Durante muito tempo, foi grande e profunda a inimisade entre
cooperativistas e socialistas, se bem que o principio da cooperação
tenha uma origem caracterisadamente socialista, tendo sido, como já
dissemos, Robert Owen o seu primeiro apostolo. A elle se devem as
primeiras tentativas de cooperação; foi elle quem inventou a palavra e
quem propagou a theoria. Robert Owen, o inventor e o apostolo das
_sociedades cooperativas_--escrevia d'Assaily que para todos deve ser
insuspeito, pela sua tendencia conservadora e retrograda--pretendeu
realisal-as n'um estabelecimento, onde o trabalho collectivo abraçasse,
ao mesmo tempo, a agricultura e a industria; onde o espirito tivesse,
como o corpo, a sua parte de legitima satisfação; onde o trabalho fosse
voluntario; onde não fosse punida a minima infracção; onde não fossem
obrigatorias quaesquer privações, e onde o respeito dos direitos fosse o
resultado d'um mutuo interesse.»
A idéa de Robert Owen era demasiadamente idealista e synthetica para o
proletariado da Inglaterra. Mas, pratico como é, o operario inglez
descobriu-lhe logo o lado util, e assim nasceram as cooperativas de
consumo, que, após algumas tentativas, chegaram a ter um resultado
brilhante nos _Pionniers de Rochdale_.
Só é efficaz a cooperativa de consumo; a de producção é impotente para
luctar com outras emprezas congeneres, attenta a difficuldade em obter o
capital que é, por via de regra, superior ás forças operarias; e a de
credito, por seu turno, tropeça praticamente com embaraços e obstaculos
insuperaveis.
Devemos, porém, repetir, com Malon, que todas as fórmas cooperativas
servem, em geral, para preparar a educação administrativa do
proletariado, tornando-o mais apto para as reivindicações de ordem
politica e social.
Os socialistas fazem mal, rebaixando e combatendo as tentativas
cooperativistas. Do mesmo modo que a iniciativa individual só por si
seria impotente, assim tambem a acção dos poderes publicos não poderá
ser nunca verdadeiramente benefica, se não fôr secundada pelos esforços
collectivos de um proletariado já familiarisado com as difficuldades
administrativas das organisações politicas e economicas.
Sob este ponto de vista, a cooperação, verdadeira escola de pratica
industrial e commercial, desembaraçando-se pouco a pouco do primeiro
exclusivismo, é uma excellente preparação para as reformas sociaes, que
o proletariado terá um dia de arrancar aos poderes publicos.
N'uma palavra, cooperadores e socialistas são militantes na mesma obra
de renovação e de justiça. Os trabalhos de uns e as luctas dos outros
completam-se mutuamente, e a sua união apressaria o dia, por todos
desejado, da emancipação humana.
Associamos-nos pois, de todo o coração ao generoso appêlo dirigido aos
socialistas por Louis Bertrand, que é, ao mesmo tempo, um dos primeiros
vulgarisadores do collectivismo e um cooperador pratico.
«Á obra pois, companheiros, á obra! Não esqueçais nunca que qualquer
nova sociedade cooperativa é um passo a mais para a sociedade do futuro,
a sociedade que sonhamos, feita de justiça e de solidariedade, e na
qual todos encontrarão o seu bem-estar em troca de um trabalho facil e
remunerador.
«Mas não olvideis, sobretudo, que o fim a attingir não se limita a
beneficiar ou a fazer beneficiar os operarios de alguns francos por
semana ou por mez, e que é preciso ter sempre em vista o fim supremo: a
libertação completa da classe operaria pela suppressão do salariado e
pela applicação das doutrinas socialistas.»[4]
[Gravura: Louis Bertrand]
Na cooperação belga destacam-se cinco grandes realisações, porventura as
primeiras e as mais solidas realisações do principio cooperativista: a
sociedade do _Vooruit (àvante)_, de Gand; o _Progrés_, de
Jolimont-La-Louvrière; a _Maison du Peuple_, de Bruxellas; o _Werker_,
d'Anvers; e a _Populaire_, de Liége.
A mais importante, o _Vooruit_, possue uma padaria, officinas de
calçado, de vestuario, de quinquilheria, _armazens_ de carvão e um
café restaurante onde é prohibida a venda de bebidas alcoolicas. O
_Vooruit_ possue tambem uma caixa de soccorros, sendo os doentes curados
gratuitamente. O jornal que se intitula _Vooruit_ tira por dia 10:000
exemplares. A sociedade _Vooruit_ tem 40 administradores e 150
empregados, e fazem negocios 2.500.000 francos por anno. O centro de
estudos, as camaras syndicaes, as sociedades de musica e de gymnastica,
constituem outras tantas secções da cooperativa que tem servido de
modelo a todas as outras cooperativas belgas.
[Gravura: Anseele]
Anseele é o gerente do _Vooruit_, como Jean Volders é o gerente da
_Maison du Peuple_. A elles se deve uma parte da propaganda socialista
da Belgica, porque as cooperativas, n'aquelle paiz, apresentam uma
feição eminentemente revolucionaria e constituem, para o proletariado,
uma formidavel arma de combate. Quantas _grèves_ não teem sido
sustentadas com o pão e o carvão distribuido pelas cooperativas?! É que
os belgas fizeram das cooperativas de consumo, ao mesmo tempo, um
elemento de interesse pessoal, de resistencia politica e de propaganda
socialista. Os dividendos a distribuir a cada associado constituem o
fundo social do partido. E d'este modo, tão digno de ser imitado,
organisaram os socialistas belgas o mais poderoso e valente exercito que
temos visto e admirado, o grande e honrado exercito da sciencia e do
trabalho, o invencivel exercito do povo, o exercito do futuro!
[Gravura: Jean Volders]
Os cinco grupos, acima referidos, não comprehendem, ainda assim, todo o
movimento cooperativo belga, que, em 1889, havia attingido os algarismos
seguintes: