Affonso de Teive contava os dias, e, no ultimo dia, a hora e instantes
em que devia receber carta de Theodora. Esperou uma semana em alvoroço,
e já, ao decimo dia a mallograda esperança o atormentava. A incerteza da
recepção alliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que
elle se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher.
O mais graduado oraculo do seu conselho, D. José de Noronha,
racionalmente, opinava que a mulher, authora de taes cartas, por força
devia responder; e do silencio concluia que se transviára a resposta
enviada. Chegou a confirmação d'esta hypothese, na seguinte pergunta de
Theodora:
«Instantemente rogo que no primeiro correio, me digas se me escreveste.
Sobejam-me razões para conjectural-o. Estou em ancias. Esta incerteza
martyrisa-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua
resposta--pedida com lagrimas--para Barcellos. Calculo o dia em que ella
deve alli estar. Irei pessoalmente recebel-a. T. P.»
Lida a pergunta, Affonso abancou para responder. Posta a primeira
palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalhariça. Mandou
pençar os cavallos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de
Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas
antes da sahida do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada
fraquearam os cavallos. Affonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o
preço das novas cavalgaduras, e chegou a Barcellos duas horas primeiro
que o correio.
Quando apeou na estalagem de Barcellinhos, encostou a cabeça esvaida á
borda d'um leito, e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou elle que,
dormindo uma hora, acordára tranzido do horror de um sonho. Vira
Theodora em trajos de bacchante, revolteando umas walsas lubricas, e
atirando-se ebria, e torpe de impudicicia, aos braços d'um homem. Era um
sonho; mas, ao despertar, Affonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes
de arrependimento. A prostração era invencivel: adormeceu outra vez, e
sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou
espavorido; ergueu-se arrancando a mãos freneticas aquella imagem da
fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relogio: viu
que era ainda tempo de fugir... Diz elle que fugiria... ai! eu não creio
que elle fugisse, não! Chamára o criado para arreiar os cavallos... eis
que, ao cimo da rua sôa tropel de ferraduras, e faz-se rapida paragem á
porta da estalagem. Affonso descora, vai de encontro ás vidraças, e vê
apear a morgada.
O quarto d'elle era contiguo á sala commum. Já Affonso lhe ouvia os
passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os
cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso
espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta.
Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a sacões do peito.
Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado á mesa central da sala, e a
face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que
fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde escuro. Verde
era o véo do chapéo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido
movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos ás fontes,
afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo até
ás espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se
impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e
tirando com força pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se,
com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava.
«Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixára--me
disse elle--Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar
angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da
creança.»
Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou,
sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra
retrahido ao coração.
Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli
escripto a lapis. Desde este momento, Affonso já sabia o que esperava:
queria vêl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora
chamou o criado da hospedaria, e pediu café. O criado, ouvidas as
ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se.
Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc.ª queria
almoçar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta,
perguntou Theodora:
--Quem é que está n'aquelle quarto?
--Não sei, fidalga--respondeu o moço.
Affonso repoz-se á fechadura.
Chegou o lacaio.
--Trazes?--exclamou ella como assustada.
--Não ha, minha senhora.
--Não?!--bradou ella batendo o pé--É impossivel! É impossivel! Deve lá
estar uma carta!...
--Saberá v. exc.ª que eu li a lista primeiro, depois fui dentro
perguntar ao homem que dá as cartas--disse o lacaio, e sahiu.
--Inferno!--clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas
articulações.--Maldita eu seja, que tão aviltada me tornei!
Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos
comprimindo as fontes.
Pôz depois as mãos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao
pollex da mão esquerda, abaixou a cabeça, e meditou.
Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada,
relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento:
--Deixe ficar. Cá me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe.
N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa:
--Um passageiro pede uma chavena do café de v. exc.ª
O leitor já sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos
os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que
Theodora fez. Um _ah!_ ou dous, é o nariz de cêra para todas as
surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Adão, quando viu
Eva, devia dizer: _ah!_ A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu eu
vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos
nervosa, exclamou _ah!_ A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio
de espantos.
Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando
Affonso me disse que Theodora não expediu do seio interjeição nenhuma,
nem _ah!_, sequer.
--Pois que?!--perguntei eu com a respiração abafada--Que disse ella?!
--Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio, postas em oração; depois,
cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a
desfallecer.
--Não disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente?
--Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...--respondeu
Affonso--Asseveras-me que te estão contando factos ignorados?
--Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de
Barcellinhos?!--repliquei--Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que
toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crês que
um homem, acostumado a fazer romances, é uma especie de naturalista, que
só com um osso recompõe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha
adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos
traços que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua
pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de
theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeição.
Assim que me disseste, Affonso, que ella não desentranhou do intimo seio
um estridulo _ah!_ entendi que Theodora era mais artificial que o
proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro.
--A narrativa--redarguiu Affonso de Teive--vai perdendo a seriedade que
demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-hei que me sinto já
constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha
vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as
margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que
recordar na miseria os tempos felizes, é, pelo menos nauseabundo
recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como já agora,
inexoravel romancista, me não dispensas o remate d'este longo prologo do
capitulo final do meu livro--livro que eu chamaria _Amor de
Salvação_--concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no
rosto de meus filhos.
--Theodora--continuou Affonso--quando quiz abrir os olhos, arrancou-se
dos meus braços, exclamando:--Repelle-me, que eu sou indigna de ti.
Agora reconheço a minha miseria, agora que te vejo, ó Affonso, ó anjo da
minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da
mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!...
--Ha ahi muito estylo--interrompi--A mulher compunha! Vê-se que leu e
aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña
para as mulheres de letras. E depois?
--Eu venci o espaço que ella deixára recuando e abracei-a. N'este
movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a
na fronte...
--Gosto--atalhei--do comedimento honesto da palavra... _Osculei-a_...
sim, senhor... Assim é que um pae de oito filhos conta a historia dos
seus beijos. E ella tambem te osculou?
--Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos.
--Isso tambem é de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!--perdôa as
interrupções. De proposito as faço para te dar azo a inspirares fôlego
novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...
--Rebentou-me a bolhões do peito a eloquencia da paixão. Era uma alma
virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer
tirára uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me,
sorvendo-me as expressões nos labios, ou abafando-m'as no seio
palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance
febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvêra uma hora, segundo
a vida do tempo...
--E depois--acudi eu--começaram a tratar de assumptos circumspectos com
discreta serenidade.
--Contou-me ella que o marido, com ar de _tyranno tolo_...
--A phrase é d'ella, _tyranno tolo_?--perguntei.
--É. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre
homem, se eu não estivesse...
--Corrompido--conclui--Querias dizer isto?
--Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava
em correspondencias de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos
pavilhões dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam
prurido nas orelhas.
--Disse-t'o assim ella?--interrompi com a mais ingenua irritação.
--Disse-m'o assim, com pouca differença, mezes depois, quando eu estava
mais corrompido que ella para provocal-a ás originalidades da sua veia
sarcastica: do que me confesso em opprobrio meu. Delineamos o nosso
futuro. Foi ella quem o programmou. Iriamos para longe. Propuz Lisboa,
ou Madrid, ou Paris. Quiz Lisboa, no intento de requerer divorcio. A
fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcellos,
disfarçado, occulto, durante o dia. Á meia noite apearia a um oitavo de
legua de Tibães. Theodora estaria no seu gabinete de estudo, e as
vidraças coariam a luz da sua lampada, companheira das lucubrações
intellectuaes, insuspeitas ao marido. Referendado o programma e
rubricado com um osculo (repara, que não me descomponho) ouvi estropeada
de cavallo na rua. Momentos depois...
--Querem vêr que chega Eleuterio!--atalhei com alvoroço e alegria
parvoa, senão cruel.
--Eleuterio Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que
subiam para a sala, onde nós estavamos tranquillos como Paulo e Virginia
(perdoai-me santas almas a comparação!) nos rochedos de S. Domingos!
Agora tu, Caliope, me ensina a contar o successo estranho!... Eleuterio
viu ainda o desencadearem-se os braços de Theodora do meu pescoço.
Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.
--E Theodora? narra-me da esposa surprehendida; que fez ella?--perguntei
com inquieto empenho.
--Theodora, pendidos os braços, fitou Eleuterio com sobranceria, deu
dous passos, postou-se diante de mim, e disse, voltada para o marido:
--Que me quer? A minha alma é livre.
