III.

O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do

Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas

estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido,

que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada

adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de

dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora

das lagrimas, em presença das estrellas.

Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.

A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das

cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava

vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte

ella me inspirava.

Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena

porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta

deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a

fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres,

uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As

pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O

sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não

pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não

sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do

fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.

Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em

quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia

increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.

Respondi:

--Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava,

entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.

«Então vocemece--tornou a velha--está a banhos?

--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade

de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava

uma demora justificada.

«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas,

tal qual é, está ás suas ordens.--

Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não

lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.

A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu

canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha

sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas

mulheres bellas encontrára.

Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.

Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e

transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo,

apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá

incorrectas.

Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos,

menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar

dos olhos negros.

Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que

não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.

Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares,

especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.

Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher,

que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro

material d'um grande espirito.

A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a

custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das

voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade

grosseira.

Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as

caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam

desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.

Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o

leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a

sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença

della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da

alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de

mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo,

entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:

Dai esmola d'amor á desgraçada,

Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei

descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,

d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o

adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta,

respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu

ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!

O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez

magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a

immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....

..........................................................................

Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella

mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva.

Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio

magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem

que não sou visto.

«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.

--Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta

casa pelo S. João.

«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?

--Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem

alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a

apparecer.

«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.

--Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.

«E que diz a criada?!

--Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não

pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.

«E como se chama a tal senhora?

--É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.

«E ella não toma banhos?

--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa

do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.

«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a

bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.

A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do

rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha

generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai

denuncial-a:

«V. m. vai áquella casa?

--Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.

«E quem lhe faz os recados?

--Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se

demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a

vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer

o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a

mim--concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva--em quanto

a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--

Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta.

Não vi Felismina, nem a criada.

Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.

Scenas da Foz · 第 69 / 89 题