II.

No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha

mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura,

e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um

soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lições da semana

santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar

n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos

consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla

em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.

Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das

margens do seu rio.

E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os

pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora

desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella

espiritual mulher.

Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a

mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de

tristeza.

Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas

sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de

papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:

Dai esmola d'amor á desgraçada,

Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio,

e cantei:

Neste ermo, triste, e só, e abandonada

Quem desta alma o gemer escutará?

Dai esmola d'amor á desgraçada,

Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o

mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a

ver:

São horas mortas; vem, ó meiga fada,

E um beijo para o céo leva de cá.

Dai esmola d'amor á desgraçada,

Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do

estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o então.

Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara,

febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era

a hora das expansões e eu prosegui:

Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!

Meu hymno, triste, como o teu dirá:

Dai esmola d'amor á desgraçada,

Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.

Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou

aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da

aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida

florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.

E a janella ainda aberta.

Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella

vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do

saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de

branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás

primeiras lufadas do sol que ia nascer.

Ver-me-ia ella?

Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de

quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por

longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia

negro e indigno de mim.

Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão

encantador o do mar!

Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!

Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar

esta alma arida!

Scenas da Foz · 第 68 / 89 题