_Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,_
_Elle en allume une autre á l'eternel flambeau_
LISBOA
TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
1894
Á MEMORIA
DO
MEU QUERIDO MESTRE
E
SAUDOSISSIMO AMIGO
BENOIT MALON
_Lisboa, 2 de dezembro de 1893._
_Magalhães Lima._
_SOLEMNIA VERBA..._
Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Cipriani
havia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na _gare de S. Lazare_!»
Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de
Asnières. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para
melhor dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um
terceiro andar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos,
afastou docemente o lenço branco que lhe encobria o rosto, e
estendeu-nos a mão com carinho e alvoroço, abraçando-nos e beijando-nos,
ao mesmo tempo.
A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o
aspecto doentio, morbido, de quem, havia muito, não dormira ou se achara
dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno, illuminado por
uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho, alguns
jornaes, dobrados uns, abertos outros--_Le Rappel_, _La Petite
Republique Française_, _La Justice_... A atmosphera estava impregnada
d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. A um
lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos,
uma pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura
luminosa, transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a
enfermeira querida e dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional
perseverança de atravessar os seis longos mezes da doença, passando as
noites em vigilia, ao lado do enfermo, sem se deitar...
--É uma heroina!--disse-me Amilcare Cipriani.
E era-o, com effeito.
Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente gravada no meu espirito
saudosissimo. Uma bata branca envolvia o seu corpo flexivel e franzino,
e uma pallidez marmorea se desenhava na sua figura delicada de _madona_,
de olhos azues e de longas tranças louras. Dir-se-hia uma irmã do
doente, pelo soffrimento e pela dôr que a caracterisavam.
Benoit Malon não podia fallar. Escrevia n'uma lousa que tinha sempre ao
seu lado, e que elle mesmo limpava, de quando em quando, com uma pequena
esponja.
Fez-me muitas perguntas. Felicitou-me pela publicação do meu livro--_La
Fédération Ibérique_, que havia dado a Geisler, para que a elle se
referisse na _Revue Socialiste_.--Porque não publica V., em volume, as
suas impressões, sobre o congresso operario de Zurich?--disse-me por
fim.
Prometti-lhe solemnemente que o faria.
Venho hoje cumprir a minha promessa; e, á tua memoria sacratissima,
consagro o fructo do meu labor, ó morto querido!