XVIII

Voltou Palmyra á sala, e, momentos depois, reappareceu no quarto

d'Affonso, perguntando se D. José de Noronha e D. Antonio Mascarenhas

podiam, não incommodando, visital-o. Affonso respondeu, sem alteração,

que lhes agradecia o cuidado; mas, confiado na amiga familiaridade com

que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em

silencio, a vêr se assim a dôr de cabeça se mitigava. Palmyra entrou bem

assombrada na sala, e disse a D. José: «Não ha que desconfiar. São

saudades de Mafalda, rebuçadas nas saudades da mãe.»

Entretanto, Affonso, lançando-se do leito, examinava os fulminantes das

pistolas... Seja elle o narrador d'este indescriptivel trance:

«Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexão para bem definir os

actos sequentes ao homicidio, senti no coração uma rija pancada, e, para

assim dizer, quasi apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha

mãe. Depuz as pistolas, e ajuntei as mãos. Ainda agora me maravilha a

passagem rapida da vertigem, em que a minha honra me impunha matar o

infame, para a tranquilla consideração sobre a inefficacia do homicidio

como vingança da perfidia. Attribuo esta mudança inverosimil, segundo a

logica das paixões, a mais forte poder que o da alma humana. N'esta

suspensão, pedi ao espirito de minha mãe que me acudisse com o conselho

salvador. Não ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu

algum designio. O que vi foi a imagem de Eleuterio, na sala da estalagem

de Barcellinhos, no momento em que, lavado em lagrimas, dizia á mulher:

«Castigada te veja eu, e Deus me vingue!»

«Eis aqui a resposta da alma bemaventurada; eis aqui as indirectas

respostas da Providencia.

«Entendi que soára para mim a hora da expiação, annunciada pela visão do

marido, cortado de angustias, superiores á minha. Faziam-se acceleradas

transformações em meu animo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento

de matar. Lembrou-me fugir a occultas de minha casa, e esconder da

infame e do mundo a explicação da minha fuga. Acudia-me logo outra idéa

argumentando contra a miseria d'aquella. Lembrou-me propor a Theodora a

separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos

disparatados ou irrisorios se atropellaram na minha pobre cabeça. «Serei

eu um covarde?» perguntava eu logo á minha consciencia. Vinha então

outra vez Eleuterio postar-se ante mim, e dizer á mulher que o fitava

com desprezo: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue.»

«Desligado da menor premeditação, assalteou-me de repente uma idéa, cujo

alcance e desfecho eu não curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de

Palmyra, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me á sala. Ao

sahir da porta do meu quarto vi um vulto a sumir-se na extrema do

corredor. Estuguei o passo, e o vulto parou. Era o meu criado

Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia alli. «Estou de plantão» respondeu

elle. Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da

resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido, e

continuou: «Como dei fé que o patrão se deitou, não quiz deixar o

negocio ao Deus dará: é o que foi.»

«Entrei na sala a passo mesurado, e quasi a subitas. Estava D. José ao

lado de Palmyra na mesma othomana. D. Antonio folheava as _Mulheres de

Walter-Scott_. Palmyra estremeceu, ao vêr-me assomar debaixo do

reposteiro. D. José, embrutecido pela surpreza, não se moveu da posição

denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca elle se

assentára a par de Palmyra no mesmo estôfo. Voltando a si da

estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse:

«--Não se incommode, snr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos

em minha casa são os donos d'ella.

--Essas maneiras exquisitas, Affonso...--tartamudeou D. José, em quanto

Palmyra, perplexa ainda, manifestava sua duvida no abrimento da bocca e

esgazeado das faces.

«Não respondi á banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. Antonio, e

disse-lhe:--O snr. Mascarenhas é de mais aqui. _Se fôr propicia a

occasião, elle sahirá a tempo_--diz a carta do nosso amigo D. José. V.

exc.ª devêra já ter sahido.

«Relanceei de revez um olhar a Palmyra. Vi-a sobresaltada e livida,

agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sophá. D.

José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. Antonio

encarava-me com ares de pavor. Eu continuei:--A figura do snr.

Mascarenhas n'este quadro é de mais. Queira sahir.

--Eu vou com D. Antonio--disse o Noronha.

«--Elle que o espere na rua--respondi, voltando levemente a cabeça sem o

encarar.

«D. Antonio tomou o chapéo com presteza, abaixou a cabeça a Palmyra, e

sahiu, cortejando-me.

«A mulher da estalagem de Barcellinhos voltou ao corpo de Theodora.

