_Como falleciam os mantimentos · Rainha e ao Priol do Crato_
E o Priol do Crato n„o se proveu de tantos mantimentos como lhe eram
para tal caso necessarios, enganado nas esperanÁas do conde de
Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram tanto que a
Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes e
provimentos em abastanÁa, seriam logo com ella, ao que nenhum d'elles
quiz nem pÙde satisfazer, como quer que para isso fossem da Rainha e do
Priol mui afincadamente requeridos, e por este caso os mantimentos
recolhidos lhes comeÁaram de fallecer, especialmente carnes e pescados,
e para os haver, pela estreita guarda e defesa que para isso havia n„o
tinha j· esperanÁa nem remedio. Pelo qual conveiu · Rainha com palavras
assaz piedozas pedir ao Infante D. Jo„o, que estava em Extremoz, que
alevantasse a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor.
Mas o Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita
graveza e temperanÁa seu movimento. Em especial de poer sua honra, seu
estado, e sua honestidade em poder do Priol e de seus filhos, que n„o
tinham no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para
escusar semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar,
do que ella n„o curou.