Emfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da
abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação
final do senado e da sanção da Regente. Estava na rua do Ouvidor, onde
a agitação era grande e a alegria geral.
Um conhecido meu, homem de imprensa, achando-me a li offereceu-me
logar no seu carro, que estava na rua Nova, e ia enfileirar no cortejo
organisado para rodear o paço da cidade, e fazer ovação á Regente.
Estive quasi, quasi a aceitar, tal era o meu atordoamento, mas os meus
habitos quietos, os costumes diplomaticos, a propria indole e a idade
me retiveram melhor que as redeas do cocheiro aos cavalos do carro, e
recusei. Recusei com pena. Deixei-os ir, a elle e aos outros, que se
ajuntaram e partiram da rua Primeiro de Março. Disseram-me depois que
os manifestantes erguiam-se nos carros, que iam abertos, e faziam
grandes aclamações, em frente ao paço, onde estavam tambem todos os
ministros. Se eu lá fosse, provavelmente faria o mesmo e ainda agora
não me teria entendido... Não, não faria nada; meteria a cara entre os
joelhos.
Ainda bem que acabámos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas
as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os actos
particulares, escrituras e inventarios, nem apagar a instituição da
historia, ou até da poesia. A poesia falará della, particularmente
naquelles versos de Heine, em que o nosso nome está perpetuo. Nelles
conta o capitão do navio negreiro haver deixado trezentos negros no Rio
de Janeiro, onde «a casa Gonçalves Pereira» lhe pagou cem ducados por
peça. Não importa que o poeta corrompa o nome do comprador e lhe chame
Gonzales Perreiro; foi a rima ou a sua má pronuncia que o levou a isso.
Tambem não temos ducados, mas ahi foi o vendedor que trocou na sua
lingua o dinheiro do comprador.
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