_De como o Regente determinou pÙr cÍrco ao Crato e ·s outras fortalezas
do Priol, e a que pessoas os cÍrcos foram encommendados_
O Infante D. Pedro por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram
tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado
como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e
bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de
fÛra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino contrairos a seu
Regimento, para que soube certo que em uma parte e na outra se faziam
trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se seguiria a dar-se
logar a isso, e n„o se atalhar, determinou com accÙrdo dos Infantes, com
quanto era entrada de inverno, de logo se poer cÍrco ao Crato e ·s
outras fortalezas do Priol, e cobra-las por forÁa ou partido, como mais
fÙsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino, que a isso n„o
foi negligente.
E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo d'Almeida,
que depois foi por El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que
tomasse e segurasse os celleiros das terras ch„s do Priol. E assi se
encommendou o cerco da Amieira ao capit„o Alvaro Vaz d'Almada, conde
d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que cumpriam. E
foi accordado que o Regente e o Infante D. Jo„o, e condes d'Ourem e
d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente outrosi em nome
d'El-Rei fazer e pÙr editos publicos, com pena de morte e perdimento de
bens, a todos aquelles que estivessem no Crato e nas fortalezas do
Priol, se dentro de dez dias n„o se sahissem, salvo as vinte pessoas ·
Rainha ordenadas, e assi com promessa de perd„o de todos os casos aos
que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que
expressamente o tal perd„o n„o se estendia, em que entrava o Priol e
seus filhos.
Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que por
seus engenhos, forÁas e combates poz o castello e gente d'elle em tanta
necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se chamava Jo„o
Lopez de Nobrega, bom homem e esforÁado cavalleiro, depois de fazer
muita resistencia, com grande dano dos cercadores, concertar-se e
entregar o castello com seguranÁa sua e dos cercados, tomando primeiro
certos dias de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol,
e por lh'o n„o poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII
dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.
O capit„o Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse, era
encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pÈ,
que era muita e mui bem concertada, e assim com as artilherias e
provisıes que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e
singular ordenanÁa, fazendo-o assi como homem que o vira e passara em
outros reinos j· muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por
dar a entender n'este pequeno cerco o que faria em outros maiores se
lh'os encomendassem.