No mesmo dia, um deputado chegado do Minho, entregou a Affonso uma carta
de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava
o filho por saber que elle procurava os passatempos da capital,
admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para
que elles se não derrancassem em flagellos da consciencia, e infamia.
Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse d'ella, e
fosse fiel á promessa de estimal-a como irmã.
O deputado bracharense era sujeito que sabia as cousas para as dizer, e
saltava a quatro pés por cima d'isto que chamam delicadeza em assumptos
de coração.
Pelo que, o expansivo deputado fallou assim a Affonso:
--Ainda me lembro de v. exc.ª, quando rapazola estudava rhetorica em
Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor, quando foi ás Ursulinas
atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no
processo instaurado.
--Não sabia--atalhou Affonso--Aproveito a opportunidade para agradecer a
v. exc.ª...
--Não tem de que. Mas, com effeito--volveu o deputado, a rir de
esperto--olhe v. exc.ª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... por que
a final a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto
de Tibães... Soube isto v. exc.ª?
--Perfeitamente. Era impossivel que eu o não soubesse...--respondeu
attentamente Affonso.
--Eu conheço Eleuterio Romão dos Santos--continuou o informador--O homem
torce as grandes orelhas que tem, por que ella tem-lhe feito dar a agua
pela barbella. V. exc.ª ha-de saber isto...
--Não sei senão que Theodora é mulher de Eleuterio.
--Então eu lhe conto. A rapariga tem figados, e ninguem o dirá vendo
aquella lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em
casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleuteria deu ao diabo a
cardada, poz-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus
quartos á moderna. O Eleuterio quiz reguingar-lhe; mas ella, ás
primeiras testilhas, fallou em divorcio, ou cousa peor ainda, que era,
pelos modos, fugir de casa, e procurar v. exc.ª O marido poz as mãos na
cabeça, quando ouviu fallar em divorcio. A fortuna alli é quasi toda de
Theodora. Se ella se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que
preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a
fazer-lhe todas as vontades á moça. Para que lhe ha-de ella dar? Imagine
lá v. exc.ª para que lhe deu na veneta?
--Eu sei cá...--disse anhelante de curiosidade Affonso.
--Fez-se doutora!... Mandou comprar dous carros de livros ao Porto;
fechou-se no seu escriptorio, que parecia uma livraria de convento, e
começou a lêr de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava
isso que pensar a Eleuterio casado á face da igreja, e dono da mulher
pelos seus justos cabaes. Passado tempo, deu-lhe outra mania: fez-se
cavalleira, e rompia a galope pelo campo de Santa Anna em Braga, a
levantar poeira que parecia um esquadrão de cavallaria! Não parou ainda
aqui o desarranjo d'aquella cabeça! Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada
de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em
correrias de douda. Uma hora viam-na em Landim, outr'ora em Santo
Thyrso, depois em Lessa de Palmeira... Que novidades lhe estou
contando!...--concluiu sorrindo o narrador.
--E do procedimento d'ella que se dizia?--atalhou Affonso, vivamente
empenhado nas revelações do chanissimo legislador.
--Do procedimento d'ella a que respeito?--perguntou o deputado, com
suspeitoso sorriso.
--Amantes, quero dizer se a opinião publica lhe dava amantes.
--Eu lhe digo: quando v. exc.ª estava em Lessa com sua mãe, e a morgada
lá foi com o marido, alguem disse que o marido era um simplorio. Ora
isto parece-me que alguma cousa queria dizer...
O deputado espirrou uma risada de finura velhaca, e ajuntou:
--Depois, quando v. exc.ª esteve em Ruivães uma temporada, e Theodora
sahia para aquelles lados, já todo o bicho careta dizia que o adulterio
estava provado por todos os artigos do codigo, e por mais alguns que
esqueceram aos corpos legisladores.
Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de
agudeza muito mais faceta. Affonso sorriu-se, e deixou-o esvasiar a
pojadura da verbosidade chula.
