22 de Setembro.

... encantadora Fidelia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque

é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta creatura de Deus,

encontrando-se commigo de manhã, veiu agradecer-me a companhia que fiz

aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?

--Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.

--Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só

por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor

teve o dom de nos fazer esquecer.

Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz

esquecer, foi por serem elles o proprio assunto da conversação...

--Isso é que ella não me disse, interrompeu Fidelia espantada.

--Nem dirá; nem lh'o pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus

cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que

podem dizer tres velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram

alguma cousa.

--Sei, sei, já tenho visto e ouvido os tres.

--Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva á

conversação.

Era verdade e era comprimento; Fidelia sorriu agradecida e despediu-se.

Eu-aqui o digo ante Deus e o Diabo, se tambem este senhor me vê a

encher o meu caderno de lembranças,-eu deixei-me ir atraz della. Não

era curiosidade, menos ainda outra cousa, era puro gosto estetico.

Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia

crer que o sabia, mas devia sabel-o. Ainda não encontrei encantadora

que o não soubesse. A simples suposição de o ser tenta persuadir que o

é.

No largo de S. Francisco estava um carro della, perto da egreja. Iamos

da rua do Ouvidor, a dez passos de distancia ou pouco mais. Parei na

esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que

partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo.

Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o

carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Elle vinha

agora para a rua do Ouvidor, e tambem me viu; detive-me á espera.

Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:

--Grande talento!

Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos

espantado; quasi me esqueceu concordar com elle. Concordei de gesto

e de palavra, sem entender nada. Tambem eu gosto de musica, e sinto

não tocar alguma cousa para me aliviar da solidão; entretanto, se

fosse elle, e apezar de todos os Schumanns e seus emulos, ao vel-a

parar no largo de S. Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma

exclamação, antes outra, igualmente estetica, é verdade, mas de uma

estetica visual, não auditiva. Não entendi logo.

Depois, quando nos separámos na esquina da rua da Quitanda, entrei a

cogitar se elle ao dar commigo, com pôz aquella palavra para o fim de

mostrar que, mais que tudo, admira nella arte musical. Pode ser isto;

ha nelle muita compostura e alguma dissimulação. Não quiz parecer

admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos habeis. Tudo vinha a dar

na mesma pessoa.

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Memorial de Ayres · 第 98 / 174 题