A GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM

A federação dos povos tornará a guerra impossivel. Mas, emquanto a

federação se não realisa, urge estabelecer a arbitragem internacional,

como meio pacificador. Está ainda na memoria de todos a decisão que o

tribunal de arbitragem, constituido pelo tratado de Washington, deu

ácerca das reclamações do Alabama. O conflicto levantado entre os

Estados Unidos e a Inglaterra foi assim regulado de uma maneira

pacifica. O governo inglez acatou a sentença, sendo obrigado a pagar ao

governo americano uma indemnisação de 75 milhões de francos.

Ora, se a questão do Alabama poude assim ser resolvida, sem derramamento

de sangue, porque não hão de resolver-se, pelo mesmo processo, todas as

questões internacionaes?

Sob o ponto de vista juridico e sob o ponto de vista politico, é pois,

evidente a necessidade da arbitragem: sob o ponto de vista juridico,

porque, sem um systema de arbitragem, o direito das gentes é um edificio

incompleto; sob o ponto de vista politico, porque a situação actual

exige manifestamente uma solução.

Mas os systemas é que variam; havendo uns que advogam a jurisdicção

internacional facultativa, outros que defendem a creação de tribunaes

internacionaes especiaes, outros ainda que são por um tribunal

internacional geral desprovido de sancção, e os ultimos que acceitam o

tribunal internacional geral, mas com sancção.

[Gravura: Emile de Laveleye]

Poderá, porém, realisar-se a arbitragem internacional, independentemente

da ideia de federação?

Opinam uns pela affirmativa, sendo outros de opinião que só, pela

constituição dos Estados Unidos da Europa, poderemos chegar á realisação

effectiva e immediata da arbitragem.

O sabio professor, Emile de Laveleye publicou, em 1873, um interessante

estudo, sobre as causas actuaes da guerra na Europa, concluindo pelo

estabelecimento de um tribunal internacional. Dois eram os meios

aconselhados pelo eminente publicista, para acabar com o flagello da

guerra: em primeiro logar, mostrando aos povos e convencendo-os, que, em

nenhum caso, teriam a ganhar com a guerra, e, em seguida,

realisando duas grandes reformas juridicas: a elaboração de um codigo

internacional e a creação de um tribunal para o applicar. Este tribunal

seria permanente, reunindo-se todas as vezes que se levantasse um

conflicto internacional, tendo a sua séde na capital de um paiz

neutro--a Suissa ou a Belgica--e sendo composto dos representantes

diplomaticos das potencias, coadjuvados por juristas versados na

sciencia do direito das gentes.

Laveleye era um apostolo da ideia federativa, e propunha este alvitre,

por o considerar de mais facil acceitação por parte dos governos actuaes.

Para aquelles que admittem o principio federalista, o tribunal

internacional não deve ser senão um dos orgãos do futuro estado

juridico. Quatro são as instituições, essenciaes a este systema: uma

convenção federativa, que garantisse ás nações associadas a soberania e

a autonomia de cada uma; uma lei, livremente votada por todas essas

nações, e pela qual seriam julgados todos os conflictos, litigios e

difficuldades que se levantassem entre ellas; um tribunal, com membros

eleitos por estas mesmas nações, que pronunciasse a sentença em ultimo

recurso sobre as questões que lhe fossem submettidas; e um poder

executivo, tambem livremente eleito por todas as nações, encarregado de

assegurar a execução da lei e as determinações do tribunal. Os

partidarios d'esta doutrina não visam sómente, por este systema, a

aperfeiçoar o direito internacional ou a estabelecer uma jurisdicção

internacional obrigatoria; vão mais alêm e chegam a um resultado

final pela creação dos Estados Unidos da Europa.

A guerra é um crime, condemnado pela moral, pelo direito e pela

philosophia social.

A sciencia e o trabalho exigem o seu desapparecimento immediato.

Como?

Pela arbitragem internacional e pela federação. Entre estados

confederados, a solução impor-se-hia sem difficuldade. Na espectativa

porém, e, em caso de guerra, é dever appellar para a arbitragem, sempre

que o permittam as circumstancias especiaes dos paizes, cujos interesses

se degladiam.

«Ou o desarmamento ou a ruina!»

--É este o dilemma que se levanta, sinistro e ameaçador, ante as

potencias da Europa, cada dia mais sobrecarregadas com a contribuição de

guerra.

Se tal estado continua por mais dez annos, os receios de guerra haverão

desapparecido, dizia Liebknecht e muito bem; o resultado será, então, a

ruina geral, e, como consequencia ainda, a revolução social triumphante

e generalisada a todos os paizes.

Bem sabemos nós que a arbitragem internacional ha de triumphar e ha de

estabalecer-se no mundo, como uma consequencia logica da federação. Mas,

emquanto o actual estado de cousas subsistir, não seria demais que as

nações submettessem as suas contendas a um tribunal arbitral, imitando,

d'este modo, a Inglaterra e os Estados Unidos da America, na questão

Alabama.

Isto seria possivel, e isto seria, principalmente, humanitario.

O espirito moderno detesta a guerra. Só o trabalho liberta. Só a paz

emancipa. Convertamos os exercitos da destruição em exercitos da

producção e da abundancia.

* * * * *

O Primeiro de Maio · 第 72 / 101 题