--Esperava outra cousa eu! Isso parece-me estupidamente immoral. É caso
novo e feio esse! E tu, que fizeste tu?
--Nada.
--Dos tres é quem andaste melhor. Parabens! E elle, o marido, que fez
depois? que respondeu á Panthasilea?
--Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podôa de
dous gumes do bolso interior da judia.
--Uma podôa! Outra novidade! E arremetteu com ella?
--Quando elle sacou do ferro, passei para a frente de Theodora.
--Desarmado?
--Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Panthasilea
virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repelliu-me com um
braço, e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do
marido.
--Novidade terceira!--acudi eu, quasi suspeitoso da logração do
conto--Tu não estás inventando, Affonso?
--É inepta a pergunta; mas perdoavel. Não invento, meu amigo. Conto
verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do
marido d'ella, punge-me devéras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e
já o rosto se lhe estava banhando em lagrimas. Desceu o braço
quebrantado por agonia mais lacerante que a ira, e fitou em mim os olhos
chammejantes. De mim, relanceou-os á mulher; e, desafogando a custo as
palavras, disse:
--Castigada te veja eu, e Deus me vingue!
--Não esperava eu que elle dissesse isso. Ha concisão e angustia suprema
n'esse appellar a Deus--reflecti eu condoido, não obstando têl-o visto,
como fica escripto, no arraial de S. Braz de Landim, annos antes, em
geito de muita felicidade, e grande frescura de animo e coração--E
continuei no meu impertinente interrogatorio, tendo em vista que o
leitor fosse bem informado:--Eleuterio, depois, sahiu, ou que fez?
--Chorou, embebeu as lagrimas no lenço, e disse: «Eu não te obriguei a
ser minha mulher. Se casaste foi por que quizeste. Se tinhas outra
inclinação, não dissesses a meu pae que me querias.»
--Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e
sinceras?--perguntei.
--Má impressão!--respondeu Affonso de Teive--pessima impressão! Desviei
involuntariamente os olhos d'ella: a razão sahiu por momentos do seu
chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleuterio, por
ultimo, rematou assim: «Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu
para a tua.» E sahiu. Theodora voltou-se para mim, atirando a pistola
sobre a mesa, e disse: «Estou livre. Aqui me tens, Affonso. Aqui está a
tua Palmyra, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do
que era, mais depurado dos instinctos maus, graças aos trabalhos que me
angustiaram a vida. Queres-me assim, Affonso?...
--Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente--interrompi eu.
--Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto:--quero-te assim:
partiremos hoje mesmo para Lisboa. «E os meus fatos, as minhas
joias?--perguntou ella--Tenho brilhantes que eram de minha
mãe.»--Deixa-os. Terás brilhantes, se elles forem precisos á tua
felicidade--«A minha felicidade!--exclamou Theodora, ajoelhando-se-me de
mãos postas--a minha felicidade é uma choça comtigo, no ermo, no
isolamento de todos os prazeres da sociedade»--Ergui-a com amor.
Tocou-me o contraste d'aquella humildade com a arrogancia da resistencia
ao marido.
--A esta procella de commoções violentas, seguiu-se um intervallo de
silencio morno, concentração por ventura dolorosa em que os nossos
olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe, e a
purissima imagem de minha prima. Theodora não sei o que via: póde ser
que estivesse lendo a pagina negra do seu destino, voltada pela mão do
Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na
embellezados; o ambiente escaldante que ella aquecia com o seu halito
coava-me lume até ás medullas dos ossos; mas o formidavel grito da moral
repercutia-me no senso intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes
ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi
já lavrada.
Theodora abriu a janella da sala e aspirou com força; encostou-se ao
peitoril, com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira.
--Em que meditas, Palmyra?--perguntei-lhe eu.
--Em minha mãe, que era virtuosa como a tua--respondeu ella.
Esta dôr nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração.
Commoveu-me aquelle dizer de _mulher_, no tom da maviosa feminilidade
que sôa tão brando e compadecedor nas almas de rija tempera, como era a
minha. Fallamos de nossas mães, e com tantas caricias de expressão
saudosa, que terminamos, beijando um do outro os olhos cheios de
lagrimas.
No mesmo dia, por volta da tarde, sahimos caminho de Lisboa.