Como eu ainda gosto de musica! A noite passada, em casa do Aguiar,
eramos algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memoria os
presentes, vejo que eramos treze; ninguem deu então por este numero,
nem na sala, nem á meza do chá de familia. Conversámos de cousas
varias, até que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido
da madrinha.
A execução veiu por que faiamos tambem de musica, assunto em que a
viuva acompanhou o recem-chegado com tal gosto e discrição, que elle
acabou pedindo-lhe que tocasse tambem. Fidelia recusou modestamente,
elle insistiu, D. Carmo reforçou o pedido do afilhado, e assim o
marido; Fidelia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma
reminiscencia de Schumann. Todos gostámos muito. Tristão voltou ainda
uma vez ao piano, e pareceram apreciar os talentos um do outro. Eu
saí encantado de ambos. A musica veiu commigo, não querendo que eu
dormisse. Cheguei cedo a caza, onze horas, e só perto de uma comecei a
conciliar o somno; todo o tempo da rua, da caza e da cama foi consumido
em repetir trechos e trechos que ouvira na minha vida.
A musica foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer
o poetico e acaso o patetico, diria que é hoje uma das saudades. Se
a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me
quiz dar a ella, por causa do oficio diplomatico, e foi um erro. A
diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que
outra cousa; não fiz tratados de comercio nem de limites, não celebrei
alianças de guerra; podia acomodar-me ás melodias de sala ou de
gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros.
Ha dous ou tres mezes ouvi dizer a Fidelia que nunca mais tocaria,
tendo desde muito suspendido o exercicio da musica. Repliquei-lhe então
que um dia, a sós comsigo, tocaria para recordar, e a recordação traria
o exercicio outra vez. Hontem bastaram as instancias da gente Aguiar
para mover uma vontade já disposta, ao que parece. O exemplo de Tristão
ajudou-a a sair do silencio. Repito que saí de lá encantado de ambos.
Quem sabe se a esta hora (dez e meia da manhã) não estará ella em caza,
com espanto da familia e da visinhança, deante do piano aberto, a
começar alguma cousa que não toca ha muito?
--Não é possível!
--Nhanhã Fidelia!
--A viuva Noronha!
--Hade ser alguma amiga.
E as mãos della irão falando, pensando, vivendo aquellas notas que a
memoria humana guarda impressas. Provavelmente tocará como hontem, sem
musica, de cór, na ponta dos dedos...
Seis horas da tarde.
Antes de ir para a meza, escrevo a confirmação de que conjeturei
de manhã; Fidelia efectivamente acordou os ecos da casa e da rua.
Contou-m'o ha pouco o proprio desembargador Campos. A diferença é que
não foi ás dez horas e meia, mas ás sete. Campos estava ainda na cama,
quando ouviu os primeiros acordes de uma composição conhecida, parece
que italiana. Não chegou a crer que fosse ella, mas não podia ser
outra pessoa. Um creado, chamado por elle, veiu dizer-lhe que sim, que
era ella mesma. Tocou algum tempo. Quando elle entrou na sala, tinha
acabado, mas estava ainda ao piano, ante um folheto de musicas aberto,
a soletrar para si.
--Que é isto? perguntou-lhe.
--Ouviu tocar? disse ella fazendo rodar o banco.
--Ouvi.
--Creio que desaprendi alguma cousa; sinto os dedos um pouco tolhidos,
já os senti assim hontem, a composição é que me não esqueceu.
--Mas que resurreição é esta?
--Cousas de defunta, respondeu ella querendo sorrir.
Posto não seja grande apreciador de musica, o desembargador parece
satisfeito daquella resurreição, como lhe chama. Tudo é viver com mais
ou menos barulho, disse elle. Confessou-me que a tristeza da sobrinha
o aflige muita vez, e a não leval-a a bailes ou teatros, contentava-se
de a ver tocar em caza, e até cantar se quizesse; Fidelia tambem sabe
cantar, tem muita arte e linda voz. Mas até agora não queria uma cousa
nem outra.
Não é que não encha a caza comsigo mesma, sem musica; a musica, porém,
era uma das suas ocupações de outrora, e a abstenção datada viuvez.
Quiz ponderar ao desembargador que o exercicio da musica podia
conciliar-se muito bem com o estado, uma vez que a arte é tambem
lingua, mas tudo isso me passou rapido pela cabeça. Era acaso poetico
para um magistrado, sem contar que podia ser indiscreto tambem.
Contentei-me de aceitar o convite que elle me fez de ir ouvil-a, em
casa delle, hoje, amanhã, depois, quando queira.
--Uma destas noites, concordei.
Por emquanto, vou jantar. Creio que não saio mais hoje; mas que heide
fazer com estes pobres olhos? Ler é peoral-os; ah! se eu soubesse
musica! Pegava do violino, trancava bem as portas para não ser ouvido
da visinhança, e deixava-me ir atraz do arco. Talvez saia a passeio...
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