malevolo nem feio,

todos interessantes, ouvidos á gente Aguiar.

* * * * *

Seis horas da tarde.

Vim agora da rua, onde me confirmaram que o corretor Miranda teve hoje

de manhã uma congestão cerebral. Rita só me falou disso ao sair daqui,

e esqueceu-me escrevel-o. Estavamos no patamar da escada quando ella me

contou que ouvira a noticia, no bonde, a dous desconhecidos.

--Só agora é que você me dá esta novidade? disse-lhe eu. Tem razão; a

vida tem os seus direitos imprescritiveis; primeiro os vivos e os seus

consorcios; os mortos e os seus enterros que esperem.

Tambem eu fiz o mesmo; só agora falo do homem.

* * * * *

Memorial de Ayres · 第 148 / 174 题