Lisboa 1891

+ASPIRAÇÕES+

Oh! Quem me dera beijar-te

A tua face rosada,

Esses labios de carmim.

Oh! Quem podesse abraçar-te

E gozar, ó gentil fada,

Caricias ternas, sem fim.

Quem podesse contra o seio

Estreitar-te e essa boquinha

Sorvel-a n'um beijo quente,

E sentir-te em devaneio

Palpitar, gosar, louquinha,

Caricias de amor ardente.

Desprezando os preconceitos

Sellemos com esse amor

Potente da nossa edade,

Estreitando os nossos peitos,

Em plena vida d'amor,

Mil juras de felicidade!

Que dizes, linda, pois córas?

Antegosas as delicias?

Suspiras rubra de pejo?

Ou na tua mente infloras

Esses milhões de caricias

O amoroso d'um beijo?

Pois bem, gozemos, meu anjo,

E sejamos sempre queridos

Um do outro, minha flôr,

E das delicias o archanjo

Venha achar nos sempre unidos

Gozando do nosso amor!

Angra do Heroismo,

1892

+OS CREPES DE CAMÕES+

Portugal jáz por terra! Esta patria querida

Dos fortes, dos heroes, dos rudes marinheiros,

Esta nação valente, homerica, aguerrida

Que soube rechaçar outr'ora os estrangeiros,

Jáz por terra abatida! A bandeira de gloria

Que fulgurou ovante ao sol de cem combates

E sempre ha-de brilhar, aqui, em toda a historia

Que foi desde o Brazil ás regiões do Gates.

Hoje roja-se no pó! De tudo o que tivemos

De brio, heroicidade, altivez e coragem

Nada nos resta já! Parece que viemos

Perdendo tudo, tudo, em funebre viagem!

A propria honra se foi! Um insulto cruel

Fez agitar um dia o lodaçal enorme,

Houve gritos de raiva, amarguras de fel

Mas já tudo passou! E o povo dorme... dorme!

O derradeiro arranco! Ao pobre muribundo

Não resta d'esperança um lampejo fugaz,

Hoje existe sómente a mostrar-nos ao mundo

Um sepulcro marmoreo, um funebre _aqui jaz_.

Synthetizou outr'ora um esperançoso ideal

Em honra do cantor das nossas tradicções,

Hoje existe de pé por sobre o tremedal

Um symbolo de morte:

O lucto de Camões!

Lyra da Mocidade Primeiros Versos · 第 13 / 28 题