Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão
recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em
virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na
politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios
constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão
prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu
nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam
envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte
do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro
Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu
primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com
Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar,
dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser
informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular
amigo e primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do
padre Albito Buela.
Bento de Castro--digamol-o sem desdouro seu--era ardente correligionario
de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato
do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante
do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado--aliás excellentes
creaturas--uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus
interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos
principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia
de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.
Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido
o _Contracto social_ de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a
Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as
luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de
tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de
sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na
minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove
de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não
refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos
ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel
publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da
sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus
mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra
muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a
sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger
deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a
importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um
romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que
pararam as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de
Castro?
A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão,
dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador.
Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera
das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se
preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma
moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar
espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As
heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os
meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso
regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos
precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a
philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara
de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal
discipulo de Socrates.
Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro
esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.
É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de
Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas
vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India
quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija
d'aguardente _ad hoc_.
Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada,
posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as
sympathias do preto.
Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em
Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.
Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria
na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra
aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais
syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava
angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse
resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a
materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas
pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba,
regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.
Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e
integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito
como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da
minha visinha.
Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte,
respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos
escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei
nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas;
mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.
Veremos.