_Como o Priol do Crato consentiu em receber a Rainha em suas fortalezas_
Esta resposta do Priol a que a Rainha com raz„o dava grande credito,
suspendeu e amansou muito seu alvoroÁo; e porÈm de todo avisou logo ao
conde de Barcellos, o qual por meio d'Aires GonÁalves seu secretario,
acabou com o Priol que pospostos seus pejos todavia recebesse a Rainha.
Desfazendo-lhe os inconvenientes que apontara, com promessas e
esperanÁas, e seguranÁas falsas com que lhe cegaram o verdadeiro juizo,
para o que ajudaram muito dois filhos do Priol, homens mancebos, que
sostinham a parte e tenÁ„o do conde, que lhes mostrava abrirem-se
caminhos de suas honras, e grandes acrecentamentos. O Priol do Crato
assi como determinou de receber a Rainha em suas terras, assi ordenou
logo d'abastecer, o mais encobertamente que pÙde suas fortalezas, e a
Rainha mandou a todoslos seus, e assi a outros d'El-Rei em que tinha
confianÁa, que se percebessem de cavallos e d'outras cousas necessarias
para caminho, e a verdade d'este fundamento era para esta sua partida;
como quer que ella fingidamente dava a entender que os percebia para a
acompanharem atÈ o mosteiro da Batalha, onde queria fazer o saimento a
El-Rei seu marido, para que dessimuladamente mandou l· fazer algum
percebimento.
D'estas mudanÁas foi o Regente algum tanto sabedor; mas confiando na
concordia que entre elles era feita, e por n„o mostrar que com achaques
a rompia, n„o quiz sobre uma cousa nem outra fazer novas alteraÁıes; e
porÈm elle n„o era em certo sabedor que a Rainha se queria partir para o
Crato.