O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do
Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas
estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido,
que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada
adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de
dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora
das lagrimas, em presença das estrellas.
Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.
A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das
cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava
vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte
ella me inspirava.
Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena
porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta
deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a
fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres,
uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As
pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O
sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não
pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não
sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do
fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.
Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em
quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia
increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.
Respondi:
--Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava,
entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.
«Então vocemece--tornou a velha--está a banhos?
--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade
de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava
uma demora justificada.
«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas,
tal qual é, está ás suas ordens.--
Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não
lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.
A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu
canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha
sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas
mulheres bellas encontrára.
Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.
Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e
transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo,
apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá
incorrectas.
Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos,
menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar
dos olhos negros.
Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que
não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.
Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares,
especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.
Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher,
que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro
material d'um grande espirito.
A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a
custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das
voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade
grosseira.
Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as
caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam
desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.
Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o
leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a
sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença
della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da
alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de
mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo,
entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei
descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,
d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o
adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta,
respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu
ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!
O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez
magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a
immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....
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Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella
mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva.
Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio
magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem
que não sou visto.
«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.
--Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta
casa pelo S. João.
«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?
--Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem
alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a
apparecer.
«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.
--Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.
«E que diz a criada?!
--Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não
pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.
«E como se chama a tal senhora?
--É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.
«E ella não toma banhos?
--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa
do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.
«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a
bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.
A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do
rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha
generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai
denuncial-a:
«V. m. vai áquella casa?
--Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.
«E quem lhe faz os recados?
--Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se
demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a
vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer
o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a
mim--concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva--em quanto
a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--
Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta.
Não vi Felismina, nem a criada.
Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.