... encantadora Fidelia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque
é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta creatura de Deus,
encontrando-se commigo de manhã, veiu agradecer-me a companhia que fiz
aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?
--Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.
--Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só
por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor
teve o dom de nos fazer esquecer.
Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz
esquecer, foi por serem elles o proprio assunto da conversação...
--Isso é que ella não me disse, interrompeu Fidelia espantada.
--Nem dirá; nem lh'o pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus
cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que
podem dizer tres velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram
alguma cousa.
--Sei, sei, já tenho visto e ouvido os tres.
--Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva á
conversação.
Era verdade e era comprimento; Fidelia sorriu agradecida e despediu-se.
Eu-aqui o digo ante Deus e o Diabo, se tambem este senhor me vê a
encher o meu caderno de lembranças,-eu deixei-me ir atraz della. Não
era curiosidade, menos ainda outra cousa, era puro gosto estetico.
Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia
crer que o sabia, mas devia sabel-o. Ainda não encontrei encantadora
que o não soubesse. A simples suposição de o ser tenta persuadir que o
é.
No largo de S. Francisco estava um carro della, perto da egreja. Iamos
da rua do Ouvidor, a dez passos de distancia ou pouco mais. Parei na
esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que
partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo.
Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o
carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Elle vinha
agora para a rua do Ouvidor, e tambem me viu; detive-me á espera.
Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:
--Grande talento!
Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos
espantado; quasi me esqueceu concordar com elle. Concordei de gesto
e de palavra, sem entender nada. Tambem eu gosto de musica, e sinto
não tocar alguma cousa para me aliviar da solidão; entretanto, se
fosse elle, e apezar de todos os Schumanns e seus emulos, ao vel-a
parar no largo de S. Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma
exclamação, antes outra, igualmente estetica, é verdade, mas de uma
estetica visual, não auditiva. Não entendi logo.
Depois, quando nos separámos na esquina da rua da Quitanda, entrei a
cogitar se elle ao dar commigo, com pôz aquella palavra para o fim de
mostrar que, mais que tudo, admira nella arte musical. Pode ser isto;
ha nelle muita compostura e alguma dissimulação. Não quiz parecer
admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos habeis. Tudo vinha a dar
na mesma pessoa.
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