_De como se entendeu na redempÁ„o do Infante D. Fernando, e do que se
seguiu_
E porque n„o pareÁa que a redempÁ„o e soltura do Infante D. Fernando,
depois da morte d'El-Rei seu irm„o se esqueceu, È de saber, que com
todalas mudanÁas e divisıes passadas entre a Rainha e o Infante D.
Pedro, sempre d'elles foi muito lembrada e negociada, cuja deliberaÁ„o
foi muitas vezes aos mouros cometida por grande somma de dinheiro ou de
captivos, e por outras maneiras. Nas quaes elles n„o quizeram nunca
entender, e se mostravam que entendiam, logo se mudavam em outras
sentenÁas, afirmando-se finalmente que lhes dessem Ceuta segundo fÛrma
do contrato que o Infante D. Anrique e os outros capit„es do palanque de
Tangere com elles fizeram. Pelo qual a Rainha e o Infante D. Pedro ante
de seus desvairos, por se satisfazer ao Infante D. Fernando e cumprir a
vontade d'ElRei D. Duarte, que em seu testamento o leixara muito
encommendado, determinaram com os do conselho, e houveram por bem, que
pospostas amoestaÁıes do Papa e conselhos de muitos Principes christ„os
que o contrariavam, que Ceuta todavia se desse por elle, e sobre isso
passaram em nome d'El-Rei as cartas e procuraÁıes necessarias,
assignadas por ambos, com as quaes foram por embaixadores Martim de
Tavora, reposteiro mÛr d'El-Rei, e o licenceado Gomes Eanes,
desembargador na casa do civel.
E em chegando a Arzilla acertou-se que morreu «alabenÁala, que fÙra
senhor de Ceuta ao tempo que se tomou, e a este tempo era alcaide de
Tangere e Arzilla, com o qual os ditos embaixadores haviam de tratar.
Depois de sua morte ficou seu irm„o Muley Buquer portector do filho
maior do dito «alabenÁala, o qual seu filho tambem por dependencia do
mesmo caso do cerco de Tangere era captivo, e fÙra dado por arrefens em
Portugal.
E querendo os embaixadores entender com elle no negocio, certificando-o
da abastanÁa do poder d'El-Rei que para o caso levavam, elle se escusou
dizendo:
´Christ„os, sabei que Ceuta È tamanha cousa, que em quanto D. Fernando
conde de Villa Real, capit„o d'ella fÙr terceiro para a entregar, nunca
crerei que vÛs trazeis desejo d'alguma certo conclus„o, c· por elle n„o
perder tal senhorio com tanta honra como agora em Ceuta tem, bem sei que
mostrando que n„o desobedece a vosso Rei e seus governadores, sempre
buscar· corados achaques e cautellas para a nunca entregarª.
E depois de os embaixadores lhe desfazerem com razıes sua opini„o e
haverem entre si sobre o caso muitas altercaÁıes, finalmente se
concordaram ´que Muley Buquer notificasse a vinda dos embaixadores a
Muley Buzaceri, Rei de Fez, em cujo poder o Infante estava, e que se
n'este feito desejava boa conclus„o, que tornasse o Infante a Arzilla, e
como alli fosse, se o conde D. Fernando logo por elle n„o entregasse
Ceuta como era concordado, que ent„o se teriam outros meios com que sem
escusa se fizesseª. D'esta conclus„o foi o mouro contente; sÛmente disse
´que emquanto elle n'isto entendia, elles se viessem a este reino e com
El-Rei procurassem que da sua tornada em Africa viesse logo com elles
outra pessoa, e com taes provisıes a que Ceuta logo se entregasse e
tirasse do poder o condeª.
Com este apontamento se tornaram os embaixadores, e por acharem a Rainha
e o Infante D. Pedro no meio dos mÛres desvairos sobre o Regimento,
sobre-esteve o negocio atÈ sem contenda se dar inteiramente ao Infante
como j· disse, o qual ouviu logo os ditos embaixadores em conselho, onde
foi determinado por algumas causas em que se fundaram, mais de piedade
do dito Infante que de honra do reino, que Ceuta sem mais debate se
desse por elle.
E por quanto a duvida de Muley Buquer, quando lhe pareceu que o conde D.
Fernando, por n„o perder tal governanÁa retardaria a entrega de Ceuta se
houve por razoada, acordaram que a D. Fernando de Castro, Governador da
casa do Infante D. Anrique, e a D. Alvaro seu filho, a ambos e a cada um
fosse entregue a cidade, e n'ella estivessem para a darem, e receberem
por ella o dito Infante, e que a este reino se viesse o conde D.
Fernando, a quem se daria por a capitania e governanÁa d'ella sua dina
satisfaÁ„o, e que Martim de Tavora e o licenceado estivessem por
negoceadores em Arzilla.
