«A guerra é um facto barbaro, e os exercitos são instituições barbaras,
disse-o Victor Considérant. O principal dogma da republica
democratica--_Liberdade, Egualdade, Fraternidade_--constitue, com a
guerra e os exercitos, uma triplice contradicção. O progresso nos povos
deve contribuir para o desapparecimento da guerra, transformando os
exercitos _destructores_ em exercitos _productores_.»
Herbert Spencer, no fim do terceiro volume dos seus _Principios de
Sociologia_, resume do seguinte modo o seu profundissimo estudo sobre as
instituições politicas:
«A possibilidade de um estado social superior, tanto em politica, como
em geral, depende de um facto fundamental: a cessação da guerra. Tal é a
conclusão mais importante a que chegam todas as partes do nosso
trabalho. Depois de tudo o que dissémos, é inutil insistir ainda sobre
os effeitos da persistencia do militarismo, o qual, conservando as
instituições adaptadas ás suas necessidades, impede ou neutralisa a
transformação d'essas instituições ou d'essas leis n'um sentido mais
equitativo, ao passo que a paz permanente ha de ser seguida
necessariamente por melhoramentos sociaes de toda a especie.
«A guerra deu tudo o que podia dar. A occupação da terra pelas raças
mais poderosas e intelligentes é um beneficio, já realisado em grande
parte; o que está por conquistar não reclama senão uma cousa: a pressão
crescente que exerce uma civilisação industrial sobre uma barbarie que
recúa. A integração que fusiona grupos simples em grupos compostos, como
resultado de um estado de guerra, e que conduz no fim de certo tempo á
formação das grandes nacionalidades, é uma operação que parece ter
tocado o seu termo. Os imperios formados de povos estranhos uns aos
outros, desmembram-se ordinariamente, quando desapparece a força
coerciva que os mantinha. E, ainda quando mesmo ficassem unidos, não
poderiam jámais constituir um todo harmonioso. Uma _federação pacifica_
é o unico processo de _consolidação_ que se póde prevêr.»
Tal é a opinião do grande philosopho. Para elle a paz é o fundamento da
moral.
Era esta tambem a opinião de Kant que consagrou a moral como a base de
toda a politica. Em sua opinião, todo o direito civil, politico ou
internacional constitue uma ligação entre duas vontades, e baseia-se no
respeito reciproco das liberdades. Quer se trate de dois povos, quer de
duas pessoas, o estado de guerra significa estado de natureza, e é
um dever sahir d'elle. Sob o ponto de vista da rasão, não ha senão
um meio de tirar os Estados da situação violenta em que se encontram,
renunciando á liberdade anarchica dos selvagens, e submettendo-os ao
imperio de leis mais liberaes, afim de formar assim um Estado de nações
(_civitas gentium_) que possa augmentar insensivelmente, até abraçar,
pouco a pouco, todos os povos da terra.
Será chimerico este ideal de paz? Não, responde Kant, por isso que é
obrigatorio.
E que terá de realisar-se, prova-o não só o inevitavel progresso do
direito, senão tambem o progresso dos interesses.
Os interesses economicos deverão tornar a guerra impossivel. A natureza
garante a paz, pelo simples equilibrio das paixões humanas.
A federação dos povos não será só o desarmamento dos reis e imperadores;
será tambem o aniquilamento da guerra.
No dia em que todos os cidadãos souberem conciliar, no seu coração, a
idéa de patria e a idéa de humanidade, n'esse dia a paz pela federação
haverá triumphado definitivamente no mundo.
O que torna os povos inimigos uns dos outros, é o sentimento de
nacionalidade, levado até á barbarie. Mas o homem moderno é
essencialmente cosmopolita. O amor pela patria não exclue o amor da
humanidade. Ao contrario, estes dois sentimentos completam-se e
identificam-se, num mesmo ideal e n'uma mesma aspiração de progresso. Da
comprehensão d'este principio deriva, a nosso ver, toda a moderna
philosophia social.
Dir-nos-hão, talvez, que não somos patriotas. A esta accusação responde
Alfredo Naquet, o grande e glorioso pensador, n'uma soberba carta que
nos dirigiu, a proposito da _Federação Iberica_:
[Gravura: Alfredo Naquet]
«Não! se o patriotismo é feito de um espirito estreito e sectario, e á
custa do odio dos outros povos e de aspirações militares--eu não sou
patriota.
«Mas se o patriotismo consiste em amar profundamente o paiz onde
nascemos, e onde exercemos a nossa actividade, n'esse caso sou patriota.
«Amo apaixonadamente a França. Amo-a porque foi no seu espirito que
moldei o meu cerebro, e porque as minhas aspirações, os meus
sentimentos, e os meus instinctos, n'ella se desenvolveram; amo-a porque
ella constitue um factor indispensavel do grande trabalho humano; e,
mesmo por cosmopolitismo, teria ainda de ser patriota. Amo-a bastante
para tudo sacrificar por ella e pela sua defesa no dia em que fosse
necessario--a minha fortuna, a minha liberdade e a minha vida.
«Mas estou convencido que a patria europeia será tão superior ás
patrias de hoje, como a França o é á Borgonha, a Hespanha á Andaluzia, e
o Reino-Unido á Inglaterra ou á Escocia.
«E, no dia em que fôr possivel substituir a patria nova ás antigas
patrias, sem prejuizo do amor e das homenagens que estas nos merecem,
n'esse dia, entre o que foi grande e o que deverá ser ainda maior, a
minha escolha far-se-ha sem hesitação.
«Não tenho a esperança de assistir a esse espectaculo radioso. É
provavel, quem sabe? que eu morra francez, pensando quasi
exclusivamente, além das minhas meditações philosophicas, na defesa, na
grandeza e na prosperidade d'este bello e nobre paiz. Mas invejo
aquelles que tiverem de assistir á creação dos Estados-Unidos da Europa.»
E pensam assim todos os grandes pensadores modernos. No estabelecimento
de uma _Federação occidental_, baseava Littré toda a politica do futuro.
Emile de Laveleye conclue o seu bello livro _La Démocratie_, pela
apologia de uma _federação fraternal_. Federalista foi Garibaldi, que
presidiu, em 1867, ao primeiro congresso da _Liga Internacional da paz e
da liberdade_; federalista foi Mazzini; federalista foi Victor Hugo. São
federalistas todas as sociedades de paz, que, presentemente, existem e
funccionam. Em Italia, como em Hespanha e Portugal, o federalismo ganha
terreno de dia para dia. O proprio sr. Crispi, actual presidente de
conselho de ministros, declarava, n'um dos seus ultimos discursos que
era para a federação que os povos caminhavam. Em França, são muitos os
partidarios da federação. Citemos, principalmente, dois--um por ser
o representante destas idéas no parlamento, e outro por ser, na
imprensa, o seu glorioso interprete. Refiro-me a René Goblet e a Augusto
Vacquerie.
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