Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta penna vadia.
Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que
eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem
depois da missa do setimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro,
podem cuidar que te confio cuidados de amor.
Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha
meza, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre
a rua e o ceu, e alli ou acolá acharás descanço. Commigo, o mais que
podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que
elle chegue, virá a troça dos malevolos ou simplesmente vadios.
Escuta, papel. O que naquella dama Fidelia me attrae é principalmente
certa feição de espirito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já
lhe vi algumas vezes. Quero estudal-a se tiver ocasião. Tempo sobra-me,
mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José,
e para ti, se tenho vagar e quê,-e pouco mais.
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