III.

No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de

acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.

Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira

a respeito do preto.

«Não valia a pena--disse eu--perturbares o meu somno da manhã por

similhante insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das

historias. Não sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo

que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixões por uma

branca. Não sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a

carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao dito preto. Em todo o

caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o plagiato do

amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, por

imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se.

Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o

preto no coração?

--Estás a mangar!--respondeu o meu amigo Bento--Póde lá dar-se

similhante asneira!

«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima...

dás licença que te conte a historia de minha prima?

--Se não fôr muito estirada...

«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de

Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um

bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos

casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem

perigoso em casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de

casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e

depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as

igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e até um poço onde

uma allucinação a poderia ter precipitado... depois de muitas

diligencias, e lagrimas, e gritos, e informações, minha prima

apparece... imagina lá aonde?

--Eu sei cá!...

«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro

arrobamento do amor com...--meus illustres avós! perdoai-me a

revelação!--com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço

de gallego!

--Que se seguiu? mataram o bruto?

«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia.

Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia

de casar com o gallego.

--E casou?

«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e,

o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires

hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.

--E ella ama-o?!

«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o como o amou sempre, bebe

a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura,

das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge

inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o

mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos

como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está

gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude

da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que

esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um

melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia

receiar muito pela sua vida.

Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,

fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava

parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia

do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como

diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu

vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.

Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos

casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival

temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha

visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas

esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de

lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a

isto?

--Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao

preto em boa paz.

«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.

--Mas o que tens tu visto?

«A pequena a brincar com o preto.

--De que modo?

«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro: invenção rara que se

deve á estrategia do amor, assim como o xadrez se deve á estrategia

militar.

--E que mais fazem?

«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas

palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os

pontapés. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a

moral domestica folga do resultado. Já vês que não ha aqui bastante

motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma

mulher que promette estar contente dando-lhe o comer ás horas, e tres

duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o

preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e acceita. Que

perdes tu na tentativa?

--Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que

esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?

«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes

rodeios, que estás ferido.

--Será demasiada liberdade...

«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas

mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa

visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no

pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro.

Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada

de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da

tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases

que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os

caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do

alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar

tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um

habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a

alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma,

o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das

ondas.

Espera... ouço-a fallar... Olha...

Ella lá está na janella.

Scenas da Foz · 第 23 / 89 题