D. Fernando de Castro era homem de nobre sangue, prudente, e de grande
conselho, e tinha boa fazenda; e porque houve este encargo por de muita
honra para si e sua linhagem, ordenou sua ida para o mar e para a terra,
o mais perfeita e honradamente que pÙde. Especialmente o moveu a isso
com maior cuidado e diligencia levar esperanÁa que o Infante D. Fernando
havia de casar com uma de suas filhas, de que estando em Fez lhe enviara
sua certid„o, consirando que seu conselho e auctoridade lhe podia por
isso em sua deliberaÁ„o muito aproveitar, e D. Fernando para o mais
obrigar havendo sua soltura por certa, lhe levava feitos · sua custa
todolos corregimentos que para a pessÙa, cama e mesa de um tal Princepe
eram pertencentes. E assi levava navios sobresalentes para o Infante e o
conde, e os moradores de Ceuta n'elles se virem, alÈm d'outros em que
para sua seguranÁa levava mil e duzentos homens, entre os quaes iam
muitos fidalgos e gentis homens da casa d'El-Rei e dos Infantes, e com
tudo prestes, partiu D. Fernando de Lisboa no mez d'Abril de mil e
quatrocentos e quarenta e um, com vento de boa viagem. E indo os navios
de sua companhia espalhados pelo mar: alÈm do Cabo de S„o Vicente,
acertou-se que uma carraca de Genoa, que andava d'armada, veiu demandar
e afferrar o navio em que o dito D. Fernando ia, o qual como quer que
logo por razıes d'amizade e depois com armas e grande esforÁo quanto foi
possivel se defendesse, finalmente o navio com a mais forÁa da carraca
foi entrado e roubado, e D. Fernando acabou n'elle sua vida de uma
bombarda, e os genoeses achando-se com tal rica presa, receiosos da
emmenda, porque a outra frota j· vinha sobr'elles, meteram suas vellas e
tomaram o mar por sua salvaÁ„o. E quando os outros navios da conserva
acudiram sobre o navio do capit„o e o acharam morto, vendo que a
vinganÁa de sua morte j· n„o estava em seu poder, tornaram-se a Tavila,
onde em S„o Francisco enterraram seu corpo, com assaz honra e lagrimas.
D. Alvaro seu filho a que a capitania e negocio do Infante ficava
encommendada, sem alguma mais detenÁa se foi d'hi a Ceuta, d'onde
escreveu ao Regente o triste caso passado, pedindo-lhe ordenanÁa e
provis„o para o futuro. E posto que ent„o fosse mancebo, por haver
n'elle muita discriÁ„o, foi-lhe respondido com abastante commiss„o para
o acabar como D. Fernando seu pae: mas Lazaraque-Martin governador
d'El-Rei de Fez, n„o sÛmente n„o deu logar que o Infante fosse tirado de
Fez para Arzilla, ou para algum outro poder, como por Muley Buquer lhe
fÙra j· requerido, mas ainda quando depois soube que a vontade d'El-Rei
e do Regente era que todavia Ceuta se desse, e que o conde D. Fernando
se fosse, para que D. Alvaro de Castro com poderes abastantes era vindo,
disse ´que era contente se lh'a entregassem primeiro, e que para
seguranÁa dos christ„os, elle por Mafamede e por sua Lei faria
juramento, em que como d'ella fosse apoderado, logo entregaria o Infante
D. Fernando, e que esta era seguranÁa assi abastante e segura para os
christ„os, que com ella n„o deviam ter d'elle receio nem sospeita
algumaª!
Mas porque sua fianÁa por suas maldades, pouca verdade e tirania, se
houve por duvidosa, n„o foi raz„o acceitar-se seu meio. E como quer que
outros muitos seguros meios e mui razoados lhe fossem apontados, nunca
em algum d'elles quiz condescender. E o que de sua contrariedade e
contumacia se pÙde n'este caso verdadeiramente entender, foi que
claramente lhe pesava entregar-se Ceuta aos mouros, e nos modos que
sempre teve para se n„o acabar pareceu mui claro que a causa d'isto era,
porque com a necessidade da guerra de Ceuta ocupava assi os sentidos do
povo infiel, que lhe n„o dava lugar acabarem de poder entender e
remediar os grandes males de sua tirania. Da qual cousa sendo o Regente
certificado, havendo a negociaÁ„o por escusada, mandou a D. Alvaro e aos
embaixadores que se viessem ao reino, como vieram, com fundamento de se
consultar algum outro remedio para a deliberaÁ„o do Infante. A qual como
quer que o Infante D. Pedro, segundo suas mostranÁas e continuas
diligencias, pareceu que sobre todalas cousas desejava, nunca porÈm
sobre ella se apontou e requereu meio por evidente que fosse, que
podesse vir a effeito.