14 de Maio, _meia noite._

Não ha alegria publica que valha uma boa alegria particular. Saí agora

do Flamengo, fazendo esta reflexão, e vim escrevel-a, e mais o que lhe

deu origem.

Era a primeira reunião do Aguiar; havia alguma gente e bastante

animação. Rita não foi; fica-lhe longe e não dá para isto, mandou-me

dizer. A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a

atribui somente ao facto dos amigos juntos, mas tambem ao grande

acontecimento do dia. Assim o disse por esta unica palavra, que me

pareceu expressiva, dita a brazileiros:

--Felicito-os.

--Já sabia? perguntaram ambos.

Não entendi, não achei que responder. Que era que eu podia saber já,

para os felicitar, se não era o facto publico? Chamei o melhor dos meus

sorrisos de acordo e complacencia, elle veiu, espraiou-se, e esperei.

Velho e velha disseram-me então rapidamente, dividindo as frases, que

a carta viera dar-lhes grande prazer. Não sabendo que carta era nem de

que pessoa, limitei-me a concordar:

--Naturalmente.

--Tristão está em Lisboa, concluiu Aguiar, tendo voltado ha pouco da

Italia; está bem, muito bem.

Comprehendi. Eis ahi como, no meio do prazer geral, pode aparecer

um particular, e dominal-o. Não me enfadei com isso; ao contrario,

achei-lhes razão, e gostei de os ver sinceros. Por fim, estimei que

a carta do filho postiço viesse após annos de silencio pagar-lhes

a tristeza que cá deixou. Era devida a carta; como a liberdade dos

escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente os felicitei, com ar

de quem sabia tudo.

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Memorial de Ayres · 第 39 / 174 题