Depois da morte do general Eudes, e, ainda mais, depois da scisão que se
deu no partido blanquista, por causa do boulangismo, ficou sendo Eduardo
Vaillant o chefe incontestado do partido communista revolucionario, que
preconisa o emprego da acção, da força, da propaganda pelo facto, para
conquistar o poder e fazer cessar as iniquidades sociaes.
Sob a sua iniciativa, porém, a concepção do velho Blanqui parece haver
passado por uma especie de transformação. O movimento insurrecional de
1871, deixára no espirito de Vaillant uma impressão profunda e
inextinguivel.
Vaillant não limita o seu communismo ás forças productoras e a
repartição dos productos, segundo as necessidades de cada um, vae até á
organisação da communa de Paris, como primeiro passo para o
estabelecimento da nova ordem social.
Na sua profissão de fé, encontra-se esta ideia, profundamente accentuada:
«É mister dar ao paiz, emancipado da tyrannia administrativa, policial e
judiciaria, como elemento do seu organismo politico, a organisação
communal e cantonal, dando a Paris a liberdade communal, e fazendo-a
entrar no direito commum, pelo restabelecimento da _Communa de Paris_.»
Mais adeante pede, «que a communa seja senhora da sua administração, das
suas finanças, e da sua policia.»
[Gravura: Eduardo Vaillant]
A vida politica de Vaillant, começou no anno terrivel. Regressando da
Allemanha, por occasião da declaração de guerra, fez parte da communa,
refugiando-se depois em Inglaterra.
A amnistia trouxe-o novamente a França, em 1880.
Ao lado de Blanqui que os eleitores de Lyon e Bordeaux haviam arrancado
á prisão, Vaillant prosegue na sua obra revolucionaria, organisando o
comité central revolucionario e sendo um dos fundadores do jornal--_Ni
Dieu ni Maitre_, que pouco tempo poude resistir ás forças combinadas da
policia e da reacção.
Foi eleito conselheiro municipal em 1887, 1890 e 1893, e é hoje um dos
deputados socialistas de Paris.
Foi elle o auctor de um importantissimo projecto de lei apresentado
ultimamente, em nome do partido socialista, á camara dos deputados
sobre _a suppressão do exercito permanente e a sua transformação
progressiva em milicias nacionaes_.
_Artigo primeiro._--É supprimido o exercito permanente.
«Esta suppressão far-se-ha pela transformação immediata e rapida do
exercito permanente em milicias nacionaes, de modo que o poder defensivo
da nação, longe de diminuir, pelo contrario se eleve e augmente, até ao
ponto de poder pôr em acção integralmente todas as suas forças. A defeza
do paiz e da Republica, da sua independencia e das suas liberdades,
tornar-se-hia, assim, invencivel.»
É a renovação do projecto de Blanqui e de Gambon.
«A Republica franceza, pela transformação democratica das suas
instituições militares, deve pôr-se ao abrigo de todos os perigos de
guerra ou de invasão, e de toda a ameaça de intervenção ou influencia de
qualquer inimigo estrangeiro. Para esse fim, devem ser educadas,
exercidas e organisadas todas as suas forças, e aproveitados todos os
cidadãos validos.»
O desarmamento só poderá realisar-se, em virtude de um accôrdo, feito e
acceite pelas differentes potencias. Não se concebe que uma nação
desarme, ficando á mercê de nações inimigas e armadas. Seria um
contrasenso e uma leviandade sem nome.
O notavel criminalista italiano, N. Colajanni, termina o capitulo da
guerra e do militarismo, da sua _Sociologia criminale_, pelas seguintes,
conceituosas palavras:
«Em resumo: a guerra e o militarismo engendram o desgosto de todo o
trabalho util; favorecem a tendencia para a preguiça; despertam no
soldado novas necessidades, sem os meios necessarios para as satisfazer;
excitam os primitivos instinctos, ferozes e egoistas, transformam o
respeito do direito em respeito exaltado pela força bruta; conduzem ao
servilismo e á prepotencia; e, por vias directas e indirectas, levam á
miseria, ao suicidio, á alienação mental e ao crime.--Taes são os
tristes resultados d'estas instituições sinistras, deduzidos das provas
historicas e estatisticas.
N'uma palavra--conclue o illustre e honrado socialista--«_o militarismo
constitue a verdadeira escola do crime._»
O eminente escriptor e philosopho russo, Léon Tolstoi, é de opinião que
a principal origem da guerra deriva da actual ordem social, baseada
sobre a violencia. A organisação militar dos estados modernos está toda
concentrada nas mãos dos governos, que não desejam perder o monopolio,
servindo-se para isso de meios poderosos, taes como o _terrorismo_, o
_egoismo_, a _disciplina militar_, etc.
A guerra, apesar de iniqua, não poderá nunca ser destruida, senão pela
educação, generalisada a todos os paizes. Quando a maioria dos povos
reconhecer que a guerra é injusta, n'esse dia cessará a guerra. Esta
revolta do direito e da justiça contra a força e a violencia, está
certamente destinada a fazer algumas victimas; mas, como todas as idéas
nobres e generosas, penetrará, pouco a pouco, nas consciencias e acabará
por triumphar.
Em Paris, publicou-se recentemente um livro interessantissimo de A.
Hamon, o sabio socialista, sobre a _psychologia do militar de
profissão_, que não podemos deixar de mencionar n'este logar, por ser de
uma actualidade palpitante.
O dr. Hamon parte do principio de que a criminalidade legal é infima,
quasi inapercebivel, relativamente á criminalidade occulta.
O fim da profissão militar é a guerra, e toda a guerra implica
necessariamente a violencia, manifestando-se por assassinatos,
violações, pilhagens e incendios.
Os individuos que escolhem esta profissão, fazem-n'o levados pelo seu
interesse pessoal. Taes individuos sentem-se predispostos para a
violencia pela sua organisação psychica, resultante do seu organismo
physiologico, pelo meio em que vivem e pela sua educação profissional.
O livro de A. Hamon é a justificação da _Delenda Caserna_ do capitão
Siccardi. Estabelece a superioridade moral dos exercitos nacionaes sobre
os exercitos profissionaes. Nos primeiros encontra-se maior respeito
pela dignidade humana, e isto basta para que se não registem os actos de
grosseria, de brutalidade e de violencia, que se registam ordinariamente
nos segundos.
«O militarismo é a escola do crime!»--tal é a conclusão a que chega
Hamon no seu bello estudo de psychologia social.
Quando é, porém, que os povos poderão celebrar, no mundo, o supremo
beneficio da paz, do amor e da concordia?!
Quando é que o homem se libertará, por completo, dos velhos prejuizos
selvagens e das antigas e barbaras tradições?
Quando soará a hora da completa maioridade e da completa emancipação?
A humanidade caminha,--lentamente, é certo!--mas caminha...
Confiemos no futuro!
V