Não fui hontem, fui hoje ver a marinha. Achei Fidelia no jardim,
junto da casa, com o pincel e a palheta nas mãos, os olhos no mar e
na tela, em pé. Ao lado, sentada, estava D. Carmo, com o seu riso bom
e maternal. Viu-me á porta do jardim, e fez um gesto convidando-me a
entrar; entrei.
--Venha, disse ella, ande ver a minha artista.
Fidelia pareceu vexada com estas palavras, e estendeu-me a mão, já
livre do pincel, dizendo:
--Não olhe, não olhe que não presta.
Olhei, prestava. Está ainda em começo, e não será obra-prima; a
polidez obrigava-me a achal-a excelente, e disse-lh'o, com um gesto
de admiração; mas, em verdade, presta. O fundo, serra e ceu, faz bom
efeito; a agua creio que terá movimento e boa côr. Faltava Tristão;
não vi nem sombra do «filho pintado pela filha». Posto não extranhasse
a ausencia, lembrou-me insinual-a. Disse-lhe que podia pôr na praia a
figura da boa amiga, que ali estava a acompanhal-a com os seus dous
olhos amigos. Esta ia a dizer alguma cousa, mas Fidelia replicou:
--Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colegio
pintava flores e paizagens, algum pedaço de mar ou de ceu. Se não fosse
isso, tirava o retrato de D. Carmo.