III Alfabeto maiusculo.

Daqui se vê que ás consoantes incertas seguem-se as compostas. É pois tempo

de fallarmos do _h_; tempo e opportunidade, porque as duas últimas

incertas, _m_, _n_, são muitas vezes simples signaes prosodicos; e o _h_,

igualmente debaixo de todas as apparencias de letra, não passa dum signal.

Os gregos tinham vogaes e consoantes aspiradas, isto é, proferidas com

aquelle esfôrço, aquella sobejidão de fôlego com que os hespanhoes proferem

a inicial de _José_. Em portuguez, ha mais ou menos fôrça em vozes e

inflexões; tanto, que é nisso e por isso que muitas se destinguem e se

transformam dumas noutras: mas propriamente a chamada _aspiração_, certa

aspereza e violencia, como de voz ou inflexão _tossida_, só (que nos

conste) nas gargalhadas do snr. _Rivara_.

Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e

escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de

etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção,

salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de

aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante

accidentalmente aspirada.

Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham _h_, caracter improprio e

indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes

pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua

orthografia, empregando o _h_, tanto em palavras de origem patria como de

origem grega.

E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não

termos _aspiração_, cá temos tambem o _h_ em palavras do latim, do grego

(que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de

origem ou orthografia nossa, como _sahir_, _cahir_, _chegar_, _fechar_;

servindo-nos o _h_ de _accento_.

De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a

sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.

A dizer a verdade não ha differença essencial entre _aspiração_ e

accentuação: ambas envolvem _fôrça:_ mas ha a differença sobeja para não

confundir nem os nomes nem os signaes.

O _h_ em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é

signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.

Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto

monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar

das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.

_Ahi_, _ah_, _huivo_ lê-se como se escrevessemos _aí_, _á_, _úivo:_ aqui

vale accento agudo.

_Heroe_, _honesto_, _hostil_ lê-se como se escrevessemos _êroe_, _ônesto_

_ôstil:_ aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento

circumflexo.

Em raras palavras começadas etymologicamente por _h_, deixa a primeira

vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.

Com as consoantes observa-se a mesma _regra_.

Em _th_, _rh_ a presença do _h_ é inutil; mas haveis de notar que as

inflexões _t_, _rr_... são extremas, isto é, admittem, sem transformação, a

pronuncia mais vehemente.

Por outro lado, se os etymologistas fossem etymologicos não escreviam

_catarrho_, que não é orthografia portugueza nem latina nem grega;

escreviam _catarho_, para se lêr do mesmo modo; vindo o _h_ a servir tambem

de accentuar o _r_.

_Nh_, _lh_ é accentuação de _n_, _l_. Proferi alternativamente _n_, _nh_, e

_l_, _lh_, sentireis a lingua, na pronuncia da forma dupla, adherir mais

extensamente ao ceo da bôca, e despegar-se com mais custo.

A respeito de _ph_, todos apagam uma luz fazendo ou proferindo naturalmente

_pf_... Esta dupla inflexão consiste em despegar os labios com um sôpro; o

que corresponde a accentuar, carregar, tornar sensivel ou _aspirar_ a

inflexão negativa _p'_. É verdade que para nós _ph_ não vale rigorosamente

_pf_...; mas a differença é insignificante, e pouco desdiz a forma.

Em _ch_ temos dois valores, um frequentissimo, _x_... e outro raro, _k'_.

Reforçai a inflexão _ç..._ e vereis, como facilmente se vos torna _x_...

Quando _ch_ vale _k'_, pode-se dizer que o _h_ indica o valor aspero,

forte, guttural da consoante _c_.

Assim, ou similhantemente, convem desculpar as formas duplas, justificar,

explicar o valor simples ou homogeneo dessas dualidades graficas. Porque

certamente que todos os caracteres da escrita tem um valor convencional e

arbitrario; mas, posto um valor, até a intelligencia infantil é impellida a

inquirir se se é coherente.

E pois fallámos do _h_, do _ph_, do _ch_, fallemos do _y_, essa especie de

companheiro de viagem que tantas vezes vem na caravana.

Os sabios chamam áquillo _i_ grego. Se é grego, excellente razão para o

excluir da nossa escrita.

Em grego havia uma vogal (que por signal não se sabe ao certo se valia _i_

ou se valia _u_) que na forma maiuscula um tanto se assimilhava ao _y_: na

forma minuscula, como quasi exclusivamente nos apparece o _y_, o caracter

similhante era o _gamma_, o _g'_. De modo que se um grego resuscitasse, e

aprendesse a ler portuguez, havia de se rir muito do _nosso_ i grego. Não

obstante ensinai a ler o vosso discipulo _y_, _ph_, mas recommendando-lhe

que nunca escreva tão affectadamente.

Os hespanhoes, em logar do nosso _nh_, _lh_, teem _ñ_, _ll_. É melhor

orthografia, mas ainda incoherente. Tanta razão ha de carregar ou dobrar

num caso como no outro. Os polacos carregam o _l_.

Para nós o til não tinha applicação ao _n_. Interpretando os latinos e

imitando os gregos o melhor seria carregar, accentuar simplesmente, com

algum signal particular ou o mesmo agudo, _n_, _l_ e até _r_, _t_, _p_,

_c_. Vamos á practica.

Deveis ter tido occasião de ensinar ao discipulo o que é, e de que serve o

accento agudo e circumflexo; senão, explicai-lhe, apresentando-lhe, como um

novo accento embora de diversa forma, o _h_.

—_Que é isto?_—_O accento agá._

—_De que serve?—De carregar vogal ou consoante._

—_Que vale_ n, l, p _carregado_?—N', nh'; l', lh'; p', pf...

—_Mas lê-se_ pf...?—_Lê-se só_ f...

—_E que vale o_ c _carregado_?—x... _e algumas vezes_, q'.

y = i

cy|pres|te

mys|te|rio

sy|me|tri|a

py|ri|lam|po

a|sy|lo a|bys|mo

cys|ne crys|tal

ly|ceu ty|ran|no

es|ty|lo sy|lla|ba

h =

har|pa ho|mem

ho|je hom|bro

hos|tias ha|ver

th rh

sym|pa|thi|a

rheu|ma|tis|mo

ca|ta|rrhal

nh

u|nha pu|nham

ti|nha ne|nhum

ni|nho ma|nhã

vi|nha gru|nhir

li|nha te|nham

fro|nha pi|nhão

ju|nho a|ze|nha

le|nha in|ha|bil

lh

ô|lho es|pe|lhos

dá|-lhe jo|e|lhos

bu|lha o|ve|lhas

a|ze|lha gre|lha

fi|lhos ra|lham

gra|lha tri|lhar

a|lho pa|lhi|nha

i|lha o|re|lhi|nha

ph = f

a|phta pha|rol

ty|pho gry|pho

pho|ca phra|se

es|phe|ra

tri|um|pha|ram

ty|po|gra|phi|a

phar|ma|cia

phos|pho|ros

= ~~~~z ch

chá ca|cho|rro

chão cha|fa|riz

cha|pa che|gar

chei|o col|chão

= k Chris|to

chris|ma

ma|chi|nis|ta

eu|cha|ris|ti|a

Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura · 第 35 / 52 题