_Como o conde de Barcellos desdisse muito · Rainha esta concordia com o
Infante, em caso que n„o fosse verdadeira_
Foi o conde de Barcellos d'esta concordia por via geral certificado, mas
n„o se alvoroÁou nada; porque da secreta dessimulaÁ„o com que se fizera,
foi logo pela Rainha avisado: porÈm elle temendo-se da prudencia e saber
do Infante D. Pedro, e n„o segurando n'isso da constancia da Rainha,
accordou com os fidalgos da sua parte de lhe notificarem o erro e
desfavor que para seus feitos em tal concordia fizera, em caso que fosse
fingida, de que se seguira os que desejavam seu serviÁo, vendo-a em
poder do Regente, n„o ousarem de a servir, e que para isso, porque mais
em breve se executasse o que desejava, ella mui secretamente se devia
vir ao Crato, onde tinha mui certo o Priol com suas fortalezas a seu
serviÁo. E que d'alli poderia seguramente passar o Tejo e entrar na
Beira, onde o Marechal por ser comarc„o, com outros fidalgos e gentes se
iriam para ella, e que o conde com todolos outros fidalgos outrosi lhe
acudiriam e a recolheriam em suas terras, que logo comeÁaria de reger, e
que da execuÁ„o e obra d'esta empresa os Infantes seus irm„os, e assi
todolos outros seus servidores tomariam mais esforÁo e desejo de a
proseguir.
Este recado foi assi secretamente trazido · Rainha, que o Regente n„o
houve d'elle algum sentimento, e ella com os de seu conselho a quem o
mostrou e louvou, e houve por bom, o fez logo saber ao Priol do Crato. O
qual como era homem de muitos dias e grande experiencia e siso, houve o
feito por sem fundamento e muito duvidoso. E assi lhe respondeu em
muitas e boas palavras, e em fim que se de todo em todo sua vontade
quizesse forÁar as armadas de t„o vivas razıes, como lhe mandou para o
ella n„o cometer, que elle estava prestes de a receber onde ella
quizesse, e para isso lhe offerecia a perdiÁ„o de sua vida, honra, e
fazenda, que elle n„o podia escusar.