XII.

Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor

honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi

uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de

pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!

Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior

capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no

momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai.

Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos--uma mulher a comer

figos!--Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o

leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar,

porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns

instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no

quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia.

O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna

memoria:

1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á

cara do preto.

2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de

Hermenigilda um bocado do coração da melancia.

3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita

melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da

morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas

vertebras lombares.

5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e

teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o

preto ao chão, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios

d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a

cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da

rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel

perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e

me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e

dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.

Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior,

que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival

tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço,

vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira,

tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por

ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé

estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe

umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que

por ahi fica archivada a paginas....

«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...»

disse elle.

--Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te

conservares na espectativa.

«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica

verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á

questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar

namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com

promessa de casamento.

Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta,

e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa

delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em

quanto o pai estava fóra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que

é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de

brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?

--Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas

provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que

ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de

alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me

não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era

possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo,

contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir

pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que

o preto fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio

Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é

de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe

dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se

oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do

noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D.

Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de

Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes

de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio

nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda,

e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão

de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre

abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo

Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao

boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa

de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao

encontro na carreira da vida.

Já então se diziam estas tolices.

Scenas da Foz · 第 52 / 89 题