«No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos
successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber
como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me
parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam
em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso
dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de
minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções
desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabeça.
O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse
com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando
eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem.
Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que
lhe eriçavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando
freneticamente o cavallo.
Aqui tens a minha noite: não tenho outras memorias. Apenas me recordo
que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lagrimas, e
chorei por muito tempo.
O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou,
entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por
Palmyra. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de
fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de
minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por
tanto, havia sahido na manhã d'aquelle dia.
Ao entardecer, quando a tristeza cahia do céo, como um lucto de almas
não já desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperança,
confrangeram-se-me em dôr ineffavel as fibras do coração, dôr de saudade
voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vêl-a não sei se para
cahir-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum
allivio pedido a todas as potencias de minha imaginação, pedido a Deus,
e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a
desesperação, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperança de
cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio
febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o coração
com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito
contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas
visões era ella, nos braços d'aquelle miseravel, áquella hora. As
minimas circumstancias d'um espectaculo de devassidão, as mais secretas,
e lubricas minudencias se me traçavam patentes a uma claridade infernal.
A oração, esse divino desabafo de enormes afflicções, nem esse bem me
valia um relampago de socego á alma. Começava orando, a anciedade
recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a
negação da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a
mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos
tão nobres, educação tão religiosa, e respeitos tão profundos á
dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epithetos usurpados á
honra!... Eu que me infatuára perante o mundo de acorrentar á minha
vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma,
que eu cobria de brilhantes e flôres, cuidando que a sociedade havia de
respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia!
Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu
arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraça!...
«Mal me entreluziu a manhã, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para
Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira,
em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os
olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: «Meu amo, vamos embora de
Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dará
remedio.» Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldêa
convidava-me; porém, entrando em espirito no interior da minha casa de
Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas
desertas: faltava-me minha mãe alli: o anjo consolador fugira antes do
meu resgate. Acudia-me á lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna,
a meiguice da virgem compadecida; porém o meu coração, a porejar o
esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto
purificador.
«O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem
da vida, quadrava mais á minha alma sedenta de não sei que filtros de
lagrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa.
Qualquer resolução sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte
para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas
gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razão
logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma
mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se
andar por suas proprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento
de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido
dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas
roupas. Guardei a correspondencia de minha mãe e de Mafalda. Queimei os
restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por quê?
Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creança que então morrera...
--«Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu
Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de
carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a
minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres.
«Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se
d'elles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmyra
pôde vencer o orgulho escarnecido.
«No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo á minha.
Eil-a aqui: «Ambos te queremos do coração, Affonso. Meu pae não diz a
teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando
tua mãe dizia em ancias: «perdi meu filho!» o meu bom pae ajuntava
sempre: «elle virá, minha irmã, que a sua indole é boa.» Mostrei-lhe a
tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me:
«escreve-lhe tu, com a benção de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu
dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; é o mais que
posso dar-lhe.» Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio
que são inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa
amizade, primo Affonso, nos dás grande satisfação.
«Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe.
Se te mortifica o pezar de não ter vindo assistir-lhe á morte,
tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha
e que mãe ella era. Eu fui lêr á beira da sua sepultura a tua carta.
Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me
de ao pé d'ella tão desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do
céo a minha alegria. Póde ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do
allivio que eu senti então.
«Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da
tua casa. Meu pae faz o que póde, e dirige o teu procurador; mas receia
de não zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela
distancia em que vivemos de Ruivães.
«Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade
da tua _Mafalda_.»
«Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir
para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expressões
affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias á
formalidade de relações entre primos que se estimam. É que eu via em mim
o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo
pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos
olhos de uma mulher, que o vê rejeitado d'outra, embora villissima,
embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente
avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia,
coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E
depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, não poderia amal-a
então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de
Palmyra. Sabem os experimentados, poderás tu sabel-o, que é uma excepção
d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeição a outra, quando nos pesa
o opprobrio d'uma perfidia. O coração está lanhado, a fronte não ousa
erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob um
peso de vilipendio, que cuidamos lêr nos olhares affrontadores de todo o
mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos
taes a piedade, senão injuria?!
«Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas
propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio,
avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois,
recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens,
vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim: «Tua prima está
enferma, por isso não te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal
posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com
Deus, Affonso. Póde ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te vêr
ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era
rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguaes.
Quereres tu o privilegio que o marido não teve, seria um absurdo do teu
orgulho. Theodora está em Braga promovendo o divorcio a fim de
levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por intervenção de um meu
compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas
cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas
horas na cama a agasalhar a gôta. Sou o depositario do borrador das
cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem á
estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer
que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores
levam-me a crêr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a
fallar comtigo á laia de rapaz! e o caso é que a dôr do calcanhar
esquerdo espalhou.
«O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e
Gestal. Para te não dizer cousas tristes, e evitar que torne a dôr do
calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe,
e teu amigo devéras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa.
Se eu morrer--e ainda bem!--antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!)
deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para
ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar,
escreve-nos de Paris--Teu tio _F. de Teive_.»
«Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O dragão do ciume
desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspensão da
perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quão lastimaveis e
ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente
probidade! Nenhum liame da sã moral resiste ao cancro do coração. Até o
regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de animo, scena de
comedia que faz rir o mundo.
«E eu, ancioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu
ia procurar em França?
--O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados--respondi eu.
--Não me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia
procurar o amor de salvação.
--E encontraste-o em França?
--Encontrei.
--Vejamos.