O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do
Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um
relogio, dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2
horas, bateu-me á porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um
pathetico discurso:
«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia
em que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o
meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é
contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir
dinheiro ao moço de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá,
alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida
diabolica!... Se o não fiz, outra vez será. É no que ha-de parar este
negro fado que me traz a pontapés da desgraça... Não me dirás tu que
hei-de eu fazer para ser o que tu és?
--E que achas tu que eu sou?--perguntei eu, porque não sabia ainda então
o que era. «És homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e
magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de pão e
quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos
rapados, e vives feliz.
--Muito feliz.
«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho
gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.
--Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos
cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser
cantado pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros
de pão e quinze pipas de vinho verde e serás feliz.
«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não
posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde
vier.
--De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho
este anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei,
parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que
tinhamos. Tu não tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?
«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas,
sou tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.
--Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é
necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste
planeta: é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para
alcançal-o, são sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro
a uma rapariga rica, riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga,
mas esse riso só póde ser penoso se a mulher te não indemnisar com o
sorriso d'ella. A questão é _To be or not to be_: ser ou não ser amado.
Sirvo-me deste fragmento de Shakspeare por que não está ainda estafado
pelos folhetinistas.
«_Folhetinistas_! que são _folhetinistas_?
--Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos,
trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos
coeiros, virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos
romances de certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o
primeiro corruptor da litteratura em França. Saberão menos latim do que
tu quando saltaste pela janella do seminario de Braga, e dirão que o
latim é uma cataplasma que mata a originalidade nativa, e a natividade
original, e não sei que outras sandices usadas na linguagem delles
pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão que antes do diluvio
já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de provar que o
talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do
espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e
o Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de
Refojos. Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito,
e dirão dellas cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de
não serem ditas em portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os
folhetinistas serão...
«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é
saber o que serei d'hoje a vinte annos.
--Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres
cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra
para depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos
contraltos, e dos bassos, e deste Curti que hoje está creando uma
reputação no Porto, e eu espero ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo
timbre, o mesmo volume de voz, e a mesma precisão de notas graves em
_sibmol_.
«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes
tu á tentativa d'um casamento rico?
--Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram e prosperaram. Quando
um homem se diz: «hei-de casar rico, apesar de todos os contratempos»
casa rico. O primeiro passo a dar é convencer-se de que a vergonha é uma
excrescencia que nos magôa, e deve ser amputada da consciencia como quem
corta um callo. O segundo é procurar a mulher, através de todas as
torpesas, como o mineiro procura o ouro através do saibro e dos charcos
lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro é levar com a
porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O quarto é
teimar. O quinto é teimar. O sexto...
«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro
d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente,
virtuosa...
--Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas
disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente?
Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por
especuladores matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a
liberdade dos seus desejos os menos puros, do que algemar-se com
grilhões que ella parte facilmente no momento em que a razão illustrada
lhe diga: «Entre ti e o homem são iguaes os direitos...» Formosa?
Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é sempre a mesma cousa, e aos
olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da belleza. Mulher feia,
pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a fealdade, e chega
a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem inspirado
paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas as
quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no
coração, se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto
mulheres formosas apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos.
Dido, Helena, e Cleopatra dizem que foram lindas mulheres, por terem
apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. O que de certo se não sabe é se eram
feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é o diabo, como diz a ama de
leite dos teus sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse
respeito tinhamos muito que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é
o escolho de muitas posições sociaes. Felizmente que ella vai em
decadencia, e por isso veremos, de hoje a trinta annos, muitas posições
brilhantes com um pé no pescoço da virtude. Virtude é uma sociedade
mercantil, em que a maior parte dos empresarios se sustentam á custa da
pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.
Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de
casamento, indico-te uma mulher.
«Qual?!
--A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.
«Pois achas que está no caso?
--Muito no caso.
«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a
virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva
aspar a palavra do meu programma!
--É que eu desconfio do preto!
«Do preto?! que preto?
--Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.
Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o
preto.
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Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não
podem chorar!