10 de Janeiro.

Fomos ao cemiterio. Rita, apezar da alegria do motivo, não pôde reter

algumas velhas lagrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo,

com meu pae e minha mãe. Ella ainda agora o ama, como no dia em que o

perdeu, lá se vão tantos annos. No caixão do defunto mandou guardar um

molho dos seus cabelos, então pretos, emquanto os mais delles ficaram a

embranquecer cá fóra.

Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples,--a

inscrição e uma cruz,-mas o que está é bem feito. Achei-o novo de mais,

isso sim. Rita fal-o lavar todos os mezes, e isto impede que envelheça.

Ora, eu creio que um velho tumulo dá melhor impressão do oficio, se tem

as negruras do tempo, que tudo consome. O contrario parece sempre da

vespera.

Rita orou deante delle alguns minutos, emquanto eu circulava os olhos

pelas sepulturas proximas. Em quasi todas havia a mesma antiga suplica

da nossa: «Orai por elle! Orai por ella!» Rita me disse depois, em

caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma

prece por todos os que alli estão. Talvez seja a unica. A mana é boa

creatura, não menos que alegre.

A impressão que me dava o total do cemiterio é a que me deram sempre

outros; tudo alli estava parado. Os gestos das figuras, anjos e outras,

eram diversos, mas immoveis. Só alguns passaros davam sinal de vida,

buscando-se entre si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorgeando.

Os arbustos viviam calados, na verdura e nas flores.

Já perto do portão, á saída, falei a mana Rita de uma senhora que eu

vira ao pé de outra sepultura, ao lado esquerdo do cruzeiro, em quanto

ella rezava. Era moça, vestia de preto, e parecia rezar tambem, com as

mãos cruzadas e pendentes. A cara não me era extranha, sem atinar quem

fosse. E bonita, e gentilissima, como ouvi dizer de outras em Roma.

--Onde está?

Disse-lhe onde estava. Quiz ver quem era. Rita, alem de boa pessoa, é

curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe que

esperassemos alli mesmo, ao portão.

--Não! pode não vir tão cedo, vamos espial-a de longe. É assim bonita?

--Pareceu-me.

Entrámos e enfiámos por um caminho entre campas, naturalmente. A

alguma distancia, Rita deteve-se.

--Você conhece, sim. Já a viu lá em casa, ha dias.

--Quem é?

--É a viuva Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.

Já agora me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que lá

apareceu em Andarahy, a quem Rita me aprezentou e com quem falei alguns

minutos.

--Viuva de um medico, não é?

-Isso; filha de um fazendeiro da Parahyba do Sul, o barão de Santa-Pia.

Nesse momento, a viuva descruzava as mãos, e fazia gesto de ir embora.

Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só. Talvez

quizesse beijar a sepultura, o proprio nome do marido, mas havia gente

perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador e uma enxada, e

iam falando de um enterro daquella manhã. Falavam alto, e um escarnecia

do outro, em voz grossa: «Eras capaz de levar um daquelles ao morro? Só

se fossem quatro como tu.» Tratavam de caixão pezado, naturalmente, mas

eu voltei depressa a atenção para a viuva, que se afastava e caminhava

lentamente, sem mais olhar para traz. Encoberto por um mausoleu, não

a pude ver mais nem melhor que a principio. Ella foi descendo até o

portão, onde passava um bonde em que entrou e partiu. Nós descemos

depois e viemos no outro.

Rita contou-me então alguma cousa da vida da moça e da felicidade

grande que tivera com o marido, alli sepultado ha mais de dous annos.

Pouco tempo viveram juntos. Eu, não sei por que inspiração maligna,

arrisquei esta reflexão:

--Não quer dizer que não venha a cazar outra vez.

--Aquella não caza.

--Quem lhe diz que não?

--Não caza; basta saber as circumstancias do cazamento, a vida que

tiveram e a dor que ella sentiu quando enviuvou.

--Não quer dizer nada, pode cazar; para cazar basta estar viuva.

--Mas eu não cazei.

--Você é outra cousa, você é unica.

Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabeça,

como se me chamasse «peralta». Logo ficou seria, porque a lembrança do

marido fazia-a realmente triste. Meti o caso á bulha; ella, depois de

aceitar uma ordem de ideias mais alegre, convidou-me a ver se a viuva

Noronha cazava commigo; apostava que não.

--Com os meus sessenta e dous annos?

--Oh! não os parece: tem a verdura dos trinta.

Pouco depois chegámos a casa e Rita almoçou commigo. Antes do almoço,

tornámos a falar da viuva e do cazamento, e ella repetiu a aposta. Eu,

lembrando-me de Goethe, disse-lhe:

--Mana, você está a querer fazer commigo a aposta de Deus e de

Mephistopheles; não conhece?

--Não conheço.

Fui á minha pequena estante e tirei o volume do _Fausto_, abri a pagina

do prologo no ceu, e li-lh'a, resumindo como pude. Rita escutou atenta

o desafio de Deus e do Diabo, a proposito do velho Fausto, o servo do

Senhor, e da perda infalivel que faria delle o astuto. Rita não tem

cultura, mas tem finura, e naquella ocasião tinha principalmente fome.

Replicou rindo:

--Vamos almoçar. Não quero saber desses prologos nem de outros; repito

o que disse, e veja você se refaz o que lá vae desfeito. Vamos almoçar.

Fomos almoçar; ás duas, horas Rita voltou para Andarahy, eu vim

escrever isto e vou dar um giro pela cidade.

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Memorial de Ayres · 第 11 / 174 题