Daqui se vê que ás consoantes incertas seguem-se as compostas. É pois tempo
de fallarmos do _h_; tempo e opportunidade, porque as duas últimas
incertas, _m_, _n_, são muitas vezes simples signaes prosodicos; e o _h_,
igualmente debaixo de todas as apparencias de letra, não passa dum signal.
Os gregos tinham vogaes e consoantes aspiradas, isto é, proferidas com
aquelle esfôrço, aquella sobejidão de fôlego com que os hespanhoes proferem
a inicial de _José_. Em portuguez, ha mais ou menos fôrça em vozes e
inflexões; tanto, que é nisso e por isso que muitas se destinguem e se
transformam dumas noutras: mas propriamente a chamada _aspiração_, certa
aspereza e violencia, como de voz ou inflexão _tossida_, só (que nos
conste) nas gargalhadas do snr. _Rivara_.
Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e
escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de
etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção,
salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de
aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante
accidentalmente aspirada.
Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham _h_, caracter improprio e
indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes
pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua
orthografia, empregando o _h_, tanto em palavras de origem patria como de
origem grega.
E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não
termos _aspiração_, cá temos tambem o _h_ em palavras do latim, do grego
(que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de
origem ou orthografia nossa, como _sahir_, _cahir_, _chegar_, _fechar_;
servindo-nos o _h_ de _accento_.
De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a
sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.
A dizer a verdade não ha differença essencial entre _aspiração_ e
accentuação: ambas envolvem _fôrça:_ mas ha a differença sobeja para não
confundir nem os nomes nem os signaes.
O _h_ em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é
signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.
Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto
monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar
das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.
_Ahi_, _ah_, _huivo_ lê-se como se escrevessemos _aí_, _á_, _úivo:_ aqui
vale accento agudo.
_Heroe_, _honesto_, _hostil_ lê-se como se escrevessemos _êroe_, _ônesto_
_ôstil:_ aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento
circumflexo.
Em raras palavras começadas etymologicamente por _h_, deixa a primeira
vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.
Com as consoantes observa-se a mesma _regra_.
Em _th_, _rh_ a presença do _h_ é inutil; mas haveis de notar que as
inflexões _t_, _rr_... são extremas, isto é, admittem, sem transformação, a
pronuncia mais vehemente.
Por outro lado, se os etymologistas fossem etymologicos não escreviam
_catarrho_, que não é orthografia portugueza nem latina nem grega;
escreviam _catarho_, para se lêr do mesmo modo; vindo o _h_ a servir tambem
de accentuar o _r_.
_Nh_, _lh_ é accentuação de _n_, _l_. Proferi alternativamente _n_, _nh_, e
_l_, _lh_, sentireis a lingua, na pronuncia da forma dupla, adherir mais
extensamente ao ceo da bôca, e despegar-se com mais custo.
A respeito de _ph_, todos apagam uma luz fazendo ou proferindo naturalmente
_pf_... Esta dupla inflexão consiste em despegar os labios com um sôpro; o
que corresponde a accentuar, carregar, tornar sensivel ou _aspirar_ a
inflexão negativa _p'_. É verdade que para nós _ph_ não vale rigorosamente
_pf_...; mas a differença é insignificante, e pouco desdiz a forma.
Em _ch_ temos dois valores, um frequentissimo, _x_... e outro raro, _k'_.
Reforçai a inflexão _ç..._ e vereis, como facilmente se vos torna _x_...
Quando _ch_ vale _k'_, pode-se dizer que o _h_ indica o valor aspero,
forte, guttural da consoante _c_.
Assim, ou similhantemente, convem desculpar as formas duplas, justificar,
explicar o valor simples ou homogeneo dessas dualidades graficas. Porque
certamente que todos os caracteres da escrita tem um valor convencional e
arbitrario; mas, posto um valor, até a intelligencia infantil é impellida a
inquirir se se é coherente.
E pois fallámos do _h_, do _ph_, do _ch_, fallemos do _y_, essa especie de
companheiro de viagem que tantas vezes vem na caravana.
Os sabios chamam áquillo _i_ grego. Se é grego, excellente razão para o
excluir da nossa escrita.
Em grego havia uma vogal (que por signal não se sabe ao certo se valia _i_
ou se valia _u_) que na forma maiuscula um tanto se assimilhava ao _y_: na
forma minuscula, como quasi exclusivamente nos apparece o _y_, o caracter
similhante era o _gamma_, o _g'_. De modo que se um grego resuscitasse, e
aprendesse a ler portuguez, havia de se rir muito do _nosso_ i grego. Não
obstante ensinai a ler o vosso discipulo _y_, _ph_, mas recommendando-lhe
que nunca escreva tão affectadamente.
Os hespanhoes, em logar do nosso _nh_, _lh_, teem _ñ_, _ll_. É melhor
orthografia, mas ainda incoherente. Tanta razão ha de carregar ou dobrar
num caso como no outro. Os polacos carregam o _l_.
Para nós o til não tinha applicação ao _n_. Interpretando os latinos e
imitando os gregos o melhor seria carregar, accentuar simplesmente, com
algum signal particular ou o mesmo agudo, _n_, _l_ e até _r_, _t_, _p_,
_c_. Vamos á practica.
Deveis ter tido occasião de ensinar ao discipulo o que é, e de que serve o
accento agudo e circumflexo; senão, explicai-lhe, apresentando-lhe, como um
novo accento embora de diversa forma, o _h_.
—_Que é isto?_—_O accento agá._
—_De que serve?—De carregar vogal ou consoante._
—_Que vale_ n, l, p _carregado_?—N', nh'; l', lh'; p', pf...
—_Mas lê-se_ pf...?—_Lê-se só_ f...
—_E que vale o_ c _carregado_?—x... _e algumas vezes_, q'.
y = i
cy|pres|te
mys|te|rio
sy|me|tri|a
py|ri|lam|po
a|sy|lo a|bys|mo
cys|ne crys|tal
ly|ceu ty|ran|no
es|ty|lo sy|lla|ba
h =
har|pa ho|mem
ho|je hom|bro
hos|tias ha|ver
th rh
sym|pa|thi|a
rheu|ma|tis|mo
ca|ta|rrhal
nh
u|nha pu|nham
ti|nha ne|nhum
ni|nho ma|nhã
vi|nha gru|nhir
li|nha te|nham
fro|nha pi|nhão
ju|nho a|ze|nha
le|nha in|ha|bil
lh
ô|lho es|pe|lhos
dá|-lhe jo|e|lhos
bu|lha o|ve|lhas
a|ze|lha gre|lha
fi|lhos ra|lham
gra|lha tri|lhar
a|lho pa|lhi|nha
i|lha o|re|lhi|nha
ph = f
a|phta pha|rol
ty|pho gry|pho
pho|ca phra|se
es|phe|ra
tri|um|pha|ram
ty|po|gra|phi|a
phar|ma|cia
phos|pho|ros
= ~~~~z ch
chá ca|cho|rro
chão cha|fa|riz
cha|pa che|gar
chei|o col|chão
= k Chris|to
chris|ma
ma|chi|nis|ta
eu|cha|ris|ti|a