No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de
acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.
Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira
a respeito do preto.
«Não valia a pena--disse eu--perturbares o meu somno da manhã por
similhante insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das
historias. Não sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo
que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixões por uma
branca. Não sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a
carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao dito preto. Em todo o
caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o plagiato do
amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, por
imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se.
Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o
preto no coração?
--Estás a mangar!--respondeu o meu amigo Bento--Póde lá dar-se
similhante asneira!
«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima...
dás licença que te conte a historia de minha prima?
--Se não fôr muito estirada...
«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de
Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um
bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos
casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem
perigoso em casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de
casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e
depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as
igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e até um poço onde
uma allucinação a poderia ter precipitado... depois de muitas
diligencias, e lagrimas, e gritos, e informações, minha prima
apparece... imagina lá aonde?
--Eu sei cá!...
«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro
arrobamento do amor com...--meus illustres avós! perdoai-me a
revelação!--com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço
de gallego!
--Que se seguiu? mataram o bruto?
«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia.
Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia
de casar com o gallego.
--E casou?
«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e,
o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires
hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.
--E ella ama-o?!
«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o como o amou sempre, bebe
a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura,
das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge
inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o
mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos
como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está
gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude
da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que
esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um
melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia
receiar muito pela sua vida.
Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,
fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava
parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia
do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como
diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu
vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.
Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos
casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival
temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha
visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas
esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de
lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a
isto?
--Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao
preto em boa paz.
«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.
--Mas o que tens tu visto?
«A pequena a brincar com o preto.
--De que modo?
«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro: invenção rara que se
deve á estrategia do amor, assim como o xadrez se deve á estrategia
militar.
--E que mais fazem?
«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas
palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os
pontapés. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a
moral domestica folga do resultado. Já vês que não ha aqui bastante
motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma
mulher que promette estar contente dando-lhe o comer ás horas, e tres
duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o
preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e acceita. Que
perdes tu na tentativa?
--Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que
esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?
«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes
rodeios, que estás ferido.
--Será demasiada liberdade...
«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas
mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa
visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no
pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro.
Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada
de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da
tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases
que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os
caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do
alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar
tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um
habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a
alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma,
o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das
ondas.
Espera... ouço-a fallar... Olha...
Ella lá está na janella.