--Não se falla por lá de mais ninguem que eu saiba--tornou o
deputado--Mas o marido! aquelle palerma, que lhe não vai á mão, e a
deixa andar em filistrias de cavallo e lacaio, faz-me pena, sinceramente
lh'o digo, por que houve alguem que me affirmou que a mulher, quando
está fechada na livraria, não o admitte á sua presença, e até me
disseram que ella passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo:
aquelle marido está n'uma posição critica, matrimonialmente fallando.
Parece-lhe isso, snr. Affonso?
Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha idéa occulta, a meu
vêr, inconciliavel com o comedimento desejavel n'uma pessoa grave... de
mais a mais deputado a côrtes!
--E como está ella?--perguntou Affonso--Ainda é bonita?
--Agora é que ella está completa. Encheu muito de hombros, e tudo á
proporção. Está muito alta, e esvelta, que parece ingleza. E o garbo com
que ella sacode um cavallo... V. exc.ª está a mangar commigo?--perguntou
de subito o deputado, após um instante de reflexivo silencio?
--Se estou a mangar com v. exc.ª?! que pergunta!
--Sim! pois o snr. Affonso vem-me perguntar a mim se ella está bonita?!
Quem sabe melhor que v. exc.ª como ella está?!... Ora, meu amigo, vá
contar essas historias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!
--Dou-lhe palavra de honra--redarguiu Affonso--que a minha pergunta foi
sincera. Eu vi Theodora; mas tão de relance, que não pude reparar-lhe
nas feições.
--A sua palavra de honra tem para mim o peso d'um Evangelho,--tornou
gravemente o cavalheiro de Braga.--Pois, senhor, o mundo está enganado.
A voz geral dá v. exc.ª como amante de Theodora. Eu não me atrevia a
dizer-lh'o tanto ás escancaras; porém, chegadas as cousas a este ponto,
fique sabendo que ninguem acredita na sua innocencia, excepto o
Eleuterio, que é muito bom homem.
É escusado dizer que o individuo riu de novo, esfregou as mãos, e
exclamou abruptamente aguilhoado pelo instincto oratorio:
--Ainda ha quem case! Ainda ha victimas que espontaneamente se offereçam
no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguem póde
sinceramente dizer que conhece seu pae. Os assentos dos baptismos estão
todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos,
vai ser tirado do cathecismo. Vem ahi um tempo em que o artigo da lei
santa ha-de ser assim reformado: «Não desejarás a tua mulher para não
incommodar os direitos do proximo!» Onde irá isto assim parar, snr.
Affonso de Teive?
O deputado entre serio e risonho, prolongou por tres quartos de hora, em
estylo declamativo, um aranzel de lugares-communs, entremeado de
pilherias, com referencia á degeneração da sociedade, no capitulo
casamento. Affonso achava picante de grosso sal a iracundia comica do
legislador, e estimulava-lhe a veia. A final o deputado, contente de si,
foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser elle o predestinado
para levantar voz no parlamento decretando a moralisação das familias.
Affonso ficou pensativo. As revelações lisongeavam-no. O odioso do
caracter de Theodora desvaneceu-lh'o a impressão já magestosa, já
condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraçada!--dizia elle
comsigo--Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime
das creaturas!
E, trabalhado por esta idéa que pertinazmente lhe martellou no animo,
Affonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã
d'aquelle dia. Queria relêl-a, mettêl-a a beijos na retentiva do
coração!
Á noite foi ao theatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de
Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os
acommettimentos de Theodora. D. José mostrava-se já enfastiado da
imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em
todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou
obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem
fosse.
N'esta mesma noite, o moço, vencido a final pela irresistivel
necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada
carta. Principiava nas recordações da infancia de ambos: devia de ser
alta e amoravel poesia, como o coração a trasborda, se d'um ponto negro
da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no
pelago da luz, que mais não ha-de raiar em nossos dias. Tristeza mais
que todas magoativa!
Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena
florescencia, com os seus desejos balbuciados em phrases todas alma e
enleio, dulcissima linguagem, que era ainda a das chimeras pueris, mal
desvanecidas no trajecto da infancia á adolescencia. Poesia ainda, flôr
sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar
em lagrimas, d'onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe
ha-de extirpar a raiz.
Seguia-se o recordar as dôres atrozes do abandono d'ella, quando o moço
em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirára aos braços da morte,
aceitando o inferno, se o lembrar-se o condemnado da mulher que amou na
terra, não era lá o maximo tormento.
A final, após os queixumes, subia-lhe do coração aos olhos n'uma lagrima
o perdão. Perdão e amor: que não ha ahi, em alma humana, perdoar
ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas
esquecer é desprezo, não é perdão.
Escripta e fechada a carta, sobreesteve Affonso no remettêl-a. Acaso
iria ella, sem desvio, ás mãos de Theodora? As injustas suspeitas não
poderiam ter Eleuterio de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligações
de estima, iria Affonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e
sustentaria alli o cortejo á mulher casada?
Estes quesitos fallavam á razão; porém, a pobresinha da razão, estava já
escondida na consciencia, e a consciencia ensurdecera com a guisalhada
do baile carnavalesco em que seu dono a mandára estudar os costumes do
seu tempo.
Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ella chegou ao
correio: estava alli o marido de Theodora vendendo cereaes. Foi á lista
postal vêr se seu pae tinha carta de parentes do Brazil; e, como não se
entendia bem com os nomes maiores de tres syllabas, pediu que lhe lessem
a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a _Theodora Palmyra
Villar de Sousa_, exclamou Eleuterio:
--É a minha mulher! Ha-de ser carta do livreiro.
Convem saber que a morgada se entendia directamente com os seus
livreiros fornecedores.
Eleuterio foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afóra o lustre do
sobre-escripto, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a
marca de Lisboa.
Não me atrevo a compôr o soliloquio de Eleuterio Romão. Sei que elle
andava com a carta ás voltas, entre mãos, e ás vezes esfregava entre
dous dedos o papel, como se pelo tacto podesse inferir do contheudo.
Estava com elle o regedor da sua freguezia, o mesmo que lêra a lista, e
lhe lia na alma agora.
--Que estás a malucar, Eleuterio?--disse elle--A modo que essa carta te
deu no gôto!...
--A fallar a verdade--respondeu o marido de Theodora--esta letra não na
conheço, nem estas armas reaes!... Minha mulher não conhece ninguem em
Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.
--É como diz: _Lisboa_, sem tirar nem pôr. E então?... achas que ella...
--Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?
--Eu cá, se fosse commigo, já a carta estava aberta. Mulher minha a ter
cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda!
Palavras mal eram ditas, que Eleuterio quebrou o lacre, e passou a carta
ao regedor, dizendo:
--Lê lá... ella é tamanha! parece uma sentença!... Vamos vêr isso, que
eu já me não sinto escorreito.
O regedor tomou o manuscripto de oito paginas entre as mãos, poz-se em
attitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou folego, deu
crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: «D'onde vem esta
celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o céo me bafejava a
infancia, e as delicias todas da existencia me eram prenunciadas nos
sonhos?...»
O regedor revirou os olhos pasmados a Eleuterio, e disse:
--Tu percebeste isto, compadre?
--Assim me Deus salve, que não percebi palavra,--respondeu Eleuterio
Romão esbugalhando os olhos sobre a escripta cabalistica.
--Portuguez acho que é!--tornou o regedor, consultando a opinião do
compadre.
--Isso é, lá portuguez é... Ora torna a dizer.
