Grande novidade! O motivo da vinda do barão é consultar o desembargador
sobre a alforria coletiva e immediata dos escravos de Santa-Pia. Acabo
de sabel-o, e mais isto, que a principal razão da consulta é apenas
a redação do acto. Não parecendo ao irmão que este seja acertado,
perguntou-lhe o que é que o impelia a isso, uma vez que condenava
a ideia atribuida ao governo de decretar a abolição, e obteve esta
resposta, não sei se subtil, se profunda, se ambas as cousas ou nada:
--Quero deixar provado que julgo o acto do governo uma expoliação, por
intervir no exercicio de um direito que só pertence ao proprietario, e
do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso.
Será a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar esse acto,
anterior de algumas semanas ou mezes ao outro? A alguem que lhe fez tal
pergunta respondeu Campos que não. «Não, disse elle, meu irmão crê na
tentativa do governo, mas não no resultado, a não ser o desmantelo que
vae lançar ás fazendas. O acto que elle resolveu fazer exprime apenas
a sinceridade das suas convicções e o seu genio violento. Elle é capaz
de propor a todos os senhores a alforria dos escravos já, e no dia
seguinte propor a queda do governo que tentar fazel-o por lei.»
Campos teve uma ideia. Lembrou ao irmão que, com a alforria immediata,
elle prejudica a filha, herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho. Não
era a ideia de negar o direito eventual da filha aos escravos; podia
ser o desgosto de ver que, ainda em tal situação, e com todo o poder
que tinha de dispor dos seus bens, vinha Fidelia perturbar-lhe a ação.
Depois de alguns instantes respirou largo, e respondeu que, antes
de morto, o que era seu era somente seu. Não podendo dissuadil-o, o
desembargador cedeu ao pedido do irmão, e redigiram ambos a carta de
alforria.
Retendo o papel, Santa-Pia disse:
--Estou certo que poucos delles deixarão a fazenda; a maior parte
ficará commigo, ganhando o salario que lhes vou marcar, e alguns até
sem nada,-pelo gosto de morrer onde nasceram.
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