Eil-a em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.

--Que significa isto?--exclamou ella--Acabemos esta situação sem grandes

scenas! Que vem dizer-me o snr. Affonso?

«Confessarei que me senti pequeno diante d'este cynico interrogatorio!

Que havia eu de responder á mulher, que rebatera com escarneo e

arrogancia as moderadas aggressões do marido? Com que direitos ia eu

alli, deshonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ella que estava

perdida? E, se a infamia era commum de ambos, por que ambos eramos

criminosos, que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta

digna d'aquellas perguntas? Sómente assim posso agora dar-me contas de

minha mudez de então.

«E ella, acorçoada pelo meu espantado silencio, proseguiu:--Abjurei dos

deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, snr.

Affonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de

ter uma odalisca no seu palacio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o

meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que

idolatrava a sua servidão, em quanto o snr. Affonso, enlevado nos ideaes

amores d'uma prima...

«--Infame!--atalhei eu--Se tem de citar nomes de mulheres no seu

arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do

vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não cahida na

ultima abjecção, impõe respeito á amante de D. José de Noronha,

hospedada em casa de Affonso de Teive.

--Bem!--exclamou ella--a amante de D. José de Noronha agradece a

hospedagem, promette mesmo pagal-a da altura da sua independencia, e vai

sahir, impondo silencio ao insultador.

«--Pois saia--tornei eu--mas leve comsigo o esterco com que sujou a

minha casa!--e, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.

«Palmyra, como se um aspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera

enjaulada. D. José de Noronha tremia.

«E eu continuei, voltado contra elle:--A infamia é assim: tem esses

desmaios de covardia, que desarmam o odio, e levariam á piedade, se o

nojo não estivesse áquem da virtude da compaixão. Snr.ª D. Palmyra, aqui

tem um paladino, que a não ha-de deixar corar sem desforço diante dos

seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege ás suas ordens, se o seu pudor

lhe não permitte entrar no carro do amante. Em quanto ao snr. D. José de

Noronha, saia, e espere-a na rua.

Palmyra fugiu da sala em arremettidas de louca. D. José sahiu com o

rosto abatido sobre o peito. E eu cahi extenuado sobre uma cadeira,

cuidando morrer alli afogado de congestão de sangue no coração. D'ahi a

momentos ouvi o gritar estridente de Palmyra, e um grande reboliço no

pateo. Quiz debalde levantár-me. As pernas tremiam-me como se todos os

nervos me estivessem golpeados.

«Abaterei agora a linguagem tragica do successo para te narrar o que se

passava no pateo.

«O Tranqueira, posto de plantão, como elle dissera, não sahiu da sala de

espera, ou do proximo corredor. Momentos antes da sahida de D. José,

descera elle ao pateo. Quando o aturdido infame ia passando, sahiu

Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalhariças.

Avisinhou-se de D. José, metteu-lhe a luz á cara, e disse-lhe: «O

fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito

vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça. «Disse, depoz a

lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnête,

levou-o de borco sobre a cisterna do deposito d'agua para os cavallos, e

baldeou-o dentro, exclamando: «Ha-de ir fresco, ha-de ir fresco, seu

alfacinha!» Os outros criados ainda quizeram valer-lhe; mas Tranqueira

desfizera-se do jockey de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido

por furia, digna de melhor adversario. O desgraçado cahira de cachapuz,

e lográra logo romper com a cabeça á flôr d'agua; mas do pescoço abaixo

ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, á mingoa de

pega onde afincar as unhas. O instincto da vida vencera o da vergonha.

D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas noites, fôra para a

cavalhariça arraçoar os cavallos. Os brados chegaram aos ouvidos de

Palmyra, a tempo que o jockey se erguia do pontapé que o desintestinára,

para, muito a custo, acudir ao amo. Desceu Palmyra anciada ao pateo, no

momento em que o eleito de sua alma, na bocca da cisterna, sacudia as

bicas d'agua, e tiritava estalejando as maxillas.

«Fulminou-a o ridiculo! Só o ridiculo podia sossobrar aquella alma de

tempera, feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para

o escuro do pateo. Nem a commiseração lhe deu alentos para se aproximar

do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a covardia n'aquella hora. Odiou-se

talvez a si propria. Não sei. Avisaram-me que ella estava prostrada, e

sem sentidos, no lagêdo do pateo. Dei ordem ás criadas que a

transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa,

levando commigo o criado que me vira nascer, o unico homem diante de

quem eu podia chorar.

Amor de Salvação · 第 26 / 34 题