O leitor repetiu, e disse:
--Falla aqui em _alma_, e _sonhos_, e _delicias_. Sabes que mais? Isto,
seja lá o que fôr, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdôe, ha
maroteira d'aquella casta!... Deixa-me vêr mais um bocado a vêr se pesco
alguma cousa. E, continuando, leu:
«Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma!
volvei, volvei, orvalhai a flôr requeimada, dai uma lufada de primavera
ao meu coração regelado pelos frios d'esta infinda noite... Oh minhas
donosissimas chimeras!...»
--E agora entendeste?--voltou o regedor--eu estou como a Felicia
d'Abrantes, peor que d'antes. Isto se não é latim, é o diabo por elle!
--Queres tu que se pergunte a alguem!?--acudiu Eleuterio--A gente ha-de
achar quem lhe explique isto cá em Braga... Falla-se ahi a um padre que
eu conheço, ao capellão das Ursulinas.
--Dizes bem... Tu não has-de ir para casa sem tirar isto a limpo...
Queres tu vêr que ahi vem o homem que nos explica o negocio?--perguntou
o magistrado administrativo--É meu compadre Fernão de Fonte Boa.
Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser lá o seu
morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço d'elle,
com doentio aspecto.
O regedor descobriu de longe a cabeça, e sahiu ao encontro de Fernão,
que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.
--Que é feito de ti, compadre, que te não vejo ha cem annos?--disse o
velho--Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em
fabricar deputados, e comer os salpicões dos recrutas passados pela
malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o
posto de capitão-mór, que geito para comer os saudosos lombos tens tu.
Então que é feito, rapaz? quem é aquell'outro? Se me não engano, é o
Eleuterio do Romão.
--Para servir a v. exc.ª--disse Eleuterio com tres mesuras de cabeça
exageradas--Sou eu para servir a v. exc.ª
Fernão inclinou um olhar ironico sobre o hombro da filha, e disse com um
mal represo frouxo de riso:
--Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.
Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com
gesto de notavel commoção.
E o regedor tirando a carta da algibeira, disse:
--Eu queria consultar o meu excellentissimo compadre a troco d'uma carta
que nem eu nem meu compadre Eleuterio entendemos. A gente, como o outro
que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso é
este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'rá mulher. Teve lá
seus arrepios, e abriu-a. Começamos a lêr, mas nem p'ra traz nem p'ra
diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas nós não sabemos o
que ellas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de lêr isto...
Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando
sentiu extraordinario peso no braço esquerdo, olhou em sobresalto, e viu
Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ella,
expedindo uns agudos soluços, quiz em vão pendurar-se do pescoço do pae.
Tomou-a o velho nos braços com tremente anciedade, e transportou-a para
dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.
O regedor e Eleuterio seguiram Fernão, afflictos do successo. Na mão do
regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do
accidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repellão
intuitivo, sem ainda o comprehender.
Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela
luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de
arremesso o papel ao chão, e disse:
--Deixem-me... não sei o que é... Vão-se embora...
Os homens iam sahir, quando elle os chamou com phrenesi, pediu a carta,
e desfêl-a em pedacinhos, exclamando:
--Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.
Eleuterio estava assombrado, e o compadre abria e fechava a bocca em
signal do seu espanto e compaixão. Em boa fé, o regedor acreditou
atacado de demencia o velho, ao vêr a filha em trances de morte.
Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razão do caso, bem que
Eleuterio ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.
Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pae, e
murmurou mui carinhosa:
--Perdôe-me, por quem é! Perdôe esta fraqueza da sua infeliz filha!
--Pobre anjo--balbuciou o velho--Que has-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te
aquelle desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas
mãos. Precisavas d'isto, para em fim te convenceres.
Mafalda pediu ao pae que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou
ao altar do Senhor dos afflictos, chorou, e viu as lagrimas do velho
ajoelhado á beira de ella. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:
--Estou melhor, meu pae. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem
mesmo aos culpados... Tambem orei pelo primo Affonso.
--Eu não orei--disse o pae--mas rasguei o documento de sua infamia.