11 de Novembro.

Não fui hontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidelia no jardim,

junto da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar e

na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com o seu riso bom

e maternal. Viu-me á porta do jardim, e fez um gesto convidando-me a

entrar; entrei.

--Venha, disse ella, ande ver a minha artista.

Fidelia pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já

livre do pincel, dizendo:

--Não olhe, não olhe que não presta.

Olhei, prestava. Está ainda em começo, e não será obra-prima; a

polidez obrigava-me a achal-a excelente, e disse-lh'o, com um gesto

de admiração; mas, em verdade, presta. O fundo, serra e ceu, faz bom

efeito; a agua creio que terá movimento e boa côr. Faltava Tristão;

não vi nem sombra do «filho pintado pela filha». Posto não extranhasse

a ausencia, lembrou-me insinual-a. Disse-lhe que podia pôr na praia a

figura da boa amiga, que ali estava a acompanhal-a com os seus dous

olhos amigos. Esta ia a dizer alguma cousa, mas Fidelia replicou:

--Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colegio

pintava flores e paizagens, algum pedaço de mar ou de ceu. Se não fosse

isso, tirava o retrato de D. Carmo.

Memorial de Ayres · 第 115 / 174 题