Guerrilheiro--Acto IV--Scena II

+EM VIAGEM+

Noite de lua cheia, pura brisa

Agita caprichosamente o mar

Onde o navio rapido desliza,

Dentro da superficie circular

Formada pelas aguas buliçosas

Que a abobada celeste vem ta upar.

As nuvens, em manadas caprichosas,

O vapor desafiam na carreira,

Passando em turbilhões vertiginosas.

Deffendendo o navio, precavida,

As aguas vae tingir de rubra côr,

A lanterna vermelha, suspendida,

E faz correr do flanco do vapor

Um jacto côr de sangue, qual baleia,

Ferida pela mão do trancador.

A proa corta a vaga que volteia.

Ha um arfar giganteo, convulsivo,

D'um immenso coração que bate e anceia.

E d'aquelle organismo, forte, vivo,

Saem soluços de estridor medonho,

Saem rugidos d'um toar altivo.

Esse gigante que se ri do oceano

É creação, quasi milagre, sonho,

D'outro gigante, o pensamento humano!

A bordo do _Funchal_,

1891

+LYRISMO+

Quizera possuir a lyra harmoniosa

Dos vates geniaes, dos reis da poesia

De Camões ou do Tasso, o Dante ou Cimaros

A bella inspiração a doce melodia.

Para te descrever em rima caprichosa

O meu amor sem fim, ir com a moda queria,

Dedicar-te um poema e chamar-te formoza

Tratar-te por _Marilia_ em vez do teu _Maria_.

Mas os versos por mais que faça vão errados,

Não soam nunca bem e fogem á medida,

E por isso não quero estar com mais cuidados.

Gosto muito de ti, bem o sabes querida.

Mas não posso imitar os outros namorados

Piegas que em idilio arrastam toda a vida.

Lyra da Mocidade Primeiros Versos · 第 23 / 28 题