No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha
mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura,
e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um
soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lições da semana
santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar
n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos
consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla
em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.
Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das
margens do seu rio.
E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os
pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora
desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella
espiritual mulher.
Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a
mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de
tristeza.
Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas
sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de
papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio,
e cantei:
Neste ermo, triste, e só, e abandonada
Quem desta alma o gemer escutará?
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o
mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a
ver:
São horas mortas; vem, ó meiga fada,
E um beijo para o céo leva de cá.
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do
estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o então.
Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara,
febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era
a hora das expansões e eu prosegui:
Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!
Meu hymno, triste, como o teu dirá:
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.
Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou
aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da
aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida
florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.
E a janella ainda aberta.
Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella
vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do
saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de
branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás
primeiras lufadas do sol que ia nascer.
Ver-me-ia ella?
Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de
quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por
longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia
negro e indigno de mim.
Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão
encantador o do mar!
Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!
Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar
esta alma arida!