CAPITULO LXX

_De como o Regente determinou pÙr cÍrco ao Crato e ·s outras fortalezas

do Priol, e a que pessoas os cÍrcos foram encommendados_

O Infante D. Pedro por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram

tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado

como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e

bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de

fÛra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino contrairos a seu

Regimento, para que soube certo que em uma parte e na outra se faziam

trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se seguiria a dar-se

logar a isso, e n„o se atalhar, determinou com accÙrdo dos Infantes, com

quanto era entrada de inverno, de logo se poer cÍrco ao Crato e ·s

outras fortalezas do Priol, e cobra-las por forÁa ou partido, como mais

fÙsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino, que a isso n„o

foi negligente.

E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo d'Almeida,

que depois foi por El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que

tomasse e segurasse os celleiros das terras ch„s do Priol. E assi se

encommendou o cerco da Amieira ao capit„o Alvaro Vaz d'Almada, conde

d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que cumpriam. E

foi accordado que o Regente e o Infante D. Jo„o, e condes d'Ourem e

d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente outrosi em nome

d'El-Rei fazer e pÙr editos publicos, com pena de morte e perdimento de

bens, a todos aquelles que estivessem no Crato e nas fortalezas do

Priol, se dentro de dez dias n„o se sahissem, salvo as vinte pessoas ·

Rainha ordenadas, e assi com promessa de perd„o de todos os casos aos

que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que

expressamente o tal perd„o n„o se estendia, em que entrava o Priol e

seus filhos.

Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que por

seus engenhos, forÁas e combates poz o castello e gente d'elle em tanta

necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se chamava Jo„o

Lopez de Nobrega, bom homem e esforÁado cavalleiro, depois de fazer

muita resistencia, com grande dano dos cercadores, concertar-se e

entregar o castello com seguranÁa sua e dos cercados, tomando primeiro

certos dias de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol,

e por lh'o n„o poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII

dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.

O capit„o Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse, era

encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pÈ,

que era muita e mui bem concertada, e assim com as artilherias e

provisıes que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e

singular ordenanÁa, fazendo-o assi como homem que o vira e passara em

outros reinos j· muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por

dar a entender n'este pequeno cerco o que faria em outros maiores se

lh'os encomendassem.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 93 / 103 题