Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petropolis ácerca do
cazal Aguiar. Não ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e até
excluo os adjectivos que tinham mais interesse na boca delle do que
lhes poderia dar a minha penna; vão só os precisos á comprehensão de
cousas e pessoas.
A razão que me leva a escrever isto é a que entende com a situação
moral dos dous, e prende um tanto com a viuva Fidelia. Quanto á vida
delles eil-a aqui em termos secos, curtos e apenas biograficos.
Aguiar cazou guarda-livros. D. Carmo vivia então com a mãe, que era
de Nova-Friburgo, e o pae, um relojoeiro suisso daquella cidade.
Cazamento a grado de todos. Aguiar continuou guarda-livros, e passou de
uma caza a outra e mais outra, fez-se socio da ultima, até ser gerente
de banco, e chegaram á velhice sem filhos. É só isto, nada mais que
isto. Viveram até hoje sem bulha nem matinada.
Queriam-se, sempre se quizeram muito, apezar dos ciumes que tinham um
do outro, ou por isso mesmo. Desde namorada, ella exerceu sobre elle a
influencia de todas as namoradas deste mundo, e acaso do outro, se as
ha tão longe. Aguiar contára uma vez ao desembargador os tempos amargos
em que, ajustado o cazamento, perdeu o emprego por falencia do patrão.
Teve de procurar outro; a demora não foi grande, mas o novo logar
não lhe permitiu cazar logo, era-lhe preciso assentar a mão, ganhar
confiança, dar tempo ao tempo. Ora, a alma delle era de pedras soltas;
a fortaleza da noiva foi o cimento e a cal que as uniram naquelles dias
de crise. Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que elle me disse ser
do proprio Aguiar. Cal e cimento valeram-lhe logo em todos os casos de
pedras desconjuntadas. Elle via as cousas pelos seus proprios olhos,
mas se estes eram ruins ou doentes, quem lhe dava remedio ao mal fisico
ou moral era ella.
A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de cazados. Aguiar dava-se
a trabalhos diversos para acudir com suprimentos á escassez dos
vencimentos. D. Carmo guiava o serviço domestico ajudando o pessoal
deste e dando aos arranjos da casa o conforto que não poderia vir por
dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas tão ordenadas as
cousas, tão completadas pelo trabalho das mãos da dona que captavam os
olhos ao marido e ás visitas. Todas ellas traziam uma alma, e esta era
nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo
o gracioso ao precizo. Tapetes de meza e de pés, cortinas de janelas
e outros mais trabalhos que vieram com os annos, tudo trazia a marca
da sua fabrica, a nota intima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse
preciso, a pobreza elegante.
Criaram relações variadas, modestas como elles e de boa camaradagem.
Neste capitulo a parte de D. Carmo é maior que a de Aguiar. Já em
menina era o que foi depois. Havendo estudado em um colegio do
Engenho Velho, a moça acabou sendo considerada a primeira alumna do
estabelecimento, não só sem desgosto, tacito ou expresso, de nenhuma
companheira, mas com prazer manifesto e grande de todas, recentes ou
antigas. A cada uma pareceu que se tratava de si mesma. Era então
algum prodigio de talento? Não, não era; tinha a inteligencia fina,
superior ao comum das outras, mas não tal que as reduzisse a nada. Tudo
provinha da indole afetuosa daquella creatura.
Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar. Uma cousa me disse Campos
que eu havia observado de relance naquella noite das bodas de prata,
é que D. Carmo agrada igualmente a velhas e a moças. Ha velhas que
não sabem fazer-se entender de moças, assim como ha moças fechadas ás
velhas. A senhora de Aguiar penetra e se deixa penetrar de todas; assim
foi joven, assim é madura.
Campos não os acompanhou sempre, nem desde os primeiros tempos; mas
quando entrou a frequental-os, viu nella o desenvolvimento da noiva e
da recem-casada, e comprehendeu a adoração do marido. Este era feliz,
e para socegar das inquietações e tedios de fóra, não achava melhor
respiro que a conversação da espoza, nem mais doce lição que a de seus
olhos. Era della a arte fina que podia restituil-o ao equilibrio e á
paz.
Um dia, em casa delles, abrindo urna coleção de versos italianos,
Campos achou entre as folhas um papelinho velho com algumas estrofes
escritas. Soube que eram do livro, copiadas por ella nos dias de
noiva, segundo ambos lhe disseram, vexados; restituiu o papel á
pagina, e o volume á estante. Um e outro gostavam de versos, e talvez
ella tivesse feito alguns, que deitou fóra com os últimos solecismos
de familia. Ao que parece, traziam ambos em si um germen de poesia
instintiva, a que faltára expressão adequada para sair ca fóra.
A ultima reflexão é minha, não do desembargador Campos, e leva o
unico fim de completar o retrato deste casal. Não é que a poesia
seja necessaria aos costumes, mas pode dar-lhes graça. O que eu fiz
então foi perguntar ao desembargador se taes creaturas tiveram algum
resentimento da vida. Respondeu-me que um, um só e grande; não tiveram
filhos.
--Mana Rita disse-me isso mesmo.
--Não tiveram filhos, repetiu Campos.
Ambos queriam um filho, um só que fosse, ella ainda mais que elle. D.
Carmo possuia todas as especies de ternura, a conjugal, a filial, a
maternal. Campos ainda lhe conheceu a mãe, cujo retrato, encaixilhado
com o do pae, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e
suspiradas. Não teve irmãos, mas a afeição fraternal estaria incluida
na amical, em que se dividia tambem. Quanto aos filhos, se os não
teve, é certo que punha muito de mãe nos seus carinhos de amiga e
de esposa. Não menos certo é que para essa especie de orfandade ás
avessas, tem agora um paliativo.
--D. Fidelia?
--Sim, Fidelia e teve ainda outro que acabou.
Aqui referiu-me uma historia que apenas levará meia duzia de linhas, e
não é pouco para a tarde que vae baixando; digamol-a depressa.
Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e
tantos annos. Sucessos que o desembargador contou por alto e não valia
a pena instar por elles, trouxeram a mãe e o filho para a casa Aguiar
durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas
mães. A mãe real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de
poucos dias. D. Carmo alcançou que a amiga lhe deixasse o filho e a
ama. Taes foram os primeiros liames da afeição que cresceu com o tempo
e o costume. O pae era comerciante de café,-comissario,-e andava então
a negocios por Minas, a mãe era filha de Taubaté, S. Paulo, amiga
de viajar a cavalo. Quando veiu o tempo de batizar o pequeno, Luiza
Guimarães convidou a amiga para madrinha delle. Era justamente o que a
outra queria; aceitou com alvoroço, o marido com prazer, e o batizado
se fez como uma festa da familia Aguiar.
A meninice de Tristão,-era o nome de afilhado,-foi dividida entre as
duas mães, entre as duas cazas. Os annos vieram, o menino crescia,
as esperanças maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho
abençoado que o acaso lhes deparára, disse um dia o marido; e a mulher,
catolica tambem na linguagem, emendou que a Providencia, e toda se
entregou ao afilhado. A opinião que o desembargador achou em algumas
pessoas, e creio justa, é que D. Carmo parecia mais verdadeira mãe que
a mãe de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um
pouco mais a mãe postiça. A razão podiam ser os carinhos maiores, mais
continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que
tambem são motivos para o infante, como para o adulto. Veiu o tempo da
escola, e ficando mais perto da caza Aguiar, o menino ia jantar alli, e
seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimarães. Algumas vezes
a própria madrinha o levava.
Nas duas ou tres molestias que o pequeno teve, a aflição de D. Carmo
foi enorme. Uso o proprio adjetivo que ouvi ao Campos, com quanto me
pareça enfatico, e eu não amo a enfasis. Confesso aqui uma cousa. D.
Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são «doudas
por morangos», nem que «morrem por ouvir Mozart.» Nella a intensidade
parece estar mais no sentimento que na expressão. Mas, emfim, o
desembargador assistiu á ultima das molestias do menino, que foi em
casa da madrinha, e pôde ver a aflição de D. Carmo, os seus afagos
e sustos, alguns minutos de desespero e de lagrimas, e finalmente a
alegria de restabelecimento. A mãe era mãe, e sentiu de certo, e muito,
mas diz elle que não tanto; é que haverá ternuras atadas, ou ainda
moderadas, que se não mostram inteiramente a todos.
Doenças, alegrias, esperanças, todo o repertorio daquella primeira
quadra da vida de Tristão foi visto, ouvido e sentido pelos dous
padrinhos, e mais pela madrinha, como se fora do seu proprio sangue.
Era um filho que alli estava, que fez dez annos, fez onze, fez doze,
crescendo em altura e graça. Aos treze annos, sabendo que o pae o
destinava ao comercio, foi ter com a madrinha e confiou-lhe que não
tinha gosto para tal carreira.
--Porque, meu filho?
D. Carmo usava este modo de falar, que a idade e o parentesco
espiritual lhe permitiam, sem usurpação de ninguem. Tristão
confessou-lhe que a sua vocação era outra. Queria ser bacharel em
direito. A madrinha defendeu a intenção do pae, mas com ella Tristão
era ainda mais voluntarioso que com elle e a mãe, e teimou em estudar
direito e ser doutor. Se não havia propriamente vocação, era este
titulo que o atraía.
--Quero ser doutor! quero ser doutor!
A madrinha acabou achando que era bom, e foi defender a causa do
afilhado. O pae deste relutou muito. «Que havia no comercio que não
fosse honrado, além de lucrativo? Demais, elle não ia começar sem
nada, como sucedia a outros e sucedeu ao proprio pae, mas já amparado
por este.» Deu-lhe outras mais razões, que D. Carmo ouviu sem negar,
alegando sempre que o importante era ter gosto, e se o rapaz não tinha
gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao cabo de alguns dias o
pae de Tristão cedeu, e D. Carmo quiz ser a primeira que désse ao rapaz
a boa nova. Ella propria sentia-se feliz.
Cinco ou seis mezes depois, o pae de Tristão resolveu ir com a mulher
cumprir uma viagem marcada para o anno seguinte,-visitar a familia
delle; a mãe de Guimarães estava doente. Tristão, que se preparava
para os estudos, tão depressa viu apressar a viagem dos paes, quiz
ir com elles. Era o gosto da novidade, a curiosidade da Europa, algo
diverso das ruas do Rio de Janeiro, tão vistas e tão cançadas. Pae e
mãe recusaram leval-o; elle insistiu. D. Carmo, a quem elle recorreu
outra vez, recusou-se agora, porque seria afastal-o de si, ainda que
temporariamente; juntou-se aos paes do mocinho para conserval-o aqui.
Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta; mas não houve luta que
valesse. Tristão queria á fina força embarcar para Lisboa.
--Papae volta daqui a seis mezes; eu volto com elle. Que são seis mezes?
--Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Você vae perder um anno...
--Pois que se perca um anno. Que é um anno que não valha a pena
sacrifical-o ao gosto de ir ver a Europa?
Aqui D. Carmo teve uma inspiração; prometeu-lhe que, tão depressa elle
se formasse, ella iria com elle viajar, não seis mezes, mas um anno ou
mais; elle teria tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares,
costumes... Estudasse primeiro. Tristão não quiz. A viagem se fez, a
despeito das lagrimas que custou.
Não ponho aqui taes lagrimas, nem as promessas feitas, as lembranças
dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se
afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu; e, se de lá vieram
cartas, saudades e noticias, quem não veiu foi elle. Os paes foram
ficando muito mais tempo que o marcado, e Tristão começou o curso da
Escola Medica de Lisboa. Nem comercio nem jurisprudencia.
Aguiar escondeu quanto pôde a noticia á mulher, a ver se tentava
alguma cousa que trocasse as mãos á sorte, e restituisse o rapaz ao
Brazil; não alcançou nada, e elle proprio não podia já disfarçar a
tristeza. Deu a dura novidade á mulher, sem lhe acrescentar remedio
nem consolação; ella chorou longamente. Tristão escreveu comunicando
a mudança de carreira e prometendo vir para o Brazil, apenas formado;
mas dahi a algum tempo eram as cartas que escasseavam e acabaram
inteiramente, ellas e os retratos, e as lembranças; provavelmente não
ficaram lá saudades. Guimarães aqui veiu, sosinho, com o unico fim de
liquidar o negocio, e embarcou outra vez para nunca